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02 December 2007

O AMIGO DO GIRA-DISCOS



Depois de Amália, José Afonso. Como que num exercício de realinhamento e purificação de referências, Cristina Branco, com Abril, conclui a sua imersão nos dois clássicos maiores da música popular portuguesa do século passado e, encerrado esse processo, prepara-se para reorientar o seu “pseudo-fado” (palavras suas) segundo as coordenadas – de espaço e, principalmente, tempo – , que lhe serão oferecidas por uma ilustríssima selecção de cantautores, músicos e poetas da lingua portuguesa.

Quando te surgiu a ideia de reinterpretar o reportório do José Afonso?
Desde o meu primeiro album que eu gravo José Afonso. Mas, desde há muitos anos, que eu pensava em fazer um disco só com reportório dele. Só que, à medida que fui fundeando raízes no meu fado – ou no meu pseudo-fado…–, a coisa foi-se tornando um bocadinho distante. No entanto, quando surgiu o convite do Jorge Salavisa para fazer aqueles concertos no S. Luis, pensei que era a oportunidade de ouro para, finalmente, pegar no Zeca.

Mas o convite incluía, especificamente, o reportório do Zeca?
O convite era-me dirigido mas. como se tratava, ao mesmo tempo, da celebração dos vinte anos da morte do Zeca, propus que se centrasse sobre as canções dele. Mas confesso que, nessa altura, nunca pensei que fosse integralmente José Afonso. Quando olhei para o reportório que seleccionei, assustei-me! Havia ali coisas que eu não sabia se iria ser capaz de cantar… a “Carta a Miguel Djéjé“, por exemplo, eu queria muito cantá-la mas não estava bem a ver como iria agarrá-la, não tinha nada a ver com o meu género de cantora. Entretanto, peguei nos vinte temas que achava mais adequados, desconstruímo-los e conseguimos montar um espectáculo com dezasseis temas. Quando chegámos ao quinto ou sexto concerto, chamei os franceses “donos” do meu reportório e perguntei-lhes se achavam muito descabido fazer um projecto dedicado a este autor, com este fundamento e tendo ele esta importância. Toda a gente gostou e, a partir daí, foi só abrir terreno e tempo para nós gravarmos.



O susto de que falavas não terá sido tanto por o reportório ser menos simples do que aparenta mas, especialmente, porque, tendo já sido ele abordado de tantos ângulos diferentes, a questão era como inventar outro novo?
Não há intenção de abrir nenhum ângulo novo. Muito pelo contrário. É apenas pegar no Zeca da forma mais simples e relembrá-lo. Nós todos (não fui só eu que tive este sentimento) não tivemos qualquer intenção de recriar ou inventar qualquer coisa de novo à volta do reportório do Zeca mas sim recordar o significado que ele teve na nossa geração e na minha própria interpretação e de cada um dos músicos, como nós juntámos os nossos universos e o interpretamos. Se alguma recriação aconteceu é porque cada um daqueles músicos é muito grande sobre a sua própria música. Eu sou, no fundo, o fio condutor, quem está mais próximo da interpretação do Zeca.

No percurso do teu, como lhe chamas, “pseudo-fado”, houve algum momento onde ele seguiu numa ou noutra direcção por influência da música do Zeca Afonso?
Sim, tens razão, houve. Ele influencia constantemente aquilo que eu faço. Essencialmente, pela simplicidade. E ele ensina a cantar. Definitivamente. Até naquela tentativa de enraízamento na música portuguesa que acho que é notória nos meus discos. Parece-me até que, curiosamente, estão cada vez mais próximos de uma música mais tradicional. Eu quando digo que o Zeca é "o amigo do gira-discos” é verdade porque, sempre foi, para mim, uma constante, está no meu ouvido, trauteio-o o tempo todo.

Este é um episódio lateral na tua carreira ou faz continuidade com o que ficou para trás e com o que virá a seguir?
Para mim, faz todo o sentido. Embora, pelo facto de não ter guitarra portuguesa nem aquela sonoridade característica de todos os álbuns anteriores, talvez esteja um bocadinho à margem. Depois, do Ulisses, houve um interregno: divorciei-me e, no fundo, este é o meu tempo de luto. Fiz uma homenagem à Amália também porque senti necessidade de perceber mais sobre o fado, há um certo bric-a-brac nesta história de ser fadista e de cantar o fado.



