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21 February 2021

Bill Callahan & Bonnie Prince Billy (feat. Cassie Berman) - "The Wild Kindness" (David Berman)

"Continuing their covers series, Bill Callahan and Bonnie 'Prince' Billy have recruited Cassie Berman (David Berman’s former wife and bandmate) for a rendition of Silver Jews’ 'The Wild Kindness.' As Bonnie 'Prince' Billy notes, there were a ton of guest vocalists, too: Haley Fohr, David Pajo, Meg Baird, Bill MacKay, Cory Hanson, and Matt Sweeney are among the many singers" (sugerido nesta caixa de comentários)

21 August 2019

UM CAMELO NEGRO 


Como foi possível não termos realmente reparado? Por que estúpido motivo não teremos levado a sério um álbum cujos primeiros três minutos e meio ("That’s Just the Way That I Feel") não poderiam ser mais explicitamente claros? Onde o lugar para as dúvidas de que “Things have not been going well, this time I think I finally fucked myself (…) Day to day, I'm neck and neck with giving in, I’m the same old wreck I've always been” era uma mensagem lançada a um palmo do abismo? E acrescentar-lhe “I've been humbled by the void, much of my faith has been destroyed (…) when I try to drown my thoughts in gin, I find my worst ideas know how to swim” não bastaria? E o desfecho “The end of all wanting, is all I've been wanting, and that’s just the way that I feel” não nos abriria, enfim, os olhos? Talvez porque a perfeitíssima rima interna encharcada de negríssima ironia (“I met failure in Australia, I fell ill in Illinois, I nearly lost my genitalia to an anthill in Des Moines”) nos tenha distraído ou o tom de "honky tonk" atamancado tenha apontado para o lugar errado. 



Não seria nada de novo: quando, em 2003, David Berman tentou, pela primeira vez, o suicídio com um cocktail de álcool, crack e cocaína, fez questão de o encenar na mesma suite de hotel onde Al Gore esperou pela recontagem dos votos para a eleição presidencial (que perderia para George W Bush), proclamando: “Quero morrer onde a presidência morreu!”. Desta vez, não chegaria sequer a ser hospitalizado como, também acidamente, diria em "Random Rules" (“In 1984 I was hospitalized for approaching perfection”), de American Water (1998), embora Purple Mountains não se tenha apenas abeirado da perfeição. Neste álbum de “hello and goodbye” – parafraseando invertidamente um título do não menos danado Tim Buckley – o (des)equilíbrio entre a quase banalidade do suporte musical e as trevas profundas que o envolvem (“Housed within the song's design is the ghost the host has left behind to greet and sweep the guest inside”) dir-se-ia um deliberado gesto de desdém perante “a arte”, definitivamente ultrapassada pela urgência de não recusar o óbvio ("We're just drinking margaritas at the mall, that's what this stuff adds to after all") e justificar o inevitável (“The dead know what they’re doing when they leave this world behind”). A 7 de Agosto, David Berman/Silver Jew, recordou-se pela última vez do provérbio árabe que citara em "Nights That Won’t Happen": “Death is a black camel that kneels down so we can ride”. (entrevista aqui)

20 August 2019

NÃO ERA UM PEDIDO DE AJUDA? 




Ninguém está preparado para uma entrevista com David Berman. Fala-se com uma das figuras mais apaixonantes da música e da poesia norte-americanas mas, só por acidente, é esse o assunto da conversa. Desde o primeiro segundo, sentimo-nos no papel do psicoterapeuta involuntário que escuta o obsessivo e errático discurso do paciente, sem saber muito bem como reagir, se deve prosseguir ou parar logo ali. Pode começar até por uma chamada telefónica falhada porque David, no cubículo por cima dos escritórios da Drag City onde vive, estava a esculpir e não ouviu o toque. Só queríamos escutá-lo acerca da sua segunda vida como Purple Mountains, após o fim, há 11 anos, dos Silver Jews. Mas nunca poderíamos adivinhar que essa segunda vida estava a semanas de terminar, a 7 de Agosto. Pelas suas próprias mãos. 

    A primeira vez que o entrevistei foi em Abril de 2006, num café em frente ao “Scala”, em Londres, horas antes do que iria ser apenas o 14º concerto dos Silver Jews. Falou-me longamente da tremenda hostilidade que existia entre si e o seu pai e de como isso e o seu envolvimento com o judaísmo eram o combustível para grande parte da sua escrita. Dois anos depois, anunciou o fim dos Silver Jews acompanhado de um violento texto de acusação contra as actividades do seu pai como lobbyista a favor de interesses que considerava malignos. Precisou de mais de uma década para resolver tudo isso? 

Nessa altura, começava a interessar-me pelo judaismo e isso deu-me força para me opor ao meu pai. Deu-me a capacidade para distinguir entre um comportamento honrado e outro que não o era. Não conversava muito com ele e isso, de facto, alimentou um fogo em mim. É típico que o judaísmo – que continuo a respeitar como religião mas de cuja fé já não partilho – me tenha proporcionado esse ímpeto para o confrontar e afastar-me. Num mundo em que o dinheiro ou a corrupção nos conduzem a virar as costas â família ou aos valores justos, é típico que tenha sido necessária a religião para me colocar do lado certo. É terrível porque, para me identificar tecnicamente como judeu de acordo com a visão ortodoxa, ao herdar o último nome do pai, herdo também todos os aspectos negativos dele. Identificando-me como judeu filho de um pai judeu e de uma mãe cristâ, senti-me sempre como um "outsider". E, durante todos aqueles anos, tive uma banda com um nome terrível que, de início, era apenas uma piada. Tornou-se um fardo pesadíssimo que tive de carregar embora tenha acabado por compreender o que significava ser um "silver jew": um judeu que não é realmente judeu, que pertence a uma categoria secundária. O meu amigo Harmony Korine que também é um judeu casado com uma mulher cristã, teve uma filha de quem eu sou padrinho. Portanto, ela também é "silver jew". Mas, voltando atrás, quanto mais me embrenhava na leitura sobre o judaísmo, mais sentia que teria de fazer parte de uma comunidade. E, para isso, teria de frequentar a sinagoga, em Nashville. A minha mulher, como muitos católicos, tem um Freddy Krueger dentro da cabeça que lhes diz não faças isto, não faças aquilo, não vires as costas a Cristo, vais parar ao inferno... e conspirou para que eu não me dedicasse ao judaísmo. Também fui vivendo cada vez mais isolado, com um turbilhão de pensamentos... agora que voltei à actividade sinto-me bastante mais feliz, aprendi muito.



