Showing posts with label Carol Reed. Show all posts
Showing posts with label Carol Reed. Show all posts

24 May 2023

EMBRIAGADOS DE PSICADELISMO
 

A famosa tirada de Orson Welles no filme O Terceiro Homem (1949), de Carol Reed – “Em Itália, durante trinta anos, sob os Bórgias, houve guerras, terror, assassínios e sangue mas produziram Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça existiu amor fraterno, 500 anos de democracia e paz e o que é que produziram? O relógio de cuco” –, embora historicamente incorrecta e perigosamente vulnerável a utilizações políticas menos recomendáveis, chama a atenção para o facto de, sem transformar isso em lei geral, períodos históricos e contextos sociais conturbados poderem estar na origem de movimentações culturais intensas. O chamado Anatolian Rock (ou rock psicadélico turco) tem uma linha de vida que bebe no nacionalismo musical do início do século XX, deixa-se contaminar pelo pop/rock ocidental, choca de frente com o golpe militar de Setembro de 1980 e, posteriormente, renasce, reflectindo as várias linhas de força estéticas contemporâneas. (daqui; segue para aqui)

"Rakıya Su Katamam"

04 October 2016

NOIR


Ah, os ricos!... Não podemos viver com eles e não podemos viver sem eles... Escutem o alter-ego a que Maarten Devoldere dá voz: “I’ve got one hand on a champagne drinking cunt, I’ve got the other up the ass of the establishment, and I can’t even distinguish which hand is which, God knows I tried to be against the rich”. E, reforçando a dúvida e a rima, interroga-se “When, my friend, did I make the switch?”. Devoldere, ele mesmo, justifica-se: “Não se trata de nenhum combate contra o conformismo, é a confissão de que cheguei a um ponto em que, de repente, tenho alfaiate e contabilista e posso exigir um whisky puro de malte antes dos concertos. É como um pedido de desculpa ao Maarten jovem e idealista”. Ou uma outra versão daquele provérbio político “revolucionário aos vinte, social-democrata aos quarenta, conservador aos sessenta”. Ele ainda só chegou aos trinta mas, aparentemente, o sucesso, na Bélgica, da sua banda indie, Balthazar (na qual, por acaso, já cantava coisas como “And if the rich are begging for more on the doorsteps of the poor, then what?”) não só lhe permitiu esses pequenos luxos burgueses como não lhe fechou a porta à publicação extra-curricular de We Fucked A Flame Into Being


O título é retirado de Lady Chatterley's Lover, de D. H. Lawrence, e a encarnação paralela de Devoldere (com Sylvie Kreusch) responde por Warhaus, o nome de um velho rebocador atracado em Ghent onde, no Verão do ano passado, o álbum foi concebido. Se o método de criação consistiu em “digging up dirt from your soul and excluding morality” e activar os contrastes de “brutal vs. romantic, art vs. kitsch, archaic vs. modern”, a forma como o concretizou o moço com pinta de neto do Joseph Cotten de Citizen Kane – mas também poderia ser perfeitamente o de O Terceiro Homem – foi optar pelo modelo Gainsbourg/Birkin, fortissimamente contaminado pela proximidade do Leonard Cohen pós-I’m Your Man, mas não muito menos por Nick Cave e Lou Reed. Experimentem situar tudo isso numa atmosfera de "film noir" atravessada por tiradas do género de "You want magic, count me in, you want Jesus, well I'm not him, you're an angel or a whore, tell me who you're working for” e ficarão com uma bastante razoável aproximação à melhor exportação recente do "plat pays" de Jacques Brel.

28 September 2014

Nestas ocasiões em que tende a sobrevalorizar-se a democracia, há que manter as coisas em perspectiva





(O Terceiro Homem - real. Carol Reed, 1949; também aqui, com bonecos a mexer)

24 May 2012

A REGRA DE TRÊS SIMPLES 
(3ª parte da entrevista com Jack White publicada na "Blitz") 



