Título: Cara de Espelho; Personagens: Pedro da Silva Martins (autor e compositor dos Deolinda, mas também para António Zambujo), Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa, José Afonso, Fausto, GAC), Nuno Prata (baixista dos Ornatos Violeta), Luís J. Martins (Deolinda, António Zambujo, Cristina Branco), Sérgio Nascimento (das bandas de Sérgio Godinho e David Fonseca, antes dos
Peste & Sida, um dos membros dos Humanos) e Mitó (voz de A Naifa e Señoritas); Sinopse (feita, de um fôlego, por Carlos Guerreiro): "Um dia, ia a passar à porta dos correios da Av de Roma e encontrei o Sérgio Nascimento que já não via há algum tempo. Estivemos a falar e tal, e adeus. À noite, telefona-me e desafia-me para fazermos alguma coisa em conjunto. Uma daquelas conversas que se tem muitas vezes e depois não dão em nada. Não sei se foi ele que sugeriu que falássemos com o Pedro Martins (o Pedro é, como o Zeca Afonso chamava ao Vitorino, "uma vaca parideira"). A partir daí, a coisa fugiu-nos do controlo e ganhou vida pópria". Neste ponto, é indispensável esclarecer que, em causa, está um álbum - Cara de Espelho, também o nome adoptado pelo sexteto - capaz de, logo no primeiro mês do ano, actuar como poderosa transfusão de sangue destinada a fortalecer a assaz anémica música portuguesa dos últimos tempos. (daqui; segue para aqui)
Os dois primeiros versos de “A Portuguesa” estão praticamente esgotados enquanto matéria para reciclagem: depois dos Heróis do Mar (banda) e, agora, deste Nação Valente, de Sérgio Godinho, resta só o “nobre povo” – misturar povo e nobreza é capaz de não ser a melhor ideia – e o muito duvidoso “imortal”. Seja como for, o Godinho que, em Tinta Permanente (1993), cantava “Os hinos são frutos perversos crescendo no ramo dos versos, roubando o vento e a luz à folha, os hinos cegam quem os olha”, na canção-título, não resistiu a apropriar-se da gabarolice lusitana que, inevitavelmente (qual a nação que não se acha valente?), se reflecte no texto de Henrique Lopes de Mendonça, para, ainda que com um travo irónico de alívio pós-troika (“Não quero por-te numa gaiola, de mão estendida por esmola, não quero ter-te acorrentada, sofrendo por tudo e por nada”) e um balanço muito pouco marcial, apelar: “Há-de haver outra solução para esta tão valente nação, há que ir em frente, nação valente”.
Não é a única coisa de que Sérgio se apropria no álbum que, com sete anos de intervalo, é o sucessor de Mútuo Consentimento. Na verdade, num total de dez canções, apodera-se das melodias de seis autores desafiados a compor para ele – David Fonseca, Helder Gonçalves (duas), José Mário Branco, Nuno Rafael, Filipe Raposo e Pedro da Silva Martins –, inventa-lhes outros tantos textos, e, muito pouco cerimoniosamente, chama-lhes completamente suas. O método, embora em registos e modalidades diferentes, não é novo: em Coincidências (1983) colaborara com Milton Nascimento, Ivan Lins, João Bosco, Novelli e Chico Buarque; Domingo no Mundo (1997) contara com as participações e arranjos de Kalu (Xutos & Pontapés), Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa), Manuel Faria, Tito Paris, José Mário Branco, Tomás Pimentel, Rádio Macau, Jorge Constante Pereira e Joáo Aguardela; O Irmão do Meio (2003) convocara Teresa Salgueiro, Clã, Tito Paris, Caetano Veloso, Jorge Palma, Da Weasel, Gabriel o Pensador, Xutos & Pontapés, Rui Veloso, Vitorino, Zeca Baleiro, David Fonseca, Carlos do Carmo, Camané, Milton Nacimento, Gaiteiros de Lisboa e José Mário Branco; e, em 2012, entregou a revisão do álbum de estreia, Os Sobreviventes, a B Fachada, Francisca Cortesão (Minta & The Brook Trout) e João Correia (Julie & The Carjackers).
