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30 March 2026

Beth Gibbons - "Sunday Morning"

(sequência daqui) Muito mais pragmaticamente, a "War Child" é uma instituição de solidariedade que trabalha para "proteger, educar e defender os direitos das crianças que vivem em zonas de conflito". Para esse fim, nas últimas três décadas, lançou álbuns de compilações, o mais notável dos quais foi The Help Album (1995), produzido por Brian Eno. Agora, sob a orientação de James Ford, HELP(2) reune mais de três dezenas de músicos e bandas dos quais apetece particularmente referir um valiosíssimo terço: Anna Calvi, Arooj Aftab e Beck (juntos), Beth Gibbons (numa versão de "Sunday Morning", dos Velvet Underground), Big Thief, Damon Albarn (com Grian Chatten, dos Fontaines D.C. e Kae Tempest), Depeche Mode ("Universal Soldier", de Buffy Sainte Marie), Foals, Fontaines D.C (interpretando Sinéad O'Connor), Graham Coxon, Pulp, Wet Leg e Young Fathers.

10 August 2023

 
(sequência daqui) Para Keep Your Courage, sucessor de Butterfly (2017), poderia dizer-se que Merchant se decidiu por outra colecão de figuras (míticas e reais) como entidades tutelares: Afrodite, Narciso, São Valentim, Walt Whitman, William Blake, Joan Didion ou Buffy Sainte-Marie que, em não menos amplo espectro de idiomas musicais — gospel, soul, New Orleans, folk britânica, clássica de câmara —, chamam a si intérpretes tão distintos como Abena Koomson-Davis, do Resistance Revival Chorus, o colectivo folk Lúnasa, o virtuoso clarinetista sírio Kinan Azmeh, o trombonista Steve Davis ou o compositor Gabriel Kahane, unidos no espírito do apelo a Afrodite: “Make me head over heels, make me drunk, make me blind, over the moon, half out of my mind, oh, make me weak in the knees, tremble inside, give up easy and swallow my pride, oh, make me, make me love”.

06 February 2021

 
(sequência daqui) Terá de haver algum motivo insondável para que a quase fadista Cristina Branco tenha escolhido incluir no seu reportório "A Case Of You" e "Cherokee Louise". Porque, do que a autora de ambas revela na preciosa conversa com Cameron Crowe – fã reverente, jornalista, cineasta, argumentista, produtor, actor – reproduzida nas 36 páginas do "booklet", dir-se-ia que só no “quase” se poderá encontrar, talvez, a explicação: interrogada sobre se, no trajecto da folk para o "songwriting" e, daí, para o jazz, para a colaboração com Charlie Mingus e para os trabalhos de orquestração, não poderia ver-se o dedo do destino, Mitchell responde sem hesitar “Não, não ligo nenhuma ao destino. Nem compreendo, de todo, o conceito de destino”. Não é a única vez que, ao longo da troca de ideias, ela é assim tão afirmativa. Pronta a reconhecer Buffy Sainte-Marie, Woody Guthrie, Tom Rush, o Kingston Trio, Judy Collins, Peter, Paul & Mary, Dave Van Ronk e Lambert, Hendricks & Ross (um trio de jazz vocal) como músicos que admirava e a influenciaram (“Tudo o que aprendi foi por admiração e osmose”), quando o nome de Joan Baez é pronunciado, e reacção é instantânea: “Não fui, de modo nenhum, influenciada por Joan Baez. Que isso fique bem claro”. Já a propósito de Leonard Cohen, tudo é bem diferente: “Ouvi-o no Newport Folk Festival. 'Suzanne’ foi uma canção que me impressionou muito. Foi o primeiro que, verdadeiramente, admirei. Deixou-me com a impressão de quão imaturas as minhas canções eram. Ele era um adulto. Era assim que os adultos escreviam” (segue para aqui).
 

