(ver aqui)
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25 March 2021
24 March 2021
OLD, WEIRD BRITANNIA
"Sumer Is Icumen In" é o mais antigo cânone inglês, escrito no dialecto de Wessex do Middle English, na segunda metade do século XIII. O manuscrito no qual foi descoberto encontrava-se na abadia de Reading e é incertamente atribuído tanto a John Farnsette – monge dessa abadia – como a W. de Wycombe (aliás, Willelmus de Winchecumbe ou William of Winchcomb), compositor e copista do Herefordshire. Ouvimo-lo já neste século no preciosíssimo 1000 Years Of Popular Music (2003), de Richard Thompson – essa fantástica viagem que se inicia, justamente, com "Sumer Is Icumen In" e, passando por Orazio Vecchi, Thomas Morley, Gilbert & Sullivan, Cole Porter, Easybeats, Kinks e tradicionais vários, se conclui, em glória, com Britney Spears –, e, mais recentemente, como porta de entrada em forma de "sample", para Half-Light (2017), do Vampire Weekend foragido, Rostam Batmanglij. Serve, agora, também como título de mais uma colectânea da Grapefruit, selo da Cherry Red para raridades museológicas: Sumer Is Icumen In: The Pagan Sound of British & Irish Folk 1966-1975.(daqui; segue para aqui)
Spriguns Of Tolgus - "Flodden Field"
26 October 2016
SUZANNE MCCULLERS
"Tom’s Diner" já foi suficientemente festejada como uma das canções de Suzanne Vega que não apenas milhões dão por si a trautear involuntariamente mas também uma das mais sampladas e objecto de versões. Desde o “golpe” dos DNA, em 1990, que a fez trepar bem acima de onde – em matéria de glória nas tabelas de vendas – o original de Vega tinha chegado, de Billy Bragg aos R.E.M., Public Enemy ou Timbaland, a música que celebrava o mesmo "diner" onde Seinfeld & Cº se encontravam para filosofar sobre o nada já passou por inúmeras mãos. Até as do criador do mp3, Karlheinz Brandenburg, que a utilizou para a realização de testes destinados a comprovar a viabilidade da compressão sonora relativamente à voz humana. Não lhe fazia, por isso, falta nenhuma que, no ano passado, Giorgio Moroder a tivesse escolhido para o álbum Déjà Vu, numa interpretação de... Britney Spears. Suzanne, contudo, aplaudiu a ideia (“I’m a big Donna Summer fan”) embora contasse com uma revisão mais radical.
De facto, deixar de ser encarada para a eternidade exclusivamente como a criadora de "Luka" e "Tom’s Diner" não tem sido tarefa simples. É verdade que a discografia não será abundante – nove álbuns de originais de 1985 até agora – mas em nenhum momento seria justo dizer-se que Vega se acomodou à sombra dos sucessos passados e se satisfez em oferecer mais do mesmo. Há dois anos, poucos terão reparado na excelente colecção de canções de Tales From The Realm Of The Queen Of Pentacles mas seria de desejar que o mesmo não voltasse a repetir-se com Lover, Beloved: Songs From An Evening With Carson McCullers. É preciso fazer a história recuar até aos anos em que Suzanne Vega estudava Literatura Inglesa no Barnard College de Nova Iorque e, para um projecto académico, tropeçou numa biografia (e, posteriormente, na obra) da escritora Carson McCullers). A personalidade trágica, bissexual, alcoólica, política e socialmente activa de uma escritora no Sul dos EUA dos anos 40 e 50 ganharia a forma de peça de teatro musical que, só há quatro anos, Vega levaria à cena em forma de "one-woman show". As canções – escritas a meias com Duncan Sheik, num registo que oscila entre o cabaret jazzy, o impressionismo satieano e o dramatismo de Brel –, em particular, "12 Mortal Men", "Lover, Beloved" e a venenosa "Harper Lee", entram instantaneamente para o cânone.
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26 May 2016
HOOKERS
Goffin & King. Leiber & Stoller. Holland-Dozier-Holland. Bacharach & David. Lerner & Loewe. Rodgers & Hammerstein. Os fabricantes de êxitos pop, actuando autonomamente ou no interior de linhas de montagem de feição industrial – Tin Pan Alley, Brill Building, Tamla Motown – estiveram sempre muito mais próximos do modelo-Vivaldi (aviando, por encomenda, 500 concertos, 40 cantatas, 22 óperas, e mais de 60 peças de música sacra) do que do artista romântico oitocentista, obcecado com a expressão individual de emoções e sentimentos. Mas teriam de passar ainda algumas décadas até que as "hit machines" atingissem o elevadíssimo grau de sofisticação produtiva actual que John Seabrook descreve em The Song Machine: Inside The Hit Factory. Produtividade é, de facto, a palavra-chave.
Katy Perry - "Californis Gurls" (prod. Max Martin)
Numa época em que os lucros da indústria discográfica encolheram até menos de metade do pico em 1999, nenhum detalhe pode ser descurado: se os programadores das rádios de Top 40 garantem que um ouvinte médio apenas concede 7 segundos de atenção a um tema antes de mudar de estação, então, é indispensável que as "playlists" se apresentem como “ruas de meninas” de Amesterdão, nas quais cada canção exibe um "hook" (motivo rítmico-melódico orelhudo) na introdução, outro antes do refrão, outro no próprio refrão e ainda outro na ponte. O objectivo é publicar material “de dimensão industrial, destinado a centros comerciais, estádios, aeroportos, casinos, ginásios e ao espectáculo do intervalo do Super Bowl”. Para isso, constituem-se equipas de produtores, “topliners, beat makers, melody people, vibe people, and just lyric people”, eventualmente reunidas em "writer camps", de cujo "brainstorming" se colhe um "hook" aqui, uma sequência de acordes ali, um "beat" acolá, que, após a montagem das peças soltas, terão de passar pelo processo de "comping" – o moroso trabalho de edição de inúmeras "takes" vocais, compasso a compasso, palavra por palavra, sílaba a sílaba, se necessário. Atenção, enfim, ao pormenor “just lyric people”: Max Martin (sueco, dínamo-exportador de sucessos para Taylor Swift, Rihanna, Kelly Clarkson, Katy Perry ou Adele), fraco falante de inglês, quando despachou "Hit me, baby, one more time" para Britney Spears, não imaginava que a canção pudesse vir a ganhar uma aura BDSM. Na verdade, supunha que aquilo que a miúda suplicava era que o namorado lhe telefonasse outra vez.
