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01 March 2023

 
(sequência daqui) A saber, Dorothy Day (activista e anarquista do início do século passado), Ada Limón (actual Poeta Laureada dos EUA), Dorianne Laux (poeta), Wendell Berry (poeta, ensaísta, activista ambiental e agricultor) e Sharon Olds (poeta pagã e panteísta). É na intersecção entre as duas listas que se pode melhor entender a música de Heather Cecelia McEntire, filha das Blue Ridge Mountains da Carolina do Norte numa família de cristãos evangélicos. De uma dieta inicial de country, gospel e bluegrass, na universidade deixar-se-ia infectar pelo punk, desocultaria a sua orientação lésbica e, após a passagem pelos Mount Moriah, e a publicação de um livro de poesia e outro de prosa, espicaçada pela ex-Bikini Kill, Kathleen Hanna, aventurar-se-ia a solo. Em Every Acre, por entre folk eléctrica, country desmembrada, "drones" de sitar e coros de grilos e sapos, costura um belíssimo "quilt" de psicogeografia rural.

09 May 2014

(sequência daqui

Bikini Kill - "I Like Fucking"

Just cause my world sweet sister
Is so fucking goddamn full of rape
Does that mean my body must always be a source of pain?
No. No. No.

29 April 2014

HEREGES & SANTOS

  
“Somos todas Pussy Riot!”, foi o grito de guerra de Kathleen Hanna, em Agosto de 2012, na véspera da decisão final do julgamento que condenaria Nadia Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Katia Samutsevich a 2 anos de prisão por terem desafiado publicamente Vladimir Putin com a "Punk Prayer" urrada na catedral de Cristo Redentor, de Moscovo. Mas seria igualmente verdade se Nadia, Maria e Katia tivessem declarado “Somos todas Bikini Kill!”. Fizeram-no, aliás, pouco antes da performance que lhes traria notoriedade mundial: “O que temos em comum é a insolência, as letras politicamente carregadas, a importância do discurso feminista e uma imagem feminina não convencional. A diferença é que as Bikini Kill actuavam em salas de concerto e nós em lugares proibidos. O movimento riot grrrl estava intimamente associado à cultura ocidental cujo equivalente não existe na Rússia”.  



The Punk Singer, de Sini Anderson, um dos mais vibrantes documentários que serão exibidos no IndieLisboa 2014, conta a história de Kathleen Hanna (e, por arrasto, das Bikini e demais riot grrrls, jovens feministas punk radicais norte-americanas, da década de 90), ex-stripper que, tendo-se dedicado, inicialmente, ao "spoken word", optou pela modalidade “feminism and punk rock in the same sentence” após uma conversa com Kathy Acker. A atitude era violentamente confrontacional (“I have a fucking right to be hostile and I’m not gonna sit around and be peace and love with somebody’s fucking boot on my neck”), os fanzines e manifestos encarregavam-se da agit-prop (“I believe with my wholeheartmindbody that girls constitute a revolutionary soul force that can, and will change the world for real”) e, em conjunto com as Huggy Bear, Sleater-Kinney ou Bratmobile, sob a aprovação de figuras tutelares como Kim Gordon, dos Sonic Youth, e Joan Jett – todas depondo para o doc –, das Bikini para The Julie Ruin e Le Tigre (“a feminist party band”), aprofundaram aquela via que as Slits, Au Pairs, Patti Smith, Raincoats, Lydia Lunch e outras pioneiras haviam desbravado.


Outro padroeiro da história punk, Alan Vega (Suicide), surge também numa espécie de "extended videoclip" – Just a Million Dreams, de Marie Losier –, num registo doméstico algo deprimente, no qual o quase octogenário Vega, acompanhado do filho pré-adolescente e da esposa formato-MILF, faz esgares para a câmara, posa lendo uma biografia dos Suicide por entre maquinas de lavar roupa, vagamente ensaia na sala para um concerto (?) de que apenas enxergamos os segundos finais, debita frases do estilo “It’s so hard to be an artist, very hard to be revolutionary” e dependura um boneco de Elvis na árvore de Natal.



Já claramente no domínio da hagiografia, Springsteen & I, de Baillie Walsh, é uma colagem de testemunhos e confissões "homemade" de fãs de Bruce que abre com o próprio, em palco, em jeito de "preacher man", interrogando as massas “Can you feel the spirit?” e prossegue, em regime de acumulação: “Quando ele canta, percebe-se o esforço pelas veias inchadas do pescoço” diz uma miúda de 10 anos, recitando os santos valores da ética do trabalho; uma mãe confessa que mostrava ao filho as imagens sagradas de Bruce e lhe dizia que eram fotos do pai; outros exibem relíquias e memorabilia e aqueles que lhe viram o branco dos olhos ou, suprema beatitude!..., chegaram a tocá-lo, contam as suas histórias coroadas por acessos de pranto convulsivo; há quem revele que perdeu a virgindade ao som da Sua música, e tudo se resume – matéria de fé – em “You believe in Bruce, Bruce believes in you”. Springsteen é demasiado grande para precisar disto.

