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29 January 2019

O PESADELO AMERICANO

  
Muito antes de Donald Trump ter identificado aquela parcela do seu eleitorado a que a deplorável Hillary Clinton chamaria “the deplorables”, já Willy Vlautin os conhecia e tratava por tu. Sim, muito provavelmente, racistas, homofóbicos e xenófobos mas, fundamentalmente – à excepção das brigadas ideológicas de facínoras ultra-direitistas que, na sombra, puxam os cordéis –, apenas aqueles milhões de "blue collars" invisíveis e ignorados, o “lixo branco” encurralado em "trailer parks" e cidades fantasma, para quem o “sonho americano” nunca passou disso mesmo, um sonho. Ou, talvez mais exactamente, um pesadelo. Não surgiram agora: habitavam há muito as canções de Woody Guthrie, Springsteen, Randy Newman ou Tom Waits, desde sempre, os blues, ou as páginas de Steinbeck, Carson McCullers, Raymond Carver e Cormac Mc Carthy. Vlautin, no entanto, mais pronunciadamente – em 12 álbuns com os Richmond Fontaine, 2 com The Delines e 5 romances –, deu-lhes voz, nomes e moradas. 



Em tempos, contara-nos a história de Wes (“Sitting on the curb, his face bloody, his right hand broken, ‘this time what am I gonna do?’”), de Ruby e Lou que se interrogavam “What if the whole world is cursed?” e, entre mil e um outros, de “Ray, he's in Fairview now, he lost his leg in a wreck, and Harlin's in jail in Rawlins, Wyoming, doing three years for breaking and entering”. Desta vez, em The Imperial, a “darkness on the edge of town” aparece transfigurada na moldura de country-soul amargamente "noir" que a "pedal steel guitar" de Tucker Jackson, os arranjos de cordas e sopros de Cory Gray e a voz calorosa de Amy Boone lhe oferecem. Mas as personagens que comparecem â chamada (“All these couples who fall apart like deserted cars alongside the road, I’ve always passed them heartbroken”) poderiam bem ser as mesmas – ou outras inquietantemente iguais – dos tomos anteriores: “Lily's sick, Irwin's fadin' fast, Carol's hocked everything, emptied the savings account, but still the mortgage is defaultin'”, as palavras de conforto soam como maldições (“You’re the destroying kind, too busy hurting yourself while everyone else does your time“) e inventários de ruínas (“All those scars, what did they do to you? We both seen some miles, more than a few rough ones for me and you”), e as súplicas por salvação (“Pour me a drink, turn down the lights, and roll back my life”) como resposta não têm senão "There ain’t no end to going down, there ain't no end, cheer up, Charley".

09 November 2009

QUARTO CRESCENTE



Nick Cave & Warren Ellis - White Lunar

Sem demasiado burburinho, Nick Cave e Warren Ellis têm vindo a converter-se numa dupla de compositores de "film-music" cuja obra não apenas exibe um perfil de autor(es) claramente definido como, especialmente, interiorizou, por inteiro, o quadro de funções e necessidades a que uma partitura para cinema deve responder.



O que, para quem se habituou à ideia de que à sua obra deve estar sempre reservado o primeiro plano, não haverá de ser propriamente intuitivo. Tal como, tomar consciência de que, por essa mesma razão, só raramente ela conquistará autonomia em relação à totalidade de que faz parte, também implicará alguma aprendizagem.



White Lunar, reunindo a música de Cave e Ellis para diversos filmes – nomeadamente, The Assassination of Jesse James By The Coward Robert Ford (2007), The Proposition (2005, com argumento do próprio Nick Cave) e The Road (ainda não exibido, a partir do livro de Cormac McCarthy) – é uma óptima demonstração de tudo isto: se as bandas sonoras desses três filmes (em particular, a do magnífico The Proposition) sobrevivem intactas à amputação das imagens, as que se incluem no segundo CD poderão ser pertinentes no ecrã mas, tomadas em si mesmas, dificilmente ultrapassam a condição de música incidental.