    Mas, durante estes 10 anos, parou completamente de escrever e de compor? 

Sim, só recomecei a fazê-lo nos últimos dois anos e meio. Mas nunca foi muito diferente. Entre cada dois álbuns, passavam cerca de dois anos. Depois, se pegava na guitarra, as canções apareciam. Só que, desta vez, foram sete ou oito anos de pausa. Sentia-me bastante desiludido com a música que ia ouvindo à minha volta, como se toda a gente se tivesse limitado a continuar a tocar sem se interrogar de que processo faziam parte. Compreendi que sentia um grande ressentimento por ser alguém que, não tocando ao vivo, nunca se tinha verdadeiramente afirmado no mundo da música, nunca tinha conseguido estabelecer as relações necessárias. Conhecia – e ainda conheço – apenas três ou quatro músicos. Quando tentei voltar a escrever música, decidi que não iria andar à procura de uma canção mas apenas me iria sentar e tocar um único acorde, e repeti-lo indefinidamente. Quando fazemos isso, o tempo vai passando. Foi uma espécie de reacção... a minha mãe tinha morrido, andava pela casa dela, não pegava numa guitarra há sete anos. Estava por ali uma e comecei a tocá-la. Sabia perfeitamente que o fazia para ver se a vibração da madeira e das cordas era capaz de fazer algo por mim. 

    Mas ia escutando outros músicos e bandas, ia lendo? 

Entre 2009 e 2016, passei, pelo menos, 12 horas por dia na Internet. A ver o mundo mudar, prestando atenção a tudo o que ia acontecendo. A mudar não para melhor mas de uma forma assustadora. Tentei ir-me mantendo a par no Reddit. Li centenas de livros sobre políticas públicas. Procurei informar-me ao máximo sobre as áreas em que o meu pai se movimenta, o "lobbying" a favor de multinacionais do tabaco, do álcool, das armas, queria descobrir tudo acerca do modo como aquilo que ele andou a fazer nos anos 90 nos afecta hoje a nós. De como contribuiu para que fosse possível, em Washington, montar-se campanhas tremendas, por exemplo, contra os sindicatos ou algumas ONG. Ao fim de algum tempo, compreendi a sorte que tinha tido por ter conseguido fugir ao mundo dele. É o tipo de pessoa que se apossa da nossa cabeça e é difícil de expulsar. 



    Consegui-lo foi um alívio para si, libertou-lhe o espírito para pensar noutras coisas? 

Nunca pensei nisso nessa forma mas é capaz de ter sido um processo de cura. Consegui remover a imagem dele que se tinha instalado em mim. Ele escolhera desonrar-se com uma enorme ousadia.

Quando esse processo terminou (se já terminou) foi quando decidiu regressar ao mundo e voltar a compor?  

Sim, tinha visto o outro lado, tinha compreendido que eu não era feito para actuar daquela forma. Sou diferente. Não sou capaz de atirar a matar e utilizar tudo o que for necessário para alcançar um objectivo. A poesia... é por isso que este álbum é muito mais aberto. Se existe um problema na minha vida, lido com ele escrevendo uma canção. Quando tomei consciência de que era isso que estava a fazer, a minha dor desaparecia. Mais valia, então, escrever a canção. 

    Foi um processo catártico de expulsão dos seus demónios... 

Sim, mas não podia permitir que as canções se transformassem numa coisa sentimental, havia frases demasiado carregadas de auto-comiseração, apesar de bem escritas. Não arriscaria ir tão longe mesmo que fossem óptimas metáforas. "All My Happiness is Gone", no contexto do disco é uma coisa mas, tomada apenas como uma canção individual, a persona que a canta é completamente desgraçada. Escutando a totalidade do disco, seria de uma grande pobreza de espírito imaginar que se tratava de um pedido de ajuda. Não me sinto nada culpado por aquilo que vai acontecendo na política e na sociedade. À excepção de "Margaritas In The Mall" que é acerca do mundo do meu pai no interior do qual todos vivemos. 



    Quando pôs fim aos Silver Jews “antes que a banda se tornasse imprestável”, disse que pensava dedicar-se ao jornalismo de investigação e à escrita de argumentos para cinema. No entanto, não o fez...  

Mas tentei. Só queria escrever o argumento para um filme, estava obcecado. Era sobre um poeta, filho de um lobbyista, que perde o emprego e a mulher e acaba numa clínica de desintoxicação. O pai oferece-lhe emprego mas, na clínica, estava também um jornalista que conhece a actividade do pai... a HBO estava interessada na ideia e ofereceu-me 100 000 dólares por ela mas pretendia que fosse alguém que não eu a escrever o argumento, provavelmente, para transformar a figura do pai numa espécie de herói à maneira dos Sopranos. Seria o maior favor que poderia fazer ao meu pai, ele iria adorar! Durante os primeiros quinze anos da banda, por várias vezes, ofereceram-me dinheiro para actuar ao vivo, dinheiro que me fazia falta. Sou uma pessoa bastante racional mas descobri que, quando nos afastamos do dinheiro e distribuímos aquele que temos, ele acaba por vir ter connosco. 

    Por último, por que motivo trocou Silver Jews por Purple Mountains, retirado do poema de Katharine Lee Bates para "America the Beautiful"? 

