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20 May 2025

PROXIMIDADE, NÃO

A 15 de Maio de 2013, Michael Hann publicou no "Guardian" o relato daquilo a chamou o seu "professional horror show", e cujo título era "Meeting Ginger Baker: an experience to forget". Mais adiante explicaria que o que era suposto ter sido uma amena troca de opiniões entre ele, Baker e o público presente no cinema Curzon, no Soho, a propósito do documentário de Jay Bulger "Beware of Mr. Baker" (2012), se transformara numa escancarada demonstração da personalidade absolutamente impalatável do ruivo percussionista londrino. Ninguém alguma vez ousara sequer pôr em causa o elevado estatuto de Baker no "ranking" dos "greatest drummers of all time": não é, decerto, fruto do acaso ele ter sido - em conjunto com Eric Clapton e Jack Bruce - 1/3 dos Cream, bem como frações diversas dos Blind Faith, Ginger Baker's Air Force ou Public Image Ltd. Mas, como ao longo do documentário, inúmeros colegas e familiares sublinham, ser um dos mais impressionantes músicos que a Grã Bretanha deu à luz não impediu que estar próximo dele não fosse decididamente um prazer. (daqui; segue para aqui)

("Ramblin", Ornette Coleman, Live in Frankfurt 1995)

26 October 2014

04 May 2013

UM TIPO MELHOR QUE O DYLAN 



11 de Setembro de 1970. Vini Lopez, o baterista dos Steel Mill, tinha-se enrolado numa desnecessária trapalhada de drogas e, com o objectivo de recolher fundos para pagar a um advogado que o livrasse de sarilhos maiores, a banda decidira dar um concerto no Clearwater Swim Club de Middletown, New Jersey, cidade famosa por “não haver criminalidade, não ter habitantes negros e pelos hábitos autoritários da polícia local”, como conta o "middletowner" Steve Van Zandt, então baixista da banda. Um minuto depois das dez da noite – hora limite fixada para o final do concerto –, armadas até aos dentes, as forças policiais do chefe Joseph McCarthy (nome assaz apropriado), “como num Western clássico”, perfilaram-se sobre as colinas que circundavam a piscina de Clearwater e, no meio da confusão previsível, marcharam sobre o palco e desligaram o PA. Imperturbáveis, os Steel Mill continuaram a actuar e, em particular, o cantor, compositor e guitarrista, Bruce Springsteen, logrou manter, até ao fim, magneticamente colados em si os olhos de todos aqueles dos 5 000 fãs que, entretanto, não tinham sido engavetados. 


Uma busca no YouTube por "Bruce Springsteen + Steel Mill" dá-nos a ouvir uma típica banda de hard-rock da época, não especialmente memorável e que, facilmente, denuncia a ementa musical de que Springsteen & Cº se nutriam: Cream, Hendrix, Steppenwolf, Allman Brothers, Yardbirds, Iron Butterfly... caldo de cultura assaz diferente do que, supostamente, deveria estar na origem de uma personagem que, antes de se tornar ela própria, a indústria desejou que acreditássemos estar perante o “novo Bob Dylan” (e não será uma aterradora versão de "Suzanne", de Leonard Cohen, pelos pré-Steel Mill, The Castiles, que fará alguém mudar de ideias). Foi, no entanto, exactamente nesses mesmos termos que, dois anos e uma “reinvenção pessoal” depois, o "manager" Mike Appel o apresentou a John Hammond, executivo da Columbia: “Com que então foi você que, segundo parece, descobriu o Bob Dylan... vamos lá ver se tem, realmente, bom ouvido, pois trago-lhe aqui um tipo melhor que o Dylan!” E o fulano que não apenas “descobrira” Dylan como também Billie Holiday, Count Basie e inúmeros outros, embora procurasse disfarçar o entusiasmo, interiormente, rendeu-se, de imediato, a "It’s Hard To Be A Saint In The City", "Growin’ Up" e "Mary Queen Of Arkansas" que acabariam por figurar no magnífico e eternamente mal amado álbum de estreia, Greetings From Asbury Park, N.J. (1973).


Tão pouco amado que, na inexplicável recém-publicada Collection: 1973 – 2012 – após dois Greatest Hits (1995 e 2009) e The Essential (2003), que finalidade serve? – se usa do subterfúgio de The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle ter sido igualmente editado em 1973 para, sem mentir nas datas de início e fim, expulsar sumariamente Greetings... de um alinhamento de 18 canções com o qual nada se aprende. Existe, entretanto, uma boa alternativa: a leitura de Bruce, de Peter Ames Carlin (Ed. Simon & Schuster), última, óptima e definitivamente esclarecedora biografia do descendente de Casper Springsteen que, no século XVII, emigrou da Holanda para o Novo Mundo.

13 March 2010

SEM COORDENADAS RECONHECÍVEIS



Jimi Hendrix - Valleys Of Neptune

A rentabilização dos santos defuntos da pop até à erosão da derradeira falangeta disponível tem sido uma das bóias de salvação a que, em desespero perante o fim irremediável e, em devido tempo, anunciado, do negócio discográfico tal como sempre o conhecemos, a indústria, ofegantemente, se tem agarrado. Em boa verdade, a coisa não é só de agora: desde a quinta reedição das compilações, agora inevitavelmente remasterizadas em absoluto state of the art" tecnológico, dos lados-B de obscuros singles, em exclusivíssima e, finalmente recuperada edição bielorussa, aos "bootlegs", enfim, oficializados (e também purificados de repugnantes impurezas sonoras), do artista anteriormente conhecido como Yabadabadoo, ou aos "live", gravados na tenra infância da lendária banda, naqueles anos em que só o pub da esquina a deixava subir ao palco, a técnica de rapar-o-fundo-ao-tacho para fazer feliz o conselho de administração da editora, por altura da apresentação do relatório e contas do fim do ano, ostenta uma já longa tradição. A infinitamente recicladora mamã (de Jeff)-Buckley poderá ter desenhado o mapa de um território de extremo abuso em que até os anjos receiam penetrar, mas ninguém é inocente. Muito menos a inefável família-Hendrix, que foi capaz de dar corpo ao milagre de converter uma discografia de três álbuns publicados em vida de Jimi Hendrix – Are You Experienced? (1967), Axis: Bold as Love (1967) e Electric Ladyland (1968) – num legado infinitamente maior.



Contextualize-se e faça-se justiça: Jimi Hendrix, como Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman ou Charlie Parker, era o exacto tipo de génio musical cujas semibreves, mínimas, semínimas, colcheias, fusas e semifusas, só, raramente ou por acidente, onde quer que fossem captadas, não transportavam quem o escutava para um universo paralelo onde os blues e o rock se convertiam em algo de incandescentemente outro. Com diz o baixista Billy Cox que o acompanhou neste instante da transição da Experience para o que lhe haveria de seguir, “só existem dois tipos de guitarristas: os que confessam que foram influenciados por Hendrix e os que também o foram mas não o reconhecem”. Valleys Of Neptune, não sendo nenhum "famous lost album", documenta muito rigorosamente aquele momento em que Hendrix, no termo da glorificação pop, disparava para um alvo onde as raízes primordiais, selvaticamente arrancadas, sonhavam com uma panorâmica infinitamente maior e, ao mesmo tempo, de novo, paradoxalmente, realimentadas pela matriz original: Elmore James e os vales de Neptuno, Rolling Stones e Cream em boomerang, wah-wah contrariando a lei da gravidade, os deltas do Mississipi e do Nilo, num espaço eléctrico sem coordenadas reconhecíveis.

(2010)