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14 March 2011

SUAVES VAPORES


Las Rubias del Norte - Ziguala

As Rubias del Norte são duas: uma é loira e a outra é morena. A loira chama-se Allyssa Lamb, a morena, Emily Hurst, e são ambas americanas, de Brooklyn, Nova Iorque. Encontraram-se na New York Choral Society e, não excessivamente entusiasmadas com o reportório clássico, sonharam com a música de um universo paralelo “onde o rock’n’roll nunca tivesse existido” e “a música latina dominasse a pop do mundo inteiro” tal como, em boa medida, sucedia entre os anos 30 e 50 do século passado. Rumba Internationale (2004) e Panamericana (2006), rotas de desvio estético-geográfico de boleros, valsas peruanas, "huaynos" chilenos e "guajiras" cubanas, levaram esse programa à prática, mas com Olivier Conan na tripulação - francês à solta em Brooklyn, responsável pela editora e clube Barbès e inventor dos Chicha Libre, máquina de triturar tropicalismos andinos, Vivaldi, Satie, Ravel e Joe Dassin –, dificilmente se ficariam por aí.



Muito naturalmente, então, Ziguala enrola órgãos Farfisa, congas, quatro, marimbas, piano, vibrafone, surf guitars e o Parker String Quartet, cubaniza alegremente a "Seguedille", da Carmen, de Bizet, e aponta destemidamente temas de Bollywood a sul do Texas, ao mesmo tempo que reconfigura "J’Attends Un Navire", de Brecht/Weill, ao modelo Latin-lounge, reggaefica "Porque Te Vas" e, sem rodeios demasiados, procede de igual e descontraído modo em relação a clássicos da "rebetika" grega ou a canções populares napolitanas. Há década e meia, em pleno boom do revivalismo "easy-listening", as Rubias poderiam ter desfrutado do momento eleito para espalhar os seus suaves vapores de ecletismo neo-latino pelas tribos de hedonistas ociosos. Hoje, em conjuntura menos favorável, serão apenas uma óptima escolha para casinos chiques e bares de hotel criteriosos.

(2011)

21 September 2008

MUZAK-CHÁ-DE-JASMIM

Dengue Fever - Venus On Earth

Na seríissima e erudita Very Short Introduction To World Music, de Philip V. Bohlman (publicada pela Oxford University Press), um capítulo inteiro é dedicado ao Festival da Eurovisão – dissecando tudo quanto ele implica de ambiguidade na delicada questão das “identidades nacionais” – e, nele, é particularmente analisada a figura de Dana International, o transsexual que, em 1998, o venceu concorrendo por Israel, sintetizado nestas palavras: “Dana’s songs mix and remix the nation”. Venus On Earth, terceiro álbum dos Dengue Fever (tal como os recentes dos Gogol Bordello, Devotchka, Chicha Libre ou Vampire Weekend), bem poderia ser lançado também para o caldeirão dessa polémica: banda constituída por instrumentistas americanos e cantora cambojana dedica-se à recuperação do obscuro "psych-lounge-surf-garage-pop" do Camboja que a ditadura dos Khmers Vermelhos extinguira; como Dana, entregam-se ao “mix and remix” desse vocabulário, convertem-no em matéria pop contemporânea e a Realword publica-os. No caso, porém, nem vale a pena o debate estético/ideológico: na maioria dos temas, pouco se vai além da muzak-chá-de-jasmim que se pode escutar durante o jantar, na instalação sonora de um vulgar restaurante chinês.

(2008)

08 June 2008

A MÁQUINA DO TEMPO



A Casa da Música poderá ter o perfil de uma nave espacial – e, enquanto nos perdemos no seu interior, a revisão mental de duas ou três sequências do 2001, de Kubrick, é quase compulsiva – mas, no final da semana passada, durante o concerto dos Young Marble Giants, transformou-se, na verdade, em máquina do tempo. Que nos transportou não exactamente a 1980 (data de edição de Colossal Youth, o único álbum do grupo de Cardiff) mas, muito mais atrás, àquele instante fundador em que, no caldo de cultura primordial da história imaterial do planeta, se geraram as moléculas iniciais de onde se constituiria a música tal como os humanos a viriam a praticar. Um microsegundo antes e seria o silêncio: melodias a um passo da inexistência, harmonia como exercícios de pura abstracção geométrica, sem lápis, sem régua e sem papel, e uma pulsação rítmica cuja finalidade é apenas conservar os sinais vitais de cada frágil organismo sonoro que, mal emerge, logo se extingue. Sobrenaturalmente idêntico ao que se escuta na colossal e irrepetível gravação mas, se calhar, por efeito de condicionamento da arquitectura da cápsula, capaz de nos deixar sem fôlego perante a intrigante sensação de, pela primeira vez, o estarmos a testemunhar.



Logo a seguir, na noite de “clubbing”, os Vampire Weekend fizeram todo um peculiar sentido: o grau de complexidade da sua pop situa-se só dois ou três degraus acima do diagrama-YMG (tal como aconteceu, aliás, com todas as bandas de oitenta que, sobre as peças do Lego de Alison Statton e dos irmãos Moxham, recompuseram o vocabulário que o punk reduzira a escombros) mas, da imensamente falsa ingenuidade de fortuitos descobridores das virtualidades do matrimónio da pop com uma visão de operador turístico da música africana, abre-se uma porta para algo de absolutamente necessário e urgente: a perda definitiva do pesado lastro de “etnicidade” e – da mesma forma que acontece com os Gogol Bordello, Beirut ou Chicha Libre – a sua gloriosa transfiguração em pura matéria sonora destinada a processamento segundo a indiferenciada e descomprometida lógica-pop. O que Presley ou os Stones realizaram sobre os blues ou a country, realizam-no agora eles sobre a música de imaginários Balcãs, Peru ou Nigéria e, no caso dos Vampire Weekend, como pretexto para uma escrita de canções de irónica erudição, poder de engate instantâneo e só aparentemente (como exigem os melhores tratados) frívola e ligeira. Que a única “autenticidade” detectável resida na sua indisfarçável condição de betos da Ivy League apenas acrescenta sal e pimenta à coisa.




(2008)

29 May 2008

JUNK FOOD GOURMET



Chicha Libre - Sonido Amazonico

Quer Yma Sumac tenha sido uma lendária princesa Inca descendente de Atahualpa, uma miúda judia de Brooklyn (chamada realmente Amy Camus) ou apenas uma cantora com uma extensão vocal superior a três oitavas inventada como diva de “lounge” exótico pelo compositor Moisés Vivanco, não poderia constituir melhor antecedente histórico para os Chicha Libre. A saber: Olivier Conan (francês expatriado em Brooklyn, executante de “quatro”, um cavaquinho venezuelano, e responsável pela editora e clube Barbès), Vincent Douglas (praticante de “surf guitar”), Josh Camp (no arqueológico teclado Hohner Electravox), o baixista Nick Cudahy (ex-Combustible Edison) e percussões várias, entregues à tradução para o idioma pop contemporâneo de uma espécie de Tropicalismo peruano – a “chicha” – que, há 40 anos, passara a “cumbia” colombiana, a música andina, aromas de Cuba, órgãos Farfisa e guitarras eléctricas pela misturadora.



E, na melhor tradição da mais saborosa “junk food” musical o fazem, atirando para a gamela a ferver a "Primavera" de Vivaldi, ardorosos solos distorcidos de Electravox, a "Pavane" de Ravel, “Popcorn” (o hino de mil supermercados), Satie, Joe Dassin, textos em francês e castelhano. Ou o Verão em gloriosa antecipação.



(2008)