Não é possível ser os Silver Jews em 2019. É demasiado perigoso. Não quero carregar sobre os ombros tudo o que de negativo “ser judeu” implica, pelos motivos mais idiotas, aos olhos de muita gente. Por outro lado, substituí uma cor, "silver", por outra, "purple", que, apesar dos Deep Purple e New Riders of the Purple Sage, não é muito comum em bandas de rock. E também gostei da ideia de, numa música que é, praticamente, o hino não oficial dos EUA, o verso “For purple mountain majesties” ser quase sempre, erradamente, cantado “For purple mountains majesty”. Pode ser uma atitude cínica da minha parte mas imaginar multidões de pessoas, levantando-se, enlevadas, de mão no peito, para cantar uma canção patriótica com a letra errada é um pouco como eu que, agora, desejo fazer tudo certo, começar logo com um erro enorme.(Entrevista realizada a 24.06.2019)

20 June 2019

A BUSCA DA FELICIDADE


Bill Callahan é o tipo capaz de escrever “Dress sexy at my funeral, my good wife, for the first time in your life, wear your blouse undone to here and your skirt split up to there, and when it comes your turn to speak before the crowd, tell them about the time we did it on the beach with fireworks above us” e de cantar essas palavras envoltas na adequada gravitas que o tema exige, rematando-as com “Also tell them about how I gave to charity and tried to love my fellow man as best I could, but most of all, don't forget about the time on the beach with fireworks above us”. Estávamos em 2000 e no álbum Dongs of Sevotion, quando, na realidade, não tinha ainda conhecido a “good wife”. Foi só 12 anos mais tarde que encontrou Hanly Banks, documentarista que, sobre ele realizaria Apocalypse e que, em consequência da felicidade familiar que descobririam juntos, forçaria Shepherd In A Sheepskin Vest – o sucessor de Dream River (2013) – a ter de ir lentamente amadurecendo durante 6 anos. Quando, numa entrevista recente a “The Fader”, lhe chamaram a atenção para que, também agora, o há muito desaparecido David Berman (Silver Jews) reaparece, observou: “É como se todos os zombies tivessem acordado”.

    Levou 6 anos para concluir este álbum o que é bastante mais que a sua média habitual. Houve algum motivo particular para isso? 

Houve mudanças importantes na minha vida: casei-me e tive um filho. Não sou o tipo de pessoa capaz de ignorar tudo isso e continuar a trabalhar. Tive de aprender a ser pai e marido e isso ocupou-me alguns anos. Ao mesmo tempo, procurei não perder de vista o velho eu que faz música e encontrar o espaço no cérebro para cada uma das minhas diferentes responsabilidades. Foi demorado resolver tudo isso. Por outro lado, proporcionou-me tempo para reavaliar e repensaro meu trabalho.

    Na propria essência da escrita das canções, na forma como as trabalha e interpreta, houve alguma transformação concreta? 

Quis gravar um album cujo tema fosse definitivamente tudo aquilo por que tenho passado. Nunca me apercebi de que existissem muitos discos acerca da felicidade doméstica. Tudo isto me afectou muito profundamente. Se trabalhasse num escritório ou fosse advogado, trabalhava doze horas, voltava para casa, e tudo se passaria sem problemas. Mas, comigo, não é bem assim, preciso de me envolver com as coisas. E este não é, de facto um tópico que costume interessar imenso aos "songwriters". Talvez alguém mais jovem do que eu, que tenho já 53 anos, pudesse ter outra perspectiva sobre isto. 

    Tratar-se-á daquilo a que, habitualmente, se chama ter atingido a maturidade? ... 

... se calhar... muitas vezes, quando saímos de casa dos pais, não estamos ainda realmente preparados para assumir responsabilidades e tomar conta de nós mesmos enquanto jovens adultos. Provavelmente, só atingimos a maturidade quando damos vida a alguém. 



    Poderá dizer-se que aquilo que constitui o espírito do álbum é uma ideia de que vale mais concentrarmo-nos na descoberta e preservação da felicidade do que desperdiçar o tempo obcecado pelo lado negro e ameaçador da existência? 

Ainda não tinha pensado nisso dessa forma mas parece-me um bom ângulo sob o qual encarar o álbum. 

    Já descobriu a resposta para a interrogação que, em "Ride My Arrow", do último álbum, formulava: “Is life a ride to ride? Or a story to shape and confide? Or chaos neatly denied?” 

Hoje, provavelmente, responderia “a ride to ride” mas é importante permanecermos abertos a todas as possibilidades, não devemos agarrar-nos teimosamente apenas a uma. 

    Nos primórdios dos Smog, a música era agreste, ruidosa, experimental, lo-fi. Uma vez, descreveu-a como “a monkey throwing shit on the walls”. Pretendia puramente experimentar ou tinha alguma intenção definida? 

Gostava de explorar todos os tipos de ruído, moldá-los, tirar partido de vias mais abstractas, é um caminho muito aberto. É verdade que, na altura, também não dominava particularmente bem a guitarra... pretendia que fosse tudo imediato o que, numa situação de estúdio, é difícil acontecer. Tive de aprender tudo isso à minha custa. 



    Quando começou a dedicar-se à música, havia bandas ou músicos individuais que, de algum modo, tivessem funcionado como modelos para si? 

John Lee Hooker foi uma grande influência. Aprendi com ele que uma canção pode ser constituída apenas por meia dúzia de palavras, dois ou três acordes... De outra forma, também o Lou Reed: escrevia sobre aquilo que mais ninguém escrevia, coisas que estaríamos à espera de encontrar num livro ou num filme mas não numa canção. Abriu-me os horizontes para assuntos com os quais nem sequer sonhava. Mas também os Minutemen ou os Meat Puppets, os textos eram muito idiossincráticos. Muito no início, interessava-me também pela "musique concrète", pelo "free jazz"... sonoridades "free-form" que nunca podem ser recriadas. 

    E, hoje, que música ouve que o entusiasme? 

