A petúnia murcha, a suave e fofa costureirinha, a meiga Floribella, a deliciosa
mistura de professora primária solteirona, Laurinda Alves de saias,
escuteirinho sonso e xâmane de comuna hippie do sector dos bancários, o verdadeiro Tózero, o autêntico Cocó Rosie do Rato, está a ponderar "sem rancores" e o universo à volta rescende a flores de jasmim
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23 November 2024
10 March 2013
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03 August 2008
O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (IV)
valter hugo mãe *
"Um dos seus amigos, Paulo Brandão, programador do Theatro Circo de Braga, fez a instalação 'o teorema de valter' para uma exposição no Museu Nogueira da Silva. "Ele só pensa em coisas escatológicas, tenebrosas e substancialmente imorais. Disse-me que eu ia ser o seu objecto de arte. Pediu-me as minhas unhas, cabelos, pêlos púbicos, urina e ainda esperma. É um dos meus melhores amigos e não tive como não me sujeitar à violência".
"Achei que éramos aborrecidamente convencionais: todos brancos, com uma família portuguesa normalíssima, sem nenhuma megadesgraça e nenhum brilho especial, não temos nenhum amigo africano nem transexual, somos chatos de tão normais".
(nota PdC: e uma coisa leva à outra, numa prodigiosa sucessão de acontecimentos...):
"Antony é personagem de 'o nosso reino' o primeiro romance de valter hugo mãe (...). É o senhor hegarty 'passando pelas terras como prova de algo maior. um descanso para os temerosos do fim da vida. uma esperança nas coisas do lado de lá'. O escritor e o músico são amigos ('dentro do que uma amizade à distância pode ser'). 'Gostamos muito um do outro', diz valter hugo mãe (...). Um dia, num café, valter falou a Antony da sua última paixão musical, Devendra Banhart. Antony não conhecia. Foi ouvir e depois convidou Devendra para participar no seu novo disco, ficaram amigos, através dele chegou às Coco Rosie. Quando Devendra veio tocar a Santa Maria da Feira - experiência que deu origem a uma canção 'Santa Maria da Feira' ('Comiendo una peira en Santa Maria de la Feira'), do álbum Cripple Crow -, Antony tinha-lhe dito para tratar bem um amigo português que no final ia ter com ele ao camarim. 'Devia estar com uma cara de parvo muito grande, porque mal me avistou Devendra percebeu logo e perguntou se eu era o amigo do Antony'. 'Sou eu o cromo', respondeu valter hugo mãe".
(Isabel Coutinho in "Ípsilon"/"Público" de 1.08.08)
* o autor faz questão nas minúsculas: "As minúsculas ligam o texto, aceleram-no, precipitam o leitor. As vírgulas ficam menos virguladas e os pontos menos pontuados".
(2008)
23 October 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XII)
OS SUSPEITOS DO COSTUME
Vashti Bunyan - Lookaftering
A história (com "h" minúsculo e maiúsculo) começa a repetir-se demasiado enjoativamente. E segue, essencialmente, este plano narrativo: 1) músico dos anos 60/70 grava álbum que, na altura, é "barbaramente" ignorado; 2) durante décadas, garantem-nos, os raros exemplares sobreviventes são ciosamente guardados por um "inner circle" de iniciados que, não só os veneram como se do próprio prepúcio de Jeshua se tratasse, mas ainda os copiam e fazem circular clandestinamente, de mão em mão, espalhando a boa nova; 3) quando, no grande desígnio cósmico, finalmente, os astros são favoráveis ao acolhimento e consagração pelo povo eleito, o álbum é reeditado e criticamente recebido por coros de "hossanas" que louvam o génio miseravelmente ignorado pelos coevos mas, agora, justamente elevado à sua merecida e transcendente dimensão. A coisa tende a passar-se na área folk e regiões limítrofes (já lá vamos) mas não lhe está necessariamente circunscrita. Decisivo mesmo é que a(s) criatura(s) em causa seja(m) irremediavelmente obscura(s) por causa da indispensável aura de "artista maldito". Aconteceu recentemente com First Utterance, dos Comus (1971), Red Hash, de Gary Higgins (1973), e também com Just Another Diamond Day, de Vashti Bunyan (1970) que é o que, agora, nos interessa.