(2009)

18 January 2008

THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN * (V)

(* segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")

O ESPÍRITO DO LUGAR



Buddy & The Huddle - Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree"

Na terminologia do espiritismo, a isto, chama-se "channelling": a abertura de um canal através do qual se torna possível a passagem e incorporação de um espírito noutro corpo físico. Foi exactamente isso que aconteceu com Roland Kopp e Michael Ströll, aliás, Buddy & The Huddle, em Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Sutree". Mas, neste caso, numa dimensão que excede claramente a superfície de uma mesa de pé de galo. O espírito que eles incorporaram foi o de uma cultura, de um lugar e de uma música inteiros. Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree" é a banda sonora imaginária para um filme imaginário realizado a partir de um potencial argumento real, o romance Suttree, do escritor sulista norte-americano Cormac McCarthy.


Cormac McCarthy

E foi justamente a paisagem geográfica, espiritual e humana desse mesmo Sul mítico de Faulkner ou Flannery O'Connor reencenada pela história e pelas personagens de McCarthy (em Knoxville, no Tenessee) que serviu de ponto de partida e de inspiração para o projecto de Kopp e Ströll. O detalhe mais desconcertante é que — como os seus apelidos deixam adivinhar — ambos são alemães, tendo-se deslocado propositadamente ao Tenessee para absorver a atmosfera local. Foi, decerto, aí que o "channelling" teve lugar. Kopp e Ströll deixaram-se literalmente possuir pelo espírito do lugar que já antes se entranhara em McCarthy (embora sulista pelo estilo, nasceu em Rhode Island) e criaram aquele que é, indiscutivelmente, um dos mais assombrosos álbuns genuinamente norte-americanos. Porque a verdade é que este Sul "fake" e virtual (tal como o de Paris, Texas do também alemão Wim Wenders) é mil vezes mais real do que a realidade.



Utilizando uma variedade de cordas, sopros e percussões tanto "locais" como "universais" (banjo, bandolim, lap-steel guitar, resophonic guitar, vibrafone, marimbafone, glockenspiel, acordeão, didgeridoo, sampling, guimbarda, sax, tuba, trompete, quartetos de cordas), a orientação nunca foi, contudo, a do documentarismo etno-antropológico. O mergulho na América profunda e no ambiente da narrativa de McCarthy é que determinou o rumo da criação musical e das diversas escolhas que se sucederam nesta sequência de vinte e cinco instantâneos musicais que obedecem exclusivamente a um ordenamento do tipo "stream of consciousness". Do country desolado e metafísico às trompetes mariachi, ao rockabilly e ao jazz/cabaret de fim de noite passando por paisagens sonoras que poderiam ter sido assinadas por Ry Cooder, Jon Hassell ou Tom Waits ou pelos "separadores" cirurgicamente extraidos do idioma minimalista, Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree" é uma permanente alucinação que paira sobre uma geografia paralela. Tanto mais perturbadora quanto se descobre como ela coincide ponto por ponto com a imagem que os verdadeiros mapas revelam. (1998)

11 June 2007

GRANT MCLENNAN (1958-2006)



A (auto)biografia está toda nas vinte e cinco linhas de "Cattle And Cane", de Before Hollywood (1983), o segundo álbum dos Go-Betweens. Começa com "I recall a schoolboy coming home through fields of cane, to a house of tin and timber and, in the sky, a rain of falling cinders". Depois, surge "a boy in bigger pants, like everyone just waiting for a chance, his father's watch he left it in the shower". No final, "a bigger brighter world, a world of books and silent times in thought, and then the railroad, the railroad takes him home, through fields of cattle, through fields of cane". E sempre "the waste, memory wastes - further, longer, higher, older". Grant McLennan, com Robert Forster, era metade dos Go-Betweens, a banda que, nos anos 80, com os Triffids e Nick Cave, deu notícias de uma pop superiormente poética e letrada na Austrália. Gostava de Cormac McCarthy, Raymond Carver, Dylan e Springsteen. Morreu, enquanto dormia, no passado sábado, em Brisbane. Num dos enormes álbuns do século passado — Liberty Belle And The Black Diamond Express (1985) —, escreveu uma das mais belas estrofes da poesia pop: "When the rain hit the roof, with the sound of a finished kiss, like a lip lifted from a lip, I took the wrong road down". A memória não se esvai mas dói. (Maio de 2006)