(Programação IndieMusic do IndieLisboa 2014)

20 April 2014

VINTAGE (CCIV)

Sonic Youth (c/ Kathleen Hanna/Bikini Kill) - "Bull In The Heather"

19 March 2012

O MUNDO DO AVESSO


















Alex Winston - King Con


















Birdy - Birdy


















Sharon Van Etten - Tramp

Na edição do “Guardian” de domingo passado, Alexis Petridis, genuinamente admirado por ainda existirem nacos da história pop por desenterrar, dava notícia da sua descoberta do blog online, Women's Liberation Music Archive, baú de tesouros ignorados esclarecedoramente subintitulado “Feminist Music-Making in the UK and Ireland, 1970-1990”. E o que aí se encontra são (inúmeros) documentos escritos e audiovisuais de duas décadas que parecem, agora, incrivelmente longínquas, bem exemplificados pelo manifesto da Northern Women’s Liberation Rock Band“uma coligação de feministas de diferentes classes, origens étnicas e pontos de vista políticos – maoístas, libertárias, lésbicas, heterossexuais e uma transsexual” – que, ao dar-se conta de que, embora se empenhassem em múltiplas áreas de actividade, “continuavam a dançar ao som dos Stones”, decidiram organizar-se contra “o gang de parasitas masculinos ávidos de lucros que controla a música” e “transformá-la numa força dirigida contra eles”. A coisa respirará muito o espírito da época mas convirá recordar que, na altura, a presença das mulheres no cenário pop/rock – à excepção dos "girl-groups" da Motown, de algumas heroínas soul, de uma ou outra flor na lapela de bandas masculinas e de meia dúzia de "singer-sonwriters" – estava bastante longe de poder proporcionar a oportunidade de – como aconteceu na minha selecção dos melhores de 2011 – surgir um top-10 onde apenas um álbum tinha assinatura masculina.


Bush Tetras - "Cold Turkey"

Não foi necessária a introdução de quotas para modificar a situação mas bandas e personagens do punk, pós-punk e áreas adjacentes, como Lydia Lunch, The Slits, Patti Smith, The Raincoats, Bush Tetras e Laurie Anderson ou activistas militantes “com uma causa” do género das Bikini Kill – Kathleen Hanna publicaria, em 1991, o “Riot Grrrl Manifesto” – não só virariam o mundo pop do avesso como também permitiriam que três inevitáveis consequências daí decorressem: o conceito “girl power”, recuperado e convertido em marca comercial, passou a significar investimento com retorno garantido (Spice Girls, lembram-se delas?); o crescente número de mulheres na pop tornou-se um dado adquirido; descendências particularmente radicais (como as russas, Pussy Riot, actualmente ameaçadas com uma pena de sete anos de cadeia por terem ousado uma performance-relâmpago anti-Putin na Catedral do Cristo Salvador, em Moscovo) são encaradas enquanto radicais e não especialmente pelo facto de se tratar de mulheres. Mas também, naturalmente, ao abandonar o estatuto de espécie “protegida” em região demarcada, a fêmea pop (em particular, na subespécie indie) ficou vulnerável aos males que afectam a restante fauna.



Alex Winston é um óptimo exemplo disto: movendo-se num terreno que não se entende bem se é "mainstream" ansiando desesperadamente por ser visto como “alternativo” ou o seu inverso, na estreia, King Con, aplica-se na normalização daquela (suposta) excentricidade de que Kate Bush e a sua apóstola, Joanna Newsom, registaram a patente – e cujos timbre e maneirismos vocais Winston, diligentemente, mimetiza. Não se enganou quem já a classificou como “the sugary sound of weirdness”: o produto contém ingredientes tão peculiares como a poligamia, a observação entomológica dos traumas provocados por uma adolescência vivida em habitat Amish ou o desenvolvimento de relações românticas com objectos inanimados, mas todos incluídos numa sorridente ementa "à la carte" em que é possível optar por tempero folk, synth-pop ou exótico ainda que o foguetório eufórico dos refrães seja inegociável.



Birdy, entretanto, é o que só se pode designar por "case study" a manter sob rigorosa vigilância: revelada num concurso de talentos – o Open Mic UK, de 2008 – quando tinha doze anos, miraculosamente, Jasmine van den Bogaerde, de seu verdadeiro nome (e sobrinha-neta do actor Dirk Bogard), teve a sorte de, com sábio aconselhamento ou por iniciativa própria, optar por um reportório que autoriza a esperança de que, deste casulo, não sairá uma Joss Stone: canções dos National, Fleet Foxes, Phoenix, Bon Iver, The Postal Service, The xx ou (pronto, ninguém, muito menos aos quinze anos, é perfeito) James Taylor não são nenhuma nódoa em início de currículo embora a fórmula, quase única, de piano e voz (virtuosamente poderosa, logo, indesejável factor de risco futuro) tenda a esgotar-se rapidamente e a única peça da autoria de Birdy, "Without A Word", não seja exactamente transcendente.



Sharon Van Etten, finalmente, é outra demonstração dos imensos benefícios a colher quando se frequenta gente de confiança: "singer-songwriter", algures entre os abalos emocionais de Kristin Hersh e Nina Nastasia, mas que faz questão de manter Patti Smith e John Cale no radar, nos álbuns anteriores (“Because I Was In Love”, 2009, e “Epic”, 2010), mesmo recebendo os louvores de alegados pares do reino (Justin Vernon, Dave Alvin e os National fizeram releituras da sua "Love More"), deixara sinais de poder escorregar com alguma facilidade para os terrenos alagados do confessionalismo embaraçosamente autobiográfico. Agora, em Tramp, se não se afasta drasticamente daí, fá-lo, porém, com uma espinha vertebral sonora assaz mais consistente. Aaron Dessner (National) tomou conta da produção e, acompanhada pelo mano Bryce Dessner, Zach Condon (Beirut), Matt Barrick (Walkmen) e outras notabilidades, a música não se limita ao papel de afago dos textos mas, algo cinematicamente, intervém sobre eles, comenta-os e transforma-os em combustível para canções tensas e inteiras.

(2012)