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10 May 2024
20 November 2022
MONSTERPIECE
Há 5 anos, Peter Buck decidiu comprar um dos 75 retratos de uma série sobre Lou Reed que Luke Haines colocara à venda. Inesperadamente, Haines propos-lhe gravarem um álbum a meias. Sem nunca se terem encontrado fisicamente, assim nasceriam as dez canções de Beat Poetry For Survivalists (2020), mui peculiar objecto em cujas esquinas Andy Warhol, Liberace, os Ramones, Captain Beefheart e Maria Callas se cruzavam. Supostamente, não teria sucessor. Mas, com os constrangimentos pandémicos a pesar, o ex-R.E.M. e o ex-Auteurs/Black Box Recorder/Baader Meinhof optaram por dar uso útil ao muito tempo disponível e reactivar a colaboração: “Apercebi-me que, com o Luke, não há limites. Tudo o que lhe enviava ele concluía. Era o Verão de 2021 em Portland, com incêndios, ondas de calor e protestos, e dei comigo a pensar ‘Será que preciso realmente de escrever mais uma canção bonitinha em Mi menor com um riff de guitarra catita?...’ Que se lixe, não era esse o meu estado de espírito na altura”, contou Buck à UCR“. (daqui; segue para aqui)
"The British Army On LSD"
03 June 2021
PERSONAL ANARCHY
O mistério do cérebro perdido de Ulrike Meinhof. A história fantástica de Jack Parsons, pioneiro aero-espacial, espião e ocultista da seita de Aleister Crowley. O Situacionismo e a guerrilha urbana. A "sci-fi" neo-swiftiana sobre uma comunidade hiper-libidinosa de mutantes de 6 centímetros. Uma discografia – em nome próprio ou sob as designações de The Auteurs, Baader-Meinhof e Black Box Recorder – com perto de 30 títulos, entre os quais The Oliver Twist Manifesto (2001), Das Capital (2003), 9 1/2 Psychedelic Meditations on British Wrestling of the 1970s & Early '80s (2011), Adventures In Dementia (2015), British Nuclear Bunkers (2015) e o inédito e confidencial The State Funeral of Winston Churchill (2005). Três livros – Bad Vibes: Britpop and My Part in Its Downfall (2009) Post Everything: Outsider Rock and Roll (2011) e o “psychedelic cookbook”, Outsider Food And Righteous Rock And Roll (2015) – e uma extensa lista de canções pelas quais, em estados variáveis de desfiguramento, desfilam Andy Warhol, Liberace, Ramones, Jacqueline du Pré, Captain Beefheart, Donovan, Maria Callas, Valerie Solanas, Nick Lowe, Klaus Kinski, Gene Vincent, Lou Reed, Peter Hammill, Marc Bolan, Bruce Lee, Roman Polanski e os futuristas russos. É, pois, inteiramente legítimo afirmar que, no imenso caldo de cultura pop/rock, não existe quem, sequer remotamente, se assemelhe a Luke Haines, adepto confesso da “personal anarchy” e supremo praticante da modalidade. (daqui; segue para aqui)
"Ex Stasi Spy"
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30 April 2019
CORES A EXPLODIR NO CÉU
Houve um riquíssimo – e injustamente menosprezado – filão da música do século XX redescoberto à beira do novo milénio que, embora, à época, tenha produzido descendência apreciável, não chegou a ser exaustivamente garimpado. Os Stereolab, Broadcast, Saint Etienne, High Llamas, Pizzicato Five, Tipsy, Combustible Edison, Pram ou Oranj Symphonette, quais intelectuais renascentistas, poderão ter arregalado os ouvidos perante as três dezenas de volumes recheados de tesouros da série Ultra Lounge (e as muitas outras reedições que recolocaram no mapa Les Baxter, Martin Denny, Ray Coniff, Yma Sumac, Arthur Lyman, e Juan Garcia Esquível enquanto legítimos herdeiros de Bach, Telemann, Debussy ou Satie e antecedentes directos de Cage, Chet Baker e Brian Eno) mas, no vastíssimo universo easy listening/lounge/muzak/exotica/elevator music, muito ficaria ainda por explorar. Acrescente-se ainda a recuperação das obras dos pais fundadores da electrónica – Raymond Scott, Robert Moog, Louis e Bebe Barron –, o encontro com as excentricidades sonoras de Gravikords, Whirlies & Pyrophones (1998), a reavaliação de inúmeras bandas sonoras para "gialli" e eternos residentes nos rodapés da história do cinema – a magnífica recolha Crime & Dissonance, de Morricone, mas também Fabio Frizzi, Krzysztof Komeda, Gene Moore – e o poço sem fundo da "library music", e ficar-se-á com uma razoável ideia da inesgotável matéria-prima pronta para centrifugação laboratorial.
Foi justamente por aí que Le SuperHomard, banda francesa de Avignon (ou, mais exactamente, Christophe Vaillant, compositor, Julie Big, voz, e acólitos), se orientou, criando uma descendência contemporânea para tão glorioso passado. Situando-se algures no ponto em que uma reinvenção dos ABBA às mãos de membros avulsos dos Saint Etienne e Stereolab se cruzaria com a suave troca de genes entre uns Black Box Recorder menos perversos e um Syd Barrett um segundo antes de se evadir para os anéis de Saturno (eles chamam-lhe “pop retro-futurista” e confessam-se também em dívida relativamente a Morricone. François de Roubaix, Love), Meadow Lane Park é um garboso exercício de "space age bachelor pad music" angélica, um luminoso modernismo sonoro imaginado sob o signo de Vasarely. "Paper Girl" diz tudo: “Take a page, draw a happy face inside a heart, picture you, picture me, picture everyone, draw the lines of fireworks exploding in the sky, red and blue, pink and green, cover all the white”.
24 August 2018
SWIFTIANA
Como diagnosticaria qualquer charlatão freudiano (perdoem a redundância), Luke Haines é um tipo sem superego: escapa-lhe por completo a noção de que não podemos fazer tudo o que desejamos, que há assuntos, certamente interessantes, mas que nos deixarão a falar sozinhos, e que, mesmo sem cair no fundamentalismo, há circunstâncias em que convém prestar atenção à linguagem que utilizamos. É por isso que um mundo em que Haines existe é, sem nenhuma dúvida, um mundo mais rico e habitável. Com a vantagem acrescida de ele contribuir para essa riqueza de modo extraordinariamente generoso: sob a pele de The Auteurs, Black Box Recorder, Baader Meinhof ou em nome próprio, não há tema que se iniba de abordar, da guerrilha urbana ao Situacionismo, à culinária, à história do cérebro perdido de Ulrike Meinhof, e a tudo o mais que títulos de álbuns como 9 1/2 Psychedelic Meditations on British Wrestling of the 1970s & Early '80s, Das Capital, The Oliver Twist Manifesto, Adventures In Dementia ou British Nuclear Bunkers (não) deixam adivinhar.
Concentremo-nos, então, agora, em I Sometimes Dream Of Glue, peça conceptual quintessencialmente hainesiana: segundo o libreto, tudo começou pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando uma coluna de camiões dos British Special Services transportando 10 toneladas de um solvente líquido experimental destinado a, literalmente, derreter o que restava da Alemanha nazi, no caminho para o aeroporto, teve um acidente (sabotagem?) e derramou toda a carga sobre um terreno próximo de Londres. Foi essa a origem da “Glue Town”, micro-cidade habitada por mutantes que não ultrapassam a altura de 6 centímetros e – apesar de a Internet nada registar acerca deles – se sabe terem uma dieta exclusiva de cola e viverem em permanente estado de sobreexcitação sexual. É neste pano de fundo narrativo que se implantam 14 canções de um suave bucolismo de "dirty old man", que nos dão a conhecer os usos e costumes destes “horny little ladies and horny little men”, o seu pensamento político (“Bring back hanging, bring back shame, I'm the angry man on a small train”), vida íntima (“The tree surgeon’s wife she was a busty surprise”) e incontroláveis dúvidas e impulsos (“We could do it on the hillside, or down in the valley, or in the field next to the carpark, or in my garden…”). Afinal, nada de muito diferente de uma swiftiana representação em miniatura do mundo real.
20 December 2016
APELO ÀS ARMAS
Em 2002, vinte e seis anos após a morte de Ulrike Meinhof – fundadora, com Andreas Baader, da Rote Armee Fraktion (Fracção do Exército Vermelho), grupo alemão de guerrilha urbana, activo de 1970 a 1998 -, a filha, Bettina Röhl, descobriu que, após o alegado suicídio de Ulrike na cadeia de Stammheim, em 1976, o cérebro da mãe havia sido removido do crânio na sequência da autópsia realizada pelo neurocirurgião Jürgen Pfeiffer, com o objectivo de investigar se uma anterior cirurgia poderia ter determinado alterações de personalidade e correspondente inimputabilidade. O recuperado cérebro acabaria por juntar-se ao resto do corpo num cemitério de Berlim mas Luke Haines que (em 1996, sob o "alias" Baader Meinhof) já havia dedicado um álbum inteiro à história da RAF, não o deixa descansar em paz: agora, em "Ulrike Meinhof’s Brain Is Missing" (primeira faixa de Smash The System), muito à sua maneira, reconta a história: “Ulrike Meinhof’s brain is missing, organic matter on the run, there’s a hullabaloo in the Stasi HQ, Jürgen, Jürgen, call the surgeon...”
Sim, porque para a personagem que tanto assina com o próprio nome como enquanto The Auteurs, Black Box Recorder ou... Baader Meinhof, e exibe um CV com mais de vinte álbuns, nenhum tema é inacessível. Espécie de singularidade cósmica resultante da colisão entre Jarvis Cocker, Momus e um Syd Barrett menos descompensado, Haines é um historiador iconoclasta da coisa pop – espreitem os livros Bad Vibes: Britpop and My Part in Its Downfall (2009) Post Everything: Outsider Rock and Roll (2011) e a compilação de receitas Outsider Food And Righteous Rock And Roll (2015) –, um comentador sulfúrico da paisagem social britânica e confesso adepto da “personal anarchy”, actualmente “obcecado pelo maoísmo, a Incredible String Band e a segunda guerra mundial”. Um belíssimo caldo de cultura, pois, para este “Ritual magick agit prop call to arms” que celebra Marc Bolan e o sexo oral, reune "Bruce Lee, Roman Polanski and Me", recomenda (com solo de kazoo incorporado) a Incredible String Band – uns fulanos que cantavam “songs about caterpillars, hedgehogs and death (...) like a couple of weasels trapped in a sack” –, e convoca as massas para a revolta sob a palavra de ordem “I like the Monkees, do you like the Monkees? Let's smash the system!”
20 March 2007
REGISTOS DA CAIXA NEGRA (I e II)
Black Box Recorder - The Facts Of Life (2000)
É exactamente o que se pode ler na capa: os factos da vida registados na caixa negra de Luke Haines (ex-Auteurs e Baader-Meinhof), John Moore e Sarah Nixey como revelador requintadamente cínico e falsamente ingénuo do modo de vida "moderno" traduzido para uma pop de cetim e veludo de doces metáforas venenosas, vozes sussurradas e melodias sordidamente celestiais. Existem, é claro, antecedentes óbvios, de Serge Gainsbourg/Jane Birkin a Momus/Laila France, David Lynch/Julee Cruise/Badalamenti ou (no cenário e atmosfera candidamente fétidos) os muito proximos Pulp. Para não falar, naturalmente, em England Made Me (cujo lema era "Life is unfair, so kill yourself or get over it") dos próprios Black Box Recorder cuja música finalmente destilava o britpop/rock ainda derivativo e pouco focado — mas já seriamente perturbado — dos Auteurs.
Agora, porém, tudo se passa como se David Lynch se tivesse decidido a escrever um argumento sobre a suposta inocência adolescente a partir de uma banda sonora daquele "easy listening" que, nos anos 50, celebrava a suave felicidade imaginária da "straight life". Isto é, "The Art Of Driving" e "The English Motorway System" não são (decididamente, não são) temas a incluir num CD-oferta da revista do ACP mas qualquer coisa um bocadinho mais inquietante e vagamente pedófila. "Sex Life" é o argumento obsessivo de um sonho húmido cantado pelo côro de um colégio de raparigas, "Weekend" desenha o anestesiado cenário da manhã de sábado que se segue a uma noite de sexta suspeitamente muito pouco doméstica ("Take your bank account, was it worth it to spend so much on conversation, never mind the cost, there's nothing lost") exactamente simétrico do "ennui" normalizado de "Straight Life" ("home improvements in our dream home, visiting sites of local interest, walking the hillsides, playing games, bringing back souvenirs") e do escabroso "Gift Horse" onde, sob um manto de vozes angélicas, "they're digging up human remains in Notting Hill behind the screens, behind the wall, in our back garden".
E que, inevitavelmente, encerra com o "Goodnight Kiss" para mais um romance falhado de subúrbio ("turn the lights out before you leave") que soa menos como o fim de um conto de fadas perverso do que como um epitáfio para o admirável mundo contemporâneo. A banda sonora para o sucessor de Twin Peaks que ainda está por realizar.
Black Box Recorder - Passionoia (2003)
"A pint of milk, a loaf of bread, a magazine on special offer, check the weather forecast, buy a new umbrella, send a text message, take a shower, meet me in the park in half an hour, these are the things that keep us together". O lar ideal, as delícias do amor doméstico, a magia dos pequenos nadas? Não, frio, muito frio. Como em todos os discos dos Black Box Recorder, Luke Haines está só a bordar sobre veludo negro a paisagem arrepiante do inferno pequeno-burguês em que ele tanto gosta de ferrar o dente.
E o resto da pirâmide social também não perde pela demora, há de tudo para todas as classes A, B, C, D, e E: "The New Diana" ("I want to be the new Diana, lying on a yacht, reading photo magazines") estabelece os requisitos necessários para as candidatas a nova "princesa do povo", "British Racing Green" é sociologia de bolso em concentrado sulfúrico para aguarela de caixa de chocolates com "cottages by the sea", sonhos de reforma antecipada e gin anestésico, "GSOH Q.E.D." radiografa o universo das "mensagens pessoais" de jornal, "Andrew Ridgley" atira-se às pop stars de plástico em decadência e, depois, ainda há manuais de consulta rápida como "Girl's Guide For The Modern Diva" e várias outras necessidades básicas da vida moderna.
A receita estética para o traçado desta geografia do paraíso-Prozac na versão BBR é simples e eficaz: "synth-pop" de feição "eighties" reforçadamente "glitzy" e irónico, afrancesamento das atmosferas "à la Gainsbourg" e a voz mimada de "daddy's little rich girl" de Sarah Nixey para sublinhar a teatralidade. Na capa, de bikini, ela bronzeia-se na "chaise longue", à beira da piscina, enquanto um corpo afogado boia à superfície da agua. Como dizia o outro, "there's too much apathy in the world but then, who cares?". Tal qual os anteriores England Made Me e The Facts Of Life, praticamente perfeito.
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