19 December 2017

ISRAEL, OS MEDIA E SEXO ORAL 


Há muitas luas, escrevendo sobre um "songwriter" estimável mas que a História só em rodapé registará, ousei compará-lo (favoravelmente) ao Bob Dylan de então. E, para eterna vergonha e infinda penitência futura, afirmava, convicto: “Não consegue entender-se muito bem por que motivo uma geração inteira, há anos, persiste em convencer-se e em tentar convencer as seguintes de que Bob Dylan, do ponto de vista criativo, não se encontra definitivamente empalhado”. É verdade que estava ainda muito próxima a idade das trevas-"born again" do futuro Nobel da Literatura que, agora, no 13º volume da "Bootleg Series", a Columbia pretende reabilitar. Fraca atenuante, porém, face ao arrasador desmentido que toda a obra imediatamente posterior de Dylan se encarregaria de fazer. Funcionaria, contudo, no longo prazo, como vacina (relativamente) eficaz contra juízos demasiado apressados. Mas, no que diz respeito ao Morrissey actual, é bem provável que nem um reforço da primeira dose evitará que lhe supliquemos que pare de emporcalhar a memória dos Smiths e, sejamos justos, de uma parcela importante da sua discografia a solo. 



O impulso incontrolável para o disparate é, nele, lendário. Se, em matéria de panfletarismo vegan, apontar as malas de Beyoncé como causa para o risco de extinção do rinoceronte poderá ser só tolice, acusar o povo chinês de ser “uma sub-espécie” em virtude dos seus hábitos alimentares ou relativizar o terrível massacre de 2011, na Noruega, perante “o que acontece, todos dias, nos McDonald's”, já é, francamente, mais grave. E verdadeiramente indesculpáveis são declarações tais que “Estou convencido que brancos e negros nunca se darão bem nem gostarão uns dos outros” ou “Quanto maior é a imigração, mais rapidamente a identidade britânica desaparece”. Tudo isto desajeitadamente contrabalançado por indignados protestos – “Abomino o racismo, a opressão e crueldade de todos os tipos” - e objectivamente contrariado pela muito especial relação de mútua paixão com a comunidade “latina” de Los Angeles, à qual dedicou a canção "Mexico" (“In Mexico I went for a walk to inhale the tranquil, cool, lover's air, but I could sense the hate, from the Lone Star state… it seems if you're rich and you're white, you'll be alright”) e a quem, durante a campanha presidencial norte-americana, incitava a não votar em Donald Trump.



Aparentemente, Morrissey é incapaz de viver sem isto: agora mesmo, num concerto de ante-estreia na BBC6 de Low In High School, pareceu-lhe apropriado insinuar, totalmente a despropósito, o apoio a Anne Marie Waters, candidata ferozmente anti-islâmica à direcção do já desmedidamente xenófobo UKIP. Realmente desastroso é que se, embora com imensa dificuldade, ainda ia sendo possível separar os dislates-“bigmouth” da obra gravada, desta vez, eles invadem e apoucam as canções de forma irremediável. Num álbum em que dir-se-ia existirem apenas três temas – Israel, os media e sexo oral -, as hostilidades abrem-se em modo de "glam" artriticamente pesadíssimo com a portentosa proclamação... err... trumpiana, “Teach your kids to recognize and to despise all the propaganda filtered down by the dead echelons mainstream media”. Um pouco mais adiante, naquilo que até poderia ser uma sedutora variação de Debord/Vaneigem sobre O Elogio da Preguiça” (“Spent the day in bed, very happy I did, yes I spent the day in bed, as the workers stay enslaved (...) Oh time, do as I wish, time, do as I wish (…) And no bus, no boss, no rain, no train”), de súbito, regressa a obsessão: “Stop watching the news! Because the news contrives to frighten you, to make you feel small and alone, to make you feel that your mind isn't your own”. O que, convenhamos, combina mal com a rudimentar retórica tablóide da morosa "Israel" (“they who reign abuse upon you, they are jealous of you”), tema que, no tango de casino de "The Girl From Tel-Aviv Who Wouldn't Kneel", desenvolve com uma argúcia política de taxista (“What do you think all these conflicts are for? It's just because the land weeps oil”).


