Showing posts with label Clara Ferreira Alves. Show all posts
Showing posts with label Clara Ferreira Alves. Show all posts

11 May 2013

O ADJUNTIVO MARQUES MENDES 


"Pelas minhas contas e da Wikipedia, aos 20 anos e no segundo ou terceiro ano da Faculdade de Direito de Coimbra, Luís Marques Mendes era vice-presiden­te da Câmara Municipal de Fafe. De 1977 a 1985. Tentei lembrar-me do colega de curso Marques Mendes e não consegui. Ele não se lembrará de mim. Lembro-me de que me fartei de estudar e de ir às aulas e que de Coimbra a Fafe vai uma distância. Os comboios eram lentos, ninguém tinha carro. Marques Mendes não tinha as pernas moles, galgava a distância entre os bancos da Faculdade e a Câmara como... um galgo. A não ser que tivesse tirado o curso mais tarde, como outros, começada a carreira políti­ca com a inscrição no PSD e a rápida ascensão ao etéreo assento. Lembro-me de que aos 20 anos a cabeça não está madura para câmaras, e prefere-lhes a noitada e o Penedo da Saudade. Ponha­mos a coisa assim, aos 20 anos Marques Mendes era imaturo e não lhe ficaria mal.  


Reza a biografia que ascendeu a deputado da Assembleia da República com a rapidez de quem tomou refúgio na igreja certa, e imbuído dessa santida­de percorreu várias legislaturas, da V à X, ou seja, cinco. De 1996 a 1999, foi presi­dente do grupo parlamentar do PSD. Foi secretário-geral e adjunto do governador-civil do distrito de Braga. De 1985 a 1987, com menos de 30 anos, foi secretário de Estado adjunto do ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares do X Governo. E logo a seguir, em 1987, subiu a secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do XI Governo, sendo promovi­do a ministro-adjunto do primeiro-ministro do XII Governo, de 1992 a 1995 (uff!). O denominador comum destes governos recheados de adjuntos chama-se Aníbal Cavaco Silva, de que Marques Mendes foi também porta-voz. Eis, pela mera enunciação das adjunções e adjuntivos, o esplendor de uma carrei­ra política dentro desse ninho de huma­nidades chamado cavaquismo. 



Lembro-me do cavaquista Marques Mendes, conhecido pela diligência que fazia dele uma espécie de Relvas sem telemóvel de última geração, e de a RTP se queixar, pela boca de Moniz, das interferências de Mendes na programação, sob a forma de pressões e censuras. Telefónicas. Disto, lembro-me. Era um metediço e intriguista eficaz, constava. Não sei se era verdade ou mentira, sei que no tempo dourado do cavaquismo e dos fundos europeus, a salvação de uma carreira política media-se pela capacida­de de almoçar e parlapatar com oportu­nidade e amabilidade, beneficiando o próprio e o governo. Muito do cavaquis­mo, com os seus adjuntos de adjuntos, com os seus adesivos e pensos rápidos, com os seus bandidos e alcoviteiras (cuja identidade só mais tarde seria conheci­da), trabalhava sem suavidade e com 'profunda convicção patriótica' na destruição do país, impondo-lhe um modelo de desenvolvimento e políticos subdesenvolvidos.



O regime combatia, sem suavidade, os jornais. E todas as 'forças de bloqueio'. Um dos grandes inimigos do cavaquis­mo e da sua representação da sociedade como um chouriço lusitano foi o jornal "O Independente", e foi sobretudo o seu director e fundador (com Miguel Esteves Cardoso) Paulo Portas. "O Independente" dava luta sem quartel a estas categorias de beatos sociais-democratas, armando-Ihes ciladas e satirizando os gostos pequeno-burgueses. Por razões de ódio de classe, mas também porque os gostos e vícios eram, de facto, ridículos. Promo­vidos pela prosperidade, absorveram como esponjas a mania das 'vivendas', herdada dos emigrantes enriquecidos. Lembro-me de uma manchete sobre as 'vivendas' geminadas ou gémeas de Marques Mendes e Fernando Nogueira (outro adjunto e adjunto de adjuntos, promovido por engano a chefe, fracassa­do e logo despachado para a administra­ção do banco mais próximo), a faiscar ao sol.  



