(sequência daqui) Não foi a única vez em que (se o conceito tem autorização para existir) a reapropriação cultural teve lugar. Deslocada para Memphis aos 19 anos e definitivamente dedicada â música, não apenas descobriu a Memphis Soul da Stax Records (de Aretha Franklin, Booker T. & The M.G.’s, Carla Thomas, Otis Redding e Rufus Thomas), mas também as branquíssimas bluegrass, folk, country, e a tradição musical das Appalaches, coisa à qual, por entre histórias e lendas de vadios e vagabundos moídas no almofariz transcultural e alimentadas a "lap-steel guitar", ukulele e banjo (“instrumento de origem africana”, sublinha), haveria de chamar "organic moonshine roots music". Sobre ela pairavam também Mississippi John Hurt, Memphis Minnie, Dolly Parton, Etta James e a Carter Family que iriam fertilizar o terreno onde a sua música cresceria: “No meio musical, quando se fala de ‘roots’, pensa-se em folk, blues, Americana... Eu prefiro pensar na minha música como uma planta: tem as raízes que lhe permitem crescer, florir e desenvolver-se em todas as direcções. Se começar a partir do solo, das raízes, e as estudar, acabarei por descobrir-me a mim mesma, crescerei e transformar-me-ei naquilo que daí haverá de surgir”.(segue para aqui)
Houve um pequeno momento de pânico quando,
há meses, Bob Dylan confidenciou à “Rolling Stone” estar a considerar a
possibilidade de o seu próximo álbum incluir predominantemente “temas
religiosos”. Tratar-se-ia de uma assustadora recaída? Iria ele entrar em
vertiginosa marcha atrás até à sua idade das trevas privada enquanto "born-again christian" - os anos dos
terríveis Slow Train Coming (1979), Saved (1980) e Shot Of Love (1981) – e
colocar um triste ponto final na magnífica série iniciada em 2001 com Love
& Theft? Falso alarme, afinal. Aqui e ali, haverá uma ou outra afloração
do que poderia ter acontecido (um “there
is no understanding for the judgement of god’s hand”, por exemplo, mas
devidamente legitimado pelo contexto), no entanto, em Tempest, o Dylan que
reencontramos é, como escreveu Greg Kot no “Chicago Tribune”, a reencarnação do
xerife Ed Tom Bell, de No Country For Old Men, dos irmãos Coen: pelo mundo, o
mal e a devastação triunfam mas o que deve ser feito tem de fazer-se. E, sem a
menor sombra de sentimentalismo e um grau de virulência digno dos seus mais
gloriosos instantes, ele mete mãos ao trabalho de inventariar os horrores e os
facínoras e de os expor em toda a sua ignomínia.
Como que em irónica manobra de diversão, tudo começa com a chegada de um
"slow train" vindo de Duquesne, cujo “whistle”
apita “like the sky is going to blow apart”. O céu não explode mas, fiel ao
que, citando o Shakespeare de Júlio César, anuncia em "Pay In Blood"- “I came to bury not to praise” –, as
imprecações e o "body count" nunca mais
terão fim. É bem possível que as várias temporadas do programa de rádio
semanal(“Theme Time Radio Hour”) que
Bob Dylan, entre 2006 e 2009, manteve na XM Satellite, lhe tenham apurado o
gosto pelas formas e géneros musicais anteriores à época em que ele próprio
mudou o curso da música popular. Porque, aqui, tudo opera em modo de bar de
estrada possuído pelos vetustos espectros dosblues, do rockabilly, da country, do swing, do gospel, do vaudeville ouda folk mais encardida.
Pegue-se em “Early Roman Kings”:ascendência em "Hoochie Coochie Man", de
Willie Dixon, via Bo Diddley ("I’m A Man") ou Muddy Waters ("Mannish Boy"), com
o acordeão de David Hidalgo no lugar da previsível harmonica e uma invectiva
digna de "Masters Of War": “they’re peddlers and they’re meddlers, they buy and
they sell, they destroyed your city, they’ll destroy you as well, they’re
lecherous and treacherous, hell bent for leather, each of them bigger than all
of them put together (…) I could strip you of life, strip you of breath, ship
you down to the house of death”. Ou "Pay In Blood", riff-murro nos cornos e “Night after night, day after day, they
strip your useless hopes away, (…) I’ve been through hell what good did it do?
You bastard, I’m supposed to respect you? I’ll give you justice, I’ll fatten
your purse, show me your moral virtue first, I’ll pay in blood but not my own”.
Considerem-se ainda duas "murder ballads" ("Tin Angel" e "Scarlet
Town"), uma derivação dos Mississipi Sheiks ("Narrow Way": “We looted and we
plundered on distant shores, why is my share not equal to yours, your father
left you, your mother too, even death has washed his hands of you”), a imensa
canção-título (14 minutos de alucinações sobre o Titanic tomados de empréstimo
à Carter Family) e, à excepção da dispensável evocação de John Lennon ("Roll On
John"), podemos ficar certos que o álbum publicado 50 anos após o da estreia de
Bob Dylan, é coisa tão indispensável como (quase) tudo o que veio depois de
1962.
10 September 2012
VINTAGE (CIII)
The Carter Family - "The Great Titanic"
04 February 2010
O APELIDO CASH
Rosanne Cash - The List
Mesmo depois de ultrapassar a barreira dos 50 anos, carregar sobre os ombros o peso do apelido Cash (do pai, Johnny), continua a não ser tarefa simples. E ainda que, em diversas áreas (da música à escrita), Rosanne Cash tenha conseguido sacudir com êxito esse fardo, chega sempre um momento em que é necessário encará-lo de frente. The List fá-lo muito explicitamente ao seleccionar o reportório de um syllabus de 100 entradas acerca do essencial e histórico na country/folk, elaborado por Johnny Cash em 1973 e entregue à então jovem Rosanne como material de estudo.
Socorrendo-se da bengala de notáveis como Springsteen, Elvis Costello, Rufus Wainwright ou Jeff Tweedy (Wilco), não custa reconhecer que Rosanne foi diligente e procurou interiorizar o idioma dos clássicos – de Hank Williams, a Dylan, Merle Haggard, a Carter Family ou Patsy Cline. Mas deve igualmente dizer-se que, nesta apresentação pública do trabalho de quase quarenta anos, existe muito mais reverência e vénia perante os mestres do que verdadeira apropriação e releitura transformadora do cânone.