(sequência daqui) A voz permanece firme, quase coloquial, mesmo quando o assunto se torna desconfortável. Ele sempre teve um talento para o eufemismo, mas aqui parece ter-se aperfeiçoado ao máximo. A conversa flui. Nada explode. Agilmente acompanhado pelo núcleo da banda que o seguiu durante a última digressão - o guitarrista Matt Kinsey, o saxofonista Dustin Laurenzi e o baterista Jim White -, Bill Callahan sabe que apenas lhe resta manter-se muito atento: "O desconhecido é o que me mantém motivado para continuar a fazer música. É tudo uma questão de me ouvir a mim mesmo e aos outros. Muitas das melhores partes de uma gravação são os erros – transformá-los em pontos fortes, usá-los como trampolins para algo humano. Já ouvi as melodias mais celestiais e tento guardá-las no subconsciente. Mas elas nunca estão lá quando acordo. Já ouvi frases incríveis que desaparecem, como tinta invisível. Antes de dormir, peço aos sonhos que me mostrem algo. Às vezes funciona. Os sonhos e a música são muito próximos, são coisas intangíveis que nos atingem com muita força. É inacreditável que sonhemos e prestemos tão pouca atenção a isso".
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12 March 2026
09 March 2026
(sequência daqui) Não esqueçamos, pois, que (ainda que jure "Não hei-de morrer. A vida é demasiado boa. Não pode acabar”) lidamos com o autor do mais singular requiem de sempre: "Dress sexy at my funeral, my good wife, for the first time in your life, wear your blouse undone to here and your skirt split up to there, and when it comes your turn to speak before the crowd, tell them about the time we did it on the beach with fireworks above us" (de Dongs of Sevotion, 2000). My Days Of 58 revela um Bill Callahan reflexivo desenhando paisagens emocionais com a mesma precisão seca de um diário. Ainda que os espectros de Lou Reed e Leonard Cohen (a somar a John Lee Hooker e, menos detectavelmente, aos vestígios de free-jazz que reivindica) nunca se ausentem, não há aqui nenhuma grande reflexão, Apenas fragmentos, cenas domésticas, pensamentos passageiros. (segue para aqui)
05 March 2026
(sequência daqui) A verdade é que, num período em que não teve apenas que lidar com o inesperado encontro com a própria mortalidade mas também com o desaparecimento do pai, Callahan não se transformou em personagem soturna nem em gracejador à beira do abismo: "Sou mais o género do professor bêbedo. Gosto de acasos, coincidências e erros. Não percebo nada de sintetizadores, mas escolho um aleatoriamente, ligo-o e começo a gravar. Carrego em alguns botões, toco qualquer coisa e, de alguma forma, tento que funcione. Só sou preciso na composição das letras, o resto é mais atirar barro à parede. Também não sei nada sobre endadeamentos de acordes. É mais uma questão de estar aberto e aceitar as coisas de onde quer que elas venham. Sinto-me mais como um médium. Parece-me que recebo coisas já construídas e garanto que sejam recebidas de forma precisa" (segue para aqui)
01 March 2026
ESTAR MUITO ATENTO
"Diagnosticaram-me um cancro colorrectal em Dezembro do ano passado. Em Janeiro, fizeram-me uma ressecção, uma cirurgia agressiva que me deixou quase sem poder andar durante algumas semanas. Também não conseguia por-me de pé por causa da enorme incisão que me fazia parecer ter sido esventrado. O tumor era de estadio 1. Não foi preciso fazer quimioterapia nem radiação. Foi a melhor das hipóteses mas, na verdade, sentia-me como se estivesse a espreitar pelo cano de uma arma. Durante todo o tempo em que estive à espera dos resultados dos exames não sabia se iria morrer ou não, ou se o cancro já se teria disseminado pelo corpo todo. Por isso, quando tudo chegou ao fim, foi um alívio enorme". E, perante o incauto jornalista da "Uncut" que apenas lhe perguntara qual o significado da metáfora "the demon inside me", que usa em "The Man I'm Supposed To Be", Bill Callahan concluiu a resposta, rematando: "Mas foi um grande estímulo para escrever canções!" (daqui; segue para aqui)
"The Man I'm Supposed To Be" (legendas disponíveis)
29 June 2021