A mãe de todas as vivendas era, evidentemente, a Mariani, título que descrevia o regime e os feitores. Uma boa fatia do comentário político era comida pelos intriguistas e dilatada pelos reflexos da intriga, onde o anticavaquismo discreto e educado de Marcelo Rebe­lo de Sousa reinava supremo. E o cava­quismo, com os almoços, jantaradas, cavaqueiras, encomendas, tertúlias, estendendo a 'longa manus' na banca e nos conselhos de administração, providenciando a ocupação do sistema pela matilha, foi o período em que Portugal se perdeu. Um dia, alguém fará a história deste templo, com os seus fariseus e saduceus luzindo nos óleos da unção. Um dia, alguém fará a crítica da pura irracionalidade, e não precisa ser um Kant. Marques Mendes, 'advogado e político', sempre empreendedor, prossegue o luzimento. É hoje paladino de ideias gerais, como muitos dos responsáveis pelo sarilho. E não hesita em sacrificar o conselheiro de Estado (uff!) a uma novi­dade estridente. Sem mais nem menos, o porta-voz passou de voz do dono a dono da voz. Bem feito". (Clara Ferreira Alves, "Revista"/"Expresso")

28 July 2008

PESSOAS-PANQUECAS


Nicholas Carr

"Na revista americana 'Atlantic', o ensaísta Nicholas Carr publicou um texto com o título 'What the Internet Is Doing to Our Brains'. Carr é autor de um livro sobre o tema da revolução tecnológica na informação: The Big Switch: Rewiring The World, From Edison To Google, e o que ele diz é, essencialmente, uma constatação: qualquer pessoa que esteja habituada a ler livros, e livros grandes e difíceis, com muitas páginas e muito raciocínio, livros que só dão alguma coisa se o leitor der algo em troca, apercebe-se de que se torna cada vez mais árdua a concentração nesses livros e que a tendência para a dispersão e a diminuição da atenção se tornou uma segunda natureza no leitor. Vivemos em overdose de informação desnecessária e invasiva como um tumor maligno. Escapar a esta overdose é impossível, tanto na imagem como na palavra escrita, a não ser que desliguemos todas as tomadas eléctricas. Essa informação multiplicada e, muitas vezes, burocraticamente multiplicada tende a inverter ou destruir as hierarquias e a subverter o essencial ao acessório.



Existem novas leis: a imagem sobrepõe-se à palavra, a palavra tem de estar dividida e segmentada em parágrafos e pedaços, com destaques, de modo a prender a atenção. Na luta infernal pela atenção dispersa do ouvinte, leitor, espectador, tudo tem de ser hiperexplicado ou, em alternativa, sensacional e eufórico, sensacional e disfórico. Uma vez convenientemente digerida nos intervalos de outras informações que competem entre si, a informação não chega a ser hierarquizada nas nossas mentes e tudo é igual a tudo, na grande teoria da indiferenciação cultural que gera a nossa indiferença. (...) A estupidez contamina a audiência e forja o preconceito violento e iletrado que enche as caixas de comentários e certa blogosfera azeda. Carr não fala de jornalismo, descreve dificuldades pessoais para ler um livro e inscreve a história e efeitos da inteligência artificial, explicando como estamos a ser privados de 'um reportório de densa herança cultural' (a cultura ocidental) e a ser transformados em 'pessoas-panquecas', segundo a teoria de Richard Foreman. Pessoas-panquecas, fininhas e achatadas enquanto se ligam à rede de informação pelo mero toque de um botão. Pessoas-panquecas que deixarão de ler romances russos, livros de Kant e Hegel, Aristóteles e Platão. Pessoas-panquecas que deixarão de ler, simplesmente. E que terão opinião sobre tudo"
(Clara Ferreira Alves in "Única"/"Expresso" de 26.07.08)

(2008)