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16 October 2018

O QUE SABEMOS AGORA

   
“Quando fazemos alguma coisa durante bastante tempo, é fácil acabarmos a discutir com o nosso próprio passado. Não tinha nenhum interesse em gravar um álbum cujo lema fosse: 'Lembram-se deste tipo? Este disco irá recordar-vos de quando gostavam dele'. Não é essa a vida que vivo. Queria gravar um álbum que, anteriormente, não pudéssemos ter gravado. Acerca do que sabemos agora, de como agora nos sentimos e do que amanhã faremos”. Há, obviamente, algo seriamente errado no hipotético lema que Elvis Costello refere no texto de apresentação de Look Now: não apenas o tempo de conjugação do verbo “gostar” não é correcto – onde está escrito que, de um momento para o outro, se tenha deixado de “gostar” dele? – mas, apesar dos 8 anos de ausência desde o óptimo National Ransom, ele não esteve propriamente "missing in action". Ouvimo-lo em Wise Up Ghost (2013) com The Roots, na reconstrução arqueológica (não magnificamente sucedida, é verdade) dos textos inéditos de Bob Dylan em Lost On The River: The New Basement Tapes (2014), lemos vorazmente a autobiografia Unfaithful Music & Disappearing Ink (2015) e, durante todo esse período, quem peregrinou até aos palcos a que ele subia – as tournées “The Return Of The Spectacular Spinning Songbook” (2011), “Detour” (2015/2016) e “Imperial Bedroom & Other Chambers Tour” (2016/2017) – teve oportunidade de testemunhar a óptima forma de Costello & The Imposters, particularmente evidente na avassaladora interpretação de "The Future", de Leonard Cohen (cada vez mais tragicamente actual), no Memorial Tribute a Cohen, de 6 de Novembro de 2017, em Montreal. 



Não é, pois, de espantar que, perante tantas provas de intensíssima vida, Costello se tenha deixado convencer que, ao contrário do que havia decidido, ainda era demasiado cedo para desistir dos estúdios. Look Now remove as últimas dúvidas que pudessem existir: com três novas belíssimas canções escritas a quatro mãos com Burt Bacharach e uma saborosa “antiguidade” com Carole King, a totalidade do álbum é uma exuberante demonstração da vitalidade do idioma pop clássico – aquele que começa no Brill Building, é reconfigurado pelo rock e pelo punk e, pelo caminho, vai mudando inúmeras vezes de pele – quando entregue aos cuidados dos melhores mestres. Daqueles que promovem felicíssimos casamentos de melodia e harmonia capazes de acolher palavras como “I see you looking at me, looking at how you’re looking at me”.

05 May 2010

PERIOD PIECES



She & Him - Volume Two

É publicado agora mas, há dois anos, poderia muito bem ter sido o outro CD de uma edição dupla de She & Him, isto é, Zooey Deschanel e Matt Ward em modo de delicados arcaísmos pop. Melhor: se, na data de publicação, fossem referidas as décadas de 50, 60 ou 70 e não houvesse nenhuma informação adicional acerca dos autores, dificilmente se descobriria que se trata de gente actual e (no caso de Zooey) consideravelmente jovem. Só mais um ajuste: daqui a dois meses, com temperatura e calendário a coincidirem devidamente, seria a banda sonora ideal para os instantes de mais aguda paralisia cerebral que os calores do Verão induzem.



Até porque um certo abandono mental é indispensável para não reparar demasiado quanto o conceito She & Him é pouco mais do que um conjunto de "period pieces", do girl pop ao pastiche-Beach Boys, de Spector a Carole King, do bubblegum de liceu ao romantismo country, uma espécie de Last Picture Show em sessões contínuas. Está lá tudo no videoclip de “In The Sun”: Zooey, num corredor de "high school", por entre cacifos e armários, dança e sorri, leve como uma bola de sabão, brinca com hoola-hoops, e, no final, afasta-se num saltinho inocente. Se fosse mesmo necessário, nesse momento, tudo lhe seria perdoado.

(2010)

19 October 2008

TEATRO RETRO



She & Him - Volume One

Começou muito bem: em 2006, durante a rodagem de The Go-Getter, o realizador Martin Hynes sugeriu a Matt Ward (que se ocupava da banda sonora) a ideia de, para o genérico final, ele e a actriz principal, Zooey Deschanel, gravarem uma versão de “When I Get To The Border”, de Richard & Linda Thompson. O proverbial “marriage made in heaven” musical – com os melhores padrinhos – estava encontrado. Volume One é apenas a sequência natural (e quase inevitável) desse episódio inicial onde a luminária “alt./country/folk” Ward actua como catalisador e eminência parda da beldade “indie” e lhe oferece o cenário ideal para que o seu talento de actriz floresça.



Sim, porque, neste requintado exercício de retro-pop/country, Deschanel vai desempenhando sucessivamente os papéis de Tammy Wynette, Linda Ronstadt, Carole King, das Ronettes ou de Karen Carpenter, num desfile de modelos que cobrem todo o espectro que vai de Phil Spector à Motown e de Tin Pan Alley a Nashville. Acrescente-se que o argumento é também dela: dez das doze canções são suas (uma a meias com o actor Jason Schwartzman) e as duas restantes dos Beatles e de Smokey Robinson.

(2008)