Punking Out (real. Maggi Carson, Juliusz Kossakowski, 1978)
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05 October 2018
24 April 2018
NA ALTURA CERTA
Há menos de um ano, nos ecrãs de televisão de todo o mundo, Chrysta Bell habitava as assombrações de David Lynch em Twin Peaks: The Return, enquanto, ao mesmo tempo, numa existência paralela (também catalisada por Lynch), publicava o precioso álbum We Dissolve, produzido por John Parish. Agora, em 4 das 20 datas da tournée europeia de 2018, pudemos vê-la e ouvi-la onde mais improvável seria: Coimbra, Arcos de Valdevez, Ovar e Torres Novas. No Outono passado, Relatives In Descent, dos Protomartyr, situava-os num patamar equiparável ao dos National segundos antes de Alligator e ainda recomendavelmente longe de Sleep Well Beast – “uma música devastadora, estridentemente política, mas menos interessada em ditar problemas e soluções do que em cartografar a topografia emocional de estar vivo e aterrorizado em 2017”, como sobre ele escreveu “The A.V. Club”. Escassa meia dúzia de meses depois, a banda de Joe Casey e Greg Ahee, numa noite de aguaceiros, subia ao palco na pombalina e granítica Musicbox.
No Teatro Gil Vicente, em Coimbra, Chrysta Bell foi a aparição de uma Rita Hayworth de alabastro, algo como a sobreposição dos perfis de Siouxsie, Cleópatra e Batwoman, numa coreografia entre "lap dance" e dança do ventre, e armada de uma voz capaz de ir do sussurro ao registo de diva operática. De This Train ao recente EP homónimo, contra um pano de fundo de labaredas, cortinas vermelho-bordel de Twin Peaks e excertos de clips de Lynch, escoaram-se dezassete luxuosas canções por vezes, mais próximas de uma (per)versão do "wild mercury sound" de Dylan do que da "torch song" – a novíssima "Blue Rose", contudo, é melodia orgástica impurissimamente "torch" –, coisa tão ardentemente física quanto a milagrosa cintura pélvica da "femme fatale" que as interpretava. Menos cantor do que "diseur"/exorcista de demónios erguido sobre as ruínas proletárias de Detroit, Joe Casey transformou a sala do Cais de Sodré num cenário onde um rock Neolítico – queimando algumas etapas – sonha com um futuro Românico. A acústica do lugar pode converter todos os textos em pura poesia fonética (mas, se quiséssemos ir por aí, nunca ninguém teria colocado um pé dentro do CBGB), porém, naquela densa construção sonora de uns Pixies com menor profundidade de campo, é impossível não declarar rendição perante o napalm da guitarra e a quadratura estalinista de baixo e bateria. Aqui e ali, fora dos hipermercados estivais de música, ainda é possível ir estando atento às coisas certas, na altura certa.
14 October 2015
ORK
Na edição de 13 de Setembro de 1982 do “New York Magazine”, a Cinemabilia, situada no nº 10 da West 13th Street, em Nova Iorque (onde, hoje, se situa a loja de roupas vintage, Beacon’s Closet), era apresentada na qualidade de livraria dedicada ao cinema a ser obrigatoriamente visitada pelos devotos das 24 imagens por segundo – em especial, devido à enorme secção de revistas estrangeiras –, “apesar dos maus modos de quem lá trabalha”. Não é provável que, nessa altura, um dos funcionários mal encarados fosse ainda William Terry Collins, aliás, Terry Ork, cinéfilo terminal, ávido por uma boa conversa, como recorda, à “Uncut”, Glenn Mercer, dos Feelies: “Tínhamos tocado no CBGB’s e o técnico de som, Mark Abel, disse-nos que estava a pensar convidar o Terry para o nosso concerto seguinte, ele havia de gostar do nosso som. Não me lembro já muito bem como correu mas surpreendeu-nos o aspecto dele: não era vulgar aparecerem muitos barbudos de cabelo comprido na cena punk. De qualquer modo, ele era um fanático de cinema e conversámos mais sobre filmes europeus do que acerca de música”.
