20 February 2023
18 February 2023
NO MUNDO DOS VIVOS
“Tinha dado demasiados tiros nos pés. Não tinha desaparecido por completo mas a estrada tinha-se afunilado, quase fechado. Ainda não me tinha extinguido mas cambaleava caminho fora. Havia uma pessoa desaparecida dentro de mim e precisava de a encontrar. Sentia-me gasto, um destroço vazio e esgotado. Demasida estática na minha cabeça de que não conseguia livrar-me. Estivesse onde estivesse, era um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk-rock, um artesão da palavra de tempos idos, um chefe de estado de ficção de um país que ninguém conhecia. Não tinha a menor ligação a qualquer tipo de inspiração. Já não era o meu momento da História. O espelho tinha rodado e conseguia ver o futuro – um velho actor a vasculhar o lixo à porta do teatro dos sucessos passados”. Era este o Bob Dylan de 1987 que ele mesmo desenhava em Chronicles Volume One (2004). A salvação chegaria na pessoa de Daniel Lanois – “Ele era 'noir' por todo o lado – sombrero preto, calças pretas, botas altas, luvas – todo ele sombra e silhueta, um príncipe negro das momtanhas negras” – que, numa hora, o convenceria a aceitá-o na qualidade de produtor/anjo redentor. (daqui; segue para aqui)
06 April 2021
TOM DE SÉPIA
Em 2015, Lael Neale tinha publicado I’ll Be Your Man (“O título era como se estivesse atrás do Leonard Cohen mas sem nunca poder tocar-lhe”), um álbum de estreia que ficou bastante longe de a satisfazer: “A prática habitual de montar diversas takes de uma canção e criar uma espécie de versão-Frankenstein dela deixou-me sempre com a sensação de que, tal como ao monstro, a vida tinha-lhe sido subtraída. Depois disso, passei anos em diversos estúdios, com diferentes músicos, gravei álbuns inteiros apenas para os atirar para o lixo logo a seguir. As canções ficavam sobrecarregadas de arranjos estéreis e instrumentações supérfluas. Precisava de me despojar de tudo o que era desnecessário ao processo de escrita. A ideia de começar pelo esqueleto era emocionante”. A primeira ferramenta que lhe ocorreu para esse processo de depuração foi o Novachord, um vetusto sintetizador polifónico produzido pela Hammond entre 1939 e 1942, o qual, apesar de ter sido usado em diversas bandas sonoras de filmes de terror e "sci-fi", e também por Kurt Weill, Villa-Lobos e Hans Eisler, não teve vida útil muito longa. Seria, afinal, o produtor Guy Blakeslee a oferecer-lhe a solução: um Omnichord – espécie de "keytar" infantil fabricado pela Suzuki nos anos 80 e abençoado por Brian Eno, Daniel Lanois, David Bowie e Magnetic Fields – e um rudimentar gravador de 4 pistas que instalou no canto de um bungalow nas colinas de Echo Park, em Los Angeles, cenário ideal para a criação de Acquainted With Night. (daqui; segue para aqui)
28 November 2019
08 December 2010
Neil Young - Le Noise
A Neil Young nunca poderá aplicar-se aquela frase – especialmente concebida para os intocáveis do Olimpo pop – que qualquer crítico de música (este incluído) tem sempre, pronta a utilizar, no seu kit de sobrevivência: “ele é geneticamente incapaz de gravar um mau álbum”. Não, Young ostenta desgraçadamente no currículo três ou quatro daqueles discos que, por toda a eternidade, nos interrogaremos acerca do que lhe passava pela cabeça quando imaginou que alguém no mundo aprovaria tal derramamento estético. Re-ac-tor (1981), colagem abstrusa à new wave, Trans (1982), uma inexplicável espécie de Kraftwerk de botas de cowboy, Greendale (2003), "audionovel" – com filme e álbum – político-ecologista-tolinha ou Fork In The Road (2009), elegia ao seu Ford Continental convertido às energias alternativas, não teriam deixado o mundo da música mais pobre se nunca tivessem acedido à existência física.
Esse lado de chutar para onde está virado – tanto quando apelou ao voto em Reagan como quando cantou (em Living With War, 2006) cobras e lagartos sobre W Bush – até poderá encantar por via de uma certa candura primordial mas, no que à música diz respeito, há que reconhecer que, aos sessentas bem medidos, já deveria ter digerido e regurgitado a norma rock’n’roll. Porque Le Noise é pouco mais do que uma demo-tape (processada pela máquina de efeitos sonoros de Daniel Lanois) de Neil para-os Crazy-Horse-sem-os-Crazy-Horse (i. e., voz e guitarra a solo), em que os únicos momentos que valem a pena são as revisitações da hipótese acústica em "Love And War" e "Peaceful Valley Boulevard". E quase só importa a perplexidade da primeira: “When I sing about love and war I don’t really know what I’m saying”. Mas alguém sabe, Neil?
(2010)
08 March 2009
13 October 2008
(prosseguindo daqui)
"In the weeks before recording [Oh Mercy], I kept asking Dan Lanois, 'Have you heard from Bob? Have you heard any songs?' Then, a week before we were due to start, we received a cassette from Bob. I thought, 'Great, we're going to hear some songs'. There was this little note: 'This 'll give you a good idea'. Dan and Mark Howard and I sat down to listen - and this Al Jolson music started. We were like 'What the fuck?'. So we fast-forwarded it. It was a whole tape of Al Jolson. We looked back at Bob's note: 'Listen to it. You can learn a lot'. When Bob arrived, though, I'd sort of forgotten this. Then, one evening, something came up about his favourite singers, who were influences, especially when it comes to phrasing. Bob said several times that phrasing was everything. And he said: 'My two favourite singers are Frank Sinatra and Al Jolson'. And I thought, wow, now I get it. I asked who his favourite songwriters were. 'Gordon Lightfoot and Kris Kristofferson. Those are the guys'. (Malcolm Burns, engenheiro de som, na "Uncut" de Novembro, 2008)
(2008)