Showing posts with label Big Mama Thornton. Show all posts
Showing posts with label Big Mama Thornton. Show all posts

05 February 2019

ABRIR PORTAS E JANELAS 


“The New Europeran” é um semanário britânico lançado a 8 de Julho de 2016 em reacção ao referendo do Brexit. Dirigido aos “remainers” – os cidadãos do Reino Unido que votaram contra a saída da UE –, intitula-se, por esse motivo, "The New Pop-up Paper For The 48%". Fazendo figas para que essa percentagem possa crescer, aplica-se a divulgar traços da História e da identidade britânicas numa perspectiva de relação aberta com o exterior político e cultural. No número de 15 de Janeiro, trazia um texto de Sophia Deboick (I) sobre “1951: a year in music and the first rock‘n’roll single”. O pano de fundo é a Britânia do imediato pós-guerra, quando se celebrava o futuro – afinal, acabavam de abrir os primeiros supermercados e surgiam as "zebra crossings" (passagens de peões)!... – mas o passado estava ainda demasiado presente: o Festival of Britain, centrado na zona de Waterloo, em Londres (década e meia depois, Ray Davies recorreria à memória da visita que lá fizera com os pais para o cenário de "Waterloo Sunset"), imaginava-se moderno com um programa de Elgar, Vaughan Williams e Haendel e as tabelas de vendas eram dominadas por Frankie Laine, Nat King Cole, Tony Bennett e "crooners" afins. 



O mundo novo, porém, estava a bater à porta: em Abril, seria publicado "Rocket 88", de Jackie Brenston & His Delta Cats (na verdade, os Kings of Rhythm, de Ike Turner), gravado no Memphis Recording Service de Sam Phillips, que, no ano seguinte, se transformaria no quartel general da Sun Records. Uma coluna do amplificador da guitarra rasgada e atamancada com papel de embrulho numa canção que glorificava o Oldsmobile 88 enquanto infalível arma de engate (“V-8 motor and this modern design, my convertible top and the gals don't mind”) fariam de "Rocket 88" a canção mais frequentemente citada como protótipo do rock’n’roll e trampolim para a etapa seguinte que, via Beatles, Stones et alia, se desenrolaria em Inglaterra. No entanto, o título de “first rock‘n’roll single” que Deboick também lhe atribui está longe de ser unânime. A lista de candidatos – de "That’s All Right" (Arthur “Big Boy” Crudup, 1946) a "Good Rockin' Tonight" (Wynonie Harris, 1948), "Guitar Boogie" (Arthur Smith, 1948), "Saturday Night Fish Fry" (Louis Jordan & The Tympany Five, 1949), "Rock Awhile" (Goree Carter, 1949), "Rock This Joint" (Jimmy Preston & His Prestonians, 1949), "The Fat Man" (Fats Domino, 1950), ou "Hound Dog" (Big Mama Thorton, 1953) – é rica e extensa. Mas, seja qual for, uma coisa é certa: abrir portas e janelas refresca sempre o ar.

07 September 2011

UM DYLAN DE BOLSO


The Wave Pictures - Beer In The Breakers

“Termos um óptimo estúdio onde pudéssemos gravar ao vivo” era a ambição que, no ano passado, quando vieram actuar ao Santiago Alquimista, os Wave Pictures confessavam. Mas, já na altura, erguiam alguns diques à enxurrada de “valores de produção” e afins que esses sonhos podem arrastar: “Não temos nada contra aquelas bandas que gostam de tirar partido de todas as possibilidades que um estúdio oferece mas é preciso estar alerta em relação à hipótese de nos deixarmos ir atrás de demasiadas facilidades. Gostamos de gravar em estúdio mas não nos agrada muito o caminho por que optam muitas bandas que, primeiro, gravam um álbum e, depois, procuram reproduzir exactamente essa gravação ao vivo. Para dizer a verdade, não estamos nada convencidos que o som que sai dos estúdios tenha melhorado muito desde discos como ‘Hound Dog’, do Elvis Presley, ou os da Big Mama Thornton”. As reticências foram mais fortes: Beer In The Breakers acabou por ser gravado num espaço “não muito maior do que uma mesa de sala de jantar”, com equipamento emprestado pelo amigo e cúmplice Darren Hayman (dos falecidos Hefner), sem cheiro de "multitracking" e "overdubs", tudo em uma ou duas takes, “só nós três a tocar e a cantar”.



Convém, aqui, esclarecer que – embora não seja imediatamente evidente – nos encontramos perante uma das mais ilustremente desconhecidas bandas britânicas de já longo curso: David Tattersall (alma criativa, guitarra e voz), Franic Rozycki (baixo) e Jonny Helm (bateria), existem como Wave Pictures há cerca de treze anos e, entre edições de autor, singles, EP, álbuns distribuídos por independentes e colaborações avulsas, podem inscrever no CV umas respeitáveis quarenta entradas. Mas é preciso compreender que o clube de "songwriters" a que Tattersall pertence (conhecem muitos capazes de abrir uma canção com um cenário como “We ate toast cut roughly into halves with sour jam in an empty bar, large vases filled with dead flowers and carved wood mirrors to show us our faces”?) não está destinado a ser levado em ombros por hordas de fãs ululantes.



E muito menos ainda quando se trata de uma banda que, em concerto, ignora o conceito de "set-list", cujo compositor-em-chefe não tem problemas em admitir que, tal como os de vários dos seus heróis (Pavement, Dylan, Tom Verlaine), os textos de muitas das suas canções são puro "nonsense", e que, falando de matéria inspiradora (Steinbeck, D. H. Lawrence, Carver), nem pestaneja quando declara que uma ou outra foram montadas sobre colagens de frases de Bukowski escolhidas ao acaso. "Indie" é "indie" mas, longe de cenas "trendy" e com nenhuma vontade de as procurar, Tattersall e cúmplices são espécimes demasiado bizarros para até aí se acolherem.



