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01 September 2024

 
(sequência daqui) O mais intrigante é que, aparentemente, David Lynch tinha perfeita consciência do que estava em jogo: "Sem uma ideia, nunca conseguiremos ir a lado nenhum. As ideias são oferendas lindíssimas. Digo sempre que desejar uma ideia é como colocar um isco no anzol. Se apanhamos uma ideia de que gostamos, é um belo, belo dia". E, a despeito de as primeiras evidências não revelarem sinais do borbulhar de qualquer ideia, preferiu insistir: "Como sucede com qualquer coisa nova, precisamos de algum tempo para nos habituarmos a ela. A primeira vez que ouvimos, soou-nos terrível", diz Lynch. "Depois, ficámos na dúvida", confessa Chrystabell. "Ouvimos outra vez. Tratava-se só de sintonizar bem o cérebro. Era fantástico!" Receio bem que a primeira opinião fosse a mais certa. A propósito, qual era, afinal, o segredo?

28 August 2024

 
(sequência daqui) Mais prosaicamente, David Lynch tinha "caixotes e caixotes" de gravações de Angelo Badalamenti (o seu fidelíssimo compositor desaparecido em 2022) bem como do "sound designer" Big Dean Hurley aos quais, carinhosamente, chamava "lenha para a fogueira". Já habituado a trabalhar com Chrystabell - na banda sonora de Inland Empire (2006), no álbum de 2011, This Train, no EP Somewhere In The Nowhere (2016), e, enquanto actriz, na pele da agente, Tammy Preston, em Twin Peaks: The Return (2017) -, convocou-a para, no seu Asymmetrical Studio, de Los Angeles, participar em sessões de improvisação e montagem sonora experimentais. A inspiração, recorda Lynch, vinha ainda de Angelo Badalamenti: "Ele costumava dizer, 'David, tudo se resume a estas 12 notas'. Mas esta música talvez contenha mais do que 12. Quando arriscamos acidentes e ousamos experiências, tudo é diferente". É verdade. Mas se, na obra cinematográfica de David Lynch, os desdobramentos e multiplicações de figuras e personagens desenvolvem uma fertilíssima (i)lógica própria, em Cellophane Memories, a voz de Chrystabell - um soprano velado, sussurrado sobre o microfone - fantasmaticamente duplicada, triplicada, "cut-up", "looped" e revertida, gera apenas uma massa sonora vocal confusa, desnecessariamente informe e sem rumo. (segue para aqui)

25 August 2024

O ISCO E O ANZOL
Não será exactamente como a história de Nicolás Maduro acerca das visitas que o já falecido Hugo Chávez lhe fazia sob a forma de um passarinho azul, mas anda lá perto. Conta, então, David Lynch que, durante um passeio noturno pela floresta, por cima das altas copas, avistou uma luz que cintilava. A luz transformar-se-ia na voz de Chrystabell que - aqui, à maneira do fenómeno psicadélico de Fátima - lhe revelaria um segredo. A própria Chrystabell, acerca do que daí resultou no álbum Cellophane Memories, explica que "possui muitas portas que ficaram abertas para nos maravilharmos. Como se fosse 'mood music'. Não porque crie um 'mood', mas porque é capaz de reflectir o 'mood' em que estivermos". E, acrescenta Lynch, "A transparência destas vozes multiplicadas e sobrepostas permite que, por trás de uma, possam escutar-se as outras. Como se fosse um celofane que evoca memórias", avisando que devemos esperar "o tipo de paisagens sublimes que muitas vezes se calcorreia em busca de um amante perdido: céus azuis e brancos, rosas vermelhas, trevas de tempestade, remoinhos de vento e perfumes estivais". (daqui; segue para aqui)

19 October 2022

"My Blood"

(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.

