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06 February 2021

 
(sequência daqui) Terá de haver algum motivo insondável para que a quase fadista Cristina Branco tenha escolhido incluir no seu reportório "A Case Of You" e "Cherokee Louise". Porque, do que a autora de ambas revela na preciosa conversa com Cameron Crowe – fã reverente, jornalista, cineasta, argumentista, produtor, actor – reproduzida nas 36 páginas do "booklet", dir-se-ia que só no “quase” se poderá encontrar, talvez, a explicação: interrogada sobre se, no trajecto da folk para o "songwriting" e, daí, para o jazz, para a colaboração com Charlie Mingus e para os trabalhos de orquestração, não poderia ver-se o dedo do destino, Mitchell responde sem hesitar “Não, não ligo nenhuma ao destino. Nem compreendo, de todo, o conceito de destino”. Não é a única vez que, ao longo da troca de ideias, ela é assim tão afirmativa. Pronta a reconhecer Buffy Sainte-Marie, Woody Guthrie, Tom Rush, o Kingston Trio, Judy Collins, Peter, Paul & Mary, Dave Van Ronk e Lambert, Hendricks & Ross (um trio de jazz vocal) como músicos que admirava e a influenciaram (“Tudo o que aprendi foi por admiração e osmose”), quando o nome de Joan Baez é pronunciado, e reacção é instantânea: “Não fui, de modo nenhum, influenciada por Joan Baez. Que isso fique bem claro”. Já a propósito de Leonard Cohen, tudo é bem diferente: “Ouvi-o no Newport Folk Festival. 'Suzanne’ foi uma canção que me impressionou muito. Foi o primeiro que, verdadeiramente, admirei. Deixou-me com a impressão de quão imaturas as minhas canções eram. Ele era um adulto. Era assim que os adultos escreviam” (segue para aqui).
 

17 October 2017

Charles Mingus - The Black Saint 
and the Sinner Lady

SEDUÇÃO E PODER

  
Coincididindo com a publicação do seu álbum anterior (St. Vincent, 2014), Annie Clark anunciou o lançamento de um lote especial de café Flecha Roja, da Costa Rica, por ela seleccionado para a Intelligentsia Coffee: “Adoro café. Por vezes, à noite, fico excitada só de pensar no café que irei beber na manhã seguinte. O café é a razão para eu acordar. Não é a única, claro. Mas é um forte incentivo. Adoro o café da Intelligentsia. Faço fila aos balcões deles qual fã à espera de um concerto. Ansiosa. Impaciente. Por isso, quando a minha marca de café preferida me abordou para colaborar com ela, fiquei emocionadíssima”. Mesmo não conhecendo bem Clark, para o estrato superior do sapiens incapaz de viver sem essa dádiva do Islão ao mundo, não poderia haver melhor cartão de visita. Mas, nestes três últimos anos, não foi essa a única actividade extra-curricular de St. Vincent: realizou uma curta de terror (The Birthday Party) e deu início à produção de uma releitura cinematográfica de O Retrato de Dorian Grey sob uma perspectiva feminina, aceitou ser um dos rostos da joalheira Tiffany – para a qual também gravou uma versão de "All You Need Is Love", dos Beatles – e concebeu e assinou uma guitarra eléctrica para a Music Man/Ernie Ball. 



Com Masseduction, o novo álbum, a atitude, tal como confessou a “The Line Of Best Fit”, terá sido “People might have thought I was going to zig, so I zagged”. Exactamente o género de coisa que, afinal, nunca seria inesperada vinda de quem, por exemplo, aquando da atribuição de um Grammy pelo disco de há três anos, na categoria de “Melhor álbum de rock alternativo, perguntou “Mas alternativo a quê?...” (curiosamente, consta que Masseduction irá ter uma variante… alternativa, "stripped down", apenas com o pianista Thomas Bartlett/Doveman). Porém, rezam as crónicas que francamente pouco convencional foi o cenário montado para acolher, em Londres, quem, agora, lhe iria escutar as opiniões: um cubo lynchiano côr-de-rosa com pontos de luz da mesma côr – “a psychedelic womb” – no interior do qual, Clark, sentada a uma mesa, poderia accionar um botão de resposta automática previamente gravada a indesejáveis perguntas estereotipadas. Que teriam por consequência imediata a expulsão do perguntador.