O objectivo desse encontro era que os Feelies gravassem para a Ork Records (fá-lo-iam mas o seu primeiro single, "Fa Ce-La", acabaria por sair, em 1978, pela Rough Trade), a indie de vão de escada de Terry Ork – financiada pelos magros proventos da Cinemabilia –, ex-assistente de Andy Warhol, na “Interview”, e esteta visionário mas com pouca queda para o negócio. Foi ele quem apresentou Tom Verlaine e o empregado da Cinemabilia, Richard Hell, ao "flatmate", Richard Lloyd, sendo, assim, responsável pela primeira formação dos Television de que a Ork editaria o registo de estreia, "Little Johnny Jewel". Gravaria também o EP de Alex Chilton “Singer Not the Song”, Chris Stamey e Peter Holsapple pré-dB’s, Lester Bangs (sim, esse mesmo), Mick Farren, Marbles, e meia dúzia de outras magníficas obscuridades. “Era uma atmosfera muito boémia”, conta, agora, Stamey, “muito Rive Gauche, Rimbaud e Nerval andavam no ar”. Previsivelmente, durou só até 1979. Terry Ork, sob o nome de Noah Ford, escreveria ainda para revistas de arte, passaria três anos na prisão por fraudes várias e morreria de cancro em 2004. A caixa de 2 CD e 49 faixas, Ork Records: New York, New York, repõe a lenda em circulação.
24 March 2009
DUAS EPIFANIAS DEPOIS
Não há bateristas de jeito em Paris. É Rhys Chatham quem o confessa um pouco embaraçadamente e quase off-the record, uma vez que, desde 1989, é parisiense por adopção. E, agora que terá de resolver esse problema para a actual “Guitar Trio Is My Life Tour”, parece um momento oportuno para indagar acerca dos motivos que conduziram um moço de formação imaculadamente académica, com início de carreira como afinador de piano e cravo para sumidades como Glenn Gould ou Gustav Leonhardt e que nunca tinha posto os pés num concerto de rock, a mergulhar na cena minimalista e na no-wave novaiorquina do final dos anos setenta: “Tive duas epifanias: uma foi quando, em 1969, assisti a um concerto do Terry Riley. Nessa altura, interessava-me pela música pós-serial, por Stockhausen e outros compositores dessas correntes de pensamento musical. Quando ouvi aquela música completamente tonal, apeteceu-me exigir o dinheiro do bilhete de volta. Mas fiquei até ao fim e a minha vida mudou. Comecei a tocar com o La Monte Young e o Tony Conrad e tornei-me minimalista. A segunda epifania foi num concerto dos Ramones, em 1976, logo a seguir à publicação do primeiro álbum deles. Um amigo disse-me 'Mas que história é essa de nunca teres ido a um concerto de rock?...Anda ver esta banda ao CBGB’s'. E… meu deus!... Eles podiam tocar apenas três acordes, eu só tocava um, mas havia imenso em comum no que fazíamos. No dia seguinte, outro amigo emprestou-me a Stratocaster dele e, desde aí, apaixonei-me pela guitarra eléctrica”.
No princípio de tudo esteve, então, o agora reanimado “Guitar Trio”: “Criei-o em 1977, originalmente, para três guitarras eléctricas. Era tocado por mim, pelo Glenn Branca e pela Nina Canal (dos Ut). Tinha duas partes, cada uma de meia hora, em que tocávamos a corda de Mi grave e todo o seu vocabulário assentava na exploração da série harmónica. Quando se escuta esta peça, inicialmente, parece tratar-se apenas de uma nota – logo, minimalista – mas, a seguir, começamos a reparar em todas aquelas 'vozes'... que não são vozes mas harmónicos. Nos anos 80 e 90, toquei uma versão mais curta, de cerca de oito minutos. Mas, há algum tempo, a minha editora, a Table Of Elements, sugeriu-me que recuperasse a versão antiga, desta vez com seis guitarras. O [artista plástico] Robert Longo que, na altura, também integrava a banda, fez uma série de slides lindíssimos que eram projectados num fade-in/fade-out muito gradual. Fizemos uma digressão por quinze cidades dos EUA – em cada cidade, os amigos locais participavam no concerto, em Nova Iorque, foram os Sonic Youth, em Chicago, os Tortoise – e, posteriormente, decidimos fazê-lo também na Europa”. A duplicação do elenco instrumental, segundo Chatham, não só implica uma maior potência sonora como torna a escuta da música muito mais intensa: “Actualmente, tocamos com um mínimo de seis e um máximo de dez guitarras. Acima disso, torna-se demasiado confuso. Eu toco um determinado padrão rítmico e os outros guitarristas reagem em contraponto comigo. Através de mudanças subtis na dedilhação, é possível escutar os diferentes harmónicos”.