14 October 2022


(sequência daqui) Para orientar o trânsito nesse potencial labirinto, foi, uma vez mais, escolhido o ubíquo John Parish (Dry Cleaning, PJ Harvey, This Is The Kit, Chrysta Bell...) e deixados os arranjos intrincadamente geométricos para quarteto de sopros nas mãos de Jess Vernon (This Is The Kit), primeiro responsável pela profundidade de campo, minimal mas imprescindível. A Jesca Hoop que, há poucos anos, reivindicava liberdade total – “Temos de exprimir o que sentimos. Se somos camaleões, deixemos que as nossas cores mudem e brilhem. Incorporemos novas linguagens. Resistirei sempre à ideia de que não posso jogar com formas de expressão que não provenham da minha educação ou do meu ambiente próximo. O mundo é a nossa ostra e a arte é liberdade” –, essa, permanece saudavelmente alérgica aos tribalismos contemporâneos: “Juntamo-nos sob bandeiras para nos protegermos contra os inimigos que fabricamos. Talvez devêssemos antes pensar noutras formas de sobreviver neste vasto e complexo mundo”.

18 August 2021

 
(sequência daqui) Por essa altura, os Goon Sax tinham só ainda dois álbuns publicados – Up To Anything (2016) e We’re Not Talking (2018) – e era preciso um imenso salto de fé para crer que o que escutávamos era, realmente, “apenas uma coincidência” e não míticas, secretas e inéditas gravações perdidas dos autores de Liberty Belle and the Black Diamond Express (1986), algures entre Before Hollywood (1983) e Spring Hill Fair (1984). Poderão ter começado, confessa Louis, como “uma piada estúpida e divertida destinada a durar nem seis meses e que ainda hoje me custa a acreditar que se tenha tornado uma coisa séria que continua a existir” mas, chegados ao terceiro álbum, Mirror II, aquilo em que deveremos realmente concentrar-nos é na afirmação final de Robert: “Eles têm apenas 20 anos e, de certeza, vão ainda mudar muito”. Entregues nas mãos de John Parish (e quem, dos Dry Cleaning a PJ Harvey, Aldous Harding, This Is The Kit, Jesca Hoop ou Chrysta Bell, não lhe passou já pelas mãos?) que os conduziu até Bristol, aos Invada Studios de Geoff Barrow (Portishead), não sairam propriamente irreconhecíveis mas o "pool" genético ampliou-se largamente. A começar logo pelo título, segundo Riley Jones, o momento em que uma decisão de acaso ganhou um novo sentido: “Estava a ler The Philosophy Of Andy Warhol e, às tantas, ele diz algo perfeito: ‘Estou certo que, se olhar para um espelho, não verei imagem nenhuma. As pessoas estão sempre a dizer que sou um espelho. Mas, se um espelho olha para outro espelho, o que há para ver?’ O título (Mirror II), de início, era totalmente arbitrário mas passou a significar essa reflexão sobre os reflexos e o modo como, permanentemente, nos influenciamos uns aos outros e nos fazemos ver como verdadeiramente somos”. (segue para aqui)

22 April 2019

SONHOS VISCERAIS 


Desmond Morris, zoólogo, etólogo, escritor e, aos 91 anos, um dos últimos elos vivos com a primeira geração de surrealistas, publicou no ano passado The Lives Of The Surrealists no qual, contra a habitual classificação dos membros desse movimento enquanto figurativos e abstractos, veristas e absolutos ou oníricos e "free-form", propõe cinco categorias diferentes. A segunda é o “surrealismo atmosférico”: “O artista apresenta uma composição realística mas com uma intensidade de tal modo estranha que as cenas representadas assumem uma qualidade onírica. Exemplo: Paul Delvaux”. Associando a isso a “regra básica da filosofia surrealista” que, à frente, enuncia – “Trabalhar a partir do inconsciente, não analisar, não planear, não usar a razão, não aspirar ao equlíbrio e à beleza. Em vez disso, permitir que os pensamentos mais obscuros e irracionais habitem as vossas telas. Deixar que os quadros se pintem a si mesmos enquanto os observam” –, mais palavra, menos vírgula, poderia, facilmente, estar a caracterizar a obra de David Lynch. Ou, para o que agora importa, a de uma das suas criaturas, Chrysta Bell. 