MONSTROS E DEMÓNIOS
Sem se dar muito por isso, ao longo de 30 e tal anos, sob o nome (verdadeiro) de Will Oldham - aliás, Joseph Will Oldham -, mas também enquanto Palace, Palace Brothers, Palace Songs, Palace Music ou Bonnie ‘Prince’ Billy, a solo ou em colaborações com Dawn McCarthy, The Cairo Gang, Bill Callahan, Meg Baird, Jim O’Rourke e inúmeros outros, em álbuns, EP, singles, e compilações, o belo príncipe exibe no CV bem para lá de uma centena de títulos. Entre os quais, desde 25 de Abril do ano passado, também uma versão de "Grândola Vila Morena", de José Afonso, cantada "a capella", em português, na sua conta do Instagram. Pelo meio dessa densa e riquíssima floresta de música feita de folk, country e punk que lhe valeria o cognome de “Appalachian post-punk solipsist”, em Master And Everyone (2003), descobria-se "Wolf Among Wolves", uma dulcíssima e tremenda confissão de alienação e renúncia (“Why can’t I be loved as what I am, a wolf among wolves, and not as a man among men”) que, bastaria, por si só, para justificar o título da sua recolha de textos – Songs Of Love And Horror – de há 3 anos. Em 2005, na companhia de Matt Sweeney (Skunk, Chavez e pistoleiro contratado de estúdio de primeira linha), o lobo ganharia super-poderes e transformar-se-ia em possante Superwolf, criatura mítica que, só 16 anos depois, reemerge das trevas. (daqui; segue para aqui)
21 February 2021
Bill Callahan & Bonnie Prince Billy (feat. Cassie Berman) - "The Wild Kindness" (David Berman)
"Continuing their covers series, Bill Callahan and Bonnie 'Prince' Billy have recruited Cassie Berman (David Berman’s former wife and bandmate) for a rendition of Silver Jews’ 'The Wild Kindness.' As Bonnie 'Prince' Billy notes, there were a ton of guest vocalists, too: Haley Fohr, David Pajo, Meg Baird, Bill MacKay, Cory Hanson, and Matt Sweeney are among the many singers" (sugerido nesta caixa de comentários)
16 December 2020
MÚSICA 2020 - INTERNACIONAL (IV)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 38)
Brigid Mae Power - Head Above The Water
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
08 September 2020
APAGAR O VELHO BILL
Bill Callahan a fazer bolinhas de sabão em ambiente campestre. Bill Callahan, de mangueira na mão, a regar o jardim. Bill Callahan, em pose sobre a bicicleta, à entrada de um bosque frondoso. Bill Callahan em equilíbrio sobre as pedras de um ribeiro. Bill Callahan espreitando, tranquilo, por entre a folhagem. O Bill Callahan actual que, acerca do primeiro album, Sewn To The Sky (1990), dizia à "Record Collector": “A pessoa que gravou esse álbum. hoje, provavelmente não me reconheceria. O tipo de Sewn To The Sky via o mundo de uma forma diferente e não teria grande apreço por mim, agora. Esse disco é como um tag, a assinatura que alguém faz num edifício ou num comboio, para afirmar a sua individualidade. Apenas me preocupava a existência daquele objecto, pouco me importava se alguém o compraria ou não. Era apenas a satisfação, o orgasmo de, fisicamente, o ter criado” (menos amavelmente, já lhe chamou também “a monkey throwing shit on the walls”). Porque o artista anteriormente conhecido como Smog – até A River Ain’t Too Much To Love (2005) –, transformou-se no género de pessoa que, no ano passado, aquando da publicação de Shepherd In A Sheepskin Vest, abdicou de voar dos EUA para a Europa, preferindo conceder entrevistas por telefone ou FaceTime, sob o argumento de que uma viagem de avião de ida e volta Nova Iorque-Londres derrete 3000 metros quadrados de gelo polar. No fundo, tudo aquilo que, em mui económica síntese, anuncia na quase "naïve" "Let’s Move to The Country", do novo Golden Record: “Let's move to the country, just you and me, a goat and a monkey, a mule and a flea, let's move to the country, just you and me, my travels are over, my travels are through, let's move to the country, just me and you, let’s start a family, let’s have a baby or maybe two”. Uma espécie de aurea mediocritas revisitada com programa já em curso, tal como no anterior Shepherd..., seis anos em maturação, se relatava.