A música de Rhys Chatham, no entanto – embora, juntamente com a de Glenn Branca, dando origem a uma numerosa descendência em que se incluem grupos como os Sonic Youth, Husker Du, Godspeed You!Black Emperor, A Silver Mount Zion e diversos outros –, tendeu sempre a ser recebida através de duas grelhas de leitura distintas: “Em 'Drastic Classicism', que escrevi para a Karole Armitage, uma guitarra está em Ré, outra em Dó sustenido, outra em Ré sustenido e a outra em Mi. É uma peça muito dissonante, os harmónicos, ressoam por todo o espaço. Eu que trabalhei como afinador de pianos e cravos, estou habituado a ouvir harmónicos. Na cena downtown de Nova Iorque, em sítios como a Kitchen, isso era encarado como uma nova forma radical de minimalismo mas, no CBGB’s ou no Mudd Club, era visto como uma variante da wall of sound ou noise-rock. Aliás, quando criei o 'Guitar Trio', via-o como uma peça musical que utilizava a intrumentação do rock mas não como rock em si mesmo. Em 1976, porém, com a explosão artística que teve lugar, tudo se modificou. Conhecia, por exemplo, a Patti Smith como poeta na cena de St. Mark’s, e, subitamente, vejo-a com os Television, no CBGB’s. Chegou a um ponto em que metade do mundo da arte novaiorquina frequentava os clubes de rock e a outra metade fazia parte das bandas que estavam a tocar em palco. Foi uma época única. No entanto, mesmo quando os Sonic Youth se tornaram bastante conhecidos, nunca me senti em competição com eles. Actualmente, é verdade, sou obrigado a reconhecer que já toquei muito mais em clubes de rock do que em salas de concerto”.
Sunn O))), Brooklyn, 2005
Estará, apesar disso, Chatham disposto a perfilhar toda a descendência posterior do seu "mind-deadening sound" (tal como o definiu numa entrevista em que, por outro lado, descrevia com gráfica minúcia o seu conhecimento bíblico de uma ex-namorada de Michael Gira, nos bastidores do Hurrah's)? “Oh oh oh... essa entrevista!... Na música dos Sonic Youth ou das outras bandas que referiu, existem, sem dúvida, elementos que já estavam presentes em “Guitar Trio” e que eles desenvolveram, num contexto mais ou menos pop. Mas interessam-me particularmente bandas de drone metal como os Sunn O))) que admitem ter escutado o que fazíamos há trinta anos e que o transportam para um contexto naturalmente diverso”.
(2009)
Labels:
CBGB's,
Glenn Branca,
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Gustav Leonhardt,
La Monte Young,
Patti Smith,
Ramones,
Rhys Chatham,
Sonic Youth,
Stockhausen,
Sunn O))),
Television,
Terry Riley,
Tony Conrad
16 March 2009
ACTUALLY IT WAS ALL VERY SWEET AND INNOCENT


Gang Of Four no Hurrah's


E, algures pelo meio de uma extensa entrevista na qual Rhys Chatham é tudo menos minimalista no que a exaltar a sua genialidade diz respeito, de súbito, o âmbito da pergunta
You were witness to the NYC no-wave scene in the late 70s/early 80s; what were your impressions of what was happening then and its aftermath?
é admirável e surpreendentemente excedido pela resposta:
"Actually, Brian Eno had asked me to be on that No-Wave album he did, but I forgot about the recording session he had organized for the different groups over on Greene Street, so I didn't get to be on it, which was too bad, never mind. God, I had so much fun in NY during that period. There was this great club called Hurrah's that Jim Fouratt used to run. It was really slick and all the bands loved to play there 'cause Jim made sure everybody got paid decently; a nice, big, fat flat-fee rather than a crummy split-the-gate thing.
