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19 August 2025
05 March 2014
CARREGADOS DE FUTURO
A 15 dias de distância, aparentemente, a actualidade do assunto dir-se-ia algo prejudicada. O ponto, contudo, é que, para o que, aqui, verdadeiramente importa, a actualidade é o menos decisivo dos critérios. Fale-se, então, do concerto de reunião dos Mler Ife Dada, do passado dia 14 de Fevereiro, no CCB. Comemorando os 30 anos de uma banda que, desde o final da década de 80, não existe, haveria sérios motivos para supor estarmos perante um quadro clínico daquilo que, no seu tratado de anatomia patológica pop, Simon Reynolds designou como “retromania”: a devoção quase museológica pelo passado, a reconstituição de um reportório “de época”, o olhar obsessivamente retrospectivo. Exactamente aquilo que podemos encontrar, por exemplo, num álbum como Sun Structures, dos Temples, grupo "soit disant" psicadélico britânico cujos elementos terão nascido por volta da altura em que a banda de Nuno Rebelo e Anabela Duarte encerrou a actividade. E justamente tudo o que nem vagamente se detectou no regresso dos Mler Ife Dada: sem pré-aviso e ignorando tudo acerca deles, ninguém no público seria capaz de adivinhar que a magnífica música que escutava não tinha sido criada na véspera.
A diferença de atitude é crucial: voltar atrás e trazer, tão só, aquilo que já lá estava ou usar esse movimento como pretexto para continuar a pegar fogo à invenção. Naturalmente, ter como ponto de partida Coisas Que Fascinam (1987) e Espírito Invisível (1989) – duas das peças musicais pop mais carregadas de futuro do século XX – e os singles e EP complementares é uma enorme vantagem. Mas, se esse era o guião, dificilmente se preveria o modo pelo qual, sem maiores sobressaltos do que a incorporação de um trio de cordas e outro de sopros, ele seria gloriosamente expandido e dinamitado: como se o interregno de 25 anos tivesse sido minuciosamente cronometrado para possibilitar o melhor concerto de sempre dos Mler Ife Dada, a vertigem sonora da máquina de dança dada-surreal (multiplamente engatada em afro-funk arábico, visões de Naked City através de lentes Plopoplot Pot, arraiais "kitsch"-fadistas e figuras obrigatórias de "vaudeville" eurasiático) estendeu a passadeira para a exuberante encarnação de Anabela sob a forma de cegonha cruzada de pantera "on high heels", ora Yma Sumac, ora Jane Birkin, Berberian, Piaf ou Callas sem travões. No futuro, lá ao longe.
18 May 2013
RELAÇÕES IMORAIS
Como diz Michel Chion em La Musique Au Cinéma, “A história das relações entre música e cinema é, certamente, e a isso teremos de nos resignar, imoral. (...) A nossa consciência racional e o nosso apreço pelo trabalho bem feito indignam-se quando uma determinada música acrescentada no último momento, escrita numa semana e recorrendo a uma retórica retrógrada, por uma espécie de acaso feliz, pelo engenho da montagem e pelo ‘dedo’ de um engenheiro de som, se vão inscrever no corpo de uma obra-prima, se vão converter no coração dessa estátua, como um coração de sopeirinha numa Vénus de mármore”. Que a inversa também é verdadeira, se não tivéssemos reparado antes, ficámos, definitivamente, a sabê-lo quando, há oito anos, a Ipecac publicou o prodigioso duplo de Ennio Morricone, Crime And Dissonance, preciosa recolha de radicais experimentalismos – fantasmagorias electrónicas, libérrimas improvisações, "musique concrète", atonalismos com o freio nos dentes, jazz esquartejado e colagens para orgasmo e taquicardia – generosamente oferecidos pelo mestre, entre 1969 e 1974, às subespécies dos "gialli", pornolixo "light" e outros produtos do catabolismo cinematográfico. E o mesmo se poderia dizer, por exemplo, das "electronic tonalities", de Louis e Bebe Barron, para O Planeta Proíbido, das partituras de Les Baxter para A Queda da Casa de Usher (de Corman), de Leonard Rosenman para Viagem Fantástica, ou de Bruno Maderna para La Morte Ha Fatto l'Uovo.
É nesta micro-linhagem paralela que se inscrevem tanto o filme de Peter Strickland, Berberian Sound Studio (2012), como a banda sonora homónima agora editada, assinada pelos Broadcast (que será, talvez, a sua última gravação, após a morte de Trish Keenan, em Janeiro de 2011): história de um ensimesmado técnico de som britânico que, nos anos 70, é contratado para, em Itália, se ocupar dos efeitos sonoros do que, à partida, ignora ser um "giallo", o envolvimento activo, em atmosfera de máfia kafkiana, na produção da atmosfera de terror acaba por não exercer o mais desejável dos efeitos no seu espírito. A música para Il Vortice Equestre, o filme dentro do filme (de que apenas nos é dado ver o genérico inicial), foi aquilo de que se ocuparam os Broadcast – descendentes do minimalismo dos Young Marble Giants, meios-irmãos dos Stereolab e Pram, e devotos do ignorado e lendário álbum único dos United States of America (1968) que encaravam como a sua bíblia –, quase idealmente talhados para ela: o jogo de espelhos entre "giallo" e reapropriação contemporânea ironicamente opressiva do género é perfeitamente reflectida na sequência de 39 fragmentos sonoros que, sem que verdadeiramente nos apercebamos das costuras do "cut-up", opera por acumulação de sentidos, contrastando motivos, repetindo-os, distorcendo-os e, no processo, montando uma ficção alternativa inteiramente autónoma que, em simultâneo, homenageia sem vassalagem os antepassados Krzysztof Komeda, Fabio Frizzi, Goblin, Gene Moore ou Andrzej Korzyński. E também, mais ou menos subliminarmente, Cathy Berberian, a sobrenatural voz e musa de Luciano Berio.
07 May 2013
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