Já que referiste a tua separação do Custódio Castelo, posso perguntar-te se a mudança do trabalho com um guitarrista como ele para outro(s) necessariamente diferente(s), foi um processo complicado?
Ao nível da sonoridade, estranhei imenso. Ainda hoje me faz confusão porque estava muito habituada àquele som, muito diferente do habitual em guitarra portuguesa que é bastante mais estridente. Quando surgiu um novo guitarrista, era inevitável que eu estranhasse. Não foi fácil, não posso dizer que as coisas continuaram normalmente porque, a esse nível, não é verdade. O meu respeito pelos outros senhores mas o som do Custódio era muito especial. No plano da composição e da direcção musical não senti isso, muito pelo contrário, até porque sinto que o Ricardo Dias tem uma visão da música muito mais próxima da minha.

Já tens uma ideia de qual será a etapa seguinte?
Já está em pré-produção, a gente não pode parar! Só sairá em 2009 e são doze poemas e doze compositors, todos portugueses. A intenção – e alguns deles já estão a trabalhar – é que sejam os cantautores a compor: o Jorge Palma, o Vitorino, o Janita (que fez apenas música para um poema fantástico da Hélia Correia), o Sérgio Godinho, o Fausto (ainda terei de falar com ele, se calhar, estou a antecipar demais algumas coisas…), Pedro Abrunhosa, e depois, tenho dois poemas do Júlio Pomar que gostava que fossem musicados pelo António Vitorino de Almeida, a letra para um tango do Vasco Graça Moura, dois poemas do Manuel Alegre escritos propositadamente para este disco e ainda deverão surgir outros nomes como o João Paulo Esteves da Silva, o Ricardo Dias e a Amélia Muge. O tema central será o tempo – o álbum chamar-se-à Cronos –, no seu sentido mais lato. Eu parto sempre do título dos álbuns para a concepção, o único onde isso não aconteceu foi, justamente, neste sobre o José Afonso.


CLÁSSICOS: CAPÍTULO II



Cristina Branco - Abril

Devíamos-lhe já a reinterpretação definitiva de uma parte significativa do reportório de Amália (CD/DVD Live, 2006). Coisa que não é necessário ser demasiado perspicaz para se entender que não é exactamente proeza ao alcance de qualquer um(a). Capítulo seguinte e nova prova de obstáculos: o cancioneiro de José Afonso, no vigésimo aniversário da sua morte, após múltiplas e diversificadas abordagens que, sucessivamente, ensaiaram rememorações e reavaliações. Como refazer esse caminho sem repetir nem os originais nem os passos de outros? Cristina Branco garante que “não houve intenção de abrir nenhum ângulo novo” e que se tratou apenas de “pegar no Zeca da forma mais simples e relembrá-lo”. O propósito terá sido esse mas – ajoelhemos mais uma vez perante ela – o que Abril (na sequência dos concertos do S. Luís) nos oferece é, certamente, não o oposto, mas a mais fresca e vibrante releitura contemporânea de dezasseis temas de Afonso.



Como? Exactamente da forma que ela o descreve: tirando o máximo partido da versatilidade idiomática dos músicos que a acompanham (Ricardo Dias, teclados, Bernardo Moreira, contrabaixo, Alexandre Frazão, bateria, Mário Delgado, guitarras, João Moreira, trompete) e que, não distorcendo nem desfigurando a identidade profunda das canções, as tomam como eixo de recriação num terreno próximo da liberdade do jazz (“Ronda das Mafarricas” é o exemplo mais gloriosamente extremo de transfiguração) mas sem nunca se deixar prender também por qualquer imperativo de “tradução”. O resto fica entregue à magnífica transparência e agilidade da voz de Cristina que dança com as melodias e as palavras de Zeca por entre sombras e abstracções sonoras. (2007)

28 November 2007

NAVEGAR É PRECISO



Cristina Branco - Ulisses

Suponho que, neste momento, não deverá ser tremendamente arriscado afirmar que o futuro do fado (venha ele a ser qual for) passará inevitavelmente por um percurso definido por duas atitudes só aparentemente opostas: a puríssima autenticidade, quase austeridade — mas, atenção, nunca sinónimo de ortodoxia — de Camané e a liberdade de movimentos de Cristina Branco. Lateralmente, poderão considerar-se também contributos como os de Mafalda Arnauth/Amélia Muge em Esta Voz Que Me Atravessa, de António Chainho com A Guitarra E Outras Mulheres ou até experiências importantes (embora falhadas) como Canto, de Mísia, sobre a música de Carlos Paredes. E, uma vez que é do novo álbum de Cristina Branco que agora se trata, há-de vir a propósito recordar como, por altura da edição de O Descobridor - Cristina Branco canta Slauerhoff, ela própria se definia: "Não me considero fadista. Ponto. Canto fado. Canto o meu fado. Aquela ideia do xaile, aquele dramatismo não tem nada a ver comigo. Canto a vida, a minha vida".



