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20 February 2023

"Love Sick" 
 
(sequência daqui) Não sem conflitos, cenas de fúria fumegantes e equívocos – “Ele andava à procura de canções que me definissem como pessoa mas aquilo que faço em estúdio não me define enquanto pessoa” –, em 1989, Oh Mercy ressuscitaria o Dylan sobrenatural por que o universo aguardava e levá-lo-ia a escrever “Fiquei com uma admiração absoluta pelo que Lanois realizou. Voltaríamos a encontrar-nos dez anos depois e retomaríamos no ponto onde tínhamos ficado”. Na realidade, foram apenas precisos oito anos até que ambos se voltassem a encontrar para a gravação de Time Out Of Mind, o álbum que confirmaria Bob Dylan como definitivamente regressado ao número dos (muito) vivos. Os prémios e consagrações choveram mas alguém não ficaria inteiramente feliz com o resultado final. Dylan havia passado a Lanois uma série de álbuns clássicos de Charley Patton, Little Walter, Little Willie John e Arthur Alexander que ele deveria tomar como pontos de referência na busca da sonoridade assombrada e minimalista que pretendia mas, concluida a gravação, tal como, em 2001, confiaria à “Rolling Stone”, sentir-se-ia “extremamente frustrado”“Não consegui incluir nenhuma das canções com andamento mais vivo que pretendia. Não fui capaz de dar às canções a dimensão que mereciam se tivesse tido a força de vontade para o fazer. Deixei-me ir atrás dos acontecimentos. Os ritmos eram demasiado semelhantes, sempre à volta daquela atmosfera vudu que o Daniel favorece”. (segue para aqui)

18 February 2023

NO MUNDO DOS VIVOS

“Tinha dado demasiados tiros nos pés. Não tinha desaparecido por completo mas a estrada tinha-se afunilado, quase fechado. Ainda não me tinha extinguido mas cambaleava caminho fora. Havia uma pessoa desaparecida dentro de mim e precisava de a encontrar. Sentia-me gasto, um destroço vazio e esgotado. Demasida estática na minha cabeça de que não conseguia livrar-me. Estivesse onde estivesse, era um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk-rock, um artesão da palavra de tempos idos, um chefe de estado de ficção de um país que ninguém conhecia. Não tinha a menor ligação a qualquer tipo de inspiração. Já não era o meu momento da História. O espelho tinha rodado e conseguia ver o futuro – um velho actor a vasculhar o lixo à porta do teatro dos sucessos passados”. Era este o Bob Dylan de 1987 que ele mesmo desenhava em Chronicles Volume One (2004). A salvação chegaria na pessoa de Daniel Lanois – “Ele era 'noir' por todo o lado – sombrero preto, calças pretas, botas altas, luvas – todo ele sombra e silhueta, um príncipe negro das momtanhas negras” – que, numa hora, o convenceria a aceitá-o na qualidade de produtor/anjo redentor. (daqui; segue para aqui)

02 July 2021

06 April 2021

TOM DE SÉPIA

Em 2015, Lael Neale tinha publicado I’ll Be Your Man (“O título era como se estivesse atrás do Leonard Cohen mas sem nunca poder tocar-lhe”), um álbum de estreia que ficou bastante longe de a satisfazer: “A prática habitual de montar diversas takes de uma canção e criar uma espécie de versão-Frankenstein dela deixou-me sempre com a sensação de que, tal como ao monstro, a vida tinha-lhe sido subtraída. Depois disso, passei anos em diversos estúdios, com diferentes músicos, gravei álbuns inteiros apenas para os atirar para o lixo logo a seguir. As canções ficavam sobrecarregadas de arranjos estéreis e instrumentações supérfluas. Precisava de me despojar de tudo o que era desnecessário ao processo de escrita. A ideia de começar pelo esqueleto era emocionante”. A primeira ferramenta que lhe ocorreu para esse processo de depuração foi o Novachord, um vetusto sintetizador polifónico produzido pela Hammond entre 1939 e 1942, o qual, apesar de ter sido usado em diversas bandas sonoras de filmes de terror e "sci-fi", e também por Kurt Weill, Villa-Lobos e Hans Eisler, não teve vida útil muito longa. Seria, afinal, o produtor Guy Blakeslee a oferecer-lhe a solução: um Omnichord – espécie de "keytar" infantil fabricado pela Suzuki nos anos 80 e abençoado por Brian Eno, Daniel Lanois, David Bowie e Magnetic Fields – e um rudimentar gravador de 4 pistas que instalou no canto de um bungalow nas colinas de Echo Park, em Los Angeles, cenário ideal para a criação de Acquainted With Night. (daqui; segue para aqui)

