Belle And Sebastian - Push Barman To Open Old Wounds
Vão-me desculpar mas não vejo melhor forma de dizer isto: há-de ser necessário ter uma vida muito próxima do estado vegetatativo — trabalhar como fiel-de-armazém em Trondheim, ser especialista em nutrição de hamsters siberianos, estar a preparar um mestrado acerca dos rituais de acasalamento das trilobites no Paleozóico — para achar que as canções dos Belle And Sebastian podem ser vagamente interessantes, imaginar que elas foram a maior oferenda dos céus àquela tribo de jovens intelectuais linfáticos que deprimem profundamente perante a devastadora visão do pacote de cornflakes vazio ou até — coloquemos as coisas mais claramente — supôr que se trata daquilo a que nos habituámos a chamar pop. Não, a música dos Belle And Sebastian é apenas o equivalente musical da "literatura" embaraçosa que habitualmente se aloja nas páginas dos diários privados e que, nos casos mais benignos, é rapidamente incinerada em auto-de-fé assim que o Clearasil começa a surtir efeito.
E, num casamento particularmente feliz de forma e conteúdo, vertida para o interior de uma morna canjinha sonora que, aparentemente, consola os corações sensíveis e apazigua os dói-dóis sentimentais. Push Barman To Open Old Wounds — a reunião em duplo CD de todos os EP da banda publicados entre 1997 e 2001 — é, assim, uma educativa excursão por esse delicado mundo de rendinhas emocionais e naperons de afectos não-me-toques que, num momento de comovente candura e sinceridade, em "This Is Just A Modern Rock Song", eles próprios fazem a fineza de explicar. Em três passos: 1º - "I'm not as sad as Dostoievsky, I'm not as clever as Mark Twain, I'll only buy a book for the way it looks, and then I stick it on the shelf again"; 2º - "This is just a modern rock song, this is just a sorry lament, we're four boys in corduroys, we're not terrific but we're competent"; 3º - "This is just a modern rock song, this is just a tender affair, I count 'three, four' and then we start to slow, because a song has got to stop somewhere". Dois CD demoram um tempo dos diabos até parar algures. (2005)