Se, nesse álbum, havia uma intenção implícita (“The old Bill was erased, then the new one had to grow”), o nascimento do primeiro filho obrigou a uma reinvenção do método, como contou, na altura, à “GoldFlakePaint”: “Nos primeiros meses, não escrevi nada mas, depois, recomecei a trabalhar todos os dias. Usei algumas dessas músicas mas foi mais como plantar uma semente. Esperamos que ela germine e nada acontece, nada continua a acontecer, até que, um dia, finalmente, cresce e pensamos ‘Não foi má ideia ter plantado aquela semente!’ Já gravei tantos discos que, neste momento, tenho a certeza de que não irei parar até morrer. Por isso, sabia que, em algum ponto, isso iria suceder. Apenas me intrigava o que deveria fazer para que esse processo recomeçasse. 90% emerge do inconsciente. Há coisas que me surgem imediatamente mas preciso de tempo para as digerir e encarar de uma forma que me seja compreensível”. A plantação foi tão fértil que, poucas semanas após Shepherd... ter sido publicado, durante os ensaios para a digressão que viria a seguir, Callahan correu para o estúdio com o guitarrista Matt Kinsey e, de jorro, gravou as 10 canções que viriam a constituir Gold Record.
Convém, entretanto, esclarecer que a frase “tenho a certeza de que não irei parar até morrer” não deve ser tomada à letra: Bill Callahan, não apenas garante “Não hei-de morrer. A vida é demasiado boa. Não pode acabar” como, confirmando-o, revela que uma frase de Lee “Scratch” Perry – “Quero fazer uma música de super-herói. Uma música do Bem que vença o Mal” – lhe conferiu super-poderes. E, logo a abrir o novo álbum, em "Pigeons", como que incorporando o espírito dos mestres, saúda-nos com um “Hello, I’m Johnny Cash” e despede-se assinando “Sincerely, L. Cohen” (mais à frente, dedicará outra canção a Ry Cooder, “So laid back and exact in his attack of the discipline, like a cat I wonder what bag he's next going to get in”). Pelo meio, escutamos uma prédica acerca das virtudes do casamento – “When you are dating you only see each other and the rest of us can go to hell, but when you are married, you are married to the whole wide world, the rich, the poor, the sick and the well, the straights and gays, how my words had gone over, well, I couldn't tell, potent advice or preachy as hell, but when I see people about to marry, I become something of a plenipotentiary, I just think it's good, as you probably can tell” – ministrada por um motorista de limousine a um par de recém-casados. O tom é sarcástico mas sério, em registo de recitação loureediana sobre arpejo de guitarra com pinceladas de trompete jazzy.
