Chicago é o centro do mundo e o Constellation, um clube de música improvisada/experimental, é o centro de Chicago. É, pelo menos, o que dizem Sima Cunningham e Macie Stewart, aliás, Ohmme, autoras de Fantasize Your Ghost, o único álbum de 2020 (até agora) do qual pode verdadeiramente dizer-se não se parecer com nada. Isso mesmo. Meninas de formação clássica, nunca tinham posto as mãos numa guitarra eléctrica mas havia “qualquer coisa no tipo de energia que se consegue extrair da guitarra” que as fascinava: “Não estávamos realmente familiarizadas com o modo como a guitarra funcionava e com o que poderíamos fazer com ela. Mas sentíamos que tinha possibilidades ilimitadas e a ideia de explorarmos isso entusiasmou-nos. Também costumávamos ir ao Constellation e recordo-me especialmente de um concerto do Marc Ribot, um guitarrista espantoso! Não fazia a mais pequena ideia de que podia tocar-se guitarra assim... Foi o clique. Estávamos um bocado nervosas com a ideia mas também sabíamos que tínhamos conhecimentos de música suficientes que nos permitiam lidar com algo que nos era tão estranho e ser capazes de avaliar se o que faríamos valia a pena ou não prestava”, contou Macie à “Indie Midlands”.
Vale muitíssimo a pena. Já era assim no álbum de estreia, Parts (2018) e, agora, Fantasize Your Ghost concretiza soberbamente o plano de entrançar harmonias vocais cirurgicamente precisas com perfeitamente modeladas devastações de turbulência eléctrica e a microexploração de timbres, "trompe l’oeil" rítmicos e resoluções improváveis – totalmente indiferentes à pertença a géneros musicais e muito mais estimuladas por ideias do tipo “tratar o feedback como um anel de fumo a que damos forma e expandimos” ou “a partir da percussão descobrir o caminho que conduz a uma melodia”. Um riquíssimo nó de contradições que, em "The Limit", expõem: “I reached my limit today, I tried to fly too high, can’t stomach the thought of it , although I’ve never tried, I move and move again, you went too slow, you moved a mountain, I tried to go below”.
"Dangling from the sides of Chicago public buses in recent days: large signs bearing the slogan, 'In the beginning, man created God'. Lo and behold, the atheist bus war that raged through London earlier this year has led to the opening of a front in the U.S. The Chicago ads were purchased this month (for a total of $5,000) by the Indiana Atheist Bus Campaign. Despite Chicago's abundance of trains, the Indiana group preferred to buy ads that would appear on the outside of buses. 'That way, cars can see them. People on the sidewalks can see them, as the buses go zipping by', says Charlie Sitzes, 73, the group's spokesman. Apart from the predictable blogosphere chatter, Chicago has largely greeted the ads with a quick, curious look and then a shrug. While the media attention has drawn donations to the group from across the country, there are no plans to extend the ads' run beyond mid-June. 'You don't have to shake the believer tree too hard to get a discussion going', Sitzes says, adding, 'We've already won'". (aqui)
(2009)
08 October 2008
FECHAR FERIDAS
Dennis Wilson - Pacific Ocean Blue
Brian Wilson - That Lucky Old Sun
O Verão eterno. O surf. “Babes” permanentemente bronzeadas. “Fun, fun, fun”. A visão de postal do paraíso californiano que se colou à lenda e à música dos Beach Boys dificilmente poderia coincidir menos com a realidade. Literalmente brutalizados pelo pai/manager, Murry Wilson, um “songwriter” medíocre e um tirano doméstico que exercia a autoridade por meio do terror, nenhum dos três irmãos Wilson, ao longo da vida, conseguiria cicatrizar verdadeiramente as feridas abertas durante a adolescência. Brian Wilson, aos 25 anos, angustiado pelo que supunha ser a irredimível inferioridade de Pet Sounds perante Sgt. Pepper's, dos Beatles, e mentalmente desgovernado por uma dieta demasiado rica em alucinogénios, mergulharia, até hoje – de psicocharlatão em pseudoterapeuta –, num limbo de vida semi-consciente, necessitando de cerca de quatro décadas (e meia dúzia de álbuns intercalares em dente de serra) para, finalmente, concluir o mítico Smile. Carl Wilson, que manteve o barco dos Beach Boys a flutuar após o naufrágio de Brian, acabaria também, no final dos anos 70, por ajoelhar diante dos químicos, morrendo de cancro cerebral e pulmonar, em 1997.
