26 May 2025
02 May 2019
13 March 2010
Jimi Hendrix - Valleys Of Neptune
A rentabilização dos santos defuntos da pop até à erosão da derradeira falangeta disponível tem sido uma das bóias de salvação a que, em desespero perante o fim irremediável e, em devido tempo, anunciado, do negócio discográfico tal como sempre o conhecemos, a indústria, ofegantemente, se tem agarrado. Em boa verdade, a coisa não é só de agora: desde a quinta reedição das compilações, agora inevitavelmente remasterizadas em absoluto state of the art" tecnológico, dos lados-B de obscuros singles, em exclusivíssima e, finalmente recuperada edição bielorussa, aos "bootlegs", enfim, oficializados (e também purificados de repugnantes impurezas sonoras), do artista anteriormente conhecido como Yabadabadoo, ou aos "live", gravados na tenra infância da lendária banda, naqueles anos em que só o pub da esquina a deixava subir ao palco, a técnica de rapar-o-fundo-ao-tacho para fazer feliz o conselho de administração da editora, por altura da apresentação do relatório e contas do fim do ano, ostenta uma já longa tradição. A infinitamente recicladora mamã (de Jeff)-Buckley poderá ter desenhado o mapa de um território de extremo abuso em que até os anjos receiam penetrar, mas ninguém é inocente. Muito menos a inefável família-Hendrix, que foi capaz de dar corpo ao milagre de converter uma discografia de três álbuns publicados em vida de Jimi Hendrix – Are You Experienced? (1967), Axis: Bold as Love (1967) e Electric Ladyland (1968) – num legado infinitamente maior.
Contextualize-se e faça-se justiça: Jimi Hendrix, como Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman ou Charlie Parker, era o exacto tipo de génio musical cujas semibreves, mínimas, semínimas, colcheias, fusas e semifusas, só, raramente ou por acidente, onde quer que fossem captadas, não transportavam quem o escutava para um universo paralelo onde os blues e o rock se convertiam em algo de incandescentemente outro. Com diz o baixista Billy Cox que o acompanhou neste instante da transição da Experience para o que lhe haveria de seguir, “só existem dois tipos de guitarristas: os que confessam que foram influenciados por Hendrix e os que também o foram mas não o reconhecem”. Valleys Of Neptune, não sendo nenhum "famous lost album", documenta muito rigorosamente aquele momento em que Hendrix, no termo da glorificação pop, disparava para um alvo onde as raízes primordiais, selvaticamente arrancadas, sonhavam com uma panorâmica infinitamente maior e, ao mesmo tempo, de novo, paradoxalmente, realimentadas pela matriz original: Elmore James e os vales de Neptuno, Rolling Stones e Cream em boomerang, wah-wah contrariando a lei da gravidade, os deltas do Mississipi e do Nilo, num espaço eléctrico sem coordenadas reconhecíveis.
(2010)
01 February 2009
Bruce Springsteen - Working On A Dream
Conforme narra uma lenda da tradição popular contemporânea, Barack Obama, rapaz de preferências musicais "mainstream", porém, assaz decentes – à “Rolling Stone” confessou admirar, acima de todos, o Stevie Wonder "vintage" de Talking Book, Fulfillingness’ First Finale, Innervisions e Songs in the Key of Life, mas admitiu abrigar também no seu iPod, Howlin’ Wolf, Yo-Yo Ma, Coltrane, Miles Davis, Charlie Parker, Jay-Z, Sheryl Crow (consideremos que se tratou de um lapso na transcrição de Jann S. Wenner que lhe recolheu as declarações…) e “cerca de trinta canções de Bob Dylan” –, terá afirmado durante a sua campanha que apenas decidiu candidatar-se à presidência dos EUA quando, finalmente, concluiu que nunca poderia ser Bruce Springsteen. A lenda não refere se Springsteen, nos últimos meses, sonhou ser Obama mas não só o apoiou explicitamente como, quando lhe foi sugerido que, na cerimónia de tomada de posse, ao lado de Pete Seeger, cantasse “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie, certamente, deverá ter respondido “Yes, we can!”.
A verdade é que toda esta mudança de “clima” se pressente (e muito) na transição dos anteriores Devils & Dust (2005) e Magic (2007) – amargos painéis hiperrealistas de uma América devastada – para o actual (a começar pelo próprio título) Working On A Dream: o estado de espírito que anima todo o álbum é, notoriamente, de alívio e, por vezes, ficamos mesmo com a sensação de que Bruce Springsteen somente não deixa escapar um “all you need is love” porque… é Bruce Springsteen e não um rastejante "freak-folker" qualquer. Sim, a atmosfera é de euforia e celebração, mas já não a dos fugitivos dos "lost highways" à beira de mil abismos de Born To Run ou Darkness On The Edge Of Town: as personagens de Working On A Dream perdem-se de amores por meninas da caixa de supermercado (“As I lift my groceries into my cart, I turn back for a moment and catch a smile that blows this whole fucking place apart”), unem-se em torno de festas de aniversário domésticas e medem a passagem do tempo pela deslocação da luz no rosto da amada (“I don’t see the summer as it wanes, just the subtle change of light upon your face”).
