(palhacitos eleitorais XII)
Showing posts with label David Cronenberg. Show all posts
Showing posts with label David Cronenberg. Show all posts
27 September 2015
13 August 2015
A PRECÁRIA ORDEM DO MUNDO
(sequência daqui)
Momus, divindade da mitologia grega que personifica o escárnio, filho de Nyx – a noite – e irmão gémeo de Oizus, deusa da angústia e do desespero, apeteceu-lhe difamar Terpsicore, a musa da dança, e chamou-lhe Turpsycore, brincando, perversamente, com “turpitude”/depravação. Exactamente o género de divertimento a que Nicholas Currie ("nom de plume", Momus) poderia entregar-se no momento de dar nome a um álbum. Na verdade, fê-lo mesmo. E não poupou na ambição: três CD – Turpsy, Dybbuk (na tradição judaica, uma alma penada que vagueia em demanda de um corpo vivo de que se apossará, tal como ilustrado pelos Coen no prólogo de A Serious Man) e Harvard –, o primeiro, incluindo temas originais, o segundo, com versões de canções de David Bowie, e o terceiro, dedicado a releituras de Howard Devoto, o génio mui insuficientemente recordado dos Buzzcocks e, sobretudo, Magazine.
Nada de más interpretações apressadas, porém: do tipo que, em 2012, muito reynoldsianamente declarava “Estou convencido que o grande problema da pop é ter-se deixado paralisar pelo respeito para com o passado. Estamos esmagados pelo peso dos arquivos e isso torna difícil a criação de formas genuinamente novas” nunca iríamos esperar uma manobra de ressuscitação nostálgica. E não é, de facto, disso que se trata: tanto nos dezassete temas de Turpsy (e respectivos e indispensáveis videoclips, disponíveis no Youtube) como nos outros dois, o que se descobre, de espanto em assombro, é um desfile de instantâneos de um cabaret encenado por Kafka (em “O Castelo”, uma das personagens dá pelo nome de Momus), Cronenberg e Roy Andersson sobre uma falha na ordem precária do mundo, uma demonstração prática do confessado programa de “agressão contra a normalidade” exposta em ameaçadoras "limericks" (“rancid jism in a furnished room, boking in a bucket of tar, the living or the dead, sick or on the nod, don’t really care who they are”), polcas sibilantemente obscenas, recitações morbidamente ballardianas, blues electronicamente desfigurados e uma sucessão de vénias subliminares a Cage, Lou Reed, Burroughs, Paul McCarthy, ou Jobriath, de tal modo embutidas nas vísceras das canções que, quando se chega a Dybbuk e Harvard, não é já mais possível distinguir o que pertence a quem, onde começa Currie e acabam Bowie e Devoto.
Labels:
Bowie,
Buzzcocks,
cinema,
David Cronenberg,
Howard Devoto,
J.G. Ballard,
Joel and Ethan Coen,
John Cage,
Kafka,
livros,
Lou Reed,
Magazine,
Momus,
Roy Andersson,
Simon Reynolds,
videoclips,
William Burroughs
21 January 2015
O ASSOMBRO E O PÂNICO
“Vivemos numa era pós-moderna em que é extraordinariamente difícil inventar coisas fundamentalmente novas. Tudo explodiu lá atrás – John Cage destruiu um piano e Jimi Hendrix lançou fogo à guitarra muito antes de a Annie ter nascido. Há sempre alguém capaz de tocar mais rápido, mais forte, com mais distorção. Só nos resta mergulhar em nós mesmos, descobrir quem somos, apenas nisso será possível acreditar”, dizia, há cerca de um ano, à “Pitchfork”, Tucker Andress, virtuoso e quase anónimo guitarrista, acerca da sobrinha, Annie Clark/St. Vincent. Há-de ter sido por via equivalente, embora completamente distinta, que caminharam os outros dois nomes que começam a desocultar os contornos do mundo audiovisual (e do imenso outro) ainda por nascer: Arca/Alejandro Ghersi e Jesse Kanda. Não é, de modo algum, um acaso que o magnífico LP1 (e anteriores EP) de FKA twigs tenham fortíssima marca de ambos e que, Björk, essa outra impenitente "shapeshifter", haja recrutado Ghersi na qualidade de co-produtor do próximo opus (enquanto Kanda sonha em voz alta com a hipótese de se ocupar dos vídeos).
É, na verdade, de um vertiginoso mergulho interior que se trata nos sons e nas imagens de "Thievery" (algo como a insolente coreografia de uma robótica strip dancer, andrógina e esteatopígica, descendente bastarda da Vénus de Willendorf e do "Rubber Johnny" de Chris Cunningham e Aphex Twin), "Now You Know" ("city ghosts" projectados sobre uma aurora boreal nos céus de Saturno), no abstraccionismo entomológico de "Held Apart" – todos de Xen, alter-ego compulsivo e título do álbum de estreia de Arca –, nos desfigurados e infernais bebés e no pesadelo oro-faríngeo de “Trauma 1 & 2”, ou na liquefacção da anatomia humana de "Fluid Silhouettes", gémea de "Water Me" e "How’s That", de twigs. Espécie de colisão suave entre antiquíssimo romantismo radicalmente digital e projecto científico orientado para a identificação dos processos pelos quais, do infinitamente grande ao invisível plano sub atómico, o assombro e o pânico se instalam, há nesta enorme estranheza de um Eraserhead que tivesse sido filmado por Kubrick segundos depois de ter devorado Cronenberg, muito mais do que os 2263 caracteres deste texto seriam capazes de começar sequer a descrever.
05 February 2014
William Burroughs (5.02.14 – 2.08.97)
William Burroughs and Jack Kerouac in New York, 1953
Burroughs sitting at a table with typewriter, 1959
Burroughs in the Beat Hotel, Paris, 1959
Allen Ginsberg, Gregory Corso, and William Burroughs, in Boulder, Colorado, 1994
Burroughs' apartment in a converted YMCA building, which he called The Bunker, on the Lower East Side of Manhattan, 1977
Burroughs and Joe Strummer of The Clash in The Bunker, 1980
Burroughs in 1965
Burroughs on the set of The Naked Lunch, directed by David Cronenberg
(mais aqui)
03 May 2010
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO (XVI)
(join the dots)
Mão Morta - Pesadelo Em Peluche
Mão Morta - Mão Morta (1988-1992)
Segundo o dicionário “Collins”, “Ballardian” é um adjectivo aplicável às circunstâncias descritas nos livros de J. G. Ballard, em especial, a modernidade distópica e os efeitos psicológicos do desenvolvimento tecnológico. A ele, porém, muito mais do que um adjectivo, devemos uma obra literária situada entre a escrita experimental, a antecipação do cyberpunk e a autobiografia, num registo que Martin Amis descreveu como o “que se dirige a uma zona diferente – e pouco utilizada – do cérebro do leitor”. Atrocity Exhibition (1970) foi um momento de viragem: constituído por um conjunto de “condensed novels” (com prefácio de William Burroughs) ordenadas arbitrariamente, era como que um viveiro de muito do que viria a seguir, do esboço de Crash – livro e filme – aos espectros de Marilyn e dos Kennedy (à deriva pelo labirinto mental/espelho distorcido dos media do protagonista) ou ao quase ensaio clínico “Why I Want To Fuck Ronald Reagan” (que, em 1980, seria distribuído por activistas situacionistas na Convenção Republicana de Detroit). Ignorando questões de precedência cronológica (o que, no universo ballardiano também é moeda corrente), é difícil decidir se foi Ballard que nasceu para se cruzar com os Mão Morta ou o inverso. Escutada a caixa que reúne os quatro primeiros álbuns do grupo e o exercício de contenção e diversificação estilística pop em fundo de neurose que é o novo Pesadelo Em Peluche, de uma coisa não restam dúvidas: mesmo antes de o saberem, os Mão Morta eram já ballardianos. Trabalhar à transparência sobre Atrocity Exhibition só lhes apurou os reflexos.
(2010)
28 April 2010
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO (XIII)
(join the dots)