É um típico episódio dos patéticos "golden sixties": jovem estudante de Arte é expulsa da escola e entrega-se à música; uma ou duas almas penadas qualificam-na como "a nova Marianne Faithfull" ou "o Bob Dylan feminino"; nada acontece; a jovem estudante, por intermédio do amigo Donovan (para os menos íntimos: "o Bob Dylan britânico" de então), tem notícia de que o paraíso hippie existe e está localizado na ilha de Skye; com um cão, um namorado, uma guitarra e uma carroça de ciganos, viaja até ao jardim do Éden para, à chegada, descobrir que as crianças floridas se tinham já aborrecido de tanta felicidade e regressado a Babilónia; após mais uma expedição ao Lake District (bom gosto tinha ela), grava álbum com notáveis da folk (Dave Swarbrick, Simon Nicol, Robin Williamson), produzido por Joe Boyd; nada acontece; filhos, "vida no campo" e trinta anos de solidão; 2000 — reedição do álbum e glória. Suspeitos? Os do costume: a catatua Newsom, as manas Coco, o profeta Banhart (isso, "free-folk", "psych-folk", "freak-folk", ou lá o que é). Com direito a segundo álbum — este —, aos 60 anos, e prévio EP (Prospect Hummer) com os Animal Collective. Como eram (e são, porque se mantêm exactamente iguais), então, as canções de Vashti Bunyan? O género de vestidinho de chita musical para meninas de tranças e malmequeres no cabelo, entoada por uma voz incapaz de perturbar o hálito de libélulas. Não há paciência. (2005)
15 October 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XI)
FILOSOFIA GREGA
FILOSOFIA GREGA
Devendra Banhart - Smokey Rolls Down Thunder Canyon
Eis-nos perante uma questão hermenêutica assaz bicuda: a) Devendra Banhart admite publicamente que o elemento catalisador para Smokey Rolls Down Thunder Canyon foi a sua separação de Bianca Cassady, uma das duas manas Coco; b) quase no mesmo fôlego, informa-nos que “um filósofo grego, talvez Aristóteles, um desses gajos, disse que a alma é húmida e que tudo o que é seco representa o mal. Portanto, a masturbação é uma arma contra o mal e é por isso que vemos tantos pénis na arte grega. O esperma, sendo húmido, é uma protecção, uma metralhadora que possuímos para nos defender contra a secura e, consequentemente, contra todos os males”.
É exactamente este o ponto em que o rigor exegético nos obriga a uma crucial interrogação: deveremos estabelecer uma relação de causa e efeito entre a) e b), constituindo o álbum o nexo explicativo ou, talvez mais precisamente, a prova material ela mesma, que demonstra factualmente que de uma coisa decorreu necessariamente a outra? A interpretação parece inteiramente plausível, tanto pelo que resulta da escuta de Smokey Rolls Down Thunder Canyon como pela revelação complementar segundo a qual “este foi o pior ano da minha vida”. Há karmas terríveis e o de Banhart não é dos mais fáceis: filho de uma devota do Guru Maharaji Pram Rawat que, previsivelmente, o baptizou como Devendra (isto é, “Rei dos Deuses”), por volta dos nove anos, forças que não comandava conduziram-no a entrar no quarto da mãe e a experimentar um dos vestidos dela, instante místico transfigurador que mudaria para sempre a sua vida: “Transformei-me numa mulher o que, praticamente, me autorizou a cantar, utilizando aquela outra parte de mim. Senti como se tivesse desbloqueado o lado feminino da minha alma. Nunca me tinha sentido particularmente talentoso, nunca me tinha visto como músico, por isso, precisava de alguma coisa, dentro ou fora de mim, que me desse essa permissão”.