16 September 2015
26 June 2013
AS MÁQUINAS DA ALEGRIA
Em Agosto de 2010, Ray Bradbury tinha 90
anos e Rachel Bloom 23. Mas, fiel aos seus princípios (“A primeira coisa que,
verdadeiramente, me atrai é a inteligência. E os escritores são o pináculo da
inteligência. Os actores podem ser óptimos e bonitos mas os escritores criam
mundos novos a partir de nada. O que há de mais sexy que isso? Francamente, não
entendo como é que toda a gente não namora com escritores”), Rachel – "stand-up comedian" e ex-estudante de
teatro da Tisch School of the Arts, na New York University – não hesitou em
escrever uma canção e gravar um videoclip em que, parodiando o conceito e a
coreografia de "Hit Me Baby, One More Time", de Britney Spears, dançando e
cantando nos corredores e salas de aula do colégio católico de St. Cecilia, em
Brooklyn, declarava muito graficamente a sua desmedida paixão pelo enorme autor
de literatura fantástica, suplicando-lhe "Fuck Me, Ray Bradbury". Era uma (im)puríssima
canção pop, um video impagável – Bradbury, que morreria em 2012, ainda o viu
e... aprovou – e, muito justamente, foi nomeada para os prestigiadíssimos Hugo
Awards (prémios para obras de ficção científica e fantasia) na categoria de
Best Dramatic Presentation/Short Form.
Da BD ao teatro, televisão, rádio e cinema
(Truffaut pegaria em Fahrenheit 451, a que Rachel Bloom – certamente um lapsus linguae – chamou “Fahrenheit 69”),
foram inúmeros os encontros imediatos da obra de Ray Bradbury com a cultura
popular. Que, em matéria de música, tanto passariam pelo autoexplicativo The
Cult Of Ray, de Frank Black, como por "Rocket Man", de Elton John e Bernie
Taupin, e, agora, The Machineries Of Joy, dos British Sea Power, inspirado
pela colecção de contos homónima de 1964. Yan Scott Wilkinson, compositor e
guitarrista do grupo, não espera que lhe perguntem para, espontaneamente,
confessar que “por muito que tente fugir-lhe, estou sempre a regressar a Ray
Bradbury”. No anterior Valhalla Dancehall (2011), em "Georgie Ray", juntara-o com o paladino da “common decency”, George Orwell, (“Before this day is cemented, in
memory of Ray, can we all do something, instead of pray, and it was good how
Georgie warned us, it was good what Georgie said, ‘It's kind of unbelievable
how we're not all dead’") e se, neste último álbum, a referência ao
escritor é apenas obliqua, há que saber identificá-la nos detalhes.
Por
exemplo, no video da canção título, que, instantaneamente, se deixa associar à
sequência de abertura de Donnie Darko – cujo argumento Bradbury não assinou
mas poderia muito bem tê-lo feito – e, por aí mesmo também, via-"The Killing
Moon", aos Echo & The Bunnymen, distantes antepassados desta colectividade
de Rough Traders de longo curso (dez anos de discografia), nada avessa a corais
búlgaros, dívidas estéticas aos Velvet Underground, mini-sinfonismos à la Vaughan Williams, e, em palco, "cumbrian wrestlers", cenografias
silvestres e ursos (pardos ou polares, na modalidade Ursine
Ultra-máscara-com-humano-dentro). Tudo coisas que nunca farão deles os próximos
U2 mas que, devidamente lidas – “We are magnificent machineries of joy, and
then some, you are a vision of extraordinary contortion, an athletic form of
warm distortion” – nos deveriam fazer levantar do sofá.
16 December 2010
"FUCK ME, RAY BRADBURY": THE MAKING OF
(sequência daqui)
When a woman in her early twenties asks a ninety-year-old man to fuck her, there's usually an oil fortune involved - unless, of course, the ninety-year-old man is author Ray Bradbury. Rachel Bloom's poppy ode to the sci-fi master, "Fuck Me, Ray Bradbury," has garnered a million hits on the Internet in less than a week.
UCB Comedy Blog: Tell us a little bit about the process of making "Fuck Me, Ray Bradbury."
Rachel Bloom: I was sitting at home about two years ago during the summer between my junior and senior years of college, and I was re-reading The Martian Chronicles by Ray Bradbury. I was going through a weird sadness/lull on the boy front, and I kept thinking, "Man, Ray Bradbury is so smart...he'd be the ideal boyfriend." I thought it would be funny to do a passionate love song about Ray Bradbury. Then, I thought it would be even funnier to do like, a sexy pop song about Ray Bradbury. So, I sat down at my parents' piano and came up with the essential structure in about an hour. 2 years later, I revisited the song and refined it.
We shot the video at St. Cecilia's, an old Catholic school in Brooklyn. (...) I produced the video myself - I did all the casting, found the crew, and asked my friends to direct/DP. It was a lot of work, a lot of e-mails going back and forth for a few weeks. I will say that you don't have to be a genius to put together a good film shoot - it's just a lot of work.
We shot the video at St. Cecilia's, an old Catholic school in Brooklyn. (...) I produced the video myself - I did all the casting, found the crew, and asked my friends to direct/DP. It was a lot of work, a lot of e-mails going back and forth for a few weeks. I will say that you don't have to be a genius to put together a good film shoot - it's just a lot of work.
UCBCB: The video was obviously influenced by one of the greatest TRL videos ever - "Hit Me Baby, One More Time." When you were a kid, did you ever dream about being in one of those '90s pop videos?
RB: The weird thing about me as a kid is that I outwardly wanted to be against the establishment, but secretly wanted to be a part of it. I was made fun of a lot right around the time "Baby One More Time" came out, so although I publicly railed against these pretty popular people and their awesome clothes, I privately danced to the song like a fiend alone in my room. I resented the fact I wasn't cool or pretty enough to be a Britney Spears fan, but couldn't deny that I was a Britney Spears fan. I always openly loved 'N Sync, though. Ah, to be 12 and full of contradictions.
UCBCB: If you were doing a whole literary fuckfest, what other authors would be on your list?