Ao contrário do que, aqui chegados, possa haver motivos para começar a suspeitar – sim, não desesperem –, também falámos de música. Mas, uma e outra vez, por algum misterioso motivo, a associação com imagens ou a alusão a um filme achou forma de se intrometer. Reparem, então: The Third Man/O Terceiro Homem, obra-prima absoluta do “noir”, de 1949, assinado por Carol Reed, com Orson Welles, Joseph Cotten e Alida Valli e sob a permanente assombração da banda sonora, em cítara alpina, de Anton Karas. Como chamou Jack White ao seu primeiro ganha-pão, por volta dos dezoito anos, uma oficina de estofador, a meias com Brian Muldoon, personagem local que lhe deu a conhecer o punk? Third Man Upholstery, publicitada através do slogan “Your furniture’s not dead”. Onde foi gravado o único single, de 2000, de The Hupholsterers – o duo de guitarra e bateria de Muldoon e White – preciosidade de colecção, contendo "Apple of My Eye", de Jack White, "I Ain't Superstitious", de Willie Dixon, e "Pain (Gimme Sympathy)", de Jack Starr? Third Man Studios. Qual a imagem estampada no bombo da bateria que, em 2010, White tocou, na digressão dos Dead Weather? A de Harry Lime (a sinistra personagem de Orson Welles em O Terceiro Homem), em fuga pelos esgotos da Viena do pós-guerra.



Que nome deu à editora independente que fundou em 2001 e cujo lema é “Your turntable’s not dead”? Third Man Records. Espreitem, agora, a primeira frase de "Ball And Biscuit", em Elephant, dos White Stripes: “It's quite possible that I'm your third man, girl”. Longe de mim – para quem o filme de Carol Reed bastaria como justificação para o cinema ter sido inventado – colocar reticências a tal obsessão. Mas é, sem dúvida, uma obsessão, não é, Jack?

“Tem tudo a ver com o filme, evidentemente, que é fabuloso, mas, igualmente, com a minha atracção pelo número '3'. Começou exactamente pela minha oficina de estofos: acredite ou não, eu era o terceiro estofador no meu quarteirão, em Detroit. Era inacreditável que uma única rua pudesse ter produzido três estofadores, uma profissão em declínio! (risos) E como também era grande fã de Orson Welles, surgiu esse nome. Mas o número '3' é a base de toda a minha criatividade, o abrigo em que me acolho. Uso-o a toda a hora quando componho, no design, nas cores... Gosto de limitações, de inventar regras e constrangimentos para poder criar no interior deles. Nos White Stripes, por exemplo, a nossa imagem era tricolor: vermelho, branco e preto. Submeter-me a essa regra do '3' contribui para que eu seja mais criativo”

Aparentemente, contudo, existe uma falha em tão férrea lógica: a paixão por O Terceiro Homem obrigaria que, a uma das guitarras que White possui, ele tivesse atribuído o nome de Alida Valli – a actriz principal, namorada de Lime/Welles, no filme – e não se tivesse ficado por apenas Veronica Lake, Claudette Colbert e Rita Hayworth. Que se passou, afinal?...

“(risos) Pois é, tem razão… mas, lá está, é o '3' outra vez, são três guitarras! É uma espécie de orientação autoimposta que devo seguir em tudo: Veronica Lake, Claudette Colbert, Rita Hayworth, uma loira, uma morena e uma ruiva!”

30 November 2010

ANO DO TIGRE (XXXII)

As trevas, a serpente e o tigre















The Third Man - real. Carol Reed, 1949

(2010)

06 October 2009

FANTASIA COM FANTASMAS


A poucos metros da casa de Jane Birkin, na Rue Jacob, em Paris, há um bar chamado “Zéro de Conduite”, nome retirado do filme de Jean Vigo, de 1933. Precisamente no mesmo edifício onde, de Outubro de 1841 a Abril de 1842, viveu Richard Wagner. Se fosse de acreditar em sinais premonitórios, teria sido caso para imaginar que a conversa que me preparava para ter com a cantora, actriz, realizadora de cinema e activista que o mundo prefere recordar quase só de "Je T’Aime, Moi Non Plus" iria ser um momento propício aos cruzamentos improváveis. O que, de facto, foi. Jane e o ancião felino, Marmalade (17 anos de farto pêlo tigrado laranja), abrem-me a porta e imediatamente ela pergunta se me apetece um chá verde. Digo-lhe que sim e deixa-me sozinho, entre salas, com matéria suficiente para me manter visualmente ocupado até à noite: não há um centímetro de parede (e de mesas e de cadeiras e de piano) que não esteja preenchido com fotografias, quadros, desenhos, manuscritos emoldurados, em fundo vermelho-vinho e sob um tecto em dossel.