Oiço bastante "footwork", um género de hip-hop muito estranho e experimental popularizado pelo RP Boo, um DJ de Chicago. Acho-o muito hipnótico. Ninguém gosta, realmente de ouvir, é só um apoio para dançar, mas eu gosto mesmo. Também oiço muita música electrónica e "house", tudo aquilo que, antes, não conseguia compreender. Estou convencido que acabamos por ser capazes de entender tudo se não desistirmos de o fazer. 

    Foi a partir de 1997, com Red Apple Falls (produzido por Jim O’Rourke), que tudo começou a ser algo mais estruturado... 

Já tinha tocado com um baterista em Wild Love (1995) mas essa foi realmente a primeira vez que, num álbum, do princípio ao fim, usei bateria. Nessa altura, foi como se tivesse acendido um enorme foco de luz, a bateria torna tudo muito mais fácil, podemos apoiar-nos nela.



    A partir de 2007 e de Woke on a Whaleheart, deixou de gravar como Smog e passou a fazê-lo sob o seu próprio nome. Houve alguma razão especial para isso? 

O nome Smog era como uma tatuagem que eu tivesse feito aos 18 anos. E, à medida que o tempo ia passando, fazia cada vez menos sentido. 

    Não é fácil livrarmo-nos de uma tatuagem... 

É verdade, mesmo agora, em anúncios de concertos, muitas vezes, ainda continua a aparecer “Bill Callahan (Smog)”. Quis distanciar-me em relação a isso. Pelo menos, tentei... Para mim, tinha deixado de ter qualquer significado, estava farto. 

    Em 2010, publicou Letters to Emma Bowlcut a que chamou uma “epistolary novelette” e, quatro anos depois, I Drive a Valence, uma recolha de textos de canções e desenhos seus. Foram impulsos de ocasião ou gostaria de prosseguir uma carreira literária? 

Insistiam muito comigo para escrever um livro e gostava de pensar que serei capaz de voltar a escrever outro. Foi uma experiência de que gostei: escrever, reescrever, corrigir, editar... Mas só sou capaz de fazer uma coisa de cada vez: se estou a pensar num disco, não consigo, ao mesmo tempo, concentrar-me num livro. 

    Sentava-se disciplinadamente para escrever ou ia produzindo textos dispersos que, depois, reuniu em livro? 

Ao longo dos anos, tinha reunido um certo número de textos mais ou menos em formato epistolar e mais uns quantos outros. Uma amiga minha, Connie Lovatt, leu-os e editou-os. A forma de carta é um meio de expressão muito livre: pode ser prosa, poesia, entradas de um diário, crónicas, comentários, apontamentos... 

    Escrever um livro foi uma experiência radicalmente diferente de escrever canções? 

As canções são habitualmente estruturadas em versos e refrão. Os parágrafos não são a mesma coisa. São mais robustos e compactos. Os versos são mais finos e farpados.

01 May 2018

EM FÚRIA 


Na sexta-feira 24 de Junho de 2016 – o dia a seguir ao referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia que os partidários do Brexit venceram com 51.9% dos votos – Clottie Cream, L.E.D., Naima Jelly e Rosy Bones assinavam contrato nos escritórios da Rough Trade. Porém, para as quatro Goat Girl, o momento foi agridoce: a felicidade por, sem sequer um único single gravado, terem recebido a benção da histórica "indie" era amargada pela consciência do tremendo disparate político que pouco mais de metade do país, na véspera, havia cometido. Sem vontade para medir as palavras, três meses depois, publicavam "Scum" – “I honestly do think that someone spiked their drinks, how can an entire country be so fucking thick? Hold tight to your pale ales, bite off your nationalist nails, we're coming for you, please do fear, you scum aren't welcome here” –, exercício de libertação da bílis acompanhado por um video de Holly Whitaker no qual duas dezenas de pessoas, uma a uma, são alimentadas à força. Não é abusivo dizer que, sob coordenadas estéticas diferentes, as Goat Girl são o equivalente do Sul de Londres aos "east londoners", Stick In The Wheel: gente decididamente enraivecida com a História política e social recente do país e da cidade e com muito pouca vontade de se manter em silêncio. 



Mas, se o grupo de Nicola Kearey e Ian Carter prefere uma rudeza folk de recorte modernista, o álbum de estreia homónimo das Goat Girl tanto faz pensar nas Throwing Muses como nas Slits, PJ Harvey ou até na sonoridade ferruginosa de Tom Waits. Elas, quando interrogadas, referem os Silver Jews, The Fall, Patti Smith, Billie Holiday e Sonic Youth. Algures entre Peckham e Brixton, zonas por enquanto libertadas da erosão gentrificadora, numa cena cujo polo é o "pub" The Windmill e o “So Young Magazine” a central informativa, pertence ao novíssimo quarteto feminino a mais intrépida voz: em fúria contra os pequenos pulhas anónimos (“Creep on the train with his creepy gold chain, creep on the train with his dirty trouser stain, I really want to smash your head in”), amotinada contra a corja política (“Build a bonfire, put the Tories on the top, put the DUP in the middle and we’ll burn the fucking lot”) e a sua acção tóxica (“Phallic building, cyanide killing all that was clear, find an antidote for this accumulating smoke”), e capaz de transformar uma canção do "musical" Bugsy Malone (1976) em palavra de ordem: “I was born to be a dancer, I won't take no for an answer”.

