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13 April 2022


"O Tempo Arrefece"

(sequência daqui) Acerca de "O Tempo Arrefece", António José Martins acrescenta mais uma peça: “Dado o caracter estranho e vagamente fantasmagórico desta canção, pensámos ‘quais os coros cujos ambientes são mais misteriosos?...’ As Vozes Búlgaras! Este arranjo foi feito pensando um pouco que se trataria de Vozes Búlgaras numa geografia completamente diferente. Foi composta originalmente, há bastante tempo, para um cantor lírico que a cantou no Mosteiro dos Jerónimos. Agora, foi preciso esquecer totalmente o arranjo original para orquestra”. E Amélia, recordando, justamente, a colaboração, durante a Expo 98, com as búlgaras do Pirin Folk Ensemble (mas também, noutras circunstâncias, com Elena Ledda e Lucilla Galeazzi e os corais Outra Voz, Cramol, Sopa de Pedra, Segue-me à Capela e Maria Monda), completa: “A minha ideia era ter como referências todas as experiências que fui vivendo com vozes e com coros. A relação com as Vozes Búlgaras era algo que me apetecia perceber como haveria de estar presente neste trabalho. Recusei por completo a ideia de põr-me a cantar como elas. A situação é um pouco a mesma do ‘Chove Muito, Chove Tanto’: tinha uma coisa na memória e procurei construir, a partir daí, associando-lhe a recordação dos fins de tarde na Póvoa de Varzim a ver o voo das gaivotas”. (segue para aqui)

02 January 2018

CODA


Se, numa lista de 10, escasseiam vagas para aquilo que, em ano de farta colheita musical, mais estimulou os tímpanos, 52 semanas são também intervalo de tempo verdadeiramente insuficiente para, uma a uma, se ir destapando tudo o que, no dilúvio da edição discográfica, merece não passar despercebido. O que transforma o início de cada novo ano numa espécie de coda do anterior na qual, por entre justificações mal amanhadas (ler as linhas acima) e actos de contrição perante a desatenção que conduziu a ignorar o que não devia ser ignorado, se procura remediar as falhas. Sejam, então, bem-vindos à coda 2017/2018, a abrir, justissimamente, com uma daquelas peças que, só por si, comprovariam a urgência de prolongamento do calendário gregoriano: Last Leaf, do Danish String Quartet. 




Sem cair na armadilha dos intérpretes de formação clássica que, ao deixar-se tentar pela abordagem de idiomas populares, tendem a desvalorizar a própria identidade, Rune Tonsgaard Sørensen (violino, harmonium, piano, glockenspiel) Frederik Øland (violino), Asbjørn Nørgaard (viola de arco) e Fredrik Schøyen Sjölin (violoncelo) – reconhecidos como virtuosos exploradores das partituras de Bartók, Beethoven, Shostakovich, Brahms, Haydn, Mozart, Sibelius e Schnittke – propuseram-se, agora, investigar “a rica fauna das melodias folk nórdicas”. Recuando até "Dromte Mig en Drom" – a mais antiga canção secular escandinava presente na última folha do Codex Runicus (c. 1300) –, guiam-nos por 16 pontos de paragem, num fantástico périplo de dimensão equiparável (embora com as coordenadas distintivas de um quarteto de cordas clássico) ao que os Hedningarna de Kaksi! (1992) nos haviam oferecido.


A tradição musical popular é, igualmente, a matéria-prima das Sopa de Pedra, colectivo vocal feminino a capella, do Porto, e uma das mais recentes peças de um "puzzle" onde já se encontravam Cramol, Segue-me à Capela e Maria Monda (todas, aliás, reunidas em Novembro do ano passado no concerto “De Viva Voz”)




Cinco anos de gestação foram necessários para dar à luz Ao Longe Já Se Ouvia, belíssimo painel de temas maioritariamente do reportório tradicional da Beira-Baixa, Alentejo,Trás-os-Montes e Açores (acrescidos de dois de Amélia Muge e outro de José Afonso) em gloriosas polifonias corais.


O extraordinariamente intitulado Adiós Señor Pussycat constitui, enfim, o inesperado regresso de uma das lendas secretas da escrita de canções pop britânica: Michael Head (com a Red Elastic Band), ele dos Pale Fountains, Shack e The Strands, que o “New Musical Express” chegou a coroar como “our greatest songwriter”, mas a quem, uma particularmente infeliz combinação de azares e múltiplos vícios sempre impediu de se erguer acima do estatuto de culto.

Aparentemente, de novo com a cabeça fora de água, canções como "Queen Of All Saints", "Josephine", "What’s The Difference", "Wild Mountain Thyme", "Adiós Amigo" ou "Rumer", recuperam sem perdas aquele precioso e aromático "pot-pourri" de Byrds, Love e Nick Drake.

11 November 2016




De Viva Voz: quarenta mulheres divididas desigualmente por quatro grupos: Cramol, Maria Monda, Segue-me à Capela e Sopa de Pedra. O plano, nascido de um desafio de Amélia Muge, consistirá de “uma viagem musical aos confins do tempo, antecipando o futuro hoje”, assente na sábia concepção que deveria sempre servir de bússola para tal tipo de explorações: “A tradição já não era o que é nem será o que foi e nunca foi o que pensávamos que era”. A matéria-prima: o canto de mulheres e, em particular, as polifonias tradicionais oriundas das Beiras, Entre Douro e Minho, Douro Litoral e Minho, transportadas por vozes chegadas de Oeiras (Cramol), Lisboa (Maria Monda), Coimbra (Segue-me à Capela) e Porto (Sopa de Pedra). 