Regressa com o chá, sentamo-nos, e, quando o meu vetusto gravador analógico, apesar de repetidamente testado previamente, parece dar-se mal com os ares de França, assegura-me que não haverá problema: também ela os prefere “àquelas coisas minúsculas que parecem telemóveis” e tem uma caixa cheia deles – “algum há-de funcionar” – nos quais grava músicas e ensaia os textos de peças de teatro e filmes. Dos quatro que espalha sobre o sofá, há um operacional e será nele que o torrencial discurso da diva de John Barry, Serge Gainsbourg e Jacques Doillon ficará registado. Inicialmente, em francês, e, a partir do instante em que pronuncia as palavras “endangered species”, em inglês. É, justamente, acerca das línguas e das identidades culturais que começo por lhe perguntar como se sente ela, inglesa há muito residente em França, na qualidade de participante na Festa do Cinema Francês que irá ter lugar em Lisboa:


“Não sei, realmente, como responder. Defendia os franceses quando vivia em Inglaterra, defendo os ingleses, desde que vim viver em França., estou sempre à defesa Mas parece-me que não me apeteceria voltar a viver em Inglaterra, nasci para viajar. Sinto-me muito feliz por ter sido adoptada pelos franceses, adoro a língua francesa. Quando vou a Inglaterra, há uma certa excentricidade inglesa que me agrada muito. Na minha própria família, também. Mas, se reparar que existe um grupo demasiado grande de ingleses em França, evito-o, não tenho amigos ingleses em França. O que, em Inglaterra, me continua a seduzir é a faceta cívica das pessoas. É uma coisa fantástica os polícias ingleses continuarem a não usar armas. Nunca nos sentimos ameaçados por eles nem, por uma qualquer preocupação de segurança, eles invadem a nossa vida. Isso pode acontecer aqui em França: imaginam-se como o Zorro em cima das motos e arrancam as garrafas das mãos dos clochards, à beira do Sena. Onde me situo eu, então? Não sei, não sinto que tenha uma nacionalidade. Comovo-me muito com a ‘Marselhesa’, com o ‘God Save The Queen’ e ainda mais com o ‘Chant des Partisans’. Mas gostava de ser capaz de falar mais línguas”.


Não deixa de ser, no entanto, intrigante que a mudança de Jane Birkin para França tenha ocorrido exactamente durante aqueles anos – os últimos trinta – em que o lugar da língua e da cultura francesas foi quase universalmente substituído pelo inglês e pela cultura anglo-americana. Esse papel de trânsfuga do novo poder culturalmente dominante para a aldeia sitiada de Asterix assenta-lhe, porém, sem o menor desconforto: “É verdade, o meu primeiro filme, Oh pardon! Tu dormais, escrevi-o todo em francês e Boxes (o filme que virá apresentar em Lisboa juntamente com um concerto centrado no último disco, Enfants D’Hiver) também, tal como as canções que eram todas em francês. Quando a Beth Gibbons, dos Portishead, me escreveu uma canção em inglês, pediu-me se eu não a podia cantar com sotaque francês. Disse-lhe que não porque me pareceu que seria um pouco ridículo e, de certo modo, fazer batota. O meu inglês ainda não ganhou sotaque francês, falo como a rainha de Inglaterra”.


Esta “dança das línguas”, tem uma história antiga: “Na escola, aos doze anos, disseram-me para parar com as aulas de francês, era nula. Tinha de me concentrar no inglês, sendo disléxica (ainda não se chamava assim, na altura, só me diziam ‘very bad spelling mistakes!’...), apenas aí poderia ter alguma hipótese. Era, aparentemente, um caso incurável. Até que me apareceu uma professora que me disse ‘Vamos esquecer por completo a ortografia e vais procurar ser muito mais imaginativa. Vão cair-te em cima de tal maneira por causa da ortografia que tens de compensar isso procurando uma forma mais interessante e criativa de abordar e pensar os trabalhos’. Consegui passar em Inglês, História, Literatura mas proibiram-me terminantemente de falar francês! Na escrita das canções, em francês, posso ser muito teimosa relativamente aos erros que me apontam. Numa delas, ‘A La Grâce de Toi”, disseram-me que não se diz ‘a la grâce de toi’ mas sim ‘pour Dieu’. Era uma canção para a minha filha Kate e eu queria dizê-lo assim. O disco era meu e ficou como eu queria. Mais tarde, vieram dizer-me que, afinal, em francês antigo, essa forma era um pouco bizarra mas correcta, como em ‘L'amour de moi, s'y est enclose’, uma canção do século XII. Por outro lado, em Boxes, o John Hurt disse-me: ‘Talvez por viveres há tanto tempo em França ou porque escreveste originalmente em francês, as partes do texto em inglês, não estão exactamente como um inglês as escreveria. Terminei agora uma temporada a representar Beckett e a tua escrita em inglês tem o mesmo tipo de estranheza da dele’. Aquilo foi, para mim, um enorme elogio! Mas eu gosto muito de animais em via de extinção e o francês e a cultura francesa, para mim, são espécies em risco de extinção”.


