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30 March 2026

Beth Gibbons - "Sunday Morning"

(sequência daqui) Muito mais pragmaticamente, a "War Child" é uma instituição de solidariedade que trabalha para "proteger, educar e defender os direitos das crianças que vivem em zonas de conflito". Para esse fim, nas últimas três décadas, lançou álbuns de compilações, o mais notável dos quais foi The Help Album (1995), produzido por Brian Eno. Agora, sob a orientação de James Ford, HELP(2) reune mais de três dezenas de músicos e bandas dos quais apetece particularmente referir um valiosíssimo terço: Anna Calvi, Arooj Aftab e Beck (juntos), Beth Gibbons (numa versão de "Sunday Morning", dos Velvet Underground), Big Thief, Damon Albarn (com Grian Chatten, dos Fontaines D.C. e Kae Tempest), Depeche Mode ("Universal Soldier", de Buffy Sainte Marie), Foals, Fontaines D.C (interpretando Sinéad O'Connor), Graham Coxon, Pulp, Wet Leg e Young Fathers.

30 December 2024

MÚSICA 2024 - INTERNACIONAL (V) 

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 27)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
* a ordem é razoavelmente arbitrária  

17 June 2024

 
(sequência daqui) Em "Beyond The Sun", viaja-se da medina moura à inssureição free, "Floating On A Moment", a uma morosa litania ("All we have is here and now"), justapõe um coral infantil sem horizonte ("All going to nowhere, to nowhere"), "Rewind" serpenteia entre ordem, caos e os ruídos do mundo, e "Burden Of Life" é uma lenta caminhada de Sísifo sobre estilhaços de vidro. "As pessoas começaram a morrer-me. Quando somos jovens, nunca conhecemos os fins. não sabemos como tudo se resolverá. Pensamos: vamos ultrapassar isto. Tudo há-de correr bem. Mas alguns fins custam a engolir. Compreendi o que é a vida destituida de qualquer esperança. E senti uma tristeza como antes nunca sentira. Antes tinha a capacidade de modificar o meu futuro mas, quando lutamos contra o nosso corpo, é impossível obrigá-lo fazer uma coisa que ele não deseja" é a forma sempre quase telegráfica (nem mais uma só palavra) como Beth Gibbons se refere a Lives Outgrown. Tudo o mais apenas poderá saber-se escutando o disco.

13 June 2024

"Floating On A Moment" (ver aqui também)
 
(sequência daqui) Verdadeiramente importante, porém, foi a obsessão pelo trabalho de invenção de um universo sonoro único que terá começado quando, ainda um pouco perdidos acerca do que realmente buscavam, Beth tropeçou numa caixa onde guardava cortinados e declarou "Gosto deste som!" Daí, resultaria o timbre de baixo a utilizar a que se seguiriam, entre outras fontes sonoras pouco ortodoxas, Tupperwares, cordas de guitarra muito fora de prazo, cabaças percutidas debaixo de água, frigideiras de paella, cantis de couro, cordas de juta, secções de sopros com flautas de bisel e clarinetes, e "uma coisa de que ninguém sabe o nome mas que soa como um contrabaixo, é parecido com um ukulele sem trastos e com cordas de borracha que é um pesadelo para afinar". Ao contrário do que poderia supôr-se, nada disto visou alguma vez criar uma atmosfera "exótica" ou bizarra mas sim ajustar-se o mais perfeitamente possível ao surdo desespero que a voz e os textos de Beth Gibbons carregam (“Smiling with white teeth, the taste of ammonia, the need a delusion, a choice made to fail, ‘cos the dreams are for sale from afar”, canta em "For Sale" sobre fundo médio-oriental desfocado), enquanto os arranjos de James Ford sobrepõem sucessivos planos sonoros, multiplicam contrapontos e desarrumam os lugares de repouso habituais. Beth Gibbons é, alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Björk, Nico, Beth Gibbons até. (segue para aqui)

