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04 November 2007

NO MUNDO REAL



Chuchurumel - Posta Restante




David Fonseca - Dreams In Colour




Clã - Cintura




Jorge Palma - Voo Nocturno

Um antigo refrão da história de quase todas as coisas nacionais ensinou-nos que, de um modo geral, tudo tende a chegar a Portugal com atraso, atenuando, assim, o potencial positivo do que é bom e agravando o negativo do que é mau. Actualmente, porém, temos de reconhecer que, por efeito da mundialização instantânea da informação, o mal já nos chega na hora, embora o bem – em consequência da inércia entretanto instalada – ainda vá levando o seu tempito. Trocando por miúdos, para o que agora interessa: se o início do estertor final da indústria discográfica global, tal como nos habituámos a conhecê-la, não provocou imediatos abalos sísmicos entre nós, agora que nos aproximamos do apocalíptico desfecho, o nosso pequeno e paroquial céu está a segundos de nos cair sobre a cabeça. E, por muito pequeno que seja, vai doer.



Paradoxalmente, bastante mais do que outros bem maiores. Porque, se uma das soluções para compensar a gigantesca fatia do mercado discográfico (brevemente, a totalidade) que o “download” livre de ficheiros na Internet diariamente devora se poderá encontrar no reforço, alargamento (e encarecimento) do circuito de concertos, num espaço geográfico limitado como o português, onde uma tournée “nacional” com condições e rentabilidade mínimas se esgota numa mão-cheia de datas, o futuro não augura, realmente, nada de bom. Acrescente-se ao cenário a velha e familiar “crise” que, atavicamente, faz questão de nos fazer companhia e não haverá baldes de tinta negra que cheguem para o pintar. Continuam a existir discos “de ouro” e “platina” (a “prata”, por razões de decoro, foi discreta e caridosamente eutanasiada) cunhados naquela liga metálica pouco nobre que Christopher Pinchbeck inventou, mas nem a melhor cosmética do desastre o poderá dissimilar por muito tempo. Sobra a hipótese da internacionalização que, até agora, tem estado quase exclusivamente reservada ao fado (e expressões afins, mais ou menos “étnicas”) e a algumas margens “experimentais”/”de vanguarda”. E, mesmo aí, não a todos, frequentemente, não àqueles que verdadeiramente o mereceriam e, em todos os casos, numa dimensão a muitos anos-luz de distância de um estatuto razoavelmente equiparável ao de – para dar apenas um exemplo oriundo da “liga dos pequenos e médios países” do universo musical – Björk.



Não carregando demasiado no tom aterrador de profecia bíblica, estes poderão ser alguns dos últimos discos de música portuguesa publicados segundo as regras da velha ordem editorial – tanto os que ainda se abrigam sob a sombra de “majors” em acelerado processo de retirada estratégica como os que recorrem a estruturas “independentes”. O que, especialmente em versão lusa, poderá ser a nova ordem, é tudo menos claro. Mas, enquanto não se clarifica, parece-me sensato que, caso o tenham, os músicos portugueses não larguem o seu “day job”. Posta Restante, dos Chuchurumel, por exemplo: mesmo tendo em conta que Sexto Sentido, da Sétima Legião, ou toda a discografia dos Gaiteiros de Lisboa e de Amélia Muge estabeleceram um elevado termo de comparação relativamente aos modos contemporaneos de lidar com a tradição musical popular, é um magnífico álbum onde os materiais sonoros – encarados quase como “found sounds” montados de modo sabiamente eisensteiniano ou reformulados e transfigurados tecnológicamente e no sentido de uma reavaliação propriamente musical – transportam instantaneamente para o presente as marcas de uma memória que, escutada assim, nunca nos ocorreria qualificar como “arqueológica”. Todas estas “cartas” (sob a forma de mazurkas, xotiças, romances ou cantigas de cego pedinte em registo mutante) exigem ser escutadas por ouvidos de hoje mas, como garantir-lhes a sobrevivência para além da micro-cena “folk” nacional?