E, em tempo de hipotética refundação da Terra Prometida e de renovada procura matricial da felicidade, a invocação dos mitos da antiguidade clássica é inevitável: "Life Itself" e "Surprise, Surprise" saíram, completas e perfeitas, do cancioneiro dos Byrds, "Tomorrow Never Knows" é vénia grata a Bob Dylan, "This Life" chama por Brian Wilson, "Good Eye" rasgou caminho pela ferrugem das cordas da guitarra de Robert Johnson, "Outlaw Pete" abre cinematograficamente o plano sobre a América tal como Leone e Morricone a reescreveram para o resto do mundo (com "sample" da harmónica de Once Upon a Time in The West incluído) e "You’re My Lucky Day" é a exuberância incontida e redescoberta de um autor, Bruce Sprinsteen, que há mais de vinte anos não encontrávamos em momento de tão exaltada emoção. De certo (e duplo) modo, uma "period piece".
(2009)
09 February 2008
Essencialmente autodidacta (embora tenha estudado violino, viola de arco, piano, orgão, harmonia e cantado no coro da Iowa School For The Blind), considerava-se "um europeu no exílio, cuja alma e coração estão na Europa, fundamentalmente um clássico na forma, conteúdo e interpretação. Sinto-me como se tivesse um pé na América e outro na Europa ou um no presente e outro no passado. Ritmicamente, sinto-me no presente, mesmo 'avant garde', enquanto que, melódica e harmonicamente estou verdadeiramente no passado. Mas o presente transforma-se em passado tal como o futuro virá a ser o presente...". É exactamente isso que a quase totalidade da sua obra, agora finalmente reeditada (até aqui, só uma miraculosa aparição na banda sonora de The Big Lebowski o recordava) documenta. Moondog (que reune Moondog, de 1969, e Moondog 2, de 1971) assinala o início registado da lenda quando este "clochard" novaioquino que frequentava os clubes de Manhattan na companhia de Charlie Mingus, Miles Davis, Benny Goodman, Buddy Rich ou Charlie Parker conseguia (como?) gravar música orquestral que, inspirando-se na "early music" da tradição europeia — cânones, "grounds", "ostinati", "chaconnes", "rounds", "passacailles", madrigais —, desde 1952, iria inspirar os, então jovens, Philip Glass ou Steve Reich. Escutando hoje este extraordinário álbum (recheado de improváveis dedicatórias e homenagens a Tchaikovsky, Benny Goodman e Charlie Parker, partituras para Martha Graham e sinfonias para mitológicas figuras como "Thor The Nordoom, Emperor Of Earth") pode descobrir-se que também Michael Nyman ou toda a "escola de Canterbury" e adjacências ainda um dia lhe deverão reconhecer uma considerável dívida
"Clandestinamente" emigrado para a Europa, sob convite da editora Kopf, gravaria, a partir de 1976, In Europe, H'art Songs e A New Sound Of An Old Instrument, colecções de deliciosas miniaturas musicais que, tanto celebravam o lançamento da sonda espacial americana Viking para Marte em "scherzi" para celesta, como inventavam valsas impossíveis, se divertiam com o "nonsense" puro daquele tipo de canções em que Robert Wyatt ou Kevin Ayers se haveriam de especializar ou combinariam o contraponto no orgão barroco da igreja de Oberhausen com desenhos rítmicos supostamente ameríndios ou com fantasias sobre a Grécia clássica. Elpmas e Sax Pax For A Sax (respectivamente, de 1991 e 1994) representariam, o primeiro, um protesto ecológico contra os maus tratos inflingidos à natureza e aos povos nativos, sob a forma de requintados cânones minimalistas para marimbas, balafones, violas de gamba, banjos e amplos exercícios de contraponto "ambiental" e, o segundo, uma magnífica e extravagante comemoração do 100º aniversário da morte de Adolphe Sax que Moondog aproveitou inventar o conceito de "ZAJAZ" — jazz em duas direcções — que lhe permitiria divertir-se com enxertos de linguagem barroca sobre matriz swing e infinitos outros vice-versas para o que contribuiriam nomes como Peter Hammil, o saxofonista de Michael Nyman, John Harle, Danny Thompson ou o Apollo Saxophone Quartet. Nunca é tarde para descobrir um "maverick" com uma interessantíssima história para contar. (2000)