28 November 2019

ACABAR


Dias antes de morrer, em You Want It Darker, Leonard Cohen parecia mais distante do que nunca da tradição judaica (e, se quisermos, cristã) em que praticamente todos os seus 82 anos de vida tinham sido moldados. Numa última entrevista à “New Yorker”, sem rodeios nem floreados, e plenamente consciente do pouco tempo de vida que lhe restava, por gentileza, admitia “poder ter ainda um segundo fôlego” mas sem quaisquer ilusões: “Não me atrevo a agarrar-me a estratégias espirituais, não me atrevo a tal. Tenho trabalho para fazer. Assuntos para tratar. Estou pronto para morrer. Espero que não seja demasiado desconfortável. Por mim, é tudo”. E, sobretudo nas canções, dir-se-ia que fazia gala em contrariar e inverter tudo o que, as supostamente sagradas escrituras, desde há séculos, prescreviam. “To turn the other cheek, sounded like the truth, seemed the better way, sounded like the truth, but it's not the truth today”, cantava em "Seemed The Better Way” e ouvi-lo dizer – de facto, muito mais dizer do que cantar – “Steer your way past the ruins of the altar and the mall, steer your way through the fables of creation and the fall, steer your heart past the truth that you believed in yesterday, such as fundamental goodness and the wisdom of the way, (...) and please don't make me go there, though there be a god or not” ("Steer Your Way"), “I'm so sorry for that ghost I made you be, only one of us was real and that was me” e “I've seen you change the water into wine, I've seen you change it back to water, too, I sit at your table every night, I try but I just don't get high with you” ("Treaty"), fazia suspeitar se, à beira do fim, a verdade de ontem já não era, de todo, a de hoje e se uma semente de agnosticismo – “though there be a god or not” – não teria começado a germinar no cérebro do velho sacerdote "kohen". 


 
Durante a entrevista com David Remnick, a sensação acentuava-se quando, recordando os tempos na ilha de Hidra, confessava que “Sentado no meu terraço, tomei ácidos uns atrás dos outros, à espera de ver Deus. Geralmente, acabava com uma enorme ressaca”. Regressando ao presente, reconhecia que “a grande diferença é a proximidade da morte. Sou um fulano organizado. Se puder, gosto de deixar tudo arrumado. Se não puder, também não faz mal. Mas o meu impulso natural é para acabar as coisas que comecei”. Uma delas era uma canção ingénua, "Hummingbird", que trauteou – “Listen to the hummingbitd whose wings you cannot see, listen to the hummingbird, don’t listen to me”. “Não me parece que vá conseguir acabá-la. Mas, quem sabe?...” Três anos depois, tal como acontecera já com You Want It Darker, pela mão do filho, Adam, ficou concluída. Essa e mais outras oito que – com as contribuições de Beck, Bryce Dessner (The National), Richard Reed Parry (Arcade Fire), Damien Rice, Leslie Feist, Daniel Lanois, Javier Mas, Dustin O’Halloran, a Stargaze Orchestra, o coro de Berlim Cantus Domus e o coro da sinagoga Shaar Hashomayim de Westmount –, em Thanks For The Dance, oferecem o discretíssimo pano de fundo sonoro sobre o qual a frágil mas sempre intensa voz de Cohen vai recitando amargos sarcasmos (“German puppets burnt the Jews, Jewish puppets did not choose”), elegantes insolências (“I was selling holy trinkets, I was dressing kind of sharp, had a pussy in the kitchen and a panther in the yard, in the prison of the gifted I was friendly with the guard, so I never had to witness what happens to the heart”), e aterradoramente tranquilos desfechos (“I move with the leaves, I shine with the chrome, I’m almost alive, I’m almost at home”). Não tens que agradecer, Leonard.

08 December 2010

A HIPÓTESE ACÚSTICA




















Neil Young - Le Noise

A Neil Young nunca poderá aplicar-se aquela frase – especialmente concebida para os intocáveis do Olimpo pop – que qualquer crítico de música (este incluído) tem sempre, pronta a utilizar, no seu kit de sobrevivência: “ele é geneticamente incapaz de gravar um mau álbum”. Não, Young ostenta desgraçadamente no currículo três ou quatro daqueles discos que, por toda a eternidade, nos interrogaremos acerca do que lhe passava pela cabeça quando imaginou que alguém no mundo aprovaria tal derramamento estético. Re-ac-tor (1981), colagem abstrusa à new wave, Trans (1982), uma inexplicável espécie de Kraftwerk de botas de cowboy, Greendale (2003), "audionovel" – com filme e álbum – político-ecologista-tolinha ou Fork In The Road (2009), elegia ao seu Ford Continental convertido às energias alternativas, não teriam deixado o mundo da música mais pobre se nunca tivessem acedido à existência física.