Muito mais dificilmente isso acontecerá com Dreams In Colour, de David Fonseca: internamente, decerto deixará a perder de vista nas listas de vendas o disco dos Chuchurumel – e 20 mil magras cópias já inscrevem uma platina jeitosa no currículo – mas não será pelo facto de se exprimir em inglês (variante “Officer Crabtree”, de Alô, Alô, é verdade) que esta pop cada vez mais ligeira, orelhuda e próxima de uma rítmica e instrumentação de pedagogia-Orff infantil poderá dar um passo para lá de Elvas. Assobio-Primavera-Verão (que foste tu fazer, Andrew Bird?), pose “indie”-mas-sem-complexos e tudo, trata-se apenas de “produto local” e, como tal, sujeito à nova lei implacável que, actualmente, impede que um êxito como o dos Silence 4 se volte mais alguma vez a repetir.



Cintura, dos Clã – que deverão passar a ser considerados como a mais legítima descendência de Sérgio Godinho (com quem, não por acidente, já, em várias oportunidades, cruzaram caminhos) no pequeno mundo da pop lusófona – coloca a música do grupo num patamar menos tenso que o óptimo Rosa Carne (2004), areja-a e, sem abrir mão da complexidade da arquitectura anterior, teria tudo para poder, finalmente, projectar a banda de Manuela Azevedo para uma visibilidade que a sua excelente meia dúzia de álbuns já absolutamente justifica. Desde que, naturalmente, o seu núcleo de fãs assinasse uma espécie de juramento de sangue segundo o qual, nunca por nunca, cometeria o pecado de o adquirir por outros meios que não os legalmente previstos…



... justamente o mesmo tipo de pacto que Jorge Palma poderia propor aos seus (mas ele tem o terrível problema de ser transgeracional…) para que Voo Nocturno – provavelmente, a sua colecção de canções onde, de forma mais exacta e consistente, faz coincidir o sentido de textos e melodia, embora um ou outro excesso “rockista” se dispensasse – não tivesse demasiados problemas de tráfego aéreo. O que, no mundo real, não parece estar a ser tarefa simples. (2007)

21 October 2007

PECHISBEQUE
 

Como os melhores homens de negócios, o londrino Christopher Pinchbeck (1670 - 1732), tinha um olho no lucro e outro naquilo que respondia às exigências do tempo. Havia gente que gostava de exibir joalharia vistosa mas não tinha dinheiro para comprar ouro? Era arriscado viajar pelas estradas da época, infestadas de salteadores, com as "family jewels" demasiado à vista? Pois bem, o senhor Pinchbeck oferecia a solução para o problema: uma liga de cobre e zinco — aquilo que, para toda a eternidade lusófona, em corruptela epónima do seu apelido, passaria a ser conhecido como "pechisbeque" — que, à vista desarmada dos não demasiado conhecedores, passava muito bem por ouro. Pode ser pindérico mas, o que parece, é. Até ver. Imagino que não terá sido pelo facto de Christopher Pinchbeck se ter dedicado também à construção de "autómatos musicais" — ainda que não deixe de ser igualmente interessante... — que a Associação Fonográfica Portuguesa se tenha decidido a entrar na lógica do "pechisbeque". Mas, numa época em que, depois do dinheiro fácil (demasiado e pacoviamente fácil), os tostões se contam um a um e os bandoleiros do "download" espreitam em cada esquina da Internet, a corporação da indústria discográfica nacional nem sequer pestanejou: o galardão de "disco de ouro" valia 20 mil cópias? Deixem-se de tretas... acaba-se com a "prata" (10 mil) e a "prata velha" passa a ser igual ao "ouro novo" (os mesmos 10 mil exemplares). A "platina" eram 40 mil? Corta-se isso por metade e 20 mil chegam e sobram. Não nos lixem. Crise é crise. Pode ficar tudo igual mas salvam-se as aparências. É Portugal. E, que raio, o Pinchbeck até era inglês e não morreu pobre... Parece que, lá para Setembro, a "prata", em segundas núpcias, poderá ser ressuscitada para as miseráveis cinco mil cópias, a fim de "estimular os novos valores" *. O que é preciso é não dar parte de fraco. A República Checa, a Áustria, a Bélgica, a Dinamarca, a Noruega, a Hungria, a Grécia ou a Irlanda também não podem cantar de galo. Toca a todos. Mas a malta safa-se... Quando "isto" acabar, logo se vê. É prata mas parece ouro. É ouro mas parece platina. O Pinchbeck é que sabia. Quando tivermos tempo, pensamos nisso a sério.

* afinal, parece que não...

(2005)