Já no ano passado Callahan aceitava de bom grado a ideia de que, aos 50 e picos anos, era altura para a personagem do jovem misantropo azedo ceder o lugar à de alguém que prefere concentrar-se na descoberta e preservação da felicidade em vez de desperdiçar o tempo obcecado pelo lado negro e ameaçador da existência. Mas talvez não se previsse quão fundo tal mudança de pele chegaria. “I can't see myself in the books I read these days, used to be I saw myself on every single page, it was nice to know my life had been lived before, but I can't see myself in the books that I read anymore” diz ele em "35", uma canção que, vá lá saber-se porquê, escreveu a pensar em Bonnie Rait mas nunca lhe enviou. E "The Mackenzies" é uma belíssima ilustração do princípio “You can’t be telling your son that we can’t go outside to the car yet because there’s a neighbour out there” – isto é, o inferno nem sempre são os outros –, numa encenação de clássico recorte-Raymond Carver. Mas, embora, aqui e ali, a ânsia pela interiorização dos estereótipos dos velhos heróis americanos (“Well, I've been living like a cowboy on the late, late movie, all I need is whisky, water, tortillas and beans and buffalo meat one time per week, and give me some loving when I come to town”) se abeire perigosamente da machorrice menos recomendável (“I can hear her out in the kitchen, making breakfast for me, I'm still in bed and I can see it all in my head”), é impossível não nos rendermos aos encantos desta colecção de canções abraçadas pelo contrabaixo caloroso de Jaime Zurverza e entoadas no timbre de velho barítono de Bill Callahan que nos segreda “I travel, I sing, I notice when people notice things”.
24 December 2019
MÚSICA 2019 - INTERNACIONAL (III)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 40)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
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Trupa Trupa,
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15 July 2019
20 June 2019
Bill Callahan é o tipo capaz de escrever “Dress sexy at my funeral, my good wife, for the first time in your life, wear your blouse undone to here and your skirt split up to there, and when it comes your turn to speak before the crowd, tell them about the time we did it on the beach with fireworks above us” e de cantar essas palavras envoltas na adequada gravitas que o tema exige, rematando-as com “Also tell them about how I gave to charity and tried to love my fellow man as best I could, but most of all, don't forget about the time on the beach with fireworks above us”. Estávamos em 2000 e no álbum Dongs of Sevotion, quando, na realidade, não tinha ainda conhecido a “good wife”. Foi só 12 anos mais tarde que encontrou Hanly Banks, documentarista que, sobre ele realizaria Apocalypse e que, em consequência da felicidade familiar que descobririam juntos, forçaria Shepherd In A Sheepskin Vest – o sucessor de Dream River (2013) – a ter de ir lentamente amadurecendo durante 6 anos. Quando, numa entrevista recente a “The Fader”, lhe chamaram a atenção para que, também agora, o há muito desaparecido David Berman (Silver Jews) reaparece, observou: “É como se todos os zombies tivessem acordado”.
Levou 6 anos para concluir este álbum o que é bastante mais que a sua média habitual. Houve algum motivo particular para isso?
Houve mudanças importantes na minha vida: casei-me e tive um filho. Não sou o tipo de pessoa capaz de ignorar tudo isso e continuar a trabalhar. Tive de aprender a ser pai e marido e isso ocupou-me alguns anos. Ao mesmo tempo, procurei não perder de vista o velho eu que faz música e encontrar o espaço no cérebro para cada uma das minhas diferentes responsabilidades. Foi demorado resolver tudo isso. Por outro lado, proporcionou-me tempo para reavaliar e repensaro meu trabalho.
Na propria essência da escrita das canções, na forma como as trabalha e interpreta, houve alguma transformação concreta?
Quis gravar um album cujo tema fosse definitivamente tudo aquilo por que tenho passado. Nunca me apercebi de que existissem muitos discos acerca da felicidade doméstica. Tudo isto me afectou muito profundamente. Se trabalhasse num escritório ou fosse advogado, trabalhava doze horas, voltava para casa, e tudo se passaria sem problemas. Mas, comigo, não é bem assim, preciso de me envolver com as coisas. E este não é, de facto um tópico que costume interessar imenso aos "songwriters". Talvez alguém mais jovem do que eu, que tenho já 53 anos, pudesse ter outra perspectiva sobre isto.
Tratar-se-á daquilo a que, habitualmente, se chama ter atingido a maturidade?
...
... se calhar... muitas vezes, quando saímos de casa dos pais, não estamos ainda realmente preparados para assumir responsabilidades e tomar conta de nós mesmos enquanto jovens adultos. Provavelmente, só atingimos a maturidade quando damos vida a alguém.