RB: I would fuck Kurt Vonnegut, Philip Roth and J.K. Rowling. Those are the top of my orgy list. (daqui)
(2010)
28 January 2010
E O EXEMPLO DE WOJTYLA NÃO PÁRA DE NOS ILUMINAR
Britney Spears - "(Hit Me Baby) One More Time"
Oh baby, baby
How was I supposed to know
That something wasn't right here
Oh baby, baby
I shouldn't have let you go
And now you're out of sight, yeah
Show me how you want it to be
Tell me baby 'cause I need to know now, oh because
My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time
Oh baby, baby
The reason I breathe is you
Boy you got me blinded
Oh pretty baby
There's nothing that I wouldn't do
It's not the way I planned it
Show me how you want it to be
Tell me baby 'cause I need to know now, oh because
My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time
Oh baby, baby how was I supposed to know
Oh pretty baby, I shouldn't have let you go
I must confess, that my loneliness is killing me now
Don't you know I still believe
That you will be here
And give me a sign
Hit me baby one more time
My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time
(2010)
Britney Spears - "(Hit Me Baby) One More Time"
Oh baby, baby
How was I supposed to know
That something wasn't right here
Oh baby, baby
I shouldn't have let you go
And now you're out of sight, yeah
Show me how you want it to be
Tell me baby 'cause I need to know now, oh because
My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time
Oh baby, baby
The reason I breathe is you
Boy you got me blinded
Oh pretty baby
There's nothing that I wouldn't do
It's not the way I planned it
Show me how you want it to be
Tell me baby 'cause I need to know now, oh because
My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time
Oh baby, baby how was I supposed to know
Oh pretty baby, I shouldn't have let you go
I must confess, that my loneliness is killing me now
Don't you know I still believe
That you will be here
And give me a sign
Hit me baby one more time
My loneliness is killing me
I must confess I still believe
When I'm not with you I lose my mind
Give me a sign
Hit me baby one more time
(2010)
25 November 2009
PORTUGAL NUMA CASCA DE NOZ (I)


Ora reparem lá como não vale a pena gastar um tusto num curso de sociologia. Está tudo aqui:
"A população de Carvalho, onde Rui Pereira, 26 anos, era padre e onde vivia Fátima, 18 anos, está do lado do casal que, por amor, fugiu daquela freguesia de Celorico de Basto no final da semana passada para parte incerta. 'Um homem não é de ferro, não é? Se ele gostava dela e ela dele, acho que fizeram bem', defende ao DN Manuel Teixeira, 36 anos, proprietário do café Bons Costumes, do outro lado da estrada que o separa da igreja de Carvalho".
1º - Rui é um exemplo de jovem português que faz pela vida: há, para aí, 8 anos, quando tinha a idade que a Fátima tem agora, confrontado com as incertezas do futuro, optou pela decisão mais segura: ser padre, isto é, cama, mesa e roupa lavada para o resto da vida, sem correr o risco de ir engordar as casas decimais do desemprego. Muito melhor e mais confortável do que emigrar, com o "fringe benefit" da respeitabilidade campesina.
2º - O Rui é padre mas, moço luso de sangue vermelho - como diz o sr. Teixeira (proprietário de um café que, note-se, dá pelo nome de "Bons Costumes"), "não é de ferro, não é?" -, não conseguia lidar com a catraia que o "ajudaria nas lides da igreja, seria uma espécie de secretária", mantendo as mãos apenas ocupadas com o missal, o cálice e as hóstias. Não é caso único: muitos outros, antes dele, tiveram idênticos problemas com as secretárias. E nem todas se chamavam Fátima o que, para um eclesiástico, deve dar um picante assaz particular.
3º - Não deve passado muito até que, como diria a Suelly que exerce a arte real no "Fruto Proíbido", de Mondim, "tenha rolado um clima". E o bom povo que, certamente, organiza excursões anuais à outra Fátima, pelo 13 de Maio, está solidário e compreende. É bonito e é assim mesmo que deve ser. Até porque o padre Rui foi "sempre muito devoto às coisas da igreja, era muito organizado, e queria sempre tudo direitinho".
"'Ele por um lado fez bem, por outro fez mal porque vamos ficar sem padre', lamentou Tânia [empregada de balcão no Bons Costumes]".
4º - Sábio espírito prático, o da Tânia. Ninguém se amofina que o padre Rui e a Fátima (cuja madrinha era "filha biológica" da família de que ela era "filha adoptiva" - notar a temática arreigadamente portuguesa e contemporânea) tenham preferido os valores da carne aos do espírito. Mas quem é que vai, agora, limpar o pó ao véu da Nossa Senhora e baptizar o Sandro Felício, quando, em Agosto, ele voltar com os pais de Clichy-sur-Vidange? Não foi com rupturas sociais destas que se construíram as grandes pátrias.
"Manuel Teixeira aproveita para lembrar que não é o primeiro caso de amor: 'Já o anterior padre, de quem gostávamos muito, também foi embora, expulso pela diocese de Braga, depois de se ter envolvido com uma mulher'. E Tânia solta, entre risos, a resposta: 'É que as mulheres aqui são como as sardinhas, pequeninas, mas muito bonitas!'". (aqui)
5º - Lá está, as cachopas têm o diabo no corpo e os pobres moços acabam por ser as vítimas inocentes. Se a diocese de Braga tivesse juízo e assobiasse para o ar, era só ver como se multiplicavam as vocações para o sacerdócio! Para o quadro sociológico ser perfeito, só falta uma peça indispensável: a bola. Mas quase jurava que, aos fins de semana, o Rui ia dar uns toques no campo do Celoricense.
(2009)
21 September 2009
EXTREME MAKEOVER

Joan As Police Woman - Cover
No ano passado, por ocasião da publicação de To Survive, Joan Wasser (ou Joan As Police Woman, se preferirem) explicava que o motivo por que tinha desistido de uma carreira de violinista clássica para se entregar nos promíscuos braços da pop havia sido o facto de se ter apercebido que preferia compor e interpretar música nova e não “tocar o concerto para violino de Brahms” pela milionésima vez, tendo consciência que lhe seria praticamente impossível fazê-lo “melhor do que já o foi”. E, quando a conversa atingiu aquela etapa em que lhe coube fazer a enumeração das suas devoções privadas, a lista rapidamente engordou, de Nina Simone a Neil Young. David Bowie, Joni Mitchell, Stevie Wonder, Al Green, Shostakovich, Sibelius, Bartók, Ravel, Britten e Stravinsky. Ficaremos, então, a saber agora que, tal como ela assegurou no momento em que interrompeu a sequência de vénias, se tratava, realmente, de um rol “interminável”.
E também que, embora não tenha chegado ainda a vez do concerto de Brahms, Joan não se faz rogada a preencher um álbum completo com música alheia. Com a melhor justificação possível: a todas e a cada uma destas canções do disco que tem estado disponível nos concertos da actual digressão europeia, ela impõe as suas próprias regras de releitura radical e as transforma, literalmente, em coisa indiscutivelmente sua. Exemplo eloquente é "Sacred Trickster", dos Sonic Youth, convertido em híbrido de gospel e pop de girl group. Mas o espectro de estilos e soluções alarga-se tremendamente em modo de "extreme makeover", vestindo de dissonâncias o que era ligeiro, vertendo acusticamente o que fora eléctrico ou pintando de cores garridas a dureza hip hop, em "Overprotected", de Britney Spears, "Fire", de Jimi Hendrix, "Lady", de Adam & The Ants, "Whatever You Like", de TI, "She Watch Channel Zero", dos Public Enemy, "Ringleader Man", de T-Pain ou "Baby", de Iggy Pop e David Bowie. E, sobretudo, na discreta solenidade de câmara da belíssima "Keeper of The Flame", de Nina Simone.
