"Pelas minhas contas e da Wikipedia, aos 20 anos e no segundo ou terceiro ano da Faculdade de Direito de Coimbra, Luís Marques Mendes era vice-presidente da Câmara Municipal de Fafe. De 1977 a 1985. Tentei lembrar-me do colega de curso Marques Mendes e não consegui. Ele não se lembrará de mim. Lembro-me de que me fartei de estudar e de ir às aulas e que de Coimbra a Fafe vai uma distância. Os comboios eram lentos, ninguém tinha carro. Marques Mendes não tinha as pernas moles, galgava a distância entre os bancos da Faculdade e a Câmara como... um galgo. A não ser que tivesse tirado o curso mais tarde, como outros, começada a carreira política com a inscrição no PSD e a rápida ascensão ao etéreo assento. Lembro-me de que aos 20 anos a cabeça não está madura para câmaras, e prefere-lhes a noitada e o Penedo da Saudade. Ponhamos a coisa assim,
aos 20 anos Marques Mendes era imaturo e não lhe ficaria mal.

Reza a biografia que ascendeu a deputado da Assembleia da República com a rapidez de quem tomou refúgio na igreja certa, e imbuído dessa santidade percorreu várias legislaturas, da V à X, ou seja, cinco. De 1996 a 1999, foi presidente do grupo parlamentar do PSD. Foi secretário-geral e adjunto do governador-civil do distrito de Braga. De 1985 a 1987, com menos de 30 anos, foi secretário de Estado adjunto do ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares do X Governo. E logo a seguir, em 1987, subiu a secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do XI Governo, sendo promovido a ministro-adjunto do primeiro-ministro do XII Governo, de 1992 a 1995 (uff!). O denominador comum destes governos recheados de adjuntos chama-se Aníbal Cavaco Silva, de que Marques Mendes foi também porta-voz.
Eis, pela mera enunciação das adjunções e adjuntivos, o esplendor de uma carreira política dentro desse ninho de humanidades chamado cavaquismo.

Lembro-me do cavaquista Marques Mendes,
conhecido pela diligência que fazia dele uma espécie de Relvas sem telemóvel de última geração, e de a RTP se queixar, pela boca de Moniz,
das interferências de Mendes na programação, sob a forma de pressões e censuras. Telefónicas. Disto, lembro-me. Era um metediço e intriguista eficaz, constava. Não sei se era verdade ou mentira, sei que
no tempo dourado do cavaquismo e dos fundos europeus, a salvação de uma carreira política media-se pela capacidade de almoçar e parlapatar com oportunidade e amabilidade, beneficiando o próprio e o governo. Muito do cavaquismo, com os seus adjuntos de adjuntos, com os seus adesivos e pensos rápidos, com os seus bandidos e alcoviteiras (cuja identidade só mais tarde seria conhecida),
trabalhava sem suavidade e com 'profunda convicção patriótica' na destruição do país, impondo-lhe um modelo de desenvolvimento e políticos subdesenvolvidos.
O regime combatia, sem suavidade, os jornais. E todas as 'forças de bloqueio'. Um dos grandes inimigos do cavaquismo e da sua representação da sociedade como um chouriço lusitano foi o jornal "O Independente", e foi sobretudo o seu director e fundador (com Miguel Esteves Cardoso) Paulo Portas. "O Independente" dava luta sem quartel a estas categorias de beatos sociais-democratas, armando-Ihes ciladas e satirizando os gostos pequeno-burgueses. Por razões de ódio de classe, mas também porque os gostos e vícios eram, de facto, ridículos. Promovidos pela prosperidade, absorveram como esponjas a mania das 'vivendas', herdada dos emigrantes enriquecidos.
Lembro-me de uma manchete sobre as 'vivendas' geminadas ou gémeas de Marques Mendes e Fernando Nogueira (outro adjunto e adjunto de adjuntos, promovido por engano a chefe, fracassado e logo despachado para a administração do banco mais próximo), a faiscar ao sol.

A mãe de todas as vivendas era, evidentemente, a Mariani, título que descrevia o regime e os feitores. Uma boa fatia do comentário político era comida pelos intriguistas e dilatada pelos reflexos da intriga, onde o anticavaquismo discreto e educado de Marcelo Rebelo de Sousa reinava supremo. E o cavaquismo, com os almoços, jantaradas, cavaqueiras, encomendas, tertúlias, estendendo a 'longa manus' na banca e nos conselhos de administração, providenciando a ocupação do sistema pela matilha, foi o período em que Portugal se perdeu. Um dia, alguém fará a história deste templo, com os seus fariseus e saduceus luzindo nos óleos da unção. Um dia, alguém fará a crítica da pura irracionalidade, e não precisa ser um Kant.
Marques Mendes, 'advogado e político', sempre empreendedor, prossegue o luzimento. É hoje paladino de ideias gerais, como muitos dos responsáveis pelo sarilho. E não hesita em sacrificar o conselheiro de Estado (uff!) a uma novidade estridente. Sem mais nem menos, o porta-voz passou de voz do dono a dono da voz. Bem feito". (Clara Ferreira Alves, "Revista"/"Expresso")