Será apenas mais outro “exercício de solidão partilhada”. Mas, excluindo eventualmente O Irmão do Meio, talvez essa partilha nunca tenha sido tão quimicamente intensa, ao ponto de se tornar quase impossível identificar os autores por trás das melodias. Um caso exemplar e uma excepção: "Delicado", de Márcia (a única em que letra e melodia não são assinadas por Sérgio), é, provavelmente, a mais godinhiana das dez; se, nas restantes, Sérgio Godinho, literalmente, canibaliza os seus convidados, em "Mariana Pais, 21 Anos" – mais que perfeito arranjo de cordas, tudo menos óbvio - , é José Mário Branco quem se apossa do corpo, espírito e voz de Godinho, para só o libertar após a cadência final. E não deixa de ser um pequeno prazer adicional escutar Sérgio em modo pop-folqueiro na (exclusivamente sua) "Baralho de Cartas", piscando o olho aos Rolling Stones em "Até Já, Até Já", ou cruzarmo-nos com o "Velho Samurai" reinventando "When I’m Sixty Four", dos Beatles, em "Tipo Contrafacção".
28 March 2010
O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (XLII)
David Fonseca
"Há muitos sítios a que, curiosamente, nunca fui, o que é estranhíssimo" ("Fugas"/"Público" de 27.03.10)
(2010)
23 July 2009
HOMICÍDIO POR TÉDIO AGRAVADO
Gomo - Nosy
Nada contra a pop descartável. Capítulos inteiros (e não dos menos ilustres) da história da música popular se escreveram (e deixaram descendência) à custa de "one-hit wonders", melodias-agrafo de meia dúzia de compassos e profundidades literárias do género “awopbopaloobopalopbamboom”. Nem todos os dias e a todas as horas estamos no mood apropriado para cortar as veias enquanto escutamos Leonard Cohen ou para nos entregarmos à decifração dos mil-folhas sonoros dos Animal Collective. Mas convém que a pop-chiclete, acima de tudo, fuja do pecado capital de, à segunda faixa de um álbum, se tornar monótona, repetitiva e aborrecida. Gomo (aliás, Paulo Gouveia), aprecia dizer coisas absurdas como “para mim não faz sentido nenhum cantar em português, apesar de agora estar novamente na moda” e, enquanto versão frívola e saltitante de um David Fonseca-dos-pobres, incorre, de forma contumaz, no ilícito de homicídio voluntário por tédio agravado. Embora pareça que a intenção fosse exactamente a oposta.
(2009)
04 November 2007
NO MUNDO REAL
Chuchurumel - Posta Restante
David Fonseca - Dreams In Colour
Clã - Cintura
Jorge Palma - Voo Nocturno
Um antigo refrão da história de quase todas as coisas nacionais ensinou-nos que, de um modo geral, tudo tende a chegar a Portugal com atraso, atenuando, assim, o potencial positivo do que é bom e agravando o negativo do que é mau. Actualmente, porém, temos de reconhecer que, por efeito da mundialização instantânea da informação, o mal já nos chega na hora, embora o bem – em consequência da inércia entretanto instalada – ainda vá levando o seu tempito. Trocando por miúdos, para o que agora interessa: se o início do estertor final da indústria discográfica global, tal como nos habituámos a conhecê-la, não provocou imediatos abalos sísmicos entre nós, agora que nos aproximamos do apocalíptico desfecho, o nosso pequeno e paroquial céu está a segundos de nos cair sobre a cabeça. E, por muito pequeno que seja, vai doer.
Paradoxalmente, bastante mais do que outros bem maiores. Porque, se uma das soluções para compensar a gigantesca fatia do mercado discográfico (brevemente, a totalidade) que o “download” livre de ficheiros na Internet diariamente devora se poderá encontrar no reforço, alargamento (e encarecimento) do circuito de concertos, num espaço geográfico limitado como o português, onde uma tournée “nacional” com condições e rentabilidade mínimas se esgota numa mão-cheia de datas, o futuro não augura, realmente, nada de bom. Acrescente-se ao cenário a velha e familiar “crise” que, atavicamente, faz questão de nos fazer companhia e não haverá baldes de tinta negra que cheguem para o pintar. Continuam a existir discos “de ouro” e “platina” (a “prata”, por razões de decoro, foi discreta e caridosamente eutanasiada) cunhados naquela liga metálica pouco nobre que Christopher Pinchbeck inventou, mas nem a melhor cosmética do desastre o poderá dissimilar por muito tempo. Sobra a hipótese da internacionalização que, até agora, tem estado quase exclusivamente reservada ao fado (e expressões afins, mais ou menos “étnicas”) e a algumas margens “experimentais”/”de vanguarda”. E, mesmo aí, não a todos, frequentemente, não àqueles que verdadeiramente o mereceriam e, em todos os casos, numa dimensão a muitos anos-luz de distância de um estatuto razoavelmente equiparável ao de – para dar apenas um exemplo oriundo da “liga dos pequenos e médios países” do universo musical – Björk.