Poderá dizer-se que aquilo que constitui o espírito do álbum é uma ideia de que vale mais concentrarmo-nos na descoberta e preservação da felicidade do que desperdiçar o tempo obcecado pelo lado negro e ameaçador da existência?
Ainda não tinha pensado nisso dessa forma mas parece-me um bom ângulo sob o qual encarar o álbum.
Já descobriu a resposta para a interrogação que, em "Ride My Arrow", do último álbum, formulava: “Is life a ride to ride? Or a story to shape and confide? Or chaos neatly denied?”
Hoje, provavelmente, responderia “a ride to ride” mas é importante permanecermos abertos a todas as possibilidades, não devemos agarrar-nos teimosamente apenas a uma.
Nos primórdios dos Smog, a música era agreste, ruidosa, experimental, lo-fi. Uma vez, descreveu-a como “a monkey throwing shit on the walls”. Pretendia puramente experimentar ou tinha alguma intenção definida?
Gostava de explorar todos os tipos de ruído, moldá-los, tirar partido de vias mais abstractas, é um caminho muito aberto. É verdade que, na altura, também não dominava particularmente bem a guitarra... pretendia que fosse tudo imediato o que, numa situação de estúdio, é difícil acontecer. Tive de aprender tudo isso à minha custa.
Quando começou a dedicar-se à música, havia bandas ou músicos individuais que, de algum modo, tivessem funcionado como modelos para si?
John Lee Hooker foi uma grande influência. Aprendi com ele que uma canção pode ser constituída apenas por meia dúzia de palavras, dois ou três acordes... De outra forma, também o Lou Reed: escrevia sobre aquilo que mais ninguém escrevia, coisas que estaríamos à espera de encontrar num livro ou num filme mas não numa canção. Abriu-me os horizontes para assuntos com os quais nem sequer sonhava. Mas também os Minutemen ou os Meat Puppets, os textos eram muito idiossincráticos. Muito no início, interessava-me também pela "musique concrète", pelo "free jazz"... sonoridades "free-form" que nunca podem ser recriadas.
E, hoje, que música ouve que o entusiasme?
Oiço bastante "footwork", um género de hip-hop muito estranho e experimental popularizado pelo RP Boo, um DJ de Chicago. Acho-o muito hipnótico. Ninguém gosta, realmente de ouvir, é só um apoio para dançar, mas eu gosto mesmo. Também oiço muita música electrónica e "house", tudo aquilo que, antes, não conseguia compreender. Estou convencido que acabamos por ser capazes de entender tudo se não desistirmos de o fazer.
Foi a partir de 1997, com Red Apple Falls (produzido por Jim O’Rourke), que tudo começou a ser algo mais estruturado...
Já tinha tocado com um baterista em Wild Love (1995) mas essa foi realmente a primeira vez que, num álbum, do princípio ao fim, usei bateria. Nessa altura, foi como se tivesse acendido um enorme foco de luz, a bateria torna tudo muito mais fácil, podemos apoiar-nos nela.
A partir de 2007 e de Woke on a Whaleheart, deixou de gravar como Smog e passou a fazê-lo sob o seu próprio nome. Houve alguma razão especial para isso?
O nome Smog era como uma tatuagem que eu tivesse feito aos 18 anos. E, à medida que o tempo ia passando, fazia cada vez menos sentido.
Não é fácil livrarmo-nos de uma tatuagem...
É verdade, mesmo agora, em anúncios de concertos, muitas vezes, ainda continua a aparecer “Bill Callahan (Smog)”. Quis distanciar-me em relação a isso. Pelo menos, tentei... Para mim, tinha deixado de ter qualquer significado, estava farto.
Em 2010, publicou Letters to Emma Bowlcut a que chamou uma “epistolary novelette” e, quatro anos depois, I Drive a Valence, uma recolha de textos de canções e desenhos seus. Foram impulsos de ocasião ou gostaria de prosseguir uma carreira literária?