07 May 2015

MEMÓRIAS DE NOVA IORQUE

  
Mais ou menos a meio de Girl In A Band, na página 148, Kim Gordon, num aparte não demasiado significativo, conta que, em conversa para a “Interview” com o ilustrador Raymond Pettibon – autor da capa de Goo, dos Sonic Youth, bem como de várias outras de álbuns dos Black Flag e da editora SST –, ambos concordaram que, quando se trata de discutir algum assunto com um músico, é conveniente não elevar demasiado a complexidade do tema. “Não porque não sejam inteligentes, apenas não intelectualizam as coisas da mesma forma que os artistas”. E Kim reforça a ideia, confessando “Sinto que não há muita gente com quem possa falar sobre o que me vai na cabeça... isto não quer dizer que os menospreze”. Poderá, talvez, situar-se aí a razão porque a literatura – autobiográfica ou não – assinada por músicos é tão escassa e, na maioria dos casos, assaz desinteressante. A memoráveis excepções como Chronicles Vol. I, de Bob Dylan, Autobiography, de Morrissey, os quatro romances de Willy Vlautin (Richmond Fontaine/Delines), a recolha de poemas de David Berman (Silver Jews), Actual Air, ou a quase dezena de publicações de David Byrne (Leonard Cohen, exactamente o caso oposto – poeta e romancista tornado songwriter –, não conta) adicione-se, agora, Girl In A Band – A Memoir, de Kim Gordon.



Guitarrista, baixista, compositora e cantora dos Sonic Youth (e, igualmente, dos Free Kitten, Body/Head e participante em inúmeras colaborações) mas também artista plástica, "fashion designer", actriz, crítica e jornalista de arte, Gordon possui o perfil exactamente adequado para não ceder (demasiado) à "petite histoire" de circunstância e desenhar, com nervo e energia, a trajectória de uma "California girl" de classe média, nascida no início dos anos 50 e transplantada para a cena musical e artística da Nova Iorque, de fins de 70 até à actualidade. A visão panorâmica é povoada por um "who’s who" de todo o período abrangido (mas com figuras de carne e osso e não em mero exercício de "name dropping"), em permanente viagem entre auto-análise e observação/comentário de situações e personagens, painel estético/histórico e diário pessoal, o precioso bloco-notas de uma testemunha-participante activa das vibrantes ascensões e perturbantes quedas da capital do mundo.

27 August 2012

UMAS FITAS QUE GRAVÁVAMOS LÁ EM CASA
 

















Silver Jews - Early Times 1990 - 01
   
Em 1992/93, uma dúvida dilacerava o universo "indie": seria aquela banda que, sob o nome Silver Jews, editara dois EP – Dime Map Of The Reef e The Arizona Record – realmente os Pavement sob disfarce? Bobby N, Hazel Figurine e D.C. Berman, seriam, afinal, os mesmos que haviam publicado Slanted And Enchanted? A resposta, como frequentemente sucede, era sim e não: a ascendência era comum (Ectoslavia, ovo primordial chocado na Universidade da Virgínia, que, albergando Stephen Malmus, Bob Nastanovich, James McNew e David Berman, estaria na origem dos Pavement, Silver Jews e Yo La Tengo), dois dos seus elementos (Malkmus e Nastanovich) também, fora até Berman quem cunhara o título Slanted And Enchanted, mas tratava-se de duas bandas diferentes. Como, em 2006, David Berman contou, foi na altura em que ele e Malkmus trabalhavam como vigilantes no Whitney Museum of Art, de Nova Iorque, que escreveram a maioria das canções durante as horas de trabalho. (...) Quando comecei a gravar o primeiro 12", nunca pensei que os Silver Jews fossem realmente uma banda: eu enviava para o mundo esta espécie de ideia de uma banda, uma cópia desbotada de um Xerox de uma banda. (...) Nunca iríamos tocar ao vivo, vendermo-nos comercialmente, fazer parte da economia de mercado, na verdade, nunca iria existir banda nenhuma, os discos pareceriam ser discos mas não seriam mais do que umas fitas que gravávamos lá em casa”. Não poderia ter mais razão: reunindo ambos os EP, Early Times é puríssima "lo-fi" paleolítica, uma relíquia tosca em que apenas o mais ortodoxo dos fãs poderá descortinar os futuros Jews. Mas se, na Idade Média, chegaram a existir 18 prepúcios de Cristo devotamente adorados, a estes outros judeus também não hão-de escassear os fiéis.

13 March 2012

31 DE FEVEREIRO



Lambchop - Mr. M

Bastava ouvir isto: “Took the Christmas lights off the front porch, February 31st”. O universo wagneriano (de Kurt Wagner) fica instantaneamente desenhado – coisas insignificantes, rotineiras, banais, mas que ocorrem num mundo paralelo onde Fevereiro tem 31 dias sem que tal chegue, sequer, a tornar-se assunto de conversa. E, mesmo que isso possa ser lido como uma obliquíssima alusão ao suicídio, em 25 de Dezembro de 2009, de Vic Chesnutt (amigo de Wagner e colaborador dos Lambchop, a quem Mr M é dedicado), é apenas mais uma peça solta no tabuleiro do grande puzzle para o qual não vale muito a pena tentar descobrir outro sentido que não o que uma palavra somada à anterior e aquela à seguinte, pela própria inexorabilidade do desenrolar de texto e música, irremediavelmente desenham. Mas talvez tudo fique um pouco mais claro se recuarmos até 2008, após a publicação de OH (Ohio).



A “art country orchestra symphonette” que, no início dos anos 90, começou por se chamar Posterchild e, enquanto Lambchop, tinha chegado ao décimo álbum de estúdio – com dois ou três clássicos no currículo (pelo menos, How I Quit Smoking, 1996, e Nixon, 2000) e deixando perplexa, pelo caminho, a tribo dos classificadores, incapaz de se decidir entre pós-country, funk-folk, pós-folk ou country de câmara –, parecia decidida a pôr um ponto final na trajectória, regressando Kurt Wagner à sua primeira paixão, a pintura. Cerca de um ano mais tarde, porém, coincidindo com a morte de Chesnutt, o produtor Mark Nevers – fã dos Ramones mas valete indispensável na corte dos Silver Jews, Calexico e Bonnie "Prince" Billy – desafia-o para cúmplice de uma conspiração musical, sob o nome de código “Psycho-Sinatra”: inspirado pela escuta de September of My Years (LP de Frank Sinatra de 1965) e pela sofisticação dos arranjos de Gordon Jenkins, o plano era enviar canções de Kurt Wagner a orquestradores externos (Peter Stopschinski e Mason Neely), tratando Nevers de, a seguir, desmontar e recompor as partituras, fazendo uso de cada fragmento como se de um instrumento solista se tratasse.



