Showing posts with label Cristina Vane. Show all posts
Showing posts with label Cristina Vane. Show all posts

02 May 2021

"Travelin’ Blues"
 
(sequência daqui) Antes, durante concertos episódicos em Camden (Londres), tinha-se deixado seduzir pela "slide guitar" bem como pelos vetustos blues de Skip James, Robert Johnson, e Blind Willie Johnson. Tinha-se transformado numa “rock kid obsessed with old music” que, no entanto, não se furtava a reparar como, por exemplo, os Led Zeppelin eram “notórios por pilharem os velhos músicos de blues sem lhes atribuir crédito”. Durante 5 meses, deambulou por metade dos estados norte-americanos, tocou e cantou em bares, cafés, clubes e quintais, em busca – ela, a impenitente nómada – da sua “identidade americana”. Como canta em "Travelin’ Blues", descobriu que “Onwards and upwards, well this path leads to nowhere, nowhere sounds lovely, well I’d sure like to go there”. É nesse lugar nenhum que, por entre delta blues, melodias das Apalaches e "ragtimes" revigorados, se ergue, paradoxalmente, o mais empolgante álbum de "americana" dos últimos anos.

30 April 2021

LADO NENHUM


Quando, há algumas semanas, se desencadeou a polémica acerca da legitimidade – étnica e de género – a exigir aos candidatos a tradutores do poema “The Hill We Climb”, lido pela autora, Amanda Gorman, durante a cerimónia de tomada de posse de Joe Biden, ninguém se lembrou de colocar as patrulhas do tribalismo identitário perante o enigma Jimi Hendrix: sem cair no papel de vítima ou agente activo de “apropriação cultural”, com que voz, haveria de exprimir-se o sobrenatural guitarrista de tripla origem afro-americana, irlandesa e cherokee? Se, para ser autorizado a aproximar-se do texto de Amanda, seria praticamente imprescindível ser um clone dela, o que fazer quando, logo à partida, a identidade – seja isso o que for – é múltipla e indivisível? A começar pelo próprio título, Nowhere Sounds Lovely, o álbum de estreia de Cristina Vane é mais uma preciosa acha para alimentar essa fogueira: nascida em Itália de pai ítalo-americano e mãe guatemalteca, cresceu e estudou entre Itália, França e Inglaterra, e, aos 18 anos, viajou para os EUA onde, na universidade de Princeton, se licenciaria em Literatura Comparada. (daqui; segue para aqui)