Insistiam muito comigo para escrever um livro e gostava de pensar que serei capaz de voltar a escrever outro. Foi uma experiência de que gostei: escrever, reescrever, corrigir, editar... Mas só sou capaz de fazer uma coisa de cada vez: se estou a pensar num disco, não consigo, ao mesmo tempo, concentrar-me num livro.
Sentava-se disciplinadamente para escrever ou ia produzindo textos dispersos que, depois, reuniu em livro?
Ao longo dos anos, tinha reunido um certo número de textos mais ou menos em formato epistolar e mais uns quantos outros. Uma amiga minha, Connie Lovatt, leu-os e editou-os. A forma de carta é um meio de expressão muito livre: pode ser prosa, poesia, entradas de um diário, crónicas, comentários, apontamentos...
Escrever um livro foi uma experiência radicalmente diferente de escrever canções?
As canções são habitualmente estruturadas em versos e refrão. Os parágrafos não são a mesma coisa. São mais robustos e compactos. Os versos são mais finos e farpados.
19 June 2019
NÃO É COMO SE MENTISSE
Em 2010, por altura da publicação de Letters To Emma Bowlcut – o primeiro e único volume de ficção de Bill Callahan –, em entrevista a “The Quietus”, quando surgiu a proverbial pergunta acerca do carácter autobiográfico (ou não) da obra, Callahan respondeu: “Tudo deve ser autobiográfico ou não autobiográfico, sem nada pelo meio. É a única forma de lidar com esta velha questão na qual, vão desculpar-me, não estou sequer remotamente interessado. Embora haja quem a considere crucial para a apreciação de uma obra. De um modo geral, presume-se que os 'songwriters' escrevem acerca da própria vida porque podemos ver-lhes os olhos e sentir a respiração, através da voz. Mesmo se estamos a ouvir um disco, não a observar alguém a actuar em palco, podemos ver para onde os olhos se dirigem. Escutem James Brown, sabemos perfeitamente para onde está a olhar. As outras artes não são assim. Na pintura, no cinema, quem sabe para onde os olhos do artista apontam?” Acerca de Shepherd In A Sheepskin Vest, não há a menor dúvida – em "Son Of The Sea", do modo mais prosaico, em quatro frases, Bill Callahan esclarece tudo: “I got married to my wife, she’s lovely, and I had a son, giving birth nearly killed me”.
Em Letters To Emma Bowlcut, tinha escrito “You have every right to ask me what I do, but I don’t think there’s a name for it. I study the vortex”. Era ainda o tempo em que partilhava com Springsteen (e um privado clube de danados) uma visão segundo a qual, “se somos artistas, as trevas são sempre mais interessantes do que a luz. É agradável quando, no final de alguma coisa, deixamos a luz entrar. Mas o que verdadeiramente me interessava era descobrir aquilo que tinha corrido mal”. Uma coisa não é incompatível com a outra, explica, agora, em "Call Me Anything": “I never was the things I said I was, but it's not as if I lied, what I was, all I was, was the effort to describe”. Não foi uma mudança de pele fácil (“Some say I died and all that survived was my lullabies”) nem a decisão de aliviar um pouco a obsessão pelos temas crepusculares (“É difícil evitar o tema da morte: é a grande anedota no fim da vida”) foi totalmente conseguida – a imagem da mãe recentemente morta assombra "Circles" (“I made a circle, I guess, when I folded her hands across her chest”), e aqui e ali, o reequilíbrio das coordenadas ainda vacila (“Life is changes, even death is not stable”). Mas, se foi o que era indispensável para gerar uma tão bela colecção de canções, valeu bem a pena. (entrevista aqui)
10 June 2019
20 December 2017
UMA MIGALHA DE VERDADE
“Em A Sort Of Life, a autobiografia de Graham Greene, ele confessava que, escrever era absorver todo o caos à sua volta e destilá-lo sob uma forma em que conseguisse compreendê-lo. Há também outra citação literária muito boa do Raymond Carver acerca de, nos seus contos, existir uma migalha de verdade em torno da qual ele desenhava uma imagem bonita. Como escritor de canções, sinto-me algures, entre esses dois”, diz um tipo de Northampton, de 41 anos, mas que soa como um velho de 80, habituado a beber "bourbon" desde o berço. De acordo com as melhores fontes, anda por aí já há mais de uma década, primeiro com uns ilustremente desconhecidos Absentee (“Lou Reed mas com impressões digitais mais encardidas”, alguém sentenciou acerca deles), depois, numa outra encarnação enquanto Dan Michaelson and The Coastguards, pouco mais do que uma assinatura colectiva para Michaelson-autor individual. Vale a pena dar uma volta pelas esquinas da Internet e procurar travar conhecimento com o que estiver disponível de Saltwater (2009), Shakes (2010), Sudden Fiction (2011), mas, sobretudo, da trilogia Blindspot (2013)/Distance (2014)/Memory (2016).