É aqui que deverá ser dito que uma conversa com Jane Birkin é um permanente exercício de tangentes e bifurcações em que, por vezes, se fica com a sensação de que nós, os interlocutores, somos apenas um pretexto para um interminável monólogo interior onde as palavras e a sequência dos tópicos obedecem a uma lógica muito própria. Foi assim que, de Beckett, passaámos ao óleo de palma e aos orangotangos do Borneo, daí para os "sans papiers", para a nova primeira dama japonesa que viajou em sonhos até Vénus, para o "sit-in" em que, dois dias antes de Lisboa, irá participar, frente à Câmara de Paris, a favor da libertação de Aung San Suu Kyi, e, finalmente, para as dores de parto de Boxes: “Nenhum produtor queria pegar no filme. Para voltar a contar a história da minha vida toda – em especial, no que se relaciona com o Serge Gainsbourg –, para aparecer na televisão e me fazerem mais uma vez as mesmas perguntas de sempre, para isso há sempre todas as facilidades. Mas, para produzir um filme que não é autobiográfico mas uma fantasia com todos os fantasmas que espreitam à janela, foi extremamente difícil. Fui, então, para a Bretanha e comecei a escrever as canções sobre melodias dispersas que tinha. Nem todas foram incluídas no disco. Entretanto, a minha mãe que deveria participar no filme morreu e abandonei a ideia de Boxes. Gravei outro disco, Fictions, com Beth Gibbons, Rufus Wainwright, Divine Comedy, Magic Numbers, na maior parte, em inglês, e parti em tournée, queria afastar-me. Quando, por fim, consegui fazer o filme, o disco veio também, por arrasto”.


E, por arrasto, vem também, num derradeiro cotovelo da conversa, a evocação dos pais: “O meu pai foi dado como inapto para o serviço militar porque tinha visão dupla. Quando a guerra começou, ele soube da existência de cursos de espionagem onde se estuda todas aquelas coisas sobre que lemos em Brighton Rock, do Graham Greene, e aprendeu a pilotar navios. Tinha uma pala de pirata num dos olhos, era incrivelmente bonito. Entregaram-lhe um navio que deveria dirigir-se à Bretanha onde, através dos códigos que eram transmitidos pela BBC – coisas do género ‘As camisas do Jean Claude já estão prontas na lavandaria’ –, recebia ordens para, pelas noite sem lua, desembarcar tropas e armas inglesas. Sim, exactamente como no Alô! Alô!... que ele, aliás, adorava. Se a missão falhava, tinham de esperar pela próxima noite sem luz para repetir todo o processo. Durante quatro anos. Quando a guerra terminou, perdeu o interesse pela vida militar e dedicou-se a uma quinta. Os pais da minha mãe, Judy Campbell, eram ambos actores e, durante a guerra, uma canção dela, ‘A Nightingale Sang In Berkeley Square’, tornou-se um grande êxito. Era lindíssima e tinha uma voz velada. Uma noite, o Noël Coward foi ouvi-la e convidou-a imediatamente para participar nas suas peças. Como a casa dela tinha sido bombardeada, vivia com Pempie Reed, a mulher do Carol Reed e prima do meu pai. Foi assim que se conheceram.

Judy Campbell

Era um casal estranho. O meu pai – era muito ciumento e, sendo casado com uma mulher como a minha mãe, tinha boas razões para o ser – procurou afastá-la dos teatros de Londres. Anos mais tarde, ele assumiu o cargo de oficial de justiça, encarregue das suspensões de penas. Detestava o sistema penal britânico, participámos juntos em manifestações contra a pena de morte e foi ele que me fez membro da Amnistia Internacional. Costumava levar-me com ele e recordo-me muito bem do pobre Tom Bell: vivia em Battersea e a mãe era cangalheira. As pessoas apareciam com os corpos numa carroça e descarregavam-nos sobre uma mesa, enquanto os ratos corriam à volta e ela exercia a sua arte. Quando o meu pai tentou falar com o Tom, foi dar com ele a masturbar-se no quarto dos fundos, de tal modo modo se aborrecia ali. ‘Se calhar, eu faria o mesmo’, disse o meu pai, ‘se vivesse em Battersea e a minha mãe tivesse, todos os dias, cadáveres em cima da mesa da cozinha’. Acontece que o Tom era pirómano. O meu pai conseguiu tirá-lo da prisão e evitou que fosse parar a um hospital psiquiátrico. A Mrs Bell que era uma mulher corpulenta, ficou tão feliz que abraçou o meu pai e lhe disse ‘Oh Mr. Birkin, quando o terrível dia chegar, juro que hei-de pô-lo muito bonito!’”.