No papel, parece mais bizarro do que, finalmente concretizado, acabou por ser. Qual discípulo de Raymond Carver determinado em conduzir o minimalismo às últimas consequências através de uma espécie de "cut-up" impressionista, Wagner alinha frases esquartejadas e observações sobre o trabalho de composição (“Grandpa’s coughing in the kitchen but the strings sound good, maybe add some flutes” ou “A sentence past is paraphrased and you pick up trash in the rain, beside the motor-way”) enquanto, à sua volta, a orquestra, entretida consigo mesma, desenha espirais. Antes disso, aguardara serenamente que cascatas disneyanas de cordas acabassem de se precipitar para lançar um “Don’t know what the fuck they talk about, maybe blowing kisses, and what difference does it make?”, para, depois, permitir que "Gone Tomorrow", aparentemente concluída, se dissolvesse num oceano sinfónico do “deconstructed freaky sound of the Sinatra era“. E, à vez, fantasia-se de Randy Newman, David Berman, Nat King Cole ou Mark Eitzel, imagina-se Stuart Staples pela mão de Van Dyke Parks soltando, aqui, “We have crawled among the elements, taking pictures with our phones”, ali, “The wine tasted like sunshine in a basement” e, mais à frente, ausenta-se e entrega o palco ao fantasma de Chopin que, a quatro mãos com Sérgio Mendes, inventa um sonho zen nos caldeirões do Inferno. Nada que não seja comum e previsível em qualquer 31 de Fevereiro habitual.

(2012)

24 January 2009

SILVER JEWS KAPUT
& TRAGÉDIA GRECO-SHAKESPEAREANA



"Silver Jews End - Lead Singer Bids his Well-Wishers Adieu

Hello, my friend.

Cassie and I went to the cave and it looks great. 58 degrees but the humidity makes it feel like 72. I'm just going to play fifteen songs. My fifteen favorite ones. A dollar per song. Plus Arnett Hollow. I don't want to keep you underground for too long. Fall Creek Falls State Park State Lodge is great by the way. Yes I cancelled the South American shows. I'll have to see the ABC Countries another way. I guess I am moving over to another category. Screenwriting or Muckraking. I've got to move on. Can't be like all the careerists doncha know. I'm forty two and I know what to do. I'm a writer, see? Cassie is taking it the hardest. She's a fan and a player but she sees how happy i am with the decision. I always said we would stop before we got bad. If I continue to record I might accidentally write the answer song to Shiny Happy People. What, you thought I was going to hang on to the bitter end like Marybeth Hamilton?

love david"

... &...

"My Father, My Attack Dog"



Now that the Joos are over I can tell you my gravest secret. Worse than suicide, worse than crack addiction: My father.
You might be surprised to know he is famous, for terrible reasons. My father is a despicable man. My father is a sort of human molestor. An exploiter. A scoundrel. A world historical motherfucking son of a bitch. (sorry grandma) You can read about him here.

My life is so wierd. It's allegorical to the nth. My father went to college at Transylvania University. You see what I'm saying. A couple of years ago I demanded he stop his work. Close down his company or I would sever our relationship. He refused. He has just gotten worse. More evil. More powerful. We've been "estranged" for over three years. Even as a child I disliked him. We were opposites. I wanted to read. He wanted to play games. He is a union buster. When I got out of college I joined the Teamsters (the guards were union organized at the Whitney). I went off to hide in art and academia. I fled through this art portal for twenty years. In the mean time my Dad started a very very bad company called Berman and Company.
He props up fast food/soda/factory farming/childhood obesity and diabetes/drunk driving/secondhand smoke. He attacks animal lovers, ecologists, civil action attorneys, scientists, dieticians, doctors, teachers. His clients include everyone from the makers of Agent Orange to the Tanning Salon Owners of America. He helped ensure the minimum wage did not move a penny from 1997-2007! The worst part for me as a writer is what he does with the english language. Though vicious he is a doltish thinker and his spurious editorials rely on doublethink and always with the Lashon Hara.
 
As I studied Judaism over the years, the shame and the shanda, grew almost too much. my heart was constantly on fire for justice. I could find no relief. This winter I decided that the SJs were too small of a force to ever come close to undoing a millionth of all the harm he has caused. To you and everyone you know. Literally, if you eat food or have a job, he is reaching you. I've always hid this terrible shame from you, the fan. The SJs have always stood autonomous and clear. Hopefully it won't contaminate your feelings about the work. My life has been riddled with Ibsenism. In a way I am the son of a demon come to make good the damage. Previously I thought, through songs and poems and drawings I could find and build a refuge away from his world. But there is the matter of Justice. And i'll tell you it's not just a metaphor. The desire for it actually burns. It hurts. There needs to be something more. I'll see what that might be.

DCB

if you want to know what evil Herr Attackdog is currently up to look here"

(ver aqui e confrontar aqui)

(2009)

16 November 2008

PERDÃO E SALVAÇÃO



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra



Micah P. Hinson - The Surrendering EP

Aos 19 anos, Micah P. Hinson estava na cadeia, dependente de tranquilizantes, a caminho da condição de “homeless”, sem um tostão e nenhum futuro. A sua “experiência-Mrs. Robinson” não poderia ter corrido pior: Melissa Berggren, uma ex-modelo da “Vogue” consideravelmente mais velha do que ele, apossara-se do seu coração imberbe, iniciara-o no abuso de comprimidos vários e, na ausência de fundos e de receitas médicas, daí à falsificação e ao desastre – com internamento psiquiátrico pelo meio – fora um pequeno trajecto. Oito anos mais tarde, em Dezembro de 2007, perante o público que o aplaudia na Union Chapel de Londres, Micah chamou a namorada, Ashley, ao palco, ajoelhou-se diante dela e pediu-a em casamento. Tudo isto poderia e deveria ser remetido para a categoria das coscuvilhices com que se entretém a imprensa “del corazón” se não tivesse muito (na verdade, se não tivesse tudo) a ver com as canções que Hinson escreve. Mais, muito mais do que a Laura, de Petrarca, ou a Beatriz, de Dante, mais até do que – para referir um exemplo próximo e de contornos idênticas – a Cassie, de David Berman (Silver Jews), Ashley não foi apenas musa inspiradora mas, sobretudo, anjo redentor.