Nada disso, contudo, será suficiente para nos introduzir à experiência de First Light, “um lugar onde cada momento íntimo se materializa e nos descobrimos cercados pelos escombros das emoções”, segundo Dan Michaelson, a propósito de "Old Kisses" – “The last thing you said as we came to the end, don't dwell on old kisses, you'll only regret" –, o exacto tipo de canção que, só por distracção, não aterrou em Songs Of Love And Hate, de Cohen (os arranjos de Arnulf Lindner, para orquestra de câmara, em todo o álbum, poderiam bem ser de Paul Buckmaster). Mas que também Bill Callahan, Nick Cave ou um Matt Berninger, no ponto exacto de alcoolémia inspiradora, certamente, invejarão. A meio caminho de uns Tindersticks menos sentimentalmente filigranados e de uma versão não tão "cinemascope" dos Anywhen, acerca destas nove peças de elegantissimo desmazelo emocional, bastaria saber que Michaelson imagina ser "Careless" (“Love makes you give more than you think you can, the emptiest well floods 'til it's ready to spill”, sobre um quase requiem orquestral) “a primeira canção com alguma esperança que escrevi e que estabelece a atmosfera de todo o álbum”, para ficarmos preparados para o que nos espera. Nunca ficaremos.
06 June 2013
NULLI PRAEDA SUMUS
No caldo de cultura pop largamente
dominante em que a inspiração tende a funcionar através do método de
aspiração-Hoover do passado, as águas dividem-se entre aqueles que negam
peremptoriamente as provas óbvias da matéria aspirada e os outros que as exibem
triunfantemente como se de troféus de caça se tratasse. Com Laura Marling, as
coisas passam-se de um modo algo diferente: não só é ela a primeira a admitir
que, quando, aos seis anos, começou a aprender a tocar guitarra, a primeira
canção que o pai lhe ensinou foi "The Needle And The Damage Done", de Neil
Young, e que, praticamente, bebeu do biberão Joni Mitchell, Bert Jansch e James
Taylor, como, hoje, é, justamente, gente como Young, Graham Nash ou Joan Baez
que se confessa fã da filha do quinto baronete de Marling, cujo lema de
família, Nulli Praeda Sumus (“Não somos presa de ninguém”), Laura tatuou no
pulso direito.
Once I Was An Eagle poderá, facilmente, deixar-se inscrever no
género dos álbuns “confessionais” – de que Mitchell et alia foram os praticantes máximos, entre uma multidão de
discípulos menores que chegaram a transformar "singer-songwriter" num insulto bem pior do que “palhaço” – mas,
note-se, num subcapítulo das refregas sentimentais em que Laura Marling não
abdica do estatuto de predadora. Experimentem este percurso: “When we were in love, I was an eagle and
you were a dove”, “I’m a master hunter, I cured my skin, now nothing gets in”, “I
will not be a victim of romance, I will not be a victim of circumstance”, “Once
is enough to make you think twice”, “You weren’t a curse, thank you naïveté for
failing me again, he was my next verse” e “Give me something, let me go, tell
me something I don’t know”.