(2009)

Voto na urna: nulø, com a frase "ESTA GENTE É UM NOJO"
Joan As Police Woman - Cover
No ano passado, por ocasião da publicação de To Survive, Joan Wasser (ou Joan As Police Woman, se preferirem) explicava que o motivo por que tinha desistido de uma carreira de violinista clássica para se entregar nos promíscuos braços da pop havia sido o facto de se ter apercebido que preferia compor e interpretar música nova e não “tocar o concerto para violino de Brahms” pela milionésima vez, tendo consciência que lhe seria praticamente impossível fazê-lo “melhor do que já o foi”. E, quando a conversa atingiu aquela etapa em que lhe coube fazer a enumeração das suas devoções privadas, a lista rapidamente engordou, de Nina Simone a Neil Young. David Bowie, Joni Mitchell, Stevie Wonder, Al Green, Shostakovich, Sibelius, Bartók, Ravel, Britten e Stravinsky. Ficaremos, então, a saber agora que, tal como ela assegurou no momento em que interrompeu a sequência de vénias, se tratava, realmente, de um rol “interminável”.
E também que, embora não tenha chegado ainda a vez do concerto de Brahms, Joan não se faz rogada a preencher um álbum completo com música alheia. Com a melhor justificação possível: a todas e a cada uma destas canções do disco que tem estado disponível nos concertos da actual digressão europeia, ela impõe as suas próprias regras de releitura radical e as transforma, literalmente, em coisa indiscutivelmente sua. Exemplo eloquente é "Sacred Trickster", dos Sonic Youth, convertido em híbrido de gospel e pop de girl group. Mas o espectro de estilos e soluções alarga-se tremendamente em modo de "extreme makeover", vestindo de dissonâncias o que era ligeiro, vertendo acusticamente o que fora eléctrico ou pintando de cores garridas a dureza hip hop, em "Overprotected", de Britney Spears, "Fire", de Jimi Hendrix, "Lady", de Adam & The Ants, "Whatever You Like", de TI, "She Watch Channel Zero", dos Public Enemy, "Ringleader Man", de T-Pain ou "Baby", de Iggy Pop e David Bowie. E, sobretudo, na discreta solenidade de câmara da belíssima "Keeper of The Flame", de Nina Simone.
(2009)
Voto na urna: nulø, com a frase "ESTA GENTE É UM NOJO"
03 August 2009
HÍBRIDOS DE PLÁSTICO
Discovery - LP
Deve haver quem continue convencido que, quando Richard Thompson se entrega à interpretação de “Oops!...I Did It Again”, de Britney Spears, ou Lloyd Cole ensaia uma versão de “Believe”, de Cher, ambos o fazem apenas enquanto estratégia de "comic relief" no alinhamento de um concerto e não por estarem genuinamente convencidos de que se trata de boas canções. É bastante provável que vá acontecer coisa semelhante com este LP, empreendimento lateral de Rostam Batmanglij – o teclista dos Vampire Weekend – e Wes Miles – dos também novaiorquinos Ra Ra Riot, cujo óptimo The Rhumb Line, do ano passado, passou, indesculpavelmente, abaixo de inúmeros radares (incluindo este) –, concebido ainda antes de ambas as bandas terem ascendido à primeira divisão pop. E, porque a coisa envolve também Angel Deradoorian (dos Dirty Projectors) e Ezra Koenig (dos Vampire), maior será a tentação para a encarar como uma piada inconsequente da seita de Brooklyn, exclusivamente destinada a festarolas betas. À “Pitchfork” (que, previsivelmente, em defesa da honra indie ofendida, demoliu o álbum), Wes Miles caracterizou LP assim: “Well, we definitely had a sense of humor when we were creating the music. But it’s serious, too. It’s not, like, serious serious, but, um...”.
Exactamente, na mouche: é, sem dúvida, um divertimento em que Rostam e Wes se aplicam a fundo na pulverização da percepção pública do que é suposto ser uma divindade indie mas que, através dos próprios processos que utlizam – a plastificação sonora radical de uma estética que vai do synthpop a Aphex Twin e Timbaland –, cria, simultaneamente, uma caricatura-multigéneros e, em três ou quatro faixas (de um total de dez), belíssimos híbridos inclassificáveis de candura digital. Explicando um pouco melhor: tal como os Vampire Weekend têm pouco ou nada a ver com a autenticidade da música africana de que se alimentam (e confessam-no: “This feels so unnatural, Peter Gabriel too”), o duo Discovery é totalmente estranho a este universo de Auto-Tuners – a maquineta que "vocoderiza" e arredonda qualquer angulosidade ou imprecisão vocal –, batidas robóticas, êxtases andróides e, sim, aqui e ali, afloramentos do que, em latitudes próximas, Paul Simon ou Peter Gabriel poderiam muito facilmente experimentar. Mas que, quer se aplauda, quer se rejeite, nestas versões do épico “Can You Tell?” (dos Ra Ra) convertido em assombração electro, de “I Want You Back” (dos Jackson 5) envolvido em espirais de sintetizador e nas várias outras declinações, extravagantes ou minimais, deste vocabulário, não cora de vergonha por sair da sua zona de conforto nem parece demasiado preocupado com a chuva de impropérios que, inevitavelmente, o irá acolher.
(2009)
18 September 2007
LINGUAGENS SECRETAS
“Foi com Elvis que o cantor se transformou no sacerdote, no mediador entre o secreto culto maçónico e o público. A cultura acontece em segredo, toda a arte é secreta. As pessoas comuns apenas se apercebem das cinzas da arte, ou dos momentos falhados, ou dos instantes imobilizados. Só muito raramente, em cima do palco, uma banda acede à realidade; na maioria das vezes, isso acontece durante os ensaios, em momentos perdidos. Ninguém vê ou sabe alguma coisa acerca disso”, proclama David Thomas, dos Pere Ubu, quando Greil Marcus, por um capítulo inteiro, lhe dá voz em The Shape of Things to Come. Mas essa voz que ele lhe concede – como será praticamente inevitável em qualquer obra de Marcus – é apenas uma de entre a imensa polifonia que se escuta num livro cujo sub-título é Prophecy And The American Voice: concebido no rescaldo dos atentados a Nova Iorque de 11 de Setembro de 2001, como em Mystery Train (1975), Lipstick Traces (1989), Dead Elvis (1991), Invisible Republic (1997)
ou Like A Rolling Stone (2005), a música, o cinema ou a literatura sobre os quais Greil Marcus especula nunca são tomados como objectos de avaliação crítica em si mesmos (no limite, interessa-lhe pouco a relevância estética e muito mais o significado cultural – em sentido amplo –, e histórico/simbólico) mas como sintomas, sinais, personagens, de que vai identificando os lugares e a intrincada teia de relações que estabelecem no grande painel dos mitos e da história Americana. É por isso que, quando David Thomas afirma inteiramente a sério que “sempre que nos perguntam o que fazemos, eu respondo ‘pop mainstream’ – exactamente o contrário daquela artista experimental, Britney Spears”, é absolutamente necessário colocar isso num contexto (e é essa a missão a que Marcus se dedica) onde o rosto de Bill Pullman em Lost Highway (de David Lynch), a “trilogia americana” de Philip Roth (American Pastoral, I Married a Communist e The Human Stain), a série de televisão, 24, as profecias bíblicas de Amos, John dos Passos, Allen Ginsberg, Raymond Chandler, Lincoln, Melville, os textos fundadores dos Puritanos ou Twin Peaks são só algumas das peças que atribuem sentido a um puzzle tão poderoso quanto frágil: ”Mais do que qualquer outro lugar no mundo, a América pode ser atacada através dos seus símbolos porque foi por eles que se edificou. É um artefacto, uma ideia e, desde o início até hoje, continua à procura de moldar quem se descobre no seu território. A nação existe enquento potência mas a sua legitimidade é apenas sustentada por algumas folhas de papel. (…) Retirem-se essas e, como nação, restará não mais do que uma colecção de edifícios e gente, sem nenhuma razão especial para falar entre si e com nada para se dizer”.
É preciso recordar que Greil Marcus, com outros “clássicos” como Lester Bangs, Nick Kent, Charlie Gillett, ou mais recentes – Simon Reynolds, David Toop –, é dos raros críticos culturais da coisa-pop que (no âmbito de um sector editorial específico que, anualmente, vomita centenas de títulos) não se fica pela hagiografia dos ícones do momento nem chafurda na coscuvilhice tablóide das intimidades privadas. Reynolds, dois anos depois de Rip It Up And Start Again (uma detalhada investigação do pós-punk),
retoma a história no ponto onde a havia deixado e, em Bring The Noise (outro título tomado de empréstimo a uma canção, desta vez, significativamente, dos Public Enemy) reune as suas “obras escolhidas dos últimos vinte anos de escrita em diversas publicações, acrescentadas dos seus próprios comentários, relativizações e (frequentes) sarcasmos actuais. O objecto de análise sintetiza-o ele em dois pontos: “a pop num sentido muito particular – música que penetrou na arena pop vinda do exterior” e o efeito de “ruído cultural”, por exemplo, da “flamejante e desajeitada desgraça de Morrissey ou dos disparates intoxicados do ‘idiot-shaman’ Shaun Ryder”. Dito isto, uma considerável percentagem das cerca de sete dezenas de textos incluídos, centra-se sobre o hip-hop, jungle/d’n’b, seus derivados, ascensão e queda, e desemboca em duas conclusões, de certa maneira, simétricas: “O hip-hop actual faz-me pensar naquela magnífica peça sobre a morte do rock que o Greil Marcus escreveu acerca dos Nirvana, onde ele dizia ‘o rock morreu mas o dinheiro é demasiado bom para se pensar em desistir’”; “ao rock pode muito bem ter acontecido o mesmo que ao jazz, no sentido em que persiste, continua activo e gerando subgéneros, mas já deixou de ocupar o lugar central de comando na cultura popular”.
The Many Lives Of Tom Waits, de Patrick Humphries (que já havia publicado, em 1989, o muitíssimo mais sintético Small Change: A Life Of Tom Waits) inscreve-se no género das “grandes biografias” mas, embora Humphries nos afogue num dilúvio de informação histórica, cultural e política, relativamente aos diversos períodos da vida de Waits
(e não deixa de ser interessante saber que ele nasceu um ano antes da publicação, em 1948, do célebre Kinsey Report – estudo pioneiro dos hábitos sexuais dos americanos – ou de Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer), praticamente todo o livro repousa preguiçosamente sobre uma colagem de citações das abundantes e torrenciais “tall tales” com que Tom Waits, durante trinta e tal anos, tem montado, desmontado e voltado a montar a ficção da(s) sua(s) personagen(s), e pouco se esforça por passar um pouco além dessa (assombrosa, reconheça-se) cortina de fumo e desvendar um ou dois segredos. Agradece-se o trabalho de compilação mas pedia-se algo mais.
Da produção (sempre excepcional) dos próprios músicos e artistas da cena pop e regiões limítrofes, Night Life,
de Laurie Anderson, é o exemplo mais recente e, sobretudo, um belíssimo objecto realizado, em 2005, durante a digressão de The End Of The Moon: o registo de imagens (desenhadas por Anderson) e micronarrativas/haikus ocorridas em sonhos (“a linguagem secreta do corpo”) que, confessa, se decidiu a concretizar “literalmente por instinto de autodefesa”. E se “legendas” como “Destroços. Tudo feito em pedaços. Números de telefone. Escombros. Um estranho cheiro a metal” são indícios do conteúdo desses sonhos, não é difícil compreender como este processo de exorcismo por catarse estética lhe poderá ter sido indispensável a ela e fulgurantemente iluminador para nós. (2007)
“Foi com Elvis que o cantor se transformou no sacerdote, no mediador entre o secreto culto maçónico e o público. A cultura acontece em segredo, toda a arte é secreta. As pessoas comuns apenas se apercebem das cinzas da arte, ou dos momentos falhados, ou dos instantes imobilizados. Só muito raramente, em cima do palco, uma banda acede à realidade; na maioria das vezes, isso acontece durante os ensaios, em momentos perdidos. Ninguém vê ou sabe alguma coisa acerca disso”, proclama David Thomas, dos Pere Ubu, quando Greil Marcus, por um capítulo inteiro, lhe dá voz em The Shape of Things to Come. Mas essa voz que ele lhe concede – como será praticamente inevitável em qualquer obra de Marcus – é apenas uma de entre a imensa polifonia que se escuta num livro cujo sub-título é Prophecy And The American Voice: concebido no rescaldo dos atentados a Nova Iorque de 11 de Setembro de 2001, como em Mystery Train (1975), Lipstick Traces (1989), Dead Elvis (1991), Invisible Republic (1997)
É preciso recordar que Greil Marcus, com outros “clássicos” como Lester Bangs, Nick Kent, Charlie Gillett, ou mais recentes – Simon Reynolds, David Toop –, é dos raros críticos culturais da coisa-pop que (no âmbito de um sector editorial específico que, anualmente, vomita centenas de títulos) não se fica pela hagiografia dos ícones do momento nem chafurda na coscuvilhice tablóide das intimidades privadas. Reynolds, dois anos depois de Rip It Up And Start Again (uma detalhada investigação do pós-punk),
The Many Lives Of Tom Waits, de Patrick Humphries (que já havia publicado, em 1989, o muitíssimo mais sintético Small Change: A Life Of Tom Waits) inscreve-se no género das “grandes biografias” mas, embora Humphries nos afogue num dilúvio de informação histórica, cultural e política, relativamente aos diversos períodos da vida de Waits
Da produção (sempre excepcional) dos próprios músicos e artistas da cena pop e regiões limítrofes, Night Life,
31 August 2007
CRÓNICA DOS DANADOS POP
Richard Thompson - 1000 Years Of Popular Music
Grinderman - Grinderman
Nick Cave & The Bad Seeds - The Abattoir Blues Tour
Lou Reed - Rock And Roll Heart
John Cale - John Cale
The Pogues - Poguevision
Anda tudo, quase sempre, à volta do mesmo: às tantas, pelo meio de “Love Bomb”, Nick Cave – na sua nova encarnação colectiva, Grinderman – expele este mimo: “Two thousand years of Christian history, baby, and you ain’t learned to love me yet”; a Richard Thompson, bastaram mil anos para compreender como, entre “Summer Is Icumen In” (de W. De Wycombe, 1260) e “Oops!... I Did It Again” (“uma canção pop clássica que, se for retirada das mãos de quem, originalmente, a cantou, poderá revelar algum do seu esplendor”, Thompson dixit), vai só um pulinho, da imaginária inocência “primordial” à sua mera existência vestigial contemporânea (“you think I’m in love, that I’m sent from above, I’m not that innocent”); Shane MacGowan esvazia mais duas ou trinta garrafas e, entaremeladamente, rosna “We watched our friends grow up together, and we saw them as they fell, some of them fell into Heaven, some of them fell into Hell”; e, algures por entre uma biografia bipartida dos Velvet Underground, John Cale sintetiza telegraficamente a tempestuosa aventura do grupo em seis palavras: “misfits get together and create art”. Não é certo que todos acreditem que Deus morreu mas não restam muitas dúvidas que nenhum deles se sente lá muito bem... e tudo isso – em formato DVD ou CD – cabe integralmente nas inúmeras configurações dessa extraordinariamente maleável criação do século XX, a canção pop.
Por acaso, Richard Thompson não é exactamente dessa opinião: em 1000 Years Of Popular Music (o DVD e duplo CD que regista um dos seus concertos, em S. Francisco, da digressão que deu origem ao álbum homónimo de 2003), empenha-se na demonstração de como “a música popular, através dos tempos, se apresenta sob as mais variadas formas e, à medida que as formas antigas vão sendo ultrapassadas, por vezes o bebé é atirado fora com a água do banho – grandes ideias, melodias, ritmos e estilos ficam esquecidos por entre o pó da história; vamos, então, procurar o que ficou lá para trás e ver se ainda funciona”. Isto é (de acordo com o alinhamento do DVD), existe tanto espírito pop nos séculos XIII, XV, XVI, XVII ou XIX (de De Wycombe e Orazio Vecchi a Thomas Morley e tradicionais vários) como nas operetas de Gilbert & Sullivan, na folk, nos clássicos de Cole Porter, no honky-tonk mais encardido ou na pop propriamente dita dos Easybeats, Kinks ou... Britney Spears. Estávamos fartos de saber que Thompson é um enorme guitarrista e um autor de canções superlativo. Aprendemos também, a partir de agora, que todo o seu “doom and gloom” esconde, afinal, uma faceta de divertidíssimo “entertainer” com costela de pedagogo que (acompanhado por Judith Owen – voz e teclados – e Debra Dobkin – voz e percussões) levou à letra da melhor forma o desafio que, em 1999, a “Playboy” lhe dirigiu para compilar uma lista das “dez canções do milénio”.
A veia milenarista de Nick Cave é, igualmente, lendária: um sanguinário Jeová espreitava através das trevas de todas as assombrações, meio-Faulkner, meio-Flannery O’ Connor, dos Birthday Party e Bad Seeds iniciais e deveríamos ter suspeitado que o apaziguamento neo-cristão inaugurado com The Good Son (1990) não haveria de durar sempre.
Se Nocturama (2003) e o duplo Abattoir Blues/The Lyre Of Orpheus (2004) – até pela mais acentuada partilha com os Bad Seeds do trabalho de composição – já davam a entender que o fel voltara a borbulhar, a entidade (semi)anónima Grinderman não se entretém com ambiguidades: Cave, Warren Ellis, Martin Casey e Jim Sclavunos, barbados e desmazeladamente rústicos como profetas bíblicos (ou colando-se à pele de qualquer uma das aterradoras personagens de The Proposition – o assombroso filme de John Hillcoat para que Nick Cave escreveu o argumento e, com Ellis, a música), entregam-se a uma recuperação do ruído como matéria-prima, da alma danada dos blues como essência e do desbragamento enquanto princípio estético e, num novelo de “loops” ásperos de violino e coices eléctricos de guitarra (o próprio Cave), vomitam enormidades do jaez de “a little consensual rape in the afternoon and maybe a little more in the evening” ou “We are artists, we’re mathematicians, some of us hold extremely high positions, but we are tired, we’re hardly breathing and we’re free, go tell the women that we’re leaving”. O elo de ligação com as etapas anteriores, esse, encontra-se disponível nos concertos dos dois magníficos DVD de The Abattoir Blues Tour (com extras de documentário e videoclips promocionais).
Membros fundadores da confraria dos danados, Lou Reed e John Cale partilham, em Rock And Roll Heart e John Cale, a história da banda por influência da qual milhares de outras surgiram.
As sequências que documentam a história dos Velvets, em ambos os DVD, complementam-se mais do que se repetem (da pop “de linha de montagem” dos Primitives e da coabitação com a vanguarda de La Monte Young ao esquálido Café Bizarre, à Factory de Warhol, ao Exploding Plastic Inevitable e ao pesadelo hippie de S. Francisco, até à separação definitiva) mas é no que respeita ao percurso posterior de cada um que o documentário acerca de Reed se revela incomparavelmente mais rico que o de Cale: onde, num, a linha biográfica é perseguida quase ano a ano – e esclarecida pelos múltiplos depoimentos de David Byrne, Thurston Moore, Billy Name, Jonas Mekas, Jim Carroll, Patti Smith, Nan Goldin, Lee Ranaldo, Suzanne Vega ou David Fricke –, no outro, há omissões, saltos temporais e ausências inexplicáveis: é admissível uma biografia de John Cale na qual não figura sequer uma vaga alusão a Music For a New Society?...
Poguevision recolhe, enfim, a totalidade dos videoclips dos Pogues que, sem excepção, mereceriam muito mais o título daquele por que o desfile começa, “Streams Of Whiskey”. Maioritariamente toscos e notoriamente produzidos com um orçamento inversamente proporcional ao normal grau de embriaguês de Shane MacGowan, acabam, no entanto, por reflectir com apreciável fidelidade a atmosfera mental de um formidável “songwriter” e de uma banda que fizeram da dissipação e do excesso um modo de vida regular.
Os adeptos do videoclip como subcategoria da “curta” audiovisual deverão, contudo, contentar-se com “Miss Otis Regrets”/”Just One Of Those Things”, “Summer In Siam”, “Fairytale Of New York” ou – de longe, o melhor – “Yeah, Yeah, Yeah, Yeah, Yeah”, uma delirante e vertiginosa viagem entre a pop-a-preto-e-branco dos “early sixties” e o seu lisérgico desfecho final em arco-íris. (2007)
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28 August 2007
CANÇÕES DE AMOR E ÓDIO

Richard Thompson - RT: The Life And Music Of Richard Thompson
Ambrose Bierce bem se poderá ter divertido a amarrotar o ego de muito e bom músico (no Dicionário do Diabo, entre vários outros amáveis exemplos, definia "acordeão" como "instrumento que está em harmonia com os sentimentos de um assassino" e explicava que "piano" era um "utensílio de salão que serve para subjugar o visitante impenitente; para o pôr a funcionar, primem-se as teclas e deprimem-se os ouvintes") que não foi isso que impediu Richard Thompson de, na contracapa do seu primeiro álbum a solo (Henry The Human Fly, de 1972), citar a sua definição de "mosca": "um monstro do ar que presta obediência a Belzebu. (...) Ela é o Rei, o Chefe, o Patrão! Saúdo-a". Nada de surpreendente em Thompson.
Quando o interrogaram acerca do significado do título de Mirror Blue (1994), referiu o poema de Tennyson, "The Lady Of Shalott" ("And sometimes thro' the mirror blue, the knights come riding two and two, she had no loyal knight and true, The Lady Of Shalott") e esclareceu que "a Senhora é uma figura amaldiçoada, apenas vê a realidade como um reflexo. Se olhar directamente para o mundo, morre. O mesmo se poderia dizer da música. Não que, por causa dela, possamos morrer, mas porque se trata apenas um reflexo da realidade".
Richard Thompson, nada de confusões, é o exacto contrário do "name dropper". Mas, a um dos seus biógrafos, Patrick Humphries (Richard Thompson: Strange Affair, The Biography), chegou a confessar que não seria uma ideia completamente idiota incluir uma bibliografia nas capas dos seus discos. Dave Smith (em The Great Valerio - A Study Of The Songs Of Richard Thompson), por outro lado, raia o absurdo na tentativa de demonstrar como praticamente tudo o que ele compôs se inscreve na directíssima descendência de T.S. Eliot, Yeats, Blake, Shakespeare, Robert Graves, a Bíblia e o Corão (para ficarmos por uma síntese moderada).
Ainda que, de caminho, se tenha dado ao trabalho de — nas trezentas e tal páginas da exegese — demonstrar como, nas canções de Thompson (ou como ele postula: "numa típica canção de Richard Thompson"), estão invariavelmente presentes, pelo menos, oito "clusters" temáticos, de que os mais frequentes são "violência/armas/sangue/guerra/tortura" (64%), "amor/ódio/coração" (56%), "riqueza/pobreza/roubo" (50%), "morte/sepultura/fantasmas" (40%) e "luz/trevas/dia/noite/sol/lua" (36%). Adicione-se a isto a afirmação de Greil Marcus que garante que "muitas vezes, Richard Thompson parece cantar os anos da peste, caminhando atrás de uma carroça cheia de cadáveres", recupere-se o que Thackeray dizia do mesmo Tennyson mencionado umas boas linhas atrás ("ele lê todo o tipo de coisas, engole-as e digere-as como uma gigantesca boa-constrictor poética") e teremos o retrato acabado de Richard Thompson "songwriter" erudito, gótico e infernal, profeta de todas as abominações e apocalipses.
É uma boa parte da verdade mas está bastante longe de ser a verdade toda. Porque esse é precisamente o mesmo Richard Thompson que, em 1000 Years Of Popular Music (2003), acha perfeitamente razoável incluir nos "all time classics" do milénio, "Oops! I Did It Again", de Britney Spears (é verdade, ele até tem um bem avinagrado sentido de humor). E que, a Paul Zollo (Songwriters On Songwriting), indica como modelos Buddy Holly, The Shadows, Scotty Moore, Les Paul, Django Reinhardt e, sobre todos, Bob Dylan. E Phil Ochs. Do qual, fez questão de actualizar, em contexto pós-Iraque, o militante "I Ain't Marching Anymore". Mas também aquele outro que, por ocasião do nascimento da filha, Muna, escreveu a "lullabye" — "The End Of The Rainbow" — definitivamente suicidária ("I feel for you, you little horror, safe at your mother's breast, no lucky break for you around the corner, 'cos your father is a bully and he thinks that you're a pest, and your sister, she's no better than a whore"), o mesmo que suplicou que, no dia em que alinhasse na peganhenta tradição confessionalista dos "singer-songwriters", lhe dessem um tiro na testa, e o que (mas, façam um esforço, compreendam a crucial diferença) desde há mais de trinta anos, aderiu ao sufismo islâmico.
São todos estes Richard Thompsons que se podem encontrar nesta sua "arca da vida" tematicamente organizada. Nem uma só gravação foi antes publicada. Ninguém também sonhe — entre incontáveis "bootlegs", inúmeras colaborações, obscuridades avulsas, versões alternativas, reeencontros, bandas paralelas, amabilidades várias e gravações oficiais — possuir-lhe, alguma vez, a interminável discografia exaustiva. Mesmo no que respeita a clássicos miseravelmente ignorados como os magníficos Industry (1997) ou o renascentista, escatológica e exuberantemente radical, The Bones of All Men (1998). Mas, desta vez (na compilação, até aqui, indiscutível, do que nunca antes ouvimos), há cinco CD — as marcas urbanas de Londres, as escolhas dos fâs, a guitarra além-estrelas, as versões e os inéditos absolutos —, onde, dos Fairport Convention ao estado de graça com Linda Thompson e a tudo o que veio a seguir, se pode ganhar infinitamente mais do que muitas vidas a abocanhar sofregamente música e palavras. (2006)
Richard Thompson - RT: The Life And Music Of Richard Thompson
Ambrose Bierce bem se poderá ter divertido a amarrotar o ego de muito e bom músico (no Dicionário do Diabo, entre vários outros amáveis exemplos, definia "acordeão" como "instrumento que está em harmonia com os sentimentos de um assassino" e explicava que "piano" era um "utensílio de salão que serve para subjugar o visitante impenitente; para o pôr a funcionar, primem-se as teclas e deprimem-se os ouvintes") que não foi isso que impediu Richard Thompson de, na contracapa do seu primeiro álbum a solo (Henry The Human Fly, de 1972), citar a sua definição de "mosca": "um monstro do ar que presta obediência a Belzebu. (...) Ela é o Rei, o Chefe, o Patrão! Saúdo-a". Nada de surpreendente em Thompson.
Quando o interrogaram acerca do significado do título de Mirror Blue (1994), referiu o poema de Tennyson, "The Lady Of Shalott" ("And sometimes thro' the mirror blue, the knights come riding two and two, she had no loyal knight and true, The Lady Of Shalott") e esclareceu que "a Senhora é uma figura amaldiçoada, apenas vê a realidade como um reflexo. Se olhar directamente para o mundo, morre. O mesmo se poderia dizer da música. Não que, por causa dela, possamos morrer, mas porque se trata apenas um reflexo da realidade".
Richard Thompson, nada de confusões, é o exacto contrário do "name dropper". Mas, a um dos seus biógrafos, Patrick Humphries (Richard Thompson: Strange Affair, The Biography), chegou a confessar que não seria uma ideia completamente idiota incluir uma bibliografia nas capas dos seus discos. Dave Smith (em The Great Valerio - A Study Of The Songs Of Richard Thompson), por outro lado, raia o absurdo na tentativa de demonstrar como praticamente tudo o que ele compôs se inscreve na directíssima descendência de T.S. Eliot, Yeats, Blake, Shakespeare, Robert Graves, a Bíblia e o Corão (para ficarmos por uma síntese moderada).
Ainda que, de caminho, se tenha dado ao trabalho de — nas trezentas e tal páginas da exegese — demonstrar como, nas canções de Thompson (ou como ele postula: "numa típica canção de Richard Thompson"), estão invariavelmente presentes, pelo menos, oito "clusters" temáticos, de que os mais frequentes são "violência/armas/sangue/guerra/tortura" (64%), "amor/ódio/coração" (56%), "riqueza/pobreza/roubo" (50%), "morte/sepultura/fantasmas" (40%) e "luz/trevas/dia/noite/sol/lua" (36%). Adicione-se a isto a afirmação de Greil Marcus que garante que "muitas vezes, Richard Thompson parece cantar os anos da peste, caminhando atrás de uma carroça cheia de cadáveres", recupere-se o que Thackeray dizia do mesmo Tennyson mencionado umas boas linhas atrás ("ele lê todo o tipo de coisas, engole-as e digere-as como uma gigantesca boa-constrictor poética") e teremos o retrato acabado de Richard Thompson "songwriter" erudito, gótico e infernal, profeta de todas as abominações e apocalipses.
É uma boa parte da verdade mas está bastante longe de ser a verdade toda. Porque esse é precisamente o mesmo Richard Thompson que, em 1000 Years Of Popular Music (2003), acha perfeitamente razoável incluir nos "all time classics" do milénio, "Oops! I Did It Again", de Britney Spears (é verdade, ele até tem um bem avinagrado sentido de humor). E que, a Paul Zollo (Songwriters On Songwriting), indica como modelos Buddy Holly, The Shadows, Scotty Moore, Les Paul, Django Reinhardt e, sobre todos, Bob Dylan. E Phil Ochs. Do qual, fez questão de actualizar, em contexto pós-Iraque, o militante "I Ain't Marching Anymore". Mas também aquele outro que, por ocasião do nascimento da filha, Muna, escreveu a "lullabye" — "The End Of The Rainbow" — definitivamente suicidária ("I feel for you, you little horror, safe at your mother's breast, no lucky break for you around the corner, 'cos your father is a bully and he thinks that you're a pest, and your sister, she's no better than a whore"), o mesmo que suplicou que, no dia em que alinhasse na peganhenta tradição confessionalista dos "singer-songwriters", lhe dessem um tiro na testa, e o que (mas, façam um esforço, compreendam a crucial diferença) desde há mais de trinta anos, aderiu ao sufismo islâmico.
São todos estes Richard Thompsons que se podem encontrar nesta sua "arca da vida" tematicamente organizada. Nem uma só gravação foi antes publicada. Ninguém também sonhe — entre incontáveis "bootlegs", inúmeras colaborações, obscuridades avulsas, versões alternativas, reeencontros, bandas paralelas, amabilidades várias e gravações oficiais — possuir-lhe, alguma vez, a interminável discografia exaustiva. Mesmo no que respeita a clássicos miseravelmente ignorados como os magníficos Industry (1997) ou o renascentista, escatológica e exuberantemente radical, The Bones of All Men (1998). Mas, desta vez (na compilação, até aqui, indiscutível, do que nunca antes ouvimos), há cinco CD — as marcas urbanas de Londres, as escolhas dos fâs, a guitarra além-estrelas, as versões e os inéditos absolutos —, onde, dos Fairport Convention ao estado de graça com Linda Thompson e a tudo o que veio a seguir, se pode ganhar infinitamente mais do que muitas vidas a abocanhar sofregamente música e palavras. (2006)
21 August 2007
1 000 YEARS GREATEST HITS
Richard Thompson - 1000 Years Of Popular Music
A culpa é da "Playboy". Porque foi em resposta a uma solicitação dessa revista para fazer uma lista das melhores canções do milénio (subentendendo-se "do século") que Richard Thompson levou a sugestão à letra e não só a organizou a começar mesmo em 1056 (a "Playboy" acabaria por nunca a publicar) como, a partir daí, concebeu um espectáculo ao vivo e, agora, este álbum. O que inclui, então, a história privada dos "greatest hits" da música ocidental segundo Thompson? Bom, o disco, começa no sec. XIII com "Sumer Is Icumen In", de John Farnsette, monge da abadia de Reading e chega até "Oops!... I Did It Again", de Britney Spears. Exactamente, leram bem. E, na opinião (que não me atreverei a contrariar) de Richard Thompson, são todas magníficas canções que, num caso ou noutro, apenas sofrerão de imerecida má reputação.
Depois, num total de vinte e três temas (que se concluem, fechando o círculo, com "Marry, Ageyn Hic Hev Donne Yt", fragmento anónimo bretão do sec. XIII... na verdade, uma versão faux-medieval de "Oops!... I Did It Again"), passeia-se por "Cry Me A River", jazz via-Nat King Cole e rockabilly via-Jerry Lee Lewis, "When I'm Laid In Earth" do "Dido And Aeneas" de Purcell, blues, Who, "chart hits" de 1500 como o delicioso "So Ben Mi Ca Bon Tempo", de Orazio Vecchi, "labor songs", ABBA, Gilbert & Sullivan, Beatles, Hoagy Carmichael, folk, Squeeze, números de "music hall", Prince, Stephen Foster ou o magnífico "Shenandoah" e lança-lhe um pouco de vários outros saborosos temperos com que confecciona um opíparo divertimento erudito transformado em concerto integralmente acústico (com as percussões de Michael Jerome e a óptima voz de Judith Owen) repleto de surpresas, subtis virtuosismos de guitarra e excelente humôr. O mundo seria bem melhor se houvesse mais dois ou três Richard Thompsons. (2003)
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