10 June 2024

 
(sequência daqui) O outro dado cronológico que importa, agora, referir é que a 28 de Outubro, se cumprirão 22 anos sobre a publicação de Out Of Season, primeiro álbum pós-Portishead de Beth Gibbons, a meias com Paul Webb (aka Rustin Man), ex-Talk Talk. Deliberadamente "beats free", se, para Gibbons, nesse momento, o essencial era "a filosofia da música, as surpresas, os acidentes, a sonoridade das palavras e a tentativa de as exprimir de uma forma pela qual a totalidade das emoções seja revelada", para Webb, "os arranjos e o espírito geral destas canções poderiam perfeitamente pertencer aos anos 40". Objectivos integralmente atingidos e ultrapassados que, mais de duas décadas percorridas, em Lives Outgrown, reemergem sob nova configuração e com outros co-protagonistas. A saber, outro ex-Talk Talk, Lee Harris, e o produtor James Ford que, ao longo de 10 anos acompanharam Beth Gibbons na concepção e concretização do álbum. Pelo caminho, foram acontecendo colaborações com Jane Birkin, Annie Lennox, .O.rang, Rodrigo Leão, Gonga, Gonjasufi, Kendrick Lamar, e diversas bandas sonoras para cinema, além da participação na interpretação da Sinfonia nº3 de Henryk Górecki, dirigida por Krzysztof Penderecki. (segue para aqui)

07 June 2024


 
(sequência daqui) Parcialmente chocado nos tempos mortos de estúdio que os Massive Attack lhes iam oferecendo durante a gravação do seu Blue Lines, foi ainda preciso alguma persistência até que os universos de Beth e Geoff se sobrepusessem exactamente e a miúda que, pelos pubs de Bristol, cantava Nina Simone, Otis Redding, Jimmy Cliff e as duas Janis (Joplin e Ian) mostrasse "It Could Be Sweet" ao alquimista sonoro. Seria esse o momento em que, historicamente, os Portihead eclodiram. O sucesso, porém, foi acridoce: "Não quero armar-me em polícia e pôr-me a dizer às pessoas como devem escutar a nossa música. Mas a forma como Dummy acabou sendo absorvido pelo ‘mainstream’ foi muito peculiar. A ideia de que teve o destino de banda sonora para ‘dinner-parties’ significa que o que era a essência desse álbum não foi, realmente, compreendida. E isso não nos pareceu uma coisa muito simpática”, declararia Geoff Barrow â “Uncut”. Seguir-se-iam Portishead (1997) - "Foram 13 meses de completa confusão mental... como adivinhar o que tinha gerado o sucesso de Dummy?", diria Barrow - e, 11 anos depois, Third, com Roseland NYC Live (1998) de permeio. (segue para aqui)

03 June 2024

ORDEM, CAOS E OS RUÍDOS DO MUNDO


A 22 do próximo mês de Agosto, celebram-se os 30 anos da publicação de Dummy, álbum de estreia dos Portishead, trio de Bristol constituído por Beth Gibbons (voz), Geoff Barrow (produção e multi-instrumentista) e Adrian Utley (guitarra). Oriundos do que ficaria conhecido como "The Bristol Scene", agregação informal de músicos e artistas do panorama alternativo local - Tricky, Massive Attack, Alpha, o "street artist" Banksy -, seria, essencialmente, a eles que ficaríamos a dever o que veio a designar-se como "trip-hop": uma tapeçaria sonora na qual, em doses infinitesimais, funk, jazz, hip-hop, bandas sonoras (John Barry, Lalo Schifrin, Ennio Morricone), soul, electrónica e experimentalismos vários se articulariam numa descendência contemporânea da "torch song" em registo "neo-noir" e de ressonâncias lynchianas. Beth escrevia textos dilacerantemente íntimos que Geoff não se esforçava por compreender ("Ele não faz a menor ideia do que eu estou a cantar. Não lhe interessa e admite-o sem problemas", confessaria, então, Beth) mas que, na sua missão de "sound designer" e garimpeiro de "beats", com a contribuição de Utley, reconfigurava como estojos sonoros ideais. (daqui; segue)

13 May 2024

Gorecki – Symphony No 3, Beth Gibbons & Polish National Radio Symphony (dir. Krzysztof Penderecki)

07 March 2021

COMO SE FOSSE INVISÌVEL

A câmara desce da copa das árvores sobre o corpo de uma mulher que, no meio da floresta, observada de forma apática, quase sonâmbula, por meia dúzia de pessoas, dança. Num lento "travelling", desassossegado pela pontuação tensa das percussões e rasgado por golpes orquestrais, aproxima-se de Tamara Linden que, olhando-nos desconfiadamente, canta: “I never believed in the robber, I never saw nobody climb over my fence, no black bag, no gloved hand, I never believed in the robber”. Sem aviso, fala para um microfone que lhe é dirigido e, logo a seguir, à frente de duas agitadas baterias e envergando casaco e calças forrados de espelhos, qual Beth Gibbons suavemente exaltada pelas avalanches de cordas, proclama: “No, the robber don't hate you, he had permission, permission by words, permission of thanks, permission by laws, permission of banks, white table cloth dinners, convention centers, it was all done real carefully.” É o video de "Robber", primeira canção de Ignorance, último álbum de The Weather Station ("nom de plume" de Tamara). Nessa altura, ainda não o suspeitamos mas todo o programa que nas restantes nove faixas irá desenvolver-se acaba de ser-nos apresentado.