Gang Of Four no Hurrah's
One night there was this double bill with the Contortions and the Screamers that I particularly remember because I was helping out with the sound. James Chance was doing his usual thing of going out and beating up the audience, it was great. But the real highlight of the evening for me was meeting Mike Gira's ex-girlfriend, Anne-Marie. Mike was in Swans with an amazing drummer named Jonathan Kane (who I later ended up working with) and Anne-Marie was doing publicity for Jim Fouratt at the club. And she had just split up with Mike. It turned out that she was the same sign as me, Gemini, and that we knew all the same people: Lydia Lunch, Scott and Beth B., Vivian Dick, Pat Place, Arto, John Lurie, James Nares, Adele Bertei... the whole gang! Anne-Marie was from a small hamlet in France called St. Brieuc and was studying modern dance when she wasn't working for Jim. She had this wild, spiky blond hair that went all over the place, along with fine features over delicate bones. I really had a good time talking with her and gradually became sexually attracted as I was doing so, especially in retrospect. During the Contortions setup, we had many opportunities to speak together. As we were talking, I couldn't help but notice that she kept folding her arms over her breasts. At first I thought this was because they were cold (her breasts), but after she repeated the gesture a number of times over the course of the sound check I gradually began to suspect that it was because she wanted to hide them. Anne-Marie had large breasts for a dancer; I think they might have been a B cup, which isn't after all THAT big, but dancers are weird about that kind of thing, they think that breasts aren't aerodynamic, or some weird shit like that.
Hiding her breasts had the effect of making me want to covertly study Anne-Marie's body at every available opportunity, which I'm happy to report that I managed to do as the evening wore on. I was only hoping that I wasn't being too obvious about it. Her clothes, though torn in all the usual and correct places, were completely black making it difficult to see what she really looked like, so I had to use my imagination at first. Anyway, after the Contortion's set, Anne-Marie invited me to a private area at Hurrah's which was the nice, airy space they had on the third floor; it was quite comfortable. Sitting together on the couch over glasses of chilled vodka and certain other controlled substances, I told Anne-Marie what an amazing person I thought she was. I confided that I was sexually attracted to her and asked if I might rest my head for a time upon her breast as a kind of prelude to an evening of tenderness, passion and emotions. After a bit of circumspection and reflection, she decided to be kind to me, so I dived right in, I mean, it was the end of the seventies for god's sakes! I could have stayed there forever, kissing and engulfing her tender extremities with my trumpet player's lips. Naturally, after a while, I felt inspired to explore other parts of her body.
Accordingly, I removed her jeans and buried my face deep within the crevice of her buttocks, which was protected by a thin white cotton material. I kissed her fragrant orifice through the white cotton over and over again, invading it with my busy tongue through the fabric of her underwear. I wet-kissed all around her unmentionable entrance and gateway-to-heaven area, fondling repeatedly and using my tongue in order to push and explore, while at the same time gently cupping her breasts with my long, pianist's fingers. Eventually, I asked Anne-Marie if it would be all right if I removed her panties. After the consent, I allowed my tongue to dart lightly over the slightly darker skin of her back passage, gradually pressing deeper and deeper, inhaling a slightly musky scent as I did so. Finally, I couldn't control myself any longer, so after first turning Anne-Marie about, I whipped the pride of my manhood out of my jeans which by this time was rigid with aching desire and drove the old ramrod home again and again! Anne-Marie used her shapely dancer's thighs to grab me from behind in order to bring me closer still, milking every available drop of my manly essence deep within her. Thus spent, I tenderly caressed her face and I merged her lips with mine in a final loving embrace before we returned to our respective duties to help with the load-out of our musician friends. The early eighties on the no-wave scene in NY were really great, man. I mean, there was open sex happening in most the clubs, at least the better ones... Tier 3, the Mudd Club, in the back room at CBGB's, it's no wonder I forgot all about Brian's fucking recording session! Not that we were into sex all THAT much, it's just that it was there and available. This was during the pre-AIDS period... you know? Actually, it was all very sweet and innocent, when you think about it".
(2009)
14 March 2007
PUNK/NEW-WAVE? EU?!!!...