Em memória do saudoso "Margaret On The Guillotine", há gestos de simpatia – o “Axe the monarchy” da imagem da capa, a paráfrase anti-militarista sobre "Universal Soldier”, de Buffy Sainte-Marie, em "I Bury The Living" (“You can’t blame me, I'm just an innocent soldier, (…) Give me an order! I'll blow up a border, give me an order and I'll blow up your daughter”) – mas, de um modo geral, com dois ou três momentos de contacto oro-genital para criar o clima adequado, tudo se resume a um serôdio "flower power" de Twitter: “They say presidents come, presidents go, but all the young people they must fall in love”. Para lavar os ouvidos, nada melhor do que optar pela reedição de The Queen is Dead (1986), estojo de algumas das máximas preciosidades Morrissey/Marr ("The Boy With The Thorn In His Side", "Bigmouth Strikes Again", "There’s A Light That Never Goes Out"…). Com todos os bónus, raridades e "lives" de rigor, Alain Delon baleado, na capa, título subtraído a Hubert Selby Jr., e video de 13 minutos de Derek Jarman. Mas, sobretudo, com Morrissey ainda vivo.

05 April 2007

NOMEAR O TERRITÓRIO
 

 
Faun Fables - The Transit Rider

Quando Will McCarthy (pai de Dawn McCarthy) desistiu da sua profissão de corretor da Bolsa, celebrou essa libertação com um poema: "I no longer wish to compete. I withdraw to niches unoccupied, to hidden places between the rocks or to the porches of high bound caves, or to theaters within hollow trees, or to any other place where the zeal of silence might be". O que, se nos poderia fazer imaginar que, dentro de cada escravo engravatado do Grande Templo do Capital, vive um poeta pagão à espera do momento de quebrar as grilhetas, tratando-se de um elemento do clã McCarthy já não será algo tão inesperado.


 
Sim, porque gente como Dawn McCarthy (e o companheiro Nils Frykdahl e o resto da tribo que integra os Faun Fables) não aparece de geração espontânea. Por alguma razão, o episódio anterior das fábulas se chamava Family Album e não há-de ser outro acaso que, à semelhança de "I No Longer Wish To", o texto de uma das canções ("Earth's Kiss") seja co-assinado pela mãe, Michelina. Todas as peças se encaixam perfeitamente no puzzle: The Transit Rider começou por ser uma peça de teatro musical — descrita como um encontro entre Tom Waits, Frank Zappa, The Twilight Zone e Andrew Lloyd Webber (ou "gipsy Brechtian avant-folk"), onde uma mulher que viaja de metro fantasia um mundo paralelo ao da selva urbana nas entranhas da qual se desloca — e, agora, segregou a sua banda sonora enquanto "song cycle" autónomo.

(álbum integral)
 
Tal como acontecia já com Family Album, o universo sonoro de McCarthy/Frykdahl é omnívoro e em tudo diferente da sua dieta: Dawn, de canção em canção, tanto faz pensar em Kristin Hersh como em Shirley Collins, Marlene Dietrich, Mimi Goese ou Grace Slick, a música tritura Kurt Weill, a folk-britânica e leste-europeia, Smetana, Buffy Sainte-Marie, Stravinsky, a aura negra de Nico e Bartók, até ao nível das sub-partículas. Num glorioso exercício de ecletismo, coloca frente a frente Cristo e o seu amante, Pã (no tradicional folk inglês "House Carpenter"), recorre às composições do polaco Zygmunt Konieczny ("Taki Pejzaz/Such A Landscape"), recruta sem problemas um tema da "singing nun", Soeur Sourire ("I'd Like To Be") e acaba citando Martin Heidegger: "The song still remains which names the land over which it sings". Os Faun Fables são uma raríssima preciosidade da música contemporânea e The Transit Rider a sua segunda obra-prima indiscutível. (2006)