Dennis Wilson Forever (doc. real. Billy Hinsche, 2007)
Dennis, o único que, afinal, correspondia ao perfil do puto das praias da Califórnia – radicalmente hedonista, adepto do presente do indicativo como único tempo verbal, ávido consumidor de todas as substâncias que reconfiguram a percepção e... surfista –, era “apenas” o baterista do grupo mas aquele por quem as fãs abdicavam sem esforço de peças de roupa interior. Íntimo do tresloucado Charles Manson, tão sedutoramente fascinante como – em particular, nos últimos anos de plano inclinado – capaz de criar o deserto à sua volta no círculo de namoradas, esposas e amigos, morreria, em 1983, aos 39 anos, afogado no oceano de Marina del Rey. Seria ele, porém, quem (como o irmão Brian) haveria de deixar para a história da pop um “lost album” e meio, agora, finalmente reeditados.
"River Song"
Pacific Ocean Blue (1977) foi publicado pela Caribou (de James Guercio, produtor e colaborador de Zappa, Blood Sweat & Tears, Chicago e Moondog), vendeu razoavelmente mas, uma vez descatalogado, nunca seria convertido para CD. Bambu, o sucessor previsto, esse, nunca sairia das bobines. Naturalmente, um e outro, desde então, inflaccionaram cotações no e-Bay, circularam nos proverbiais “bootlegs” e, inevitavelmente, adquiriram aura de santidade pop. Ouvidos hoje nesta dupla edição, no entanto, fica claro que, se Dennis tinha talento suficiente para não ser condenado a viver à sombra de Brian, ele só se revelava irregularmente: num e noutro álbum (mas, especialmente, em Pacific Ocean Blue), os melhores momentos são aqueles em que as reconhecíveis harmonias vocais dos Beach Boys deslizam para um idioma quase-gospel (houve quem lhe chamasse “California surfer soul”), caso de “River Song”, “Moonshine” e “Rainbows”, ou os outros – “Thoughts Of You”, “Time” – onde parece quererem definir-se os traços do género de canção “cool”-minimal que nos habituámos a associar a Robert Wyatt. Todo o resto, contudo, ou exibe em excesso algumas das menos agradáveis dedadas da época (aqui e ali, suspeita-se, com algum horror, que Dennis Wilson se poderia ter transformado em... Phil Collins) ou são apenas resultado de esboços/jams de estúdio apressadamente convertidos em canções.
Ressuscitado através da magnífica reconstituição ansiosamente aguardada de Smile, em 2004, Brian Wilson regressa agora também com That Lucky Old Sun. A equipa de apoio (e, nos tempos que correm, Wilson continua a necessitar de muito apoio) é a mesma que, desde há vários anos, o acompanha (o devotado fã e membro dos Wondermints, Darian Sahanaja, o fidelíssimo Van Dyke Parks e um pelotão de operacionais de estúdio de quilométricos currículos) e, talvez por isso e porque o efeito-Smile permanece intenso, a sensação que se guarda é a de que Wilson – ou alguém por ele – pretendeu sublinhar a ideia de o seu imenso génio não se ter esgotado nessa viagem de profundidade pela memória. O que resulta é algo de ambivalente: o álbum contém algumas sobreexcelentes canções de colheita “vintage” (e algumas das piores: “Mexican Girl” é indesculpável) mas é impossível não reparar como todo o esforço parece dirigido para edificar um Smile-part II (os “intermezzi” declamados, escritos por Parks, reforçam a vertente conceptual) e não deixar de sentir que, por vezes, Brian Wilson chega a soar como uma – competentíssima – “covers band” de si mesmo.