Para o autor da dificilmente esquecível linha poética “comiendo una peira en Santa Maria de la Feira”, esse foi o momento catártico que (podendo também, eventualmente, contribuir para compreender melhor o desentendimento com a mana Bianca), anos mais tarde – após outras experiências enriquecedoras como aquela em que, na companhia dos índios Ianomani da Amazónia (entre os quais, segundo notícias recentes, existirão, aparentemente, 200 militantes do PSD), tripou desvairadamente sob o efeito do Yopo -, o levaria a gravar álbuns como Oh Me Oh My... The Way The Day Goes By The Sun Is Setting Dogs Are Dreaming Lovesongs Of The Christmas Spirit (2002), Rejoicing In The Hand (2003), Niño Rojo (2004) e Cripple Crow (2005), textos sagrados e pedras inaugurais do “freak-folk”. Smokey surge, então, como porto de abrigo de um doloroso calvário existencial que, inevitavelmente, lhe pulverizou a personalidade – será ele Caetano Veloso? Neil Young? Manu Chao? Carmen Miranda? Marc Bolan? Bing Crosby “on acid”? – mas lhe proporcionou, por fim, algum alívio. Será um alívio solitário mas, por agora, terá de servir. (2007)
28 September 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (X)
Circulus - The Lick On The Tip Of An Envelope Yet To Be Sent
A culpa é da corrente estética que, de agora em diante, será designada como "sympathy for the débil" e que nos trouxe avestruzes como Devendra Banhart, Joanna Newsom ou CocoRosie. Mas igualmente do mau hábito definitivamente instalado de não fazer os TPC. Porque, se assim não acontecesse, seria bastante simples escutar este álbum de estreia dos londrinos Circulus e, instantaneamente, identificá-los como uma versão taralhoca dos Steeleye Span, decididamente anacrónica e assaz dispensável. Segundo consta, o objectivo era criar uma "medieval progressive band" (seja lá isso o que for) e, trajados a rigor com "roupa de época", encorajar o "homo sapiens" contemporâneo "to become more like primitive man, a bit more open minded". O que isso terá a ver com a Idade Média — já agora, o que o disco vagamente contém de "early music" estropiada é bastante mais renascentista do que medieval... — não parece imediatamente evidente. Mas também nunca ninguém nos demonstrou que o uso e abuso de cogumelos mágicos conduzia em linha recta à clarividência. Ficamos, então, com uma trupe de sete maduros ataviados como os Men In Tights de Mel Brooks, em que a caricatura de Maddy Prior de serviço dá pelo nome de Lo Polidoro, os outros misturam cromornes, flautas de bisel, bongos, cistros e Moogs (é a modernidade, estúpido!) e, por entre lá-lá-lás e folk janada, todos cantam lustrosas pérolas como "banished to a distant star, they could not stand our motorcars, vanished from our woods and fields, they're waiting for the air to clear, power to the pixies!". E, não, eles não estavam a pensar em Frank Black. (2005)
21 September 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (IX)
CocoRosie - La Maison De Mon Rêve
É um daqueles típicos casos em que não se sabe se se há-de rir, se se há-de chorar ou, pura e simplesmente, ficar (um bocadinho) irritado. Mas o que se sabe de certeza é que a mais recente invenção do universo "indie/freak/alternativo" que, aparentemente, dá pelo nome de "new folk" ou "free folk" (seja lá isso o que for) não é senão a tradução contemporânea de algo que sempre teve o seu público: a estética do tolinho da aldeia, do suposto "idiot savant" que, quanto mais incoerente e apatetado, maior é o séquito de seguidores, presos de cada pérola que o "mestre", inadvertidamente, segrega. Na famigerada sequência de dementes com selo de aprovação "indie" como Daniel Johnston, Julian Cope ou Rocky Erickson, abre-se hoje um novo campo de acção que combina com rara felicidade a máxima incompetência do punk, o pataroco bucolismo hippie e o surrealismo tal como é praticado nos melhores hospitais psiquiátricos. Agora, em registo preferencialmente acústico, toscamente artesanal (deve dizer-se "lo-fi"), "poeticamente" infantil e "naïf".
Já conhecíamos Devendra Banhart, Puerto Muerto, anuncia-se Joanna Newsom, eis, então, as CocoRosie. Ou seja, as manas Bianca e Sierra Cassidy, americanas expatriadas na inevitável mansarda parisiense, entretidas a miar melodiazinhas de sol-e-dó (que, garantem-nos, se inspiram na vetusta tradição dos blues e do gospel), a tocar um ou dois acordes na guitarra, um fiozinho de sopro na flauta e a produzirem "bruitages" de fundo porque sim, porque é "cute". Não sei bem porquê mas também nos confessam coisas lindas como "all I want with my life is to be a housewife", "I once fell in love with you just because the sky turned from gray to blue" ou, quando lhes dá, digamos, para a elevação "intelectual", "every angel's terrible, said Freud and Rilke all the same, Rimbaud never paid them no mind, but Jimmi Morrison had his elevator angels". Yeah, right. Na capa elas dão beijinhos. Voltem Belle & Sebastian, tudo vos está perdoado. (2004)
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