A expressão bíblica não é excessiva: criado numa família cristã fundamentalista, na biografia (e na música) de Micah P. Hinson há feridas irremediavelmente abertas pelos demónios da culpa e do pecado (é ele mesmo quem fala de “salvation and forgiveness”) e pelo enfrentamento da figura do pai, professor na Abilene Christian University. Abilene, Texas: cem mil criaturas – 80% caucasianas –, 15% abaixo do limiar de pobreza, uma base da força aérea (o maior empregador local) e, aparentemente, a 17ª melhor cidade no sistema de ensino público norte-americano. Que não chegou, porém, para evitar que Micah, em poucos anos, estivesse inteiramente à altura de exceder largamente as condições que Sam Phillips, em 1954, impusera a Johnny Cash para aceitar gravá-lo: “Volta para casa, peca muito, e traz-me, depois, uma canção que valha a pena”. Hinson tinha (e continua a ter) uma figura de Elvis Costello pré-púbere mas, nas canções que escreve e na voz de sexagenário corroído pela nicotina, não há menos vida vivida do que nas de Cash ou Hank Williams.



E é exactamente aqui que se torna obrigatório desmontar o lugar-comum: “alt.country”, “americana”, “gothic-folk” são categorias a que a sua música, definitivamente, nunca se ajustará. No álbum de estreia, Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress (2004), no seguinte, Micah P. Hinson & The Opera Circuit (2006), e no actual Micah P. Hinson & The Red Empire Orchestra (acrescido do EP de esboços e fragmentos, The Surrendering), se se adivinha a presença de alguns desses espectros, não só não são eles quem comanda as operações como o tempo e o lugar são irrelevantes. Porque também os de um Cohen mais rude, de um John Cale menos erudito ou (em particular, no último disco) do Scott Walker dos arrebatamentos orquestrais por aqui pairam. Não se procure nele o primeiro ou o último da interminável fila de novos candidatos a Townes Van Zandt com alma murcha de James Taylor. Micah P. é da estirpe dos maiores, dos duros e autênticos. E que, mesmo agora supostamente apaziguado, em equilíbrio instável sobre espirais de violino, frágeis valsas ébrias e incêndios de guitarra, continua sobressaltado por visões (“the flood came down to my knee and you were there drowning below”) e longe da beatitude (“I’m not afraid of the suffering or the pain, I’m just afraid of dying alone”).

(2008)

11 November 2008

QUASE UM REQUIEM



Micah P. Hinson - Micah P. Hinson & The Gospel Of Progress

Acorrem imediatamente à memória os melhores dos melhores: John Cale, Leonard Cohen, Johnny Cash, Townes Van Zandt. E, logo a seguir, alguns dos seus filhos dilectos: Tindersticks, Lambchop, Sparklehorse, David Berman. Micah P. Hinson é, realmente, um pouco de todos eles mas, nem de longe, num daqueles exercícios calculados de montagem de puzzles sonoros com as peças rigorosamente seleccionadas para lançar o anzol ao máximo público-alvo. Micah é a coisa a sério: um "ex-convict" de 23 anos, apanhado na armadilha de uma história de "love gone terribly wrong" com uma ex-modelo da "Vogue", consequentes receitas de sedativos falsificadas e outros ilícitos demasiado comprometedores. Fado.



E a tradução de tudo isso para um álbum que dá corpo ao milagre de não chafurdar no confessionalismo da desgraça: os textos são mínimos quando não apenas telegráficos (obsessões em "loop" como "it's all my fault", "there are things that I've said that don't mean a thing, anyway"), a música — não dar um átomo de crédito aos arquivadores preguiçosos que hão-de querer, à viva força, arrumá-lo na "alt.country", na "new folk" ou outras invenções adventícias — tão só as coordenadas de uma trajectória de inexorável queda em espiral ("At Last, Our Promises" faz pensar na asfixia de Music For A New Society), instantâneos de câmara para pequenas feridas de guitarra, piano, euphonium, acordeão, melódica, Hammond, mellotron, violoncelo ou flauta, valsas de espectros pálidos, amabilidades de salão um segundo antes do salto através da vidraça, fanfarras fatigadamente amargas, melodias circulares esvaídas. Quase um requiem. E belo como poucos.

(2004)

11 June 2008

UM “IF” É SEMPRE DEMAIS



Silver Jews - Lookout Mountain, Lookout Sea

Concentrem-se nestas palavras de David Berman à “Pitchfork”: “Uma das regras que estabeleci para este álbum foi a de que não deveriam existir canções que não tivessem qualquer significado ou que usassem uma linguagem oblíqua. Cada uma é autosuficiente, começa num lugar a decifrar onde determinadas coisas aconteceram, e é definida por um certo espírito de ressaca. O segundo lado é mais feliz mas também mais pragmático. Como se tivesse celebrado um acordo de paz com um mundo corrupto. Existe um arco global em que, no primeiro lado, se situa o problema e, no segundo, a solução”. Todas são importantes mas é às primeiras – “uma das regras que estabeleci” – que há que prestar atenção: Berman, o novo Berman que “celebra acordos de paz” com o mundo, não desiste (exactamente como o “antigo”, em conflito permanente com o universo desordenado que lhe habitava o espírito) de formular normas apertadas de escrita. Mais ou menos disciplinado, o cérebro dele não prescinde de uma rotina mínima de sobrevivência ou, como canta em “Suffering Jukebox”, “You got Tenessee tendencies and chemical dependencies, you make the same old jokes and malaprops on cue”. As “Tenessee tendencies” persistem, as “chemical dependencies” parecem domesticadas, mas não deixa de haver uma ordem interior essencial a preservar.