Nas palavras de Amélia, “são cantos que trazem a sabedoria dos tempos, que encontram sempre um modo de repor continuamente o que de essencial permanece, como característica do humano, cantos despojados que contam apenas com a voz e o corpo de quem os canta. Mas vão buscar a sua riqueza a esse despojamento - prolongam os sons das vozes de origem, das vozes rituais, encomendam cantos aos deuses e aos santos, celebram colheitas, espantam medos nos embalos, apoiam gestos de trabalho, dão mote aos tempos de luto ou de folia, celebrando os amores, a casa e o mundo”. Cruzando a maior experiência do Cramol – desde 1979, apresentou-se em Portugal, Inglaterra, Alemanha, França, Áustria e Malawi e colaborou com a Comuna, Bando, José Mário Branco, Urban Sax, Uxia, Chullage, Danças Ocultas, Camané ou Gaiteiros de Lisboa – com os embalos, encomendações de almas e folias galaico-portuguesas, árabes e judaicas das sete Segue-me à Capela, as mais recentes “sedas suaves e mantas rudes” do trio Maria Monda, e as dez vozes da Sopa de Pedra, cozinhada desde 2012 a partir de uma receita do Bando dos Gambozinos. (Teatro Tivoli, 12 de Novembro, 21.30)

31 December 2008

MÚSICA 2008 - PORTUGAL



Camané – Sempre de Mim
Tiago Guillul – IV
Cramol – Vozes de Nós
João Coração - Nº 1 Sessão de Cezimbra
Os Pontos Negros - Magnífico Material Inútil


(2008)

15 February 2008

OS DOIS MUNDOS DA TRADIÇÃO


Mnemosyne

Mal se pronuncia a palavra “tradição”, desenha-se, instantaneamente, uma estreitíssima linha que, no entanto, separa, com clareza, dois universos: um, para o qual galopam muitos dos piores sinais de tribalismo, nacionalismo e, de um modo geral, tudo o que decorre do mais aterrador instinto de territorialidade, através do qual se legitima uma extensa agenda de barbaridades, selvajarias e atrocidades – das corridas de toiros, às limpezas étnicas e à mutilação genital feminina – que, a serem suprimidas (alegam os seus defensores), amputariam as comunidades dos seus praticantes de uma parcela insubstituível de preciosa “identidade”; e o outro que um dos casos relatados por Oliver Sacks em Musicophilia - Tales Of Music And The Brain ilustra exemplarmente: Clive Wearing, um músico e musicólogo inglês vítima de uma gravíssima encefalite que lhe induziu uma amnésia profunda, ficou reduzido a um intervalo de memória de cerca de trinta segundos e preso num interminável “agora” que apagou todo o sentido de continuidade da sua narrativa de vida. Essa, apenas regressava, fragmentariamente, quando se sentava ao piano e a interpretação de um prelúdio de Bach lhe devolvia uma semelhança de existência e lhe permitia inverter o sentido da condenação que, nos fugazes instantes de lucidez, reconhecia: “Sou completamente incapaz de pensar”.



O coral feminino Cramol cuida, dedicadamente, da saúde da nossa memória colectiva e fá-lo, sem interrupção, desde há quase trinta anos. A recuperação das polifonias, cantos de escatilhar, embalos, canções de trabalho, temas de religiosidade popular, esconjuros, encomendações e maldições pagãs a que, incondicionalmente, se entregam, não só impede a mumificação da música popular tradicional por entre o bolor das páginas dos cancioneiros mas – exactamente da mesma forma que os prelúdios de Bach actuavam sobre a memória residual de Clive Wearing – contribui também para que possamos continuar a pensar e a pensar-nos. Vozes de Nós, como o anterior Cramol (1996), não tem como objectivo “modernizar”, operar cruzamentos transculturais de idiomas ou inventar fogos-de-artifício vocais. Aqui, neste duplo-CD e nas várias oportunidades em que dividiu o palco com grupos de teatro, companhias de dança ou músicos como os Urban Sax, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Danças Ocultas ou Camané, o Cramol propõe-nos só a possibilidade de uma reflexão não demasiadamente simples mas decisiva: “somos isto, recordemo-nos que vimos daqui, para onde desejamos ir?”. Precisamente o género de tesouro que Wearing, na sua tragédia individual, daria tudo para possuir.



Maria Café, das Tucanas – outro colectivo feminino, neste caso de vozes, percussões e episódicos acordeão e sopros – situa-se no polo oposto: o álbum de estreia deste estilhaço distante da galáxia Rui Júnior/Tocá Rufar/Wok sonha com uma “tradição” poliglota (para a qual inventaram, expressamente, o “tucanês”) onde os diversos veios locais se confundem e a única raiz comum se alimenta da batida rítmica. Ainda não terão iniciado uma autêntica expedição de verdadeiras descobertas nem cartografado territórios inconfundivelmente novos mas o programa e desenvolvimentos futuros deverão ser seguidos com atenção.



Entre ambos, a Ronda dos Quatro Caminhos, com Sulitânia, explora as hipóteses de uma amplificação de recursos no tratamento do reportório tradicional para o que recorre aos efectivos combinados das Adufeiras de Monsanto, do grupo alentejano Coral Guadiana de Mértola, do côro Eborae Musica, do quarteto de cordas Opus 4 e dos Cantares de Évora. O ensaio de estilização e (quase) elevação ao patamar de “música de concerto” da tradição popular é, sem dúvida, conseguido, mas é impossível não reparar como, num terreno onde já muito pouco cerimoniosamente lavraram os Chuchurumel, Gaiteiros, Sétima Legião e Amélia Muge, Sulitânia resulta excessivamente engravatado e conservador.

(2008)