É certamente uma atmosfera bastante mais saudável de se respirar do que aquela que ainda teima em se colar aos velhos estereótipos ou, para efeitos de exportação, os espectacularizar e quase caricaturizar. Ulisses só pontualmente é fado — em rigor, apenas na "Gaivota" de Amália/O'Neill/Oulman — mas, na voz de Cristina e na guitarra de Custódio Castelo, quer o idioma seja o português de Portugal ou do Brasil, o castelhano, o inglês ou o francês, é impossível não sentir que o "blueprint" do que é (foi, será?) o fado, explícita ou implicitamente, se encontra presente. Nem que seja somente perceptível à transparência. Podemos, então, reparar como, sem o saber, Joni Mitchell andou pelas margens do fado quando escreveu "A Case Of You", como, obliquamente, Vitorino ou Fausto se cruzaram também com ele ou apercebermo-nos de que nas palavras de Paul Éluard ("Liberté"), na música tradicional portuguesa ou na discreta aproximação a alguns padrões rítmicos brasileiros, há, de certeza, matéria mais do que suficiente para enriquecer e ampliar o código genético daquilo que, um dia, se chamou fado. Cristina Branco canta como (quase) ninguém, Custódio Castelo (e Ricardo Dias) aplicam-se na arte da joalharia e, daí, resulta naturalmente o que será, sem dúvida, um dos grandes discos de música portuguesa de 2005. E do futuro. (2005)

26 November 2007

VIRAR PÁGINAS



Cristina Branco propôs a edição do seu primeiro álbum de estúdio, Murmúrios, a uma editora portuguesa. Foi recusado. Depois, com ele (após ter optado pela Holanda como rampa de lançamento para a sua carreira), ganhou o prémio do "Le Monde de la Musique" para o melhor álbum de "world music" de 1999. Quando o foi receber a Paris, na presença das Bartollis deste mundo, em vez de se restringir aos proverbiais agradecimentos, pediu para cantar com o companheiro, guitarrista e compositor Custódio Castelo. Valeu-lhe um contrato com a Universal francesa, fruto do instantâneo "coup de foudre" pela sua música de um responsável dessa editora presente na cerímonia. Post Scriptum, de 2000, reincidiu no mesmo prémio. E, com O Descobridor - Cristina Branco canta Slauerhof, atingiu o disco de platina pelas vendas na Holanda, terra natal de Jan Jacob Slauerhoff, o poeta das muitas afinidades com Portugal e a mitologia do fado. É este mesmo álbum que é agora publicado internacionalmente (até aqui, com carreira predominantemente internacional, dela só havia, com edição nacional, o excelente Corpo Iluminado, de 2001, onde, com música de Custódio Castelo, canta David Mourão Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Camões, Natália Correia, Pedro Homem de Mello e Pessoa) e apresentado nos palcos portugueses esta semana. É fado e não é. Como ela, que canta fado mas não se vê fadista nem lhe parece que isso importe muito.

Jan Jacob Slauerhoff, um poeta holandês razoavelmente desconhecido em Portugal, não seria a escolha mais evidente para o álbum de uma cantora portuguesa cuja matriz é ainda o fado...
Slauerhoff era um indivíduo completamente inadapatado à sociedade do princípio do século XX. Privou com o Fernando Pessoa e foi tradutor de Camões. Buscava o estímulo de outras culturas que o fizessem sair da sua forma de escrever e sentir que era um bocado depressiva. Acho que acabei por encontrar nele aquela tristeza que toda a gente vê no fado. Era médico de bordo, passou por todas as colónias portuguesas (viveu algum tempo em Macau e apaixonou-se por uma bailarina local de quem teve um filho) e, quando veio a Portugal, encontrava-se muito doente. Fazia uma vida bastante boémia e conheceu muitos lugares e cantores de fado. Um dos poemas deste disco, "Vida Triste", é a tradução dele de uma letra de fado que lhe foi oferecida por um desses boémios com quem se dava. E que, agora, sessenta e tal anos depois, foi resgatada para a língua portuguesa por nós.

Como é que chegaram ao conhecimento da poesia de Slauerhoff?
Estava em digressão pela Holanda e, durante um jantar, conversávamos acerca da literatura portuguesa, de Fernando Pessoa. Nessa altura, alguém mencionou a existência de um poeta holandês que partilhava um pouco desse espírito. Pedi a tradução de um texto dele ("A Uma Princesa Distante" que também acabou por figurar no disco) e, apesar de ser uma tradução à letra, chegou para me aperceber que tinha uma forma de escrever e de pensar muito "portuguesa". A tradutora fez-nos chegar vinte e tal poemas e, desses, cerca de onze, eram perfeitos para construir um álbum.