"There is no clear beginning or end to the book [The Atrocity Exhibition], and it does not follow any of the conventional novelistic standards: the protagonist (such as he is) changes name with each chapter/story (Talbert, Traven, Travis, Talbot, etc), just as his role and his visions of the world around him seems to change constantly. (Ballard explains in the 1990 annotated edition that the character's name was inspired by reclusive novelist B. Traven, whose identity is still not certainly known)".

Chapter titles
1. The Atrocity Exhibition
2. The University of Death
3. The Assassination Weapon
4. You: Coma: Marilyn Monroe
5. Notes Towards a Mental Breakdown
6. The Great American Nude
7. The Summer Cannibals
8. Tolerances of the Human Face
9. You and Me and the Continuum
10. Plan for the Assassination of Jacqueline Kennedy
11. Love and Napalm: Export U.S.A.
12. Crash!
13. The Generations of America
14. Why I Want to Fuck Ronald Reagan
15. The Assassination of John Fitzgerald Kennedy Considered as a Downhill Motor Race (aqui)
(ilustrações de Phoebe Gloeckner para a edição de 1990)
(2010)
(join the dots)
"There is no clear beginning or end to the book [The Atrocity Exhibition], and it does not follow any of the conventional novelistic standards: the protagonist (such as he is) changes name with each chapter/story (Talbert, Traven, Travis, Talbot, etc), just as his role and his visions of the world around him seems to change constantly. (Ballard explains in the 1990 annotated edition that the character's name was inspired by reclusive novelist B. Traven, whose identity is still not certainly known)".
Chapter titles
1. The Atrocity Exhibition
2. The University of Death
3. The Assassination Weapon
4. You: Coma: Marilyn Monroe
5. Notes Towards a Mental Breakdown
6. The Great American Nude
7. The Summer Cannibals
8. Tolerances of the Human Face
9. You and Me and the Continuum
10. Plan for the Assassination of Jacqueline Kennedy
11. Love and Napalm: Export U.S.A.
12. Crash!
13. The Generations of America
14. Why I Want to Fuck Ronald Reagan
15. The Assassination of John Fitzgerald Kennedy Considered as a Downhill Motor Race (aqui)
(ilustrações de Phoebe Gloeckner para a edição de 1990)
(2010)
20 April 2009
J. G. BALLARD
15 Novembro 1930 – 19 Abril 2009

"The adjective 'Ballardian', defined as 'resembling or suggestive of the conditions described in J. G. Ballard's novels and stories, especially dystopian modernity, bleak man-made landscapes and the psychological effects of technological, social or environmental developments', has been included in the Collins English Dictionary".
... a terrível profecia aqui.
Crash - real. David Cronenberg, 1996
(2009)
15 Novembro 1930 – 19 Abril 2009
"The adjective 'Ballardian', defined as 'resembling or suggestive of the conditions described in J. G. Ballard's novels and stories, especially dystopian modernity, bleak man-made landscapes and the psychological effects of technological, social or environmental developments', has been included in the Collins English Dictionary".
... a terrível profecia aqui.
Crash - real. David Cronenberg, 1996
(2009)
Subscribe to:
Posts (Atom)