Ele faz e toca. Não analisa nem tem queda para se perder em introspecções e reconstituições históricas. O CBGBs foi apenas um episódio que só acessoriamente viria a constituir-se como "cena" musical autónoma e, já agora, os Television chegaram lá primeiro. Sim, Tom Verlaine, guitarrista e compositor de uma das bandas-farol do punk/new-wave novaiorquino da segunda metade da década de 70 (e não, os Television não eram punk/new-wave), recusa-se a cooperar com os biógrafos — eles que façam o trabalho de casa — e, agora que o grupo optou por se reunir esporadicamente apenas para concertos, faz gala de uma conveniente amnésia que só retém a música que criou e fez "delete" para todo o resto. Ah!, mas conhece Carlos Paredes e Amália e gosta muito de ambos.
Television - "Little Johnny Jewel"
Acerca dos concertos que os Television, desde há algum tempo, têm vindo a dar, pode-se falar de uma reunião do grupo?
Não. Há cerca de sete anos que estamos a fazer concertos, na Europa, no Japão, nos Estados Unidos. Mas não se trata realmente de uma reunião, não temos nenhum disco novo. Temos trabalhado algumas canções novas mas muito lentamente.
Talvez hoje mais do que nunca seja importante falar do papel que os Television desempenharam em meados dos anos 70 no desencadear da cena criada à volta do CBGBs, no punk/new wave novaiorquino? Tem a noção da importância que a banda e toda essa era tiveram?
Nunca penso nesses tempos. Deixo esse trabalho para os jornalistas.
Mas tem alguma memória dessa época?
Um pouco. Não muito. Parece-me difícil dizer quanto é que alguém é capaz de se recordar de coisas que aconteceram há vinte e cinco ou trinta anos. Quando começámos a tocar no CBGBs era apenas um bar que descobrimos onde nos deixavam tocar. Só depois é que as outras bandas começaram a chegar e a tocar também. Cerca de dois anos mais tarde, já havia bandas de fora da cidade que se apresentavam lá. Não era exactamente aquilo a que poderíamos chamar uma "cena". Só algum tempo depois é que se veio a transformar nisso.
Television - "1880 Or So"
Os Television eram uma banda fora de qualquer sentido de grupo ou movimento ou sentiam alguma afinidade com outros grupos e músicos?
Não sei. Dizíamos sempre "olá" uns aos outros (risos)... As bandas eram tão diferentes umas das outras.
Mas, quando começaram, havia bandas ou guitarristas que admirassem?
Não. Foi exactamente por isso que fizemos a banda. Porque não gostávamos de ninguém. Ouvíamos alguma música de guitarras dos anos 50 e 60 mas não tínhamos paciência para o que se fazia nos anos 70.
Curiosamente, no entanto, os Television eram encarados um pouco como a "jam band" da altura, uma espécie de Grateful Dead do punk/new wave. Faziam solos, improvisavam, tocavam temas longos...
É natural que esse tipo de relações se possa estabelecer. Mas parece-me que isso é uma questão para os historiadores da época resolverem. Não penso que esse seja o meu papel como músico. Eu limito-me a escrever as canções, a trabalhá-las, a decidir se algumas admitem espaço para improvisação ou se outras nos obrigam a conter-nos mais. Punk não era porque no punk não se improvisa. Nós usávamos quatro ou cinco acordes e o punk só usava três. Essa era uma diferença crucial! (risos)
Television - "Marquee Moon"
Já ouviu bandas como os Strokes ou Yeah Yeah Yeahs que se dedicam ao revivalismo da música desses anos?
Nada. Mas não me surpreende que sejam populares porque, há cinco anos, não havia em Nova Iorque nada que se lhes assemelhasse. E não, não me sinto como santo padroeiro deles (risos).
O ponto de vista musical dos Television dessa época e actualmente é o mesmo?
Não sei... talvez se possa apenas dizer que tocamos com equipamento melhor (risos) É verdade que já tocamos há muito tempo mas não sei se isso será suficiente para se poder falar em evolução.
Li algures que, embora os maiores elogios fossem sempre dirigidos para a sua forma de tocar guitarra, na verdade, dedicava bastante mais atenção aos textos das canções do que propriamente à música. É verdade?
É verdade, é. As pessoas prestam pouca atenção a isso, ligam muito mais ao que eu faço com a guitarra. Especialmente na Europa onde, de qualquer forma, também não entenderão muito bem os textos.