Nessa escolha, optaram pela maior musicalidade dos textos ou mais por essa implícita afinidade de espírito com os temas do fado?
Não foi fácil. Passou por várias fases. Houve uma primeira tradução muito agarrada ao texto original que era impossível de cantar. Fiz uma segunda tradução, mais livre e cantável e as coisas foram surgindo assim. No final, quando começámos a gravar, percebemos que não seriam exactamente fados mas sim temas muito tristes que acabavam por estar muito proximos do espírito original do fado. E, no fundo, foi através deste álbum que compreendi quais eram realmente as características do fado.

Do ponto de vista estritamente musical, há aqui muitas coisas que saem dos cânones tradicionais do fado...
A própria métrica poética não é regular. E, tanto eu como o Custódio, temos essa tendência para procurar coisas que não se conformem demasiado com as regras. E talvez tenha sido por isso mesmo que o público holandês apreciou tanto este fado que umas vezes o é e outras não. É música, é música portuguesa.

Tem a sensação que o público holandês já conhece suficientemente o idioma do fado a ponto de ser capaz de estabelecer com ele aquele tipo de relação que eles, nós e o resto mundo temos com os blues, o tango ou o flamenco?
Conhece, talvez, às vezes, melhor do que nós próprios. Não estão tão presos àquele tradicionalismo o que os torna mais abertos a descobrir coisas novas no fado e nos cantores do fado. E, depois, houve o efeito-Slauerhof que, também por causa deste disco, voltou a ser lido nas escolas.



Não tendo feito o percurso e os "rituais" obrigatórios que o meio do fado espera de uma fadista, como é que sente que é aceite por esse meio em Portugal?
Nunca fui aceite. Mas já me respeitam. O primeiro disco, Murmúrios, causou um burburinho incrível porque, não cantando fado tradicional, fui buscar coisas do Sérgio Godinho, do José Afonso... tudo coisas que eu cantava para mim, antes sequer de pensar em cantar em público.

De qualquer modo, tanto consigo como no caso do Camané, da Mafalda Arnauth ou da Mísia, cada vez mais se afirma essa tendência para procurar inspiração e reportório fora do território demarcado da tradição fadista ortodoxa...
O fado está na forma como se sente a música. Desde sempre cantei a partir dos discos que havia em minha casa e que eram de blues, jazz e bossa-nova. A minha forma de cantar passa por aí. Não gosto (como eles chamam no fado) de "estilar"...

É curioso que tenha dito "como eles chamam no fado"...
(risos) Eu não pertenço ao meio nem pretendo pertencer. Para mim, cantar fado ou outra coisa qualquer, é contar uma história. Não é preciso passar uma eternidade a ornamentar uma sílaba ou uma palavra para ela soar melhor. Cada palavra tem um significado muito especial e, ao ser incisiva, terá, se calhar, muito mais peso do que fazê-la dispersar no meio da música. Quando canto, sou capaz de ver o texto à minha frente e de pesar as palavras. Nunca estive a ver como é que este ou aquele cantor fazia para poder mimetizá-lo.



Mas, apesar disso, não houve nenhuma das vozes clássicas do fado que a influenciasse?
A Voz, que é a Amália, e uma pessoa que eu amo profundamente na forma de cantar e de estar no fado que é o Camané. O resto, confesso, não me interessa grandemente. Não tenho problema nenhum em dizê-lo, é a verdade. Para mim, o clic do fado foi a Amália. Eu achava o fado uma aberração, aqueles cinquenta fados tradicionais e não se faz mais nada... Quando o meu avô me ofereceu um disco dela, apercebi-me que, se quisermos, o fado pode ser igual ao jazz ou aos blues e podemos fazer o que quisermos dentro daquele estilo. Comprei quase tudo da Amália e dei-me conta de que ela, apesar de ser conhecida como uma grande fadista, tinha muitas coisas que não eram fado.

Após cinco álbuns e, nunca tendo tido essa tal atitude tradicional, tem alguma percepção de qual irá ser o seu rumo musical?
Não é nada estudado, um dia passa sobre o outro, vamos crescendo, e é como se estivesse a ler um livro a que vou virando as páginas. Foi como o que aconteceu com o Slauerhoff: não era suposto fazê-lo mas fiz. Só quando os álbuns estão terminados é que percebo que houve uma evolução. Neste momento estamos já a gravar dois novos álbuns. Um, Nu, é sobre poesia erótica (era para ser só com poesia portuguesa mas já vou cantar Shakespeare traduzido pelo Graça Moura e Vinícius) e outro, quase todo gravado em Angola, sobre poesia em língua portuguesa mas de origem africana com a participação de músicos dos vários países lusófonos.

De tudo o que disse, fico com a ideia que não a incomodaria nada se alguém dissesse que não é fadista...
Absolutamente nada. Não me considero fadista. Ponto. Canto fado. Canto o meu fado. Aquela ideia do xaile, aquele dramatismo não tem nada a ver comigo. Canto a vida, a minha vida. (2000)