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08 December 2025

(Post que deveria ter sido publicado na sequência deste)

"Hallelujah" (L. Cohen) 

(sequência daqui) Não menos decisiva foi a omnipresente ausência da figura do pai, Tim Buckley. A busca de Jeff da sua própria identidade — tanto como artista como enquanto pessoa — estava irremediavelmente presa ao legado dele. Na verdade, se o jovem Buckley tentava distanciar-se do estilo musical de Tim, It's Never Over, Jeff Buckley mostra como a sombra da influência de Tim Buckley ainda o assombrava. Tanto pelo crescente assédio editorial ("As editoras começaram a infestar os meus concertos, andavam todos a tentar farejar o novo Tim Buckley. Odiava aquilo!") como pela forma como diversos testemunhos colocavam o problema: "Ele andava em busca das respostas de um fantasma, as respostas do pai". Interrogava-se acerca da sua real valia ("Precisei de 27 anos para gravar Grace. Irei precisar de outros 27 para o que vier a seguir?") mas outras figuras do passado recente assombravam-no igualmente. Caso do primeiro instante em que franqueou as portas de entrada da Sony, em Nova Iorque, e "a coisa em que imediatamente reparamos é na fotografia de um belíssimo Bob Dylan suspensa na parede"; depois, Miles, Thelonious Monk, Duke Ellington...", uma espécie de guarda de honra intimidatória que o obrigava a recordar quais os padrões com que iria ser avaliado. Tarefa para a qual, segundo o compositor e maestro Karl Berger (íntimo de Ornette Coleman, Lee Konitz, Anthony Braxton Carla Bley, Bill Laswell, John McLaughlin, Natalie Merchant) ele não se acharia insuficientemente preparado: "Ele ouvia Bill Evans, Shostakovich... conhece algum músco pop que saiba sequer quem foi Shostakovich?" (segue para aqui)

29 July 2021

 
 
(sequência daqui)  Discípulo confesso (e brilhante) de Scott Walker mas também eclético adepto de Sandy Denny, Magazine, The Pop Group, Martin Carthy, Sinatra, Jim O’Rourke, Bill Evans, Brecht e Planxty, em Song of Co-Aklan, tanto assume o registo de agitador inflamado (“Feeling affronted? Blame the unwanted!” e “There’s aliens for blaming and poor folks for defaming”) como o de niilista friamente amargo (“Time will erase us, scene by scene, gone like the fragments of a dream“), mas assegura não ter pretendido criar “um álbum didactico nem pregar coisa nenhuma: não desejo agredir ninguém com o monopólio da verdade. Vejo-me mais como um parasita do que se passa no mundo do que como um influenciador”. O que não foi, de todo, impeditivo de – na companhia de veteranos dos Mansions, Microdisney e Scritti Politti mas também do inclassificável Luke Haines – ter gravado algo como uma sinistra visão de John Cale enquadrada pela elegância cinemática de David Lynch.

14 January 2021

Kronos Quartet - "Turn, Turn, Turn" (Pete Seeger)
(...) [Pete Seeger} Foi também pioneiro do que viria a chamar-se “world music” e um feroz ortodoxo da “pureza” folk, o que o transformaria em protagonista do famigerado incidente do corte dos cabos de palco ao Bob Dylan herecticamente eléctrico, no Newport Folk Festival de 1965. Durante mais de 40 anos, o Kronos Quartet reconfigurou radicalmente o que, convencionalmente, se entendia como quarteto de cordas, interpretando um vastíssimo reportório que se alargou dos minimalistas americanos a Thelonious Monk, Piazzola, Laurie Anderson, Bill Evans, John Zorn, Television, Bryce Dessner, Alban Berg, Jimi Hendrix, compositores africanos e mexicanos, e música de Bollywood, (...) (daqui)

19 February 2020

 AGUARELA INGÉNUA


Gato repetidamente escaldado pelas inúmeras e desavergonhadas campanhas de "hype" à volta de “génios incompreendidos na sua época” que, trazidos à luz, se revelam muito pouco geniais e justissimamente ignorados, teme, naturalmente, a água fria de mais uma “inigualável descoberta” pronta a servir. Foi, pois, inteiramente justificado que, ao ser anunciada a exumação de duas preciosidades do início dos anos 70, desde então remetidas para a clandestinidade, e cujo autor, durante os 40 anos seguintes, se vira obrigado a sobreviver como jardineiro, operário e trabalhador rural, a oferenda tenha sido recebida com os dois pés firmemente colocados atrás. Afinal, por uma vez, o "hype" tinha toda a razão de ser: Bill Fay (1970) e Time of The Last Persecution (1971) – muito especialmente o primeiro – eram o género de peças perante as quais apenas podia pensar-se “Mas como foi possível?...”
 