Quando os dois únicos álbuns originais dos Television (excluindo agora o da reunião de 92) saíram, não ficaram muito satisfeitos com a qualidade da gravação. Agora que foram reeditados, parecem-lhes melhor?
Da primeira vez, não ficaram grande coisa, não. Teve tudo a ver com as técnicas de gravação e problemas sonoros muito específicos muito mais do que com a nossa performance. As reedições não estão mal, não tenho, de facto, muitas razões de queixa. Mas ficam sempre aquém de como, no fundo, desejaríamos.
Television - "Foxhole"
Vê a sua posterior discografia a solo como algo de claramente diferente do que era a banda ou como uma sua continuação dela?
Não sei. Gosto do formato de duas guitarras, baixo e bateria e têm isso em comum. Também têm em comum o facto de ser eu a escrever as canções. Mais uma vez, não acho que seja uma coisa para que eu esteja terrivelmente habilitado para analisar.
Soube que tem estado também envolvido na execução ao vivo de música para filmes...
É verdade. Tenho trabalhado com o meu guitarrista favorito Jimmy Ripp. Conheço-o desde 82. É muito intuitivo. Tocamos ao vivo durante a projecção de seis ou sete filmes mudos (de Man Ray, Fernand Léger, Dreyer e outros de realizadores americanos dos anos 20) desde há quatro anos o que iremos fazer também em Portugal, em Julho. É uma combinação de música escrita e improvisada para duas guitarras. Reagimos às imagens, já as vimos dezenas de vezes, por isso existe já algo de estabelecido no que diz respeito a sequências de acordes, não é uma improvisação "free-form". Já agora, diga-me uma coisa: o Carlos Paredes ainda é vivo?
Sim. Mas conhece os seus discos?
Conheço. Por volta de 1999, uma amiga de Lisboa enviou-me quatro álbuns dele. Impressionaram-me imenso. É um músico único. Tenho também para aí uma dúzia de discos de Amália. E conheço algumas coisas de fado mas nada por aí além. (2004)
Ele faz e toca. Não analisa nem tem queda para se perder em introspecções e reconstituições históricas. O CBGBs foi apenas um episódio que só acessoriamente viria a constituir-se como "cena" musical autónoma e, já agora, os Television chegaram lá primeiro. Sim, Tom Verlaine, guitarrista e compositor de uma das bandas-farol do punk/new-wave novaiorquino da segunda metade da década de 70 (e não, os Television não eram punk/new-wave), recusa-se a cooperar com os biógrafos — eles que façam o trabalho de casa — e, agora que o grupo optou por se reunir esporadicamente apenas para concertos, faz gala de uma conveniente amnésia que só retém a música que criou e fez "delete" para todo o resto. Ah!, mas conhece Carlos Paredes e Amália e gosta muito de ambos.
Television - "Little Johnny Jewel"
Acerca dos concertos que os Television, desde há algum tempo, têm vindo a dar, pode-se falar de uma reunião do grupo?
Não. Há cerca de sete anos que estamos a fazer concertos, na Europa, no Japão, nos Estados Unidos. Mas não se trata realmente de uma reunião, não temos nenhum disco novo. Temos trabalhado algumas canções novas mas muito lentamente.
Talvez hoje mais do que nunca seja importante falar do papel que os Television desempenharam em meados dos anos 70 no desencadear da cena criada à volta do CBGBs, no punk/new wave novaiorquino? Tem a noção da importância que a banda e toda essa era tiveram?
Nunca penso nesses tempos. Deixo esse trabalho para os jornalistas.
Mas tem alguma memória dessa época?
Um pouco. Não muito. Parece-me difícil dizer quanto é que alguém é capaz de se recordar de coisas que aconteceram há vinte e cinco ou trinta anos. Quando começámos a tocar no CBGBs era apenas um bar que descobrimos onde nos deixavam tocar. Só depois é que as outras bandas começaram a chegar e a tocar também. Cerca de dois anos mais tarde, já havia bandas de fora da cidade que se apresentavam lá. Não era exactamente aquilo a que poderíamos chamar uma "cena". Só algum tempo depois é que se veio a transformar nisso.