Façam, então, o favor – com mais umas poucas centenas de outros – de conhecer o décimo primeiro álbum dos Wave Pictures, obra de uma espécie de Morrissey desleixado por demasiado convívio com Jonathan Richman (“You so ugly, you so cold, you so stupid, singing ‘I caught my baby kissing Cupid’”), recolector dos instantes esquecidos por Lou Reed tal como os Orange Juice os recuperaram ("Pale Thin Lips" é um "Pale Blue Eyes" com “purple velvet under soft orange lights”), uns descendentes britânicos dos Violent Femmes apaixonados por "high life" africano travestido de blues, um pequeno Dylan de bolso (Tattersall não faz segredo disso: “Como qualquer outro singer/songwriter, daria tudo para ser o Bob Dylan. Não ele próprio, claro, que já não lhe falta muito para morrer. Mas só para ter um bocadinho do talento dele”), perdido pelo gemido das harmónicas. E que – milagre – torna tudo isso seu.

(2011)

21 September 2010

EQUILÍBRIOS CÓSMICOS



Haverá sempre mais uma vaga disponível para um songwriter capaz de nos oferecer nacos de insubstituível sabedoria como “I wrote my name on a banana peel, there should always be a meal with my name on it”, pronto a reflectir sobre os equilíbrios cósmicos em “I cut my hair and you grew yours, there always has to be the same amount of hair in the world” e, de um modo geral, a transformar a canção pop numa pequena jóia rústica de palavras inteligentes e melodias intuitivas. Ele chama-se David Tattersall e é um terço dos Wave Pictures que actuarão em Lisboa, no Santiago Alquimista, no próximo dia 23, e, no Porto, na Casa da Música, a 24. Franic Rozycki, o baixista, encarregou-se de explicar a já não pequena história de uma banda que, se tivermos juízo, deveremos conhecer melhor.

Tenho de confessar que só descobri os Wave Pictures através do último álbum, If You Leave It Alone e não me parece que seja um problema exclusivamente meu...
É verdade, há muita gente que não se apercebe de que já andamos por cá há quase dez anos e que já publicámos sete ou oito discos. Provavelmente, por a maioria terem sido gravações domésticas e em edições de autor.

Isto é, certamente, bastante idiota. Mas, porque não estava particularmente atento ao sotaque, só a meio do disco me apercebi que vocês eram ingleses e não americanos...
(risos) De facto, a maioria das bandas e músicos que nos influenciaram são americanos dos anos 60 como os Creedence Clearwater Revival ou o Dylan. E as bandas inglesas de que gostamos – como os Rolling Stones ou os Kinks – também tinham fortíssimas referências americanas. Mas, neles como connosco, isso não os fez deixar de ser genuinamente britânicos nem implicou necessariamente algo de autobiográfico.



Por acaso, quando me passaram o vosso álbum, disseram-me qualquer coisa como “uma banda parecida com os Violent Femmes”...
Também gostamos muito deles, sem dúvida. Quando os ouvi pela primeira vez, pareceram-me verdadeiramente extraordinários. Eram um trio como nós somos e, de certo modo, tornaram-se uma espécie de modelo para nós.

É verdade que nunca têm um alinhamento pré-definido para os concertos?
É. Nunca fez muito sentido connosco. Poderia, facilmente, acontecer que, se o tivéssemos, em determinada altura, a canção que vem a seguir não ser a canção certa para aquele instante. É uma coisa realmente desnecessária. Temos uma ideia geral do que iremos tocar mas, como o nosso reportório até é extenso, é muito mais divertido poder escolher momento a momento, de acordo com as várias circunstâncias de cada concerto e com as reacções do público. Todos os concertos se transformam assim numa experiência singular. Detesto bandas cujos concertos são sempre iguais, em que nunca há surpresas.



“A new tune gets sweeter and simpler with age if you leave it alone” (de If You Leave It Alone) pode ser interpretado como o vosso método particular para o amadurecimento de uma canção?
Acaba por ser bastante fácil descobrirmos quando uma canção está suficientemente amadurecida. Tocamo-las ao vivo, umas precisam de mais tempo até estarem no ponto, outras resultam logo bem, sem grande esforço. Não temos uma forma estabelecida de fazer as coisas. Se existe uma receita, é a de trabalhar bastante porque, daí, alguma coisa que valha a pena acabará necessariamente por sair.

Vocês aparentam ser o tipo de banda que apenas grava discos enquanto pretexto para tocar ao vivo e não aprecia muito o confinamento dos estúdios. Tenho razão?
Os nossos discos podem ter uma aparência muito espontânea mas são muito trabalhados. Tanto nos dá prazer uma coisa como a outra e também aqueles momentos mais informais em que ensaiamos juntos em casa. A nossa ambição, em boa verdade, seria termos um óptimo estúdio onde pudéssemos gravar ao vivo. O que, até agora, ainda não aconteceu. Não temos nada contra aquelas bandas que gostam de tirar partido de todas as possibilidades que um estúdio oferece mas é preciso estar alerta em relação à possibilidade de nos deixarmos ir atrás de demasiadas facilidades. Gosto de gravar em estúdio mas não me agrada muito o caminho por que optam muitas bandas que, primeiro, gravam um álbum e, depois, procuram reproduzir exactamente essa gravação ao vivo. Para lhe dizer a verdade, não estou nada convencido que o som que sai dos estúdios tenha melhorado muito desde discos como “Hound Dog”, do Elvis Presley, ou os da Big Mama Thornton...

(2010)