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09 October 2013

SWAPS


Mover-se com destreza no labirinto dos dicionários – esses maravilhosos contentores de palavras que guardam em si todos os textos escritos e a escrever – não é apenas uma capacidade de imensa utilidade prática mas também algo que pode contribuir decisivamente para reabilitar certas palavras de má reputação. "Swap", por exemplo. À conta destas quatro letras, entendidas como “instrumento financeiro de risco elevado”, muitos de nós ter-se-ão já imaginado Robespierre em sonhos húmidos com guilhotinas. A pobre palavra "swap", contudo, não significa senão “troca” e é susceptível de ser usada em variadíssimos contextos como aquele no qual, em plenos anos 60, o escritor John Updike, em Couples, se referia ao "wife swapping" (divertimento sexual alternativo também conhecido sob a designação de "swing" que, por sua vez, não deverá ser confundido com o género musical a que Benny Goodman ou Glenn Miller se dedicavam). Ou, para o que, agora, importa, na acepção de "song swapping", modalidade praticada por Peter Gabriel e iniciada em 2010 com Scratch My Back. Tratava-se, então, de dar (magnificamente) o tiro de partida para a primeira volta de um desafio em que Gabriel interpretaria doze canções de igual número de autores que, na segunda volta – And I’ll Scratch Yours, uma espécie de “toma lá, dá cá” –, lhe responderiam com versões de outras tantas dele. 



O processo não decorreu com a celeridade prevista (houve quem, como os Radiohead, não tivesse achado muita graça ao ângulo pelo qual Peter Gabriel observou a sua bem amada obra e tenha feito birra, e outros – David Bowie e Neil Young – que, sob diversas alegações, se escusaram a retribuir a amabilidade) pelo que, só três anos depois, o "swap" se acha concluído. Se, no primeiro volume, havia um dogma (proibição de guitarras, bateria ou "groove" rítmico substituídos pelos mais que perfeitos arranjos orquestrais do ex-Durutti Column, John Metcalfe) e um lema (“Se reinterpretamos alguma coisa, hasteemos a nossa bandeira no mastro e digamos ‘isto é diferente e ninguém é obrigado a gostar’”), as réplicas de And I’ll Scratch Yours dividem-se, previsivelmente, entre as cerimoniosas releituras, as reconfigurações personalizadas e a iconoclastia. Aquando de Scratch My Back, Stephin Merritt tinha declarado que a versão de "The Book Of Love" de Gabriel se concentrava no pathos enquanto a sua preferia o humor e acrescentava “Claro que, se eu cantasse como ele, não precisaria de ser humorista”. "Not One Of Us", panfleto anti-xenofóbico, aqui em modo caricatural Future Bible Heroes, demonstra as suas razões mas não vai tão longe como a demolição quase "à la" Metal Machine Music que Lou Reed opera sobre "Solsbury Hill". Amem-se muito a folk para catedrais "in space" com que Bon Iver desmaterializa "Come Talk To Me", a pequena peça de joalharia em que Feist converte "Don’t Give Up" e a assombração electrónica que Brian Eno faz descer sobre "Mother Of Violence" mas, sobretudo, ajoelhe-se perante a forma como Paul Simon nos convence de que "Biko" foi sempre uma canção por ele assinada. Fossem todos os "swaps" assim. 

25 May 2012

A ÚLTIMA FRONTEIRA

















The Chieftains - Voice Of Ages

“Chamo-me Cady Coleman, sou astronauta da NASA, sejam bem-vindos à Estação Espacial Internacional! Quis trazer comigo alguma coisa que me recordasse da minha ascendência irlandesa. E, uma vez que também toco flauta, pensei ‘porque não flautas irlandesas?...’” Mas não quaisquer flautas irlandesas: uma de Matt Molloy, um "tin whistle" de Paddy Moloney (ambos dos Chieftains) e ainda uma terceira de Ian Anderson, dos Jethro Tull – com quem ela, a 12 de Abril do ano passado, em dueto Terra-Espaço, tocou a "Bourrée em Mi menor", de Bach (incluída no segundo álbum dos Jethro), por ocasião do cinquentenário da pioneira expedição de Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok 1.



E, porque parece ter queda para comemorações de meio século, ei-la, agora, repetindo a proeza na última faixa do álbum dos Chieftains (muito apropriadamente intitulada "Chieftains In Orbit"), publicado no momento em que Molloy, Moloney e associados comemoram idêntica efeméride de carreira. A verdade é que o espaço deve ser o único local que a música dos Chieftains ainda não tinha explorado – da China, à Galiza, ao México, a Nashville, ao Canadá ou à Terranova, na companhia de gente tão diversa como Van Morrison, Elvis Costello, Pavarotti, Ry Cooder, Madonna, os Stones, Stanley Kubrick e os Who – e o Governo irlandês bem poderia, sem prejuízo, extinguir os ministérios dos Negócios Estrangeiros, Turismo e Cultura e distribuir as suas competências por esta tão vastamente superior instituição. Voice Of Ages, na imensa variedade de convidados que, uma vez mais, convoca é, inevitavelmente, irregular, mas momentos como o de Cady Coleman ou outros com Imelda May, Pistol Annies, Carolina Chocolate Drops, Bon Iver, Punch Brothers, Lisa Hannigan, Decemberists e The Low Anthem tornam-no obrigatório.

01 August 2011

PATCHWORK


Bon Iver - Bon Iver

O tipo que, há três anos, procedendo de acordo com o manual de instruções do bom hippie, se recolheu à proverbial cabana no bosque e aí sublimou desastres sentimentais em acordes de guitarra acústica e melodias entoadas por uma voz de querubim castrado (assim o escutámos em For Emma, Forever Ago), já não existe. Esclareça-se: Justin Vernon/Bon Iver continua vivo e, como se imaginaria, facialmente hirsuto, mas aquilo que se descobre no homónimo segundo álbum não poderia situar-se mais longe da folk que rima com riachos e adejar de colibris. Acompanhar Kanye West em My Beautiful Dark Twisted Fantasy deve ter-lhe arejado as ideias de tal modo que, em comparação com For Emma, Bon Iver soa quase... wagneriano.



O incomodativo "falsetto" permanece mas, integrado como, agora, se acha numa muito mais rica paleta de timbres e enquadramentos sonoros – cada canção, como que, concretizando, em miniatura, o projecto dos cinquenta estados de Sufjan Stevens, ostenta o nome de uma cidade, real ou imaginária, e respectivo cenário musical –, actua como apenas mais um recurso quase instrumental nesta colecção de amáveis experimentalismos de câmara. Das frágeis fantasmagorias electrónicas de "Hinnom, TX" e "Lisbon, OH", à pop cripto-byrdsiana de "Towers", às sinfonias de bolso de "Wash." e "Michicant" (percursos improváveis entre cordas, orgão litúrgico, valsa de carrossel em câmara lenta e micro-improviso "free form" liquefeito), ao simulacro de Peter Gabriel de "Calgary" ou ao francamente óptimo mosaico de "Perth", o "free-folk" poderá ter perdido um dos seus profetas mas a pop (na ausência de qualificação mais apropriada) é bem capaz de ter ganho um novo artesão particularmente talentoso no domínio do "patchwork".

(2011)