Num álbum (This Train, 2011), um EP (Somewhere In The Nowhere, 2016), a participação na banda sonora de Inland Empire (2006) e na oferta de encarnação da personagem da agente do FBI, Tammy Preston, em Twin Peaks: The Return (2017), Lynch não apenas co-assinou um muito particular universo de canções e actuou como bússola estética de Chrysta Bell mas seria também o trampolim para um percurso autónomo. A produção do omnipresente John Parish asseguraria optimamente a transição no mais que perfeito We Dissolve (2017) e, no ano passado, um EP (Chrysta Bell) deixava adivinhar o que é, agora, o quarto álbum a solo, Feels Like Love: a torre de controlo era já ocupada por Christopher Smart (co-autor, baixista e produtor) e aí se incluiam três peças (recuperadas neste CD) que davam o tom para o futuro – "Blue Rose" (Julie London em processo de dissolução sumptuosamente melódico), "Everest" ("über-torch song" em estado de graça) e "52Hz" (a metáfora da baleia que comunica numa frequência indecifrável). As seis que completam o disco, do "noir" translúcido de "Time Never Dies" e "Vanish" à narcótica "Red Angel", não são senão a exuberante confirmação do desejo de Chrysta Bell: “Trabalhar ainda a matéria dos sonhos mas de sonhos mais viscerais. Não domestiquei ainda o animal selvagem mas tornei-me uma testemunha mais próxima da sua verdadeira natureza”.

21 May 2018

Chrysta Bell - "Swing With Me" 
(live at Teatro Virgínia, Torres Novas, Portugal)

24 April 2018

NA ALTURA CERTA 



Há menos de um ano, nos ecrãs de televisão de todo o mundo, Chrysta Bell habitava as assombrações de David Lynch em Twin Peaks: The Return, enquanto, ao mesmo tempo, numa existência paralela (também catalisada por Lynch), publicava o precioso álbum We Dissolve, produzido por John Parish. Agora, em 4 das 20 datas da tournée europeia de 2018, pudemos vê-la e ouvi-la onde mais improvável seria: Coimbra, Arcos de Valdevez, Ovar e Torres Novas. No Outono passado, Relatives In Descent, dos Protomartyr, situava-os num patamar equiparável ao dos National segundos antes de Alligator e ainda recomendavelmente longe de Sleep Well Beast“uma música devastadora, estridentemente política, mas menos interessada em ditar problemas e soluções do que em cartografar a topografia emocional de estar vivo e aterrorizado em 2017”, como sobre ele escreveu “The A.V. Club”. Escassa meia dúzia de meses depois, a banda de Joe Casey e Greg Ahee, numa noite de aguaceiros, subia ao palco na pombalina e granítica Musicbox. 



No Teatro Gil Vicente, em Coimbra, Chrysta Bell foi a aparição de uma Rita Hayworth de alabastro, algo como a sobreposição dos perfis de Siouxsie, Cleópatra e Batwoman, numa coreografia entre "lap dance" e dança do ventre, e armada de uma voz capaz de ir do sussurro ao registo de diva operática. De This Train ao recente EP homónimo, contra um pano de fundo de labaredas, cortinas vermelho-bordel de Twin Peaks e excertos de clips de Lynch, escoaram-se dezassete luxuosas canções por vezes, mais próximas de uma (per)versão do "wild mercury sound" de Dylan do que da "torch song" – a novíssima "Blue Rose", contudo, é melodia orgástica impurissimamente "torch" –, coisa tão ardentemente física quanto a milagrosa cintura pélvica da "femme fatale" que as interpretava. Menos cantor do que "diseur"/exorcista de demónios erguido sobre as ruínas proletárias de Detroit, Joe Casey transformou a sala do Cais de Sodré num cenário onde um rock Neolítico – queimando algumas etapas – sonha com um futuro Românico. A acústica do lugar pode converter todos os textos em pura poesia fonética (mas, se quiséssemos ir por aí, nunca ninguém teria colocado um pé dentro do CBGB), porém, naquela densa construção sonora de uns Pixies com menor profundidade de campo, é impossível não declarar rendição perante o napalm da guitarra e a quadratura estalinista de baixo e bateria. Aqui e ali, fora dos hipermercados estivais de música, ainda é possível ir estando atento às coisas certas, na altura certa.