Prestem, agora, atenção ao que ele diz a seguir: “Todos os meus álbuns anteriores terminavam com uma morte ou um adeus. Este termina com uma canção cantada por mim e pela Cassie que é uma espécie de canção de amor ‘country’ urbana. (...) Tanglewood Numbers foi a minha primeira tentativa de documentar o que poderia ser a vida após uma travessia do inferno”. Ou seja, esta será, sem dúvida, a segunda mas, aqui, as palavras-chave são “uma espécie de canção de amor ‘country’ urbana”. Poderíamos, sem grande problema, desvalorizar a contradição “’country’ urbana” – e ela está por algum motivo – mas é difícil não tropeçar na “espécie de canção de amor”. Em particular, se lhe escutarmos bem o refrão: “We could be looking for the same thing if you’re looking for someone, we could belong to each other if you’re not seeing anyone”. Há ali dois “if” e um “if” é já sempre demais. Em síntese, o inferno poderá ter ficado para trás mas não é seguro, nunca é seguro, que o paraíso (seja isso o que for) se encontre, ali, ao alcance da mão. O que fica, então?



Um álbum dos Silver Jews tão “feliz” quanto David Berman o consegue conceber (e ele mesmo se irrita com a sua obsessão pela fixação de uma identidade: “Odeio imenso o facto de ter uma consciência instintiva, primitiva, da ‘marca’, do que, em certos aspectos formais, deverão ser sempre os Silver Jews. Quaisquer desvios torná-la-iam sempre demasiado nebulosa”), que deambula por territórios reconhecíveis do cenário musical norte-americano – Lou Reed e os Velvet Underground em “San Francisco B.C.”, os Byrds em “Suffering Jukebox”, até os R.E.M. em “What Is Not But Could Be If” (outro “if”...) e, apesar de tudo, muito espectro de country-“noir” –, investe mais na narrativa escorreita de “short story” do que nos instantâneos subjectivos e impressionistas (“Aloysius, Bluegrass Drummer” é o melhor exemplo) e, por entre melodias nem sempre memoráveis, semeia aforismos e observações (“Romance is the douche of the bourgeoisie”, “she had become a vocal martyr in the vegan press” ou “I take decaf coffee, two sugars and one cream, I don’t see the use in staying up to watch TV” servem como boas amostras) que autorizam a suspeita de que David Berman ainda não se terá deixado submergir integralmente pela beatitude dos justos.



(2008)

19 May 2008

PALAVRAS E GUITARRAS
(fechando um círculo a partir daqui...)


(foto)

Uuuuf!... Não são bons, são magníficos. Em cima de um palco, quero dizer. Pelo menos, no da Aula Magna, há meia dúzia de dias. Explico-me: depois de Alligator e Boxer, ninguém se atrevia sequer a pingar o primeiro ponto de reticências acerca da grandeza de The National enquanto autores de algumas das mais assombrosas canções contemporâneas, deste lado de David Berman, Mark Eitzel ou Micah P. Hinson. Mas – relatórios de campo e histórias avulsas chegavam daqui e dali –, poderíamos encontrar-nos perante um novo “caso Go-Betweens”: sublimes em disco, constrangedores (muitas vezes) ao vivo. Nada que diminua uma obra mas que pode comprometer bastante alguns preciosos encontros imediatos. Foi coisa de instinto: o som de “Brainy” – a turva obsessão “you know I keep your fingerprints in a pink folder in the middle of my table” –, abertura dos trabalhos, poderá não ter sido transcendente mas havia matéria de facto suficiente para adivinhar que se estava a fazer História (sublinhem a maiúscula). Estava. Daí em diante, Matt Berninger, o seu templo do duplo par de anjos gémeos caídos e o violinista demente, Padma Newsome, ungiram a mole. “Squalor Victoria”, “Abel”, “Fake Empire”, “Mr. November” (com imersão – espontânea? calculada? que importa? – na massa dos fiéis) operaram, caso ali houvesse almas a converter, infinitas conversões instantâneas e meia dúzia de apocalipses sonoros. Incêndios de guitarras e palavras. E uma escansão rítmica que dividia e multiplicava uma espécie de poética cardiográfica quase absurdamente matemática. Demasiado perfeito para sonhar vê-los outra vez. (2008)

13 February 2008

NOVA IORQUE, NOVA IORQUE
(David Berman)



Estão a construir uma segunda Nova Iorque
um pouco a ocidente da antiga.
Outra porquê, ninguém pergunta,
construam-na, e eles controem-na.

A cidade ainda está fechada a todos
à excepção dos trabalhadores
que afirmam ser a exacta duplicação dela.

Em boa verdade, cada homem trabalha na réplica
do apartamento em que vive,
acrescentando-lhe pormenores,
perfumadores, jardins de rocha,
e puxadores de hotel de cinco estrelas.

Melhoramentos, aqui e ali, em segredo,
às escondidas. Nenhum inspector repara
ou se importa. Todos estão felizes,
divertem-se ou passeiam sobre as ruas paralisadas
que o único repórter autorizado descreveu como

"aliviadas dos despojos do complicado passado da velha cidade,
mas libertando um pouco do perfume azul dos primeiros anos na terra".

Os homens começam a gostar da cidade em paz.
Começa a ser mais difícil voltar para casa à noite,

o que volta a preocupar as esposas.
As sopas amarelas arrefecem, os pôres do sol apressam-se.

Os homens fazem longos descansos sobre as bocas de fogo,
e acenam através dos espaços imóveis aos outros trabalhadores
que meditam nos seus resguardos.

Até um dia...

(in Actual Air, ed. Open City Books, 1999; trad. J. Lisboa)

(2008)