(2009)

13 May 2007

O TERCEIRO HOMEM

(real. Carol Reed, 1949, a partir do romance homónimo de Graham Greene; música de Anton Karas
)



(pistas de decifração liberalmente sampladas de La Musique Au Cinéma, de Michel Chion)

* A cítara de Anton Karas, única fonte musical do filme, executa diversos temas em andamentos diferentes, tendo Karas sido descoberto no local de rodagem, em Viena, conduzindo o realizador a repensar completamente a sua concepção.



* Desde o início, o tema principal "de Harry Lime" ressoa sobre o que é um dos mais estranhos genéricos da história do cinema: o instrumento é filmado em grande plano de forma que, ao mesmo tempo que se escuta o tema, se vêm as cordas vibrar sem se observar os dedos que as tocam. Os ataques dos sons são subtilmente desfasados em relação aos movimentos que se vêm, segundo uma coreografia de quase sincronismo. Poder-se-à dizer que este desfasamento — associado ao caracter anódino e absurdamente feliz do ritmo — anuncia o ponto de vista do que se lhe segue: tratar o tema distanciadamente?

* O filme contrapõe um expressionismo visual ostensivo à frieza estudada da montagem e do jogo de representação dos actores.

* Existirá uma relação entre o ponto anterior e a personagem Holly Martins/Joseph Cotten, um romancista sarcástico e frio, paradoxalmente alcoólico e cerebral, em busca de um tema de inspiração?

* Notar a forma pouco "empática" de encadear os temas musicais, como se as músicas se sucedessem segundo os estados de alma de um DJ algo indiferente.

* A "voz off" que inicia o filme ensaia um registo de falso documentário distanciado a propósito da partilha de Viena pelos Aliados. E essa voz, a do romancista Holly Martins, começa por falar de música: "Não conheci a Viena de antes da Guerra, a de Strauss". A "grande música antiga" considera-se perdida, só resta a sua caricatura.



* Na cena onde Martins chega a Viena, essa música, inexplicavelmente feliz, só se interrompe no cimo das escadas da gare, apenas como se tivesse chegado ao termo do seu próprio movimento natural, sem qualquer outro motivo para que isso acontecesse.

* Essa música é ouvida, igual, mais à frente, quando Martins/Cotten deambula por um cemitério à procura de um informador. O som da cerimónia do funeral articula-se com o início da música de Anton Karas.

* A confrontação entre Martins e Lime, na Grande Roda do Prater, onde os seres humanos, lá em baixo, são observados como insectos desprezíveis (dando azo à célebre tirada de Lime acerca do contraste entre os horrores do papado e dos Borgias e a pacífica democracia suiça e o que isso implicou quanto á cultura mundial e... ao relógio de cuco), é sublinhada pela intervenção irónica da cítara.

* Será que essa cena materializa visualmente o ponto de vista da própria música? Um movimento circular, cinicamente indiferente — a Grande Roda do Prater —, enquanto se comete um crime e o horror alastra?



* E o Harry Lime frio e altivo, sem "falhas" nem ansiedade, "é" aquela música e ela é uma espécie de seu alter-ego? Existe realmente entre ambos uma relação assim tão directa? Não será antes uma caricatura musical, um sublinhado monótono pela própria música, na sua irremediável circularidade, da Viena — metáfora da Europa dividida do pós-guerra — sem norte, esvaziada de horizontes ? A sofisticada e cosmopolita "Viena das valsas" em compasso ternário, simbolizada por uma música de vago recorte "étnico"?

* Notar ainda, em matéria do som que atravessa todo o filme, a forma como a narrativa é imediatamente situado sob o ponto de vista do ocupante: quase continuamente, o espectador não-germanófono, encontra-se mergulhado — e sem a mínima possibilidade de o compreender a não ser através de episódicas e fragmentárias traduções — no discurso em alemão dos vienenses, dessa forma se reconhecendo imediatamente em "terrritório estrangeiro". (2002)