"Robber"

Numa "newsletter" do ano passado dirigida aos fãs, Lindeman escrevia acerca do seu conhecimento tardio da obra da cineasta belga Agnés Varda, desaparecida em 2019. E descrevia-a como uma artista “desprovida de ego que, através da objetiva, ampliava, mudava e renovava tudo. O seu olhar cinematográfico é sempre o da restauração e da generosidade. Coisa tão rara!” A afinidade era natural: a própria Varda confessara que o que mais desejava não era mostrar mas “suscitar nas pessoas o desejo de ver”. Para alcançar o mesmo, em Ignorance, Tamara Lindeman não se limita a retomar a proposta que Lou Reed colocara na voz de Nico — "I’ll Be Your Mirror" — mas, qual caleidoscópio, cobre-se literalmente de espelhos.

"Tried To Tell You"

Em "Tried To Tell You", no seu "traje de luces" mágico, é uma “lady in the lake” medieval que emerge das águas para, dissipando a névoa — “Some days there might be nothing you encounter, to stand behind the fragile idea that anything matters, I feel as useless as a tree in a city park, standing as a symbol of what we have blown apart” —, conduzir uma solitária personagem e extrair flores da boca e imaginá-las a desabrochar em terreno árido, e "Atlantic" vê-a transformar-se de ponto de luz desfocado em “mirror ball” humana que, na escuridão noturna de um bosque, exclama “My god, what a sunset!” e logo se interroga: “Thinking I should get all this dying off of my mind/ I should really know better than to read the headlines, does it matter if I see it? No really, can I not just cover my eyes?” (daqui; segue para aqui)

07 October 2009

SOTTO VOCE



Jane Birkin - Enfants d’Hiver

Escutar Enfants d’Hiver não é muito diferente de conversar com Jane Birkin ou de assistir a Boxes, o filme que, paralelamente ao concerto que virá apresentar a Lisboa, será exibido no âmbito da Festa do Cinema Francês: como quem abre os portões da memória, imagens, personagens, espaços, obsessões, jorram em quase regime de sessão de psicanálise ao vivo. Estão aqui todos, nas fotografias do booklet e nas canções, o pai, a mãe, os irmãos, ela própria, as filhas, Charlotte, Kate e Lou, as perdas, os fantasmas e os instantes de felicidade.



Tudo sotto voce, naquele lugar incerto onde a chanson, um dia se cruzou com o idioma da pop – naquele mesmo momento em que ela e Serge Gainsbourg se encontraram e “Je T’Aime, Moi Non Plus” e a sua imagem de Lolita na capa de Histoire de Melody Nelson lhe ficaram, irremediavelmente, coladas à pele – e, hoje, através dela e da desejável ambiguidade transnacional que tem alimentado nas colaborações com Beth Gibbons, Beck, Neil Hannon, Vincent Delerm ou Étienne Daho, continua a gerar suaves híbridos de sotaque peculiar, criaturas imponderáveis recortadas em sombras. Apenas, por um momento, "Aung San Suu Kyi", contraste abrupto, irrompe, em inglês, como manifesto-imprecação panfletária contra a tirania: “This is a plea for Aung San Suu Kyi”.

(2009)

02 May 2008

PERCURSO ARMADILHADO



Portishead - Third

“Não me quero armar em polícia e pôr-me a dizer às pessoas como devem escutar a nossa música. Mas a forma como Dummy acabou sendo absorvido pelo ‘mainstream’ foi muito peculiar. A ideia de que teve o destino de banda sonora para ‘dinner-parties’ significa que o que era a essência desse álbum não foi, realmente, compreendida. E isso não nos pareceu uma coisa muito simpática”, declarou Geoff Barrow ao número de Maio da “Uncut”. Não será a explicação exaustiva de por que motivo, desde há dez anos, não havia notícias do trio que, com os Massive Attack, Tricky ou Alpha, contribuiu para colocar no superpovoado mapa das “scenes” (reais ou imaginárias) o nome da cidade de Bristol e ofereceu os proverbiais quinze minutos de fama ao jornalista britânico da “Mixmag”, Andy Pemberton, responsável por cunhar a expressão “trip-hop”, mas terá tido, sem dúvida o seu peso.