Sedução e poder. São as chaves de leitura para um álbum cuja digressão se intitulará “Fear The Future” e que St. Vincent descreve como “Dominatrix at the mental institution”: “Sabia que precisava de escrever sobre o poder – a ficção do poder e o poder da ficção”. Mas se, em "Happy Birthday, Johnny", ela canta “You saw me on magazines and TV, but if they only knew the real version of me“, todas as tentações de leitura (auto)biográfica são severamente desencorajadas: “As canções são testes de Rorschach. A interpretação ou o sentido de uma canção têm muito mais a ver com o ouvinte do que com a intenção de quem a escreveu. Há quem se preocupe com a possibilidade de ser mal interpretado. Desde que não me acusem de racismo, sexismo ou homofobia, por mim, está tudo bem”. Basta, então, que saibamos que esta formidável colecção de 13 canções convulsivamente electrónicas, invasivamente orquestrais e neuroticamente eléctricas se alimentou de Charles Mingus, Nabokov e Nick Cave. E que nada tem a ver com eles.

15 August 2016

GÉNIO


A obra literária de William S. Burroughs – entre textos de ficção e não-ficção – não é extraordinariamente extensa mas, se lhe acrescentarmos a discografia, o panorama altera-se significativamente. Desde os numerosos álbuns de "spoken word" puro (em particular na Giorno Poetry Systems) às colaborações com diversos músicos (Frank Zappa, John Cage, Philip Glass, Laurie Anderson, Bill Laswell, Ministry, Kurt Cobain, R.E.M.), seria, porém, sob produção de Hal Willner que a articulação entre texto, voz e música(s) descobriria as condições ideias de temperatura e pressão para ocorrer da melhor forma. Willner, especialista de álbuns monotemáticos – Amarcord Nino Rota (1981), Lost In The Stars: The Music of Kurt Weill (1985), Stay Awake: Various Interpretations of Music from Vintage Disney Films (1988), Weird Nightmare: Meditations on Mingus (1992), Closed On Account Of Rabies - Poems And Tales Of Edgar Allan Poe (1997), The Raven (de Lou Reed, também em torno de Poe, 2003), Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs and Chanteys (2006) e Son of Rogues Gallery (2013) – entregues nas mãos e talentos de gente vária, capitaneara para Burroughs os óptimos Dead City Radio (1990, com John Cale, Donald Fagen, Chris Stein e os Sonic Youth) e Spare Ass Annie and Other Tales (1993, com os Disposable Heroes of Hiphoprisy). 



E, sabemo-lo agora, pouco antes da morte de Burroughs, em 1997, recrutara o guitarrista Bill Frisell, o teclista Wayne Horwitz e o violinista Eyvind Kang, para criarem a moldura sonora numa leitura de textos de Naked Lunch. Segundo Willner, em linguagem convenientemente burroughsiana, esses registos ficaram, até hoje, “abandoned and collecting dust on a musty shelf as forgotten as a piece of rancid ectoplasm on a peep show floor”. Quase vinte anos depois, e decisivamente enriquecido pelos contributos do canadiano Arish Ahmad Khan/King Khan, do compositor, “performer” e contra-tenor novaiorquino M Lamar, e da banda psych/punk australiana The Frowning Clouds, Let Me Hang You, abrindo com a voz de além-túmulo de Burroughs a proclamar “They call me The Exterminator!”, é mais uma belíssima peça no glorioso cânone de psicose e devassidão de, segundo Norman Mailer, “the only living American novelist who may conceivably be possessed by genius"

22 March 2015

Daevid Allen (1938 – 2015)



"There’s a million ways to laugh. Sometimes absurdism can be subversive. Sometimes it’s necessary to look further, beyond the Pot-Head Pixies and Flying Teapots and see what’s on the other side. In a sense Daevid Allen is no longer with us, in another he’ll always be here so long as we play the records, he’s just evolved to another form, transmuted into the music. This sounds frivolous. It’s not. It’s part of the magic he deals with, part illusory, part dexterity. Jazzer Sun Ra claimed to be from Saturn. His cosmic philosophy was ludicrous, his avant-garde improvisations could be breathtaking. When Christopher David Allen (as he was then) fetched up in Dover, from his native Australia, via a stint at 9 Rue Git-le-Coeur, the Paris ‘Beat Hotel’, he was listening to the endless pulse of Sun Ra. This was around 1961, and jazz was the cool underground. The drummer in Daevid’s first free-Bop trio was a young Robert Wyatt, with Hugh Hopper on bass. When the group eventually evolved into Soft Machine it took its name from the ‘Beat’ junk-mythologies of William S Burroughs too. Daevid had discovered the Beats back home in Melbourne while working a scuffed bookshop. Poetry can be spontaneous Bop jazzetry. It takes your head into places straight ‘serious’ art cannot. It can be the jolt that tips you over into altered states. All this was alchemy for the soul. From Charlie Mingus to Robert Graves. Accident, chance and serendipity were part of its strategy. So when, after playing Côte d’Azur dates with the Softs, Daevid was refused re-entry to the UK due to visa problems, he gravitates to Paris in time for ‘les évènements’, which was the place to be. ‘Egalité! Liberté! Sexualité!’ is another mythic-layer occupying the zone between prankster insurgency and subtle brain-games. He recites Beatnik poetry in fractured Franglaise which is also an assault on the senses (...)" (daqui; + aqui)

21 February 2015

(O 5º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (CXI)

Charles Mingus’ Instructions For Toilet Training Your Cat, read by The Wire’s Reg E. Cathey

19 January 2010

CHARLIE MINGUS - "HAITIAN FIGHT SONG"



(sugerida pelo RLima, umas caixas de comentários aí abaixo)

(2010)

23 February 2009

ESMAGADO POR UMA VISÃO


Van Morrison - Astral Weeks Live At the Hollywood Bowl

Escrevendo dez anos depois acerca do seu encontro, no Outono de 1968, com Astral Weeks, de Van Morrison, Lester Bangs, no segundo capítulo de Psychotic Reactions & Carburetor Dung, recordava como, para “o destroço físico e mental” que ele, então, era, esse álbum fora “um farol, uma luz por entre a neblina de costas longínquas, mais do que isso, a prova de que restava algo possível de se exprimir através da arte para além do niilismo e da destruição” e qualifica-o como “o disco de maior significado em toda a minha vida”. Para um ilustre ícone de outro(s) culto(s) – Steven Van Zandt, guitarrista da E Street Band, de Bruce Springsteen, e/ou Silvio Dante, consigliere de Tony Soprano –, a devoção não é menor: “Para nós, Astral Weeks era uma religião”.


Elvis Costello junta a voz ao coro de oficiantes e confessa que esse “continua a ser o álbum de rock mais audacioso de sempre – desde aí, nenhum outro ousou ir tão longe” e, a encerrar provisoriamente o índice de laudas (não seria difícil ampliá-lo indefinidamente), numa entrevista de 2006, Greil Marcus revelava que, em conversa, Martin Scorsese lhe havia confiado que toda a primeira metade de Taxi Driver fora baseada em Astral Weeks. Objectivando estatisticamente um pouco melhor, deverá acrescentar-se que, em inúmeras listas dos “melhores de sempre” – da “Rolling Stone” à “Mojo” e todas as outras que os arquivos da Net abrigam –, Astral Weeks é residente obrigatório e, já agora, que lhe foram necessários trinta e três anos de permanência nos expositores das lojas para que, finalmente, em 2001, atingisse o galardão de “disco de ouro”.



Gravado em três sessões – entre 25 de Setembro e 15 de Outubro de 1968 –, a Astral Weeks colaram-se lendas várias. Falsas, como o boato posto a correr por John Cale (ocupante do estúdio ao lado) que, ao contrário da narrativa oficial, garantia que, porque Van Morrison “era incapaz de trabalhar com quem quer que fosse”, tinha registado guitarra e voz sozinho e todas as restantes partes instrumentais haviam sido overdubbed posteriormente. Verdadeiras, como o facto de não haver dúvidas de que, aos vinte e três anos, o ex-vocalista dos Them, sem um tostão e no meio de um turbilhão de sarilhos contratuais, se fez rodear de um grupo de músicos com currículo ao lado de Eric Dolphy (o contrabaixista Richard Davis), Charles Mingus (o guitarrista Jay Berliner) ou no Modern Jazz Quartet (o baterista Connie Kay), para enorme perplexidade de todos eles, sem sequer se ter devidamente apresentado nem lhes ter fornecido a mais vaga indicação musical, se limitou a dizer-lhes que “tocassem como lhes apetecesse” e, nesse improvável tubo de ensaio, gerou uma indiscutível obra-prima de poesia impressionista e improvisação colectiva verdadeiramente sobrenatural sem antecedentes identificáveis e cuja descendência capaz de não ser arrasada pela comparação se reduzirá a uma ou duas equiparáveis alucinações de Tim Buckley.


Quatro décadas e uma extensa e maioritariamente excelente discografia mais tarde, porém, Astral Weeks nunca havia sido integralmente interpretado ao vivo. Aconteceu em Novembro passado, no Hollywood Bowl (a única testemunha sobrevivente e participante do milagre original era Berliner), e, se o teletransporte até aos momentos e ao lugar que deram origem ao álbum era, naturalmente, impossível, o que ficou documentado neste CD (e em próximo DVD) é, talvez, a mais fiel aproximação hoje viável desses instantes de “estupefacção perante a vida, completamente esmagados, encurralados na própria pele, paralisados pela enormidade do que, numa visão de um segundo, se consegue apreender” (Lester Bangs).

(2009)

09 February 2008

UM PÉ NO PRESENTE, OUTRO NO PASSADO

 
Segundo a lenda, entre o final dos anos 40 e o início dos 70 (e, aqui, a cronologia é extremamente flutuante...), na esquina da 54th Street com a 6ª Avenida de Manhattan, costumava encontrar-se uma personagem insólita: uma espécie de profeta/mendigo, cego de nascença, vestido de viking que vendia fascículos da sua poesia, filosofava de modo avulso com os transeuntes e, para alguns, mais iniciados nos mistérios ocultos da invulgar figura, era músico, compositor e até teria chegado a gravar discos. Por volta de 1974, desapareceu subitamente e alguns fãs mais dedicados — entre os quais, Paul Simon, que chegou a ir à televisão fazer-lhe o elogio fúnebre — convenceram-se de que o ancião extravagante teria morrido. Não era impossível. Nascido Louis T. Hardin cerca de 1916, em Maryneville, no Kansas, por essa altura, contaria já perto de sessenta anos que uma vida de "homeless" esotérico não deveriam ter suavizado. Afinal, Moondog — assim autointitulado, em 1947, em memória de um velho cão que "uivava à lua como ninguém" — tinha apenas emigrado para a Alemanha onde até à verdadeira data da sua morte (8 de Setembro de 1999) iria prosseguir uma carreira singular de excêntrico militante ocasionalmente tocado pelo génio.
 

Essencialmente autodidacta (embora tenha estudado violino, viola de arco, piano, orgão, harmonia e cantado no coro da Iowa School For The Blind), considerava-se "um europeu no exílio, cuja alma e coração estão na Europa, fundamentalmente um clássico na forma, conteúdo e interpretação. Sinto-me como se tivesse um pé na América e outro na Europa ou um no presente e outro no passado. Ritmicamente, sinto-me no presente, mesmo 'avant garde', enquanto que, melódica e harmonicamente estou verdadeiramente no passado. Mas o presente transforma-se em passado tal como o futuro virá a ser o presente...". É exactamente isso que a quase totalidade da sua obra, agora finalmente reeditada (até aqui, só uma miraculosa aparição na banda sonora de The Big Lebowski o recordava) documenta. Moondog (que reune Moondog, de 1969, e Moondog 2, de 1971) assinala o início registado da lenda quando este "clochard" novaioquino que frequentava os clubes de Manhattan na companhia de Charlie Mingus, Miles Davis, Benny Goodman, Buddy Rich ou Charlie Parker conseguia (como?) gravar música orquestral que, inspirando-se na "early music" da tradição europeia — cânones, "grounds", "ostinati", "chaconnes", "rounds", "passacailles", madrigais —, desde 1952, iria inspirar os, então jovens, Philip Glass ou Steve Reich. Escutando hoje este extraordinário álbum (recheado de improváveis dedicatórias e homenagens a Tchaikovsky, Benny Goodman e Charlie Parker, partituras para Martha Graham e sinfonias para mitológicas figuras como "Thor The Nordoom, Emperor Of Earth") pode descobrir-se que também Michael Nyman ou toda a "escola de Canterbury" e adjacências ainda um dia lhe deverão reconhecer uma considerável dívida

 

"Clandestinamente" emigrado para a Europa, sob convite da editora Kopf, gravaria, a partir de 1976, In Europe, H'art Songs e A New Sound Of An Old Instrument, colecções de deliciosas miniaturas musicais que, tanto celebravam o lançamento da sonda espacial americana Viking para Marte em "scherzi" para celesta, como inventavam valsas impossíveis, se divertiam com o "nonsense" puro daquele tipo de canções em que Robert Wyatt ou Kevin Ayers se haveriam de especializar ou combinariam o contraponto no orgão barroco da igreja de Oberhausen com desenhos rítmicos supostamente ameríndios ou com fantasias sobre a Grécia clássica. Elpmas e Sax Pax For A Sax (respectivamente, de 1991 e 1994) representariam, o primeiro, um protesto ecológico contra os maus tratos inflingidos à natureza e aos povos nativos, sob a forma de requintados cânones minimalistas para marimbas, balafones, violas de gamba, banjos e amplos exercícios de contraponto "ambiental" e, o segundo, uma magnífica e extravagante comemoração do 100º aniversário da morte de Adolphe Sax que Moondog aproveitou inventar o conceito de "ZAJAZ" — jazz em duas direcções — que lhe permitiria divertir-se com enxertos de linguagem barroca sobre matriz swing e infinitos outros vice-versas para o que contribuiriam nomes como Peter Hammil, o saxofonista de Michael Nyman, John Harle, Danny Thompson ou o Apollo Saxophone Quartet. Nunca é tarde para descobrir um "maverick" com uma interessantíssima história para contar. (2000)