Entusiasticamente apregoado por Jeff Tweedy, David Tibet, Nick Cave e Jim O’Rourke, era, de todo, impossível não alinhar no coro. E fi-lo: Bill Fay era “coisa da estatura de Goodbye and Hello, de Tim Buckley, dos quatro primeiros de Scott Walker, de American Gothic de David Ackles, ou, do ponto de vista da encenação sinfónica, de Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen”. Provavelmente decisivas eram as orquestrações de Mike Gibbs (jazzman às ordens de Carla Bley, Bill Evans, Peter Gabriel, Marianne Faithfull, e Joni Mitchell) porque, embora também valiosos, Time of The Last Persecution e os dois que gravaria pós-ressurreição (Life Is People, de 2012, e Who Is the Sender?, de 2015), sem a mão de Gibbs, tendiam a aconchegar-se demasiado às ecografias da alma dos velhos  "singer-songwriters". Countless Branches vem confirmar essa ideia: quase só pele e osso de voz e piano com ocasionais pinceladas transparentes de violoncelo e trompete, é uma aguarela intimista de deslumbramento cripto-cristão perante o mundo, a vida e os humanos, talvez excessivamente ingénua – confrontar com Leonard Cohen - para um cavalheiro de 77 anos.

12 November 2012

QUEM EXPLICA À CRIATURA QUE AINDA NEM UM MÊS DE OUTONO PASSOU? (explicação I)

"Em que outro país da Europa poderiam encontrar, como hoje encontram, em pleno Inverno, esta luz e este sol que brilham em Lisboa?" (Paulo Portas, no Encontro Empresarial Luso-Alemão)

Bill Evans - "Autumn Leaves"

03 July 2008

JUVENTUDE COLOSSAL



Bill Fay - Bill Fay




Bill Fay - Time Of The Last Persecution

Solicite-se o auxílio do bom velho amigo Google para uma pesquisa acerca de “Bill Fay” e, logo no topo da primeira página, depararemos com “www.billfay.co.uk- Welcome to the ONLY Bill Fay site on the 'net”. Naturalmente, desconfiamos que aquele “the ONLY Bill Fay site on the 'net” possa ser publicidade enganosa mas, meia dúzia de páginas mais tarde, para além da inevitável (mas curta) entrada na Wikipedia – e lá está o link para “the only dedicated Bill Fay site” –, de umas quantas (poucas) recensões a propósito da reedição dos seus álbuns (uma delas assinada por Julian Cope), do site do homónimo evangelista que deseja partilhar connosco “a palavra de Cristo”, do daquele outro “tough, effective courtroom veteran Bill Fay” que se apresenta como candidato Republicano ao “Dallas County's Criminal District Court No. 3” ou ainda do enigmático “OkCupid.com: Solteiros interessados em Bill Fay”, na verdade, exclusivamente dedicado a Bill Fay, aquele parece ser caso único. À primeira vista, nenhum motivo de espanto: os dois álbuns que Bill Fay publicou em 1970 e 1971 passaram totalmente despercebidos à época e o prolongadamente inédito terceiro (Tomorrow Tomorrow And Tomorrow) só saiu das trevas em 2005.



Tudo se torna, contudo, absolutamente incompreensível quando colocamos a girar o disco de estreia: não, não estamos, mais uma vez, perante a estafada manobra dos operacionais do “hype” que pretendem, à viva força, convencer-nos de que mais um génio foi cruel e injustamente ignorado pelos seus contemporâneos e, só agora (em boa parte, devido à pública devoção de Jeff Tweedy, dos Wilco), finalmente, reconhecido: da primeira à última faixa, Bill Fay é o tipo de álbum para o qual o adjectivo “colossal” foi cunhado por medida. Orquestrado por Mike Gibbs (um dos mais notáveis músicos do jazz britânico da altura que colaboraria também com Carla Bley, Mike Westbrook, Bill Evans, Peter Gabriel, Marianne Faithfull, Gary Burton e Joni Mitchell) é – estou a pesar cuidadosamente as palavras – coisa da estatura de Goodbye and Hello, de Tim Buckley, dos quatro primeiros de Scott Walker, de American Gothic, de David Ackles, ou, do ponto de vista da encenação sinfónica, de Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen. Os textos de algumas canções poderão acusar a contaminação de uma certa “naïveté” hippie da era (o Tim Buckley inicial também e isso em pouco ou nada o diminuiu) mas é impossível não perder instantaneamente o pé perante as sucessivas vagas de crescendos orquestrais que arrastam tudo – melodias, palavras, voz – à sua frente. Em comparação, Time Of The Last Persecution, o segundo, quase parece um acto de deliberada rendição face ao convencionalismo do “songwriting” umbiguista da época. Igualmente fracassado comercialmente e única sombra que poderia (mas não pode) obscurecer a fulgurante luz anterior.

(2008)