Em três álbuns – Dummy (1994), Portishead (1997) e Roseland NYC Live (1998) –, os Portishead, no perímetro da cultura “dance” que antecessores como os Coldcut, The Wild Bunch ou DJ Shadow haviam alcatifado a partir das marcas do dub, do acid jazz e da electrónica, formularam uma variante moderna da “torch song” num registo “neo-noir”, aparentemente talhado por medida para antros nocturnos lynchianos mas, afinal, frivolamente consumido como muzaque para eventos sociais BCBG. Acrescente-se a isso o facto de Beth Gibbons, Adrian Utley e Geoff Barrow serem o género de músicos que, com o esboço de uma canção nos braços, fazem sempre questão de perguntar “Muito bem, temo-la aqui, mas onde é que ela vive, que atmosfera habita?” e (com mais ou menos tumultos pessoais de permeio) a justificação para a longa ausência estará encontrada.



Third, então, uma década mais tarde, não radicalizará as coisas ao ponto de converter o suposto “easy listening” em “extremely difficult listening” mas não facilita, de certeza, a tarefa a quem contasse com novo volume de melancolia em estojo de veludo: as arestas brutalizaram-se consideravelmente, as coordenadas de referência situam-se, inesperadamente, entre as trevas do Tricky mais apocalíptico, a gélida arquitectura dos Joy Division ou a rítmica robótica dos Kraftwerk, o percurso de cada tema descobre-se armadilhado de alçapões sonoros, falsos indícios e inesperadas mudanças de rumo e, no lugar do esteticizado “mal de vivre”, planta sementes de pânico e sobressalto que, uma a uma, germinam em cada sucessiva audição. Não devolverá, talvez, aos Portishead a notoriedade que já tiveram mas resistirá, seguramente, bem melhor à erosão.

(2008)

01 May 2008

PORTISHEAD, BRIXTON ACADEMY, 1997



"Is it all as it seems, so unresolved, so unredeemed?" canta Beth Gibbons no palco da Brixton Academy, em Londres, a abrir o concerto com "Humming", por entre o veludo das cordas e a fantasmagoria de um Moog disfarçado de Theremin. E logo ali se compreende instantaneamente como aquilo que os Portishead praticam não é senão a tradução contemporânea dos blues, da torch song, se quiserem, também do fado, todas essas músicas terminalmente "so unresolved, so unredeemed". A sala é magnífica: grande, antiga e ampla, esgotada até ao último milímetro quadrado (duas horas antes do concerto, a fila dava já a volta ao quarteirão) mas totalmente desadequada à intimidade que a música dos Portishead exige.



É verdade que muitos a desejam escutar ao vivo mas deveriam ser delicadamente conduzidos para pequenos espaços onde, em número sempre reduzido e por um preço astronómico, poderiam gozar do privilégio de conviver com ela à distância de uma respiração. Em Lisboa, o "Maxime" ou o velho (notem bem, o velho) "Ritz" acolhê-los-iam como uma segunda casa. Tudo começa, então, em vermelho vivo e, ao longo das quinze canções do daltónico Geoff Barrow, se desenvolve num permanente jogo cromático sobre o pano de fundo e quatro ecrãs rectangulares: lilás sobre verde, luz branca ofuscante, magenta e azul, borrões negros em movimento que alastram como fumo ou manchas de tinta, exercícios geométricos de op-art e céus estrelados, a resolverem-se num banho de azul em "Roads", o primeiro encore.



No palco, uma guitarra, um baixo (ou contrabaixo acústico), bateria, teclados, a artilharia do DJ e... A Voz. Beth Gibbons é alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Minnie Ripperton, Björk, Beth Gibbons até. "Cowboys" revela-se como torch song sideral, "Half Day Closing" é uma mensagem emitida de um além hertziano que se dissolve em realejo de feira, "Elysium" uma espessa convulsão púrpura e turquesa a explodir num final tórrido, "Over" um electrocardiograma de Janis. O programa não contempla a "integral" dos Portishead mas também não esquece "Sour Times" (rasgado e negