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13 December 2014

15 October 2014

OUTRA HISTÓRIA SECRETA

  
“Não tenho a capacidade, nem sequer o desejo, de escrever uma argumentação desenvolvida, coerente, passo a passo, sobre o que quer que seja. Gosto de escrever sem obedecer a uma direcção. Gosto de bater à porta da frente e, enquanto esta se abre, aparecer também pela das traseiras” dizia Greil Marcus, em 2012, numa conversa com Simon Reynolds para a “Los Angeles Review Of Books”. Na última frase do recém-publicado The History Of Rock’n’Roll In Ten Songs lê-se “Esta foi apenas uma versão da história, mas há uma infinidade de outras que igualmente a contam”. Logo na primeira página (e nas quatro e meia que se seguem), Marcus inventaria uma vasta lista dos nomes que todas as enciclopédias invariavelmente acolhem (esses mesmos em que estão a pensar) quando se trata de alinhar, das origens à actualidade, a cronologia do rock’n’roll. E, daí em diante, tal como em Lipstick Traces (1989), a propósito do punk, se dedicara a investigar a “história secreta do século XX” (da Irmandade do Livre Espírito medieval à Internacional Situacionista), ocupa-se daquilo que só pode ser designado como a história secreta do rock’n’roll. Corrijo: a sua história secreta do rock’n’roll. 

"Transmission" em Control - real. Anton Corbijn (2007)

Daí que não possa constituir motivo de escândalo o facto de, das dez canções, seis se situarem entre o final dos anos 50 e o início de 60, que uma das outras quatro – "Transmission", dos Joy Division – seja encarada sob a perspectiva da interpretação dos actores que, em Control, de Anton Corbijn, encarnam a banda de Ian Curtis, ou que, muito rapidamente, tenhamos de nos habituar à ideia de estar perante uma tapeçaria de Bayeux contemporânea enrolada em forma de fita de Möbius. Afinal, nada de novo: desde o inicial Mystery Train, de 1975 (subintitulado, não esquecer, “Images of America in Rock 'n' Roll Music”), que aprendemos a não estranhar quando, como agora acontece, no “Instrumental Break” dedicado a Robert Johnson, este acabe literalmente contracenando com Louis Armstrong, Bing Crosby, os NWA e Barack Obama. Recordando a justificação que dava aos amigos para a sua obsessão por "Money", na versão dos Beatles (“é a representação metafórica das forças tecnológicas descontroladas da sociedade moderna”), Marcus conta como, ao mesmo tempo, se ria desse pretensiosismo mas acrescenta “E, contudo, porque não? Fazia todo o sentido”.

12 June 2014

SUJO OU LIMPO?



O Voice-O-Graph assemelhava-se bastante a uma cabine telefónica das antigas. Como anunciava a International Mutoscope Reel Co., de Long Island, Nova Iorque, em 1957, “basta entrar, pegar no microfone, inserir 25 cêntimos, esperar pelo sinal luminoso e ditar uma carta, cantar uma canção ou gravar os parabéns pelo aniversário”. Concluído este processo, a máquina, qual Photomaton, cuspia um vinil de 45 ou 78 rotações o qual, entre outras utilidades, permitiria confirmar que “Há um pequeno Bing Crosby ou John Barrymore dentro de todos nós!” Popularizado dos anos 40 até ao final dos 60 do século passado quando o surgimento das cassetes de fita magnética lhe ditou o final do prazo de validade, o único Voice-O-Graph actualmente em funcionamento encontra-se nas instalações da Third Man Records, de Jack White, em Nashville, Tennessee. Foi, precisamente, nesse exemplar da arqueologia fonográfica que Neil Young optou por registar o seu último álbum, A Letter Home, uma colecção de versões acústicas para temas de Phil Ochs, Dylan, Tim Hardin, Everly Brothers e diversos outros, obviamente, em mono, e fazendo gala do primitivismo tecnológico assim recuperado.


A singularidade do objecto será ainda mais acentuada se nos recordarmos como, uma das últimas tábuas de salvação de que, no naufrágio destes anos, a indústria discográfica se tem socorrido é a múltipla reedição de obras sucessivamente remasterizadas e higienicamente expurgadas de todas as impurezas e imperfeições sonoras de origem. Caso mais recente: Skylarking, álbum de 1986, dos XTC. Já por diversas vezes submetido a operações de limpeza, foi apenas em 2010, por ocasião da sua (re)conversão para vinil, que, numa das obras maiores da banda de Andy Partridge – fruto improvavelmente milagroso do épico confronto entre este o produtor Todd Rundgren –, se diagnosticou uma falha imperdoável: o disco padecia de “polaridade invertida” (não façam perguntas, por favor). Entregue aos bons cuidados do mago John Dent que tratou de reparar tão indesculpável mácula, ei-lo, agora, por fim, em formato CD, com a censurada capa original das pudendas salpicadas de malmequeres e a portentosa invectiva ateia, "Dear God", que a edição americana excluíra. É provável que só os fãs com ouvidos de mocho se apercebam da diferença. Mas todos os pretextos são bons para voltar a escutar esta extraordinária "life in a day" da melhor colheita pop de 80.

07 June 2014

30 December 2011

ACHO MUITÍSSIMO BEM. DIREITO AO DOLCE FARE NIENTE, À IMPRODUTIVIDADE E AO MEDITERRÂNICO DESCANSO. VAMOS INSCREVER NA CONSTITUIÇÃO?

Deputados estão de férias "para compensar" o que trabalharam no Verão


Bing Crosby - "Busy Doin' Nothing" (A Connecticut Yankee in King Arthur's Court - real. Tay Garnett, 1949)

We're busy doin' nothin'
Workin' the whole day through
Tryin' to find lots of things not to do
We're busy goin' nowhere
Isn't it just a crime
We'd like to be unhappy, but
We never do have the time

I have to watch the river
To see that it doesn't stop
And stick around the rosebuds
So they'll know when to pop
And keep the crickets cheerful
They're really a solemn bunch
Hustle, bustle
And only an hour for lunch

We're busy doin' nothin'
Workin' the whole day through
Tryin' to find lots of things not to do
We're busy goin' nowhere
Isn't it just a crime
We'd like to be unhappy, but
We never do have the time

I have to wake the Sun up
He's liable to sleep all day
And then inspect the rainbows
So they'll be bright and gay
I must rehearse the songbirds
To see that they sing in key
Hustle, bustle
And never a moment free

We're busy doin' nothin'
Workin' the whole day through
Tryin' to find lots of things not to do
We're busy going nowhere
Isn't it just a crime
We'd like to be unhappy, but
We never do have the time

I have to meet a turtle
I'm teachin' him how to swim
Then I have to shine the dewdrops
You know they're looking rather dim
I told my friend, the robin
I'd buy him a brand new vest
Hustle, bustle
We never do have
We never do have
We never do, never do
Never do, never do, never do have the time
Never do have the time


(2011)

27 October 2009

O ESPÍRITO DE BING CROSBY


Bob Dylan - Christmas In The Heart

A cinco dias do Natal de 2006, a edição número 34 da Theme Time Radio Hour, de Bob Dylan, abria com Ellen Barkin – a voz "oficial" do genérico inicial - anunciando: “It's nighttime in the Big City, a department store Santa sneaks a sip of gin, mistletoe makes an old man sad, eight reindeer land on the roof of the Abernathy Building”. A grande noite urbana, espaços comerciais, um assalariado mascarado e bêbedo, melancolia, solidão e criaturas da mitologia popular num cenário de ficção cinematográfica. É o que a maioria das festas do calendário religioso tem de melhor: porque primordialmente pagãs, o finíssimo (e, afinal, tão recente) revestimento cristão, resiste mal à erosão do tempo e circunstâncias bem mais materiais e terrenas tendem a ressurgir e ocupar o primeiro plano. Durante uma década (a de 80), Dylan poderá ter-se imaginado "born again", mas americano, contemporâneo e atento à História nunca deixou de ser.


Até no persistente prazer da efabulação que o conduziu a situar a realíssima Sirius XM Radio num inexistente Abernathy Building (dotado de pista de aterragem para renas) rodeado dos igualmente imaginários Studio B, Samson's Diner, Elmo's e Carl's Barber Shop, recorrentes no universo do DJ Bob Dylan. E poderá não ser ainda saber adquirido mas é importante que se vá dizendo como os 103 episódios das três temporadas da TTRH são já parte fundamental da sua obra. Não tanto pela (obviamente importante) missão divulgadora da mais ou menos obscura memória musical americana, mas, principalmente, pelo modo como, entre canções, intervenções de convidados, farrapos de poesia, comentários irónicos, seriíssimos ou meramente informativos, alusões históricas, conversas com ouvintes e outros tantos “themes, dreams, schemes and things of that nature”, o puzzle cultural, mental, social e mítico da nação americana vai emergindo. A dedicatória final do Natal de há três anos era “We wish you a Merry Christmas and a Happy New Year, a pocket full of money and a cellar full of beer”.

















Para o Natal deste ano – e enquanto a possibilidade de uma quarta temporada permanece em suspenso –, Dylan optou, até certo ponto, por repetir a mesma estratégia que deu origem ao último álbum, Together Through Life: se esse era uma potencial emissão da TTRH constituída apenas por criações originais de Bob Dylan, Christmas In The Heart apresenta-o como intérprete de quinze "Christmas songs" clássicas sobre as quais paira muito menos o espírito dos blues e da country do que o de... Bing Crosby. Acerca do qual, convém recordar, em 1985, Dylan afirmou tratar-se de um mestre do fraseado vocal cujas canções ainda, um dia, gostaria de gravar. Delas, estão aqui três – “I’ll Be Home for Christmas”, “Silver Bells” e “Do You Hear What I Hear?” – num reportório essencialmente recolhido nas reminiscências dos Natais do jovem Zimmerman, nas décadas de 40 e 50, no gelado Minnesota. Com um pé no kitsch (dos coros à la Ray Conniff, cortesia das Ditty Bops, à fotografia “Mãe Natal” da pin-up, Bettie Page, no booklet) e outro, inevitável, na América lendária (o lamento da pedal-steel guitar em “Winter Wonderland”, a desbragada polca Tex-Mex de “Must Be Santa”, a quase waitsiana “Silver Bells”), “Christmas In The Heart” é um belo divertimento sazonal por uma boa causa: todos os lucros reverterão para as organizações de combate à fome Feeding America, World Food Programme e Crisis. Woody Guthrie aprovaria.

(2009)

15 October 2007

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XI)

FILOSOFIA GREGA



Devendra Banhart - Smokey Rolls Down Thunder Canyon

Eis-nos perante uma questão hermenêutica assaz bicuda: a) Devendra Banhart admite publicamente que o elemento catalisador para Smokey Rolls Down Thunder Canyon foi a sua separação de Bianca Cassady, uma das duas manas Coco; b) quase no mesmo fôlego, informa-nos que “um filósofo grego, talvez Aristóteles, um desses gajos, disse que a alma é húmida e que tudo o que é seco representa o mal. Portanto, a masturbação é uma arma contra o mal e é por isso que vemos tantos pénis na arte grega. O esperma, sendo húmido, é uma protecção, uma metralhadora que possuímos para nos defender contra a secura e, consequentemente, contra todos os males”.
 
 
É exactamente este o ponto em que o rigor exegético nos obriga a uma crucial interrogação: deveremos estabelecer uma relação de causa e efeito entre a) e b), constituindo o álbum o nexo explicativo ou, talvez mais precisamente, a prova material ela mesma, que demonstra factualmente que de uma coisa decorreu necessariamente a outra? A interpretação parece inteiramente plausível, tanto pelo que resulta da escuta de Smokey Rolls Down Thunder Canyon como pela revelação complementar segundo a qual “este foi o pior ano da minha vida”. Há karmas terríveis e o de Banhart não é dos mais fáceis: filho de uma devota do Guru Maharaji Pram Rawat que, previsivelmente, o baptizou como Devendra (isto é, “Rei dos Deuses”), por volta dos nove anos, forças que não comandava conduziram-no a entrar no quarto da mãe e a experimentar um dos vestidos dela, instante místico transfigurador que mudaria para sempre a sua vida: “Transformei-me numa mulher o que, praticamente, me autorizou a cantar, utilizando aquela outra parte de mim. Senti como se tivesse desbloqueado o lado feminino da minha alma. Nunca me tinha sentido particularmente talentoso, nunca me tinha visto como músico, por isso, precisava de alguma coisa, dentro ou fora de mim, que me desse essa permissão”.

Para o autor da dificilmente esquecível linha poética “comiendo una peira en Santa Maria de la Feira”, esse foi o momento catártico que (podendo também, eventualmente, contribuir para compreender melhor o desentendimento com a mana Bianca), anos mais tarde – após outras experiências enriquecedoras como aquela em que, na companhia dos índios Ianomani da Amazónia (entre os quais, segundo notícias recentes, existirão, aparentemente, 200 militantes do PSD), tripou desvairadamente sob o efeito do Yopo -, o levaria a gravar álbuns como Oh Me Oh My... The Way The Day Goes By The Sun Is Setting Dogs Are Dreaming Lovesongs Of The Christmas Spirit (2002), Rejoicing In The Hand (2003), Niño Rojo (2004) e Cripple Crow (2005), textos sagrados e pedras inaugurais do “freak-folk”. Smokey surge, então, como porto de abrigo de um doloroso calvário existencial que, inevitavelmente, lhe pulverizou a personalidade – será ele Caetano Veloso? Neil Young? Manu Chao? Carmen Miranda? Marc Bolan? Bing Crosby “on acid”? – mas lhe proporcionou, por fim, algum alívio. Será um alívio solitário mas, por agora, terá de servir. (2007)