Esse lado de chutar para onde está virado – tanto quando apelou ao voto em Reagan como quando cantou (em Living With War, 2006) cobras e lagartos sobre W Bush – até poderá encantar por via de uma certa candura primordial mas, no que à música diz respeito, há que reconhecer que, aos sessentas bem medidos, já deveria ter digerido e regurgitado a norma rock’n’roll. Porque Le Noise é pouco mais do que uma demo-tape (processada pela máquina de efeitos sonoros de Daniel Lanois) de Neil para-os Crazy-Horse-sem-os-Crazy-Horse (i. e., voz e guitarra a solo), em que os únicos momentos que valem a pena são as revisitações da hipótese acústica em "Love And War" e "Peaceful Valley Boulevard". E quase só importa a perplexidade da primeira: “When I sing about love and war I don’t really know what I’m saying”. Mas alguém sabe, Neil?

(2010)

08 March 2009

SEREMOS IRRELEVANTES?


U2 - No Line On The Horizon

Do modo mais cientificamente correcto, é aquilo a que só se pode chamar “uma óptima oportunidade para ter ficado calado”. Ou, mais exactamente, várias. Na primeira, Bono anunciou que “ou deixamos de tocar rock ou o rock terá de se tornar mais duro; seja como for, não continuaremos a ser como éramos”. À segunda (estavam os U2 a gravar em Marrocos), prometeu “influências trance e a colaboração de músicos Gnawa locais. A última foi… como dizer?... a mais embaraçosa: com a data de edição de No Line On The Horizon sujeita a sucessivos adiamentos, numa daquelas manifestações de subtileza que o celebrizaram, proclamou ao universo que “se este não for o nosso melhor álbum de sempre, seremos irrelevantes!”. Oops… e agora? É que nem deixaram de tocar rock nem ele ganhou músculo (isto é, ficaram precisamente como estavam), do trance há, sejamos benévolos, uns vestígios de segundos em “Fez – Being Born” e – aqui a coisa agrava-se seriamente – não só este não é o melhor álbum de sempre dos U2 como é bem capaz de ser um dos piorzinhos.


Serão, então, hoje, irrelevantes? Depende do ponto de vista: vendas de milhões? Claro que sim, sejam os “milhões” aquilo que forem no actual estado comatoso da indústria discográfica. Relevância musical? Bem, aí, convém nem pensar em fazer comparações com Boy, Achtung Baby, Zooropa ou mesmo com o imerecidamente mal amado Pop. Porque, após cinco anos de uma gestação que passou das mãos de Rick Rubin para as do triunvirato Eno/Lanois/Lillywhite e de meses dos habituais teatrinhos das audições “secretas” sob juramento de sangue nas instalações do patronato (coroados, pouco antes da data oficial de edição, com a fuga para o filesharing ilegal, cortesia de um lapso da… loja online da Universal australiana!), No Line On The Horizon faz inteiramente juz ao título. “Magnificent” já se chamou “Where The Streets Have No Name”, “Moment Of Surrender” é a cara da mãe – “Tryin’ To Throw Your Arms Around The World” –, “No Line...” passava muito bem por “The Fly”, “I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight” roubou a password a “I Still Haven’t Found...” e por aí fora. Duas interessantes experiências falhadas onde se sente o dedo de Eno (“Fez” e “Cedars Of Lebanon”) e uma, só uma, canção, “Unknown Caller”. Bono voltou a abrir a boca e, para o final do ano, prevê um novo álbum “mais meditativo sobre o tema da peregrinação”. Ai, ai, ai…

(2009)

13 October 2008

BOB, FRANK & AL
(prosseguindo daqui)



"In the weeks before recording [Oh Mercy], I kept asking Dan Lanois, 'Have you heard from Bob? Have you heard any songs?' Then, a week before we were due to start, we received a cassette from Bob. I thought, 'Great, we're going to hear some songs'. There was this little note: 'This 'll give you a good idea'. Dan and Mark Howard and I sat down to listen - and this Al Jolson music started. We were like 'What the fuck?'. So we fast-forwarded it. It was a whole tape of Al Jolson. We looked back at Bob's note: 'Listen to it. You can learn a lot'. When Bob arrived, though, I'd sort of forgotten this. Then, one evening, something came up about his favourite singers, who were influences, especially when it comes to phrasing. Bob said several times that phrasing was everything. And he said: 'My two favourite singers are Frank Sinatra and Al Jolson'. And I thought, wow, now I get it. I asked who his favourite songwriters were. 'Gordon Lightfoot and Kris Kristofferson. Those are the guys'. (Malcolm Burns, engenheiro de som, na "Uncut" de Novembro, 2008)

(2008)