Mas, se lhe acrescentarem “You want a woman
who’ll call your name, it ain’t me babe, no, no, no, it ain't me babe”, isso,
por interposto Dylan, ajudará a compreender como Marling, ainda só no quarto álbum
(após Alas,
I Cannot Swim, 2008, I Speak Because I Can, 2010, e A Creature I Don't
Know, 2011, todos, como este, com títulos de seis sílabas) se mostra
suficientemente confiante para citar os clássicos e – escutando os seus 63
minutos –, ao mesmo tempo, reclamar para si uma genealogia musical não menos
aristocrática do que a da sua família de sangue: a de Roy Harper, John Martyn,
Nick Drake, Van Morrison ou dos Byrds (se quisermos aproximar mais
conspirativamente a cronologia, pense-se, igualmente, em Sometimes I Wish We
Were An Eagle, de Bill Callahan, 2009). Quase conceptual na estrutura (suite
inicial de uma única peça desdobrada em cinco títulos, coda, interlúdio e
desfecho final em oito andamentos), austero na utilização praticamente
exclusiva de guitarras,
violoncelo e percussão – mas o Hammond, oh quão dylaniano!... de ‘Where Can I Go?’ –, é o perfeito lugar geométrico onde todos os elementos
se combinam, expandem e transfiguram, a evocação das 12 cordas de Roger McGuinn
convive com modalismos tão orientais como ibéricos e, à discretíssima boleia de "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)", em "When We Were Happy", Laura Marling, por um segundo, nos
obriga a pensar com ela: “I look at people in the city and wonder if they’re
lonely or like me they’re not content to live as things are meant to be”.
04 May 2009
PSEUDÓNIMOS, HETERÓNIMOS,
NOMS DE PLUME & ALTER EGOS
NOMS DE PLUME & ALTER EGOS
The Weatherman - Jamboree Park at the Milky Way
Old Jerusalem - Two Birds Blessing
Impossível. Completamente improvável. Absolutamente fora de qualquer cálculo de probabilidades credível. Após um tão prolongado plano inclinado criativo e meia dúzia de pastelões de cimento armado “neo-clássico”, ninguém apostaria um cêntimo em como, ainda um dia, Paul McCartney seria capaz de voltar a gravar um álbum de pop decente e enxuta, que não o fizesse corar de vergonha perante o que de melhor criou com os Beatles. Inesperadamente, no entanto, ei-lo! E, tal como fizera já com Electric Argument, assinado (a meias com Martin Glover/Youth) sob o pseudónimo The Fireman, desta vez, optou por inventar a personagem de um “youth” do Porto, baptizou-o “Alexandre Monteiro”, bordou-lhe também o alter ego não excessivamente distante, The Weatherman, e, como quem não quer a coisa, lançou ao mundo Jamboree Park at the Milky Way. Não incorpora nada de realmente novo que não conhecêssemos já em Sir Paul – à parte uma ou outra inalação da atmosfera Arcade Fire – mas, vindo do supostamente exausto sexagenário de Liverpool, não deixa de ser uma boa surpresa.
Aliás, alguma coisa isso terá, certamente, a ver com a histórica anglofilia portuense. Porque, agora, em declinação norte-americana, também Will “Bonnie Prince Billy” Oldham, Devendra Banhart, Bill Callahan, Damien Jurado e Bon Iver congeminaram uma compilação de inéditos de todos eles e – aparentemente, o método está a conquistar adeptos – decidiram atribuí-la ao "nom de plume" colectivo Old Jerusalem, para o qual urdiram a biografia de um imaginário “Francisco Silva”, economista portuense, quem sabe se a pensar colarem-se inviamente ao mito do pluralíssimo Fernando Pessoa lisboeta de quem Patti Smith tem sido tão devotada prosélita na cena indie dos EUA. As marcas da origem, porém, não enganam: estão lá os grandes espaços das paisagens do sul, as assombrações bíblicas e, curiosamente, algo a que ainda não se havia prestado a devida atenção – o confessionalismo pré-islâmico de Cat Stevens, inesperado "maître-à-penser" da maçonaria "alt.country/psych/freak/folk".
(2009)
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