Não carregando demasiado no tom aterrador de profecia bíblica, estes poderão ser alguns dos últimos discos de música portuguesa publicados segundo as regras da velha ordem editorial – tanto os que ainda se abrigam sob a sombra de “majors” em acelerado processo de retirada estratégica como os que recorrem a estruturas “independentes”. O que, especialmente em versão lusa, poderá ser a nova ordem, é tudo menos claro. Mas, enquanto não se clarifica, parece-me sensato que, caso o tenham, os músicos portugueses não larguem o seu “day job”. Posta Restante, dos Chuchurumel, por exemplo: mesmo tendo em conta que Sexto Sentido, da Sétima Legião, ou toda a discografia dos Gaiteiros de Lisboa e de Amélia Muge estabeleceram um elevado termo de comparação relativamente aos modos contemporaneos de lidar com a tradição musical popular, é um magnífico álbum onde os materiais sonoros – encarados quase como “found sounds” montados de modo sabiamente eisensteiniano ou reformulados e transfigurados tecnológicamente e no sentido de uma reavaliação propriamente musical – transportam instantaneamente para o presente as marcas de uma memória que, escutada assim, nunca nos ocorreria qualificar como “arqueológica”. Todas estas “cartas” (sob a forma de mazurkas, xotiças, romances ou cantigas de cego pedinte em registo mutante) exigem ser escutadas por ouvidos de hoje mas, como garantir-lhes a sobrevivência para além da micro-cena “folk” nacional?
Muito mais dificilmente isso acontecerá com Dreams In Colour, de David Fonseca: internamente, decerto deixará a perder de vista nas listas de vendas o disco dos Chuchurumel – e 20 mil magras cópias já inscrevem uma platina jeitosa no currículo – mas não será pelo facto de se exprimir em inglês (variante “Officer Crabtree”, de Alô, Alô, é verdade) que esta pop cada vez mais ligeira, orelhuda e próxima de uma rítmica e instrumentação de pedagogia-Orff infantil poderá dar um passo para lá de Elvas. Assobio-Primavera-Verão (que foste tu fazer, Andrew Bird?), pose “indie”-mas-sem-complexos e tudo, trata-se apenas de “produto local” e, como tal, sujeito à nova lei implacável que, actualmente, impede que um êxito como o dos Silence 4 se volte mais alguma vez a repetir.
Cintura, dos Clã – que deverão passar a ser considerados como a mais legítima descendência de Sérgio Godinho (com quem, não por acidente, já, em várias oportunidades, cruzaram caminhos) no pequeno mundo da pop lusófona – coloca a música do grupo num patamar menos tenso que o óptimo Rosa Carne (2004), areja-a e, sem abrir mão da complexidade da arquitectura anterior, teria tudo para poder, finalmente, projectar a banda de Manuela Azevedo para uma visibilidade que a sua excelente meia dúzia de álbuns já absolutamente justifica. Desde que, naturalmente, o seu núcleo de fãs assinasse uma espécie de juramento de sangue segundo o qual, nunca por nunca, cometeria o pecado de o adquirir por outros meios que não os legalmente previstos…
... justamente o mesmo tipo de pacto que Jorge Palma poderia propor aos seus (mas ele tem o terrível problema de ser transgeracional…) para que Voo Nocturno – provavelmente, a sua colecção de canções onde, de forma mais exacta e consistente, faz coincidir o sentido de textos e melodia, embora um ou outro excesso “rockista” se dispensasse – não tivesse demasiados problemas de tráfego aéreo. O que, no mundo real, não parece estar a ser tarefa simples. (2007)