Television - "1880 Or So"
Os Television eram uma banda fora de qualquer sentido de grupo ou movimento ou sentiam alguma afinidade com outros grupos e músicos?
Não sei. Dizíamos sempre "olá" uns aos outros (risos)... As bandas eram tão diferentes umas das outras.
Mas, quando começaram, havia bandas ou guitarristas que admirassem?
Não. Foi exactamente por isso que fizemos a banda. Porque não gostávamos de ninguém. Ouvíamos alguma música de guitarras dos anos 50 e 60 mas não tínhamos paciência para o que se fazia nos anos 70.
Curiosamente, no entanto, os Television eram encarados um pouco como a "jam band" da altura, uma espécie de Grateful Dead do punk/new wave. Faziam solos, improvisavam, tocavam temas longos...
É natural que esse tipo de relações se possa estabelecer. Mas parece-me que isso é uma questão para os historiadores da época resolverem. Não penso que esse seja o meu papel como músico. Eu limito-me a escrever as canções, a trabalhá-las, a decidir se algumas admitem espaço para improvisação ou se outras nos obrigam a conter-nos mais. Punk não era porque no punk não se improvisa. Nós usávamos quatro ou cinco acordes e o punk só usava três. Essa era uma diferença crucial! (risos)
Television - "Marquee Moon"
Já ouviu bandas como os Strokes ou Yeah Yeah Yeahs que se dedicam ao revivalismo da música desses anos?
Nada. Mas não me surpreende que sejam populares porque, há cinco anos, não havia em Nova Iorque nada que se lhes assemelhasse. E não, não me sinto como santo padroeiro deles (risos).
O ponto de vista musical dos Television dessa época e actualmente é o mesmo?
Não sei... talvez se possa apenas dizer que tocamos com equipamento melhor (risos) É verdade que já tocamos há muito tempo mas não sei se isso será suficiente para se poder falar em evolução.
Li algures que, embora os maiores elogios fossem sempre dirigidos para a sua forma de tocar guitarra, na verdade, dedicava bastante mais atenção aos textos das canções do que propriamente à música. É verdade?
É verdade, é. As pessoas prestam pouca atenção a isso, ligam muito mais ao que eu faço com a guitarra. Especialmente na Europa onde, de qualquer forma, também não entenderão muito bem os textos.
Quando os dois únicos álbuns originais dos Television (excluindo agora o da reunião de 92) saíram, não ficaram muito satisfeitos com a qualidade da gravação. Agora que foram reeditados, parecem-lhes melhor?
Da primeira vez, não ficaram grande coisa, não. Teve tudo a ver com as técnicas de gravação e problemas sonoros muito específicos muito mais do que com a nossa performance. As reedições não estão mal, não tenho, de facto, muitas razões de queixa. Mas ficam sempre aquém de como, no fundo, desejaríamos.
Television - "Foxhole"
Vê a sua posterior discografia a solo como algo de claramente diferente do que era a banda ou como uma sua continuação dela?
Não sei. Gosto do formato de duas guitarras, baixo e bateria e têm isso em comum. Também têm em comum o facto de ser eu a escrever as canções. Mais uma vez, não acho que seja uma coisa para que eu esteja terrivelmente habilitado para analisar.
Soube que tem estado também envolvido na execução ao vivo de música para filmes...
É verdade. Tenho trabalhado com o meu guitarrista favorito Jimmy Ripp. Conheço-o desde 82. É muito intuitivo. Tocamos ao vivo durante a projecção de seis ou sete filmes mudos (de Man Ray, Fernand Léger, Dreyer e outros de realizadores americanos dos anos 20) desde há quatro anos o que iremos fazer também em Portugal, em Julho. É uma combinação de música escrita e improvisada para duas guitarras. Reagimos às imagens, já as vimos dezenas de vezes, por isso existe já algo de estabelecido no que diz respeito a sequências de acordes, não é uma improvisação "free-form". Já agora, diga-me uma coisa: o Carlos Paredes ainda é vivo?
Sim. Mas conhece os seus discos?
Conheço. Por volta de 1999, uma amiga de Lisboa enviou-me quatro álbuns dele. Impressionaram-me imenso. É um músico único. Tenho também para aí uma dúzia de discos de Amália. E conheço algumas coisas de fado mas nada por aí além. (2004)
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