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20 January 2021

 
"(...) Ter-se um gato, como companhia, o dia inteiro, é um presente dos deuses. O grande Dickens sabia isso, quando afirmava que “there is no greater gift than the love of a cat”. O gato é um animal bonito, elegantíssimo, inteligente e extremamente inventivo. Está sempre a ter ideias, embora muitas delas francamente turbulentas e algo destrutivas. E, ao contrário do que dizem os ignorantes (que nunca tiveram gatos ou os tiveram e não lhes prestaram a devida atenção), o gato, se bem tratado e acarinhado, torna-se não só nosso amigo, como se torna até um amigo fiel e assíduo, sendo de opinião que é mal empregado todo o tempo que lhe não dediquemos, embora ele necessite de algum tempo para retiro, meditação e soneca. De facto, ele só não está connosco, quando DECIDE que tem, ELE, de fazer coisas mais importantes, como, por exemplo, partir um prato ou um copo ou um bonito objecto de arte que seja frágil e esteja mesmo a pedi-las. Ou, como já dissemos, dormir. Um gato pode ser muito nosso amigo, mas recusará terminantemente ser nosso escravo: o seu orgulho felino nunca lhe permitiria esse abaixamento, que ele vê, com desprezo, praticado pelo cão, nunca elevado ao estatuto de deus, pelos egípcios. Mas não lhe passa pela cabeça que os humanos tenham o mesmo comportamento orgulhoso. Quando lhe apetece – ao gato – saltar-nos para o colo ou para as costas, dificilmente aceita que recusemos. Ele SABE quando quer estar sozinho, mas não aceita que nós queiramos estar sozinhos, quando a ELE lhe APETECE estar connosco. Isto pode parecer estranho a um humano, mas o gato percebe-o perfeitamente. O homem foi feito para servir o gato e não o gato para servir o homem: um deus manda e não é mandado! Isto está inscrito no ADN dos felinos de salão. (...) (Eugénio Lisboa aqui; tema já poeticamente abordado aqui))

07 October 2019

ESQUERDA

  
Eddie Zinn, judeu austro-húngaro, conheceu Jenny Rabinowitz, judia siberiana de Irkutsk, na fábrica onde ambos, imigrantes nos EUA, trabalhavam. Mal o filho, Howard, entrou para a escola, cêntimo a cêntimo, juntaram o necessário para lhe oferecerem os 20 volumes das obras de Charles Dickens. A semente iria germinar e Howard Zinn que, após concluir o ensino secundário, trabalharia como estivador, só terminada a segunda guerra mundial haveria de se licenciar em História. Foi a participação na guerra e, em particular, no bombardeamento criminosamente desnecessário de civis em Royan, que o conduziu ao pacifismo e à oposição militante às guerras no Vietname e no Iraque, à luta contra a ocupação da Palestina e pelos direitos cívicos dos negros. Mas seria A People’s History of the United States (1980) – a História contada sob o ponto de vista dos povos indígenas, dos escravos, dos trabalhadores, das minorias raciais, das mulheres e da luta de todos eles contra o poder – que, de apenas “something of an anarchist, something of a socialist, maybe a democratic socialist”, transformaria o professor da universidade de Boston no mais notável representante dos que narram a História “vista de baixo e não de cima”



Quarenta anos depois, os Gauche, uma banda oriunda da vibrante e politizada cena de Washington DC, intitularam o álbum de estreia A People’s History of Gauche. Não por acaso: “Desde a adolescência, simpatizei com a esquerda e com políticas radicais e o livro de Zinn era um texto seminal para muitos dos meus colegas. Mas, curiosamente, embora sempre o tivesse na lista de obras a ler, só o fiz quando procurávamos um título para o álbum. E pareceu-nos soar muito bem”, diz Daniele Yandel que, com Mary Jane Regalado, Adrienne CN Berry, Jason P. Barnett, Pearie Sol e Laurie Spector, constitui o grupo que, no nome, associa os conceitos de “esquerda” e “desajeitado”, coisa próxima do sentido original de “punk”. Em rigor, remetendo mais para o pós-punk radical e feminista – Slits, Raincoats, Delta 5, Bush Tetras, X-Ray Spex, ESG –, filão ainda rico de minério por extrair. Incluindo cinco canções regravadas de uma primordial cassete de apresentação (Get Away With Gauche, 2015) e seis novas, é um colorido carrocel de agit-prop (“Income, always think about payday, always waiting on wages, always think about systems”) e denúncia (“They see you on all kinds of screens, they want you not to disagree, they scan you for diseases”) vertiginosamente irado e dançável.

12 November 2014

A DAY IN THE LIFE


16 de Setembro, Canada High Comission, em Londres. Leonard Cohen está prestes a apresentar Popular Problems e umas dezenas de comuns mortais reúnem-se para escutar a divindade e, por momentos, respirar o mesmo ar. Não poderá, em rigor, dizer-se que se trata de “common people” uma vez que fazem parte dos escolhidos. Mas, quase desejando ser ainda mais anónimo do que os outros, escondido atrás das lentes de grande míope, Jarvis Cocker, silencioso e venerador, só não passa completamente despercebido porque os seus centímetros são consideráveis. Em Pulp: A Film About Life, Death And Supermarkets, acontece praticamente o mesmo: sim, o pretexto é o concerto de despedida dos Pulp pós-derradeira reunião, a 8 de Dezembro de 2012, na Sheffield natal, mas, durante esse "day in the life", os verdadeiros protagonistas são a cidade e os seus habitantes, imprevisíveis fãs, literalmente dos 7 aos 77, da banda.


Não é um acaso que o documentário de Florian Habicht comece e acabe com Jarvis entregue à espinhosa tarefa de mudar um pneu. Será encenado mas a intenção coincide com o propósito pouco comum de um filme deste género: converter a suposta matéria-prima essencial – a música e as personalidades dos elementos da banda – em pano de fundo e banda sonora para a paisagem humana da velha Steel Town devastada por Thatcher e, agora, reconfigurando-se como centro de negócios (paradisíaco ou infernal, depende do ponto de vista) e terra prometida de "call centers". Se os Talking Heads assinavam “songs about buildings and food”, esta exploração da vida, da morte e dos supermercados mostra-nos o reportório dos Pulp interpretado por pensionistas e corais de damas azul-lantejoula, equipas de futebol feminino – de que o “mister” é o baterista Nick Banks – patrocinadas pelos Pulp, grupos adolescentes de dança às voltas com "Disco 2000", senhoras idosas interrogando-se se Jarvis será filho de Joe Cocker e vendedores de jornais dickensianos proclamando a sua devoção pelo grupo. E, nesta oferta do primeiro plano à “gente vulgar”, não existe sequer uma partícula de demagogia: só quem nunca escutou com atenção as canções dos Pulp é que não reparou como o seu amor pelas massas só é superado pelo asco com que as representa.

02 July 2014

NO PARAÍSO DIGITAL 



Publicado em 1997, Industry, de Richard Thompson e Danny Thompson, não era, de certeza, apenas uma mera evocação histórica da indústria britânica, do século XVIII à era pós-industrial, com todas as suas glórias, misérias e multidão de vítimas que o desenvolvimento tecnológico condenaria a pouco mais do que deixar-se ficar “sitting in the evening, dreaming of the old times when a job was there for the steady and strong”. Mas, embora no final dos anos 90 os sinais fossem já visíveis, provavelmente, nem um nem outro imaginariam que, quase vinte anos depois, o formidável universo virtual inventado pelas novíssimas tecnologias se preparasse para transformar os infernos de Dickens (povoados por “faces of condemned men who did no wrong”) num quase Eldorado perdido. Anselm Jappe (“O principal problema actual não é apenas a exploração do trabalho mas o facto de cada vez maiores grupos da população se terem tornado ‘supérfluos’ por uma produção que dispensa o trabalho humano”) ou o Manifesto Contra o Trabalho, do Krisis Group (“Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho”), poderiam ser chamados à conversa, mas quem encararia isso senão como uma intolerável recusa do pensamento positivo?



Então, no maravilhoso paraíso digital do Facebook, do YouTube, dos blogs, do Spotify, das "start-ups", onde a macumba está à disposição de todos, o bispo de Roma perdoa os pecados através do Twitter, e até podemos apaixonar-nos perdidamente por um sistema operativo (ver Her, de Spike Jonze), vamos armar-nos em queixinhas? Vejamos, pois, a questão sob outro ângulo. Que, para o que, agora, interessa, é exactamente aquele que acaba de fornecer à crítica musical uma poderosa ferramenta capaz de demonstrar, instantaneamente, por a + b, que o problema de Lana Del Rey não é o da autenticidade vs artifício (viva o artifício!) mas o de não ser mais do que um gigantesco Lego de clichés: chama-se “Lana Del Rey Song Title Generator” e, de borla, oferece uma infinita lista de hipóteses maravilhosamente intermutáveis: “Warhol Rapture”, “Patty Hearst Shotgun”, “Ketamine Bitch”, “Bardot Pansexual”, “Wallstreet Dysmorphia”, “Kerouac Erotica”, “Instagram Murder”, “Sharon Tate Ladykiller”... Com saboroso bónus adicional: a probabilidade de algum deles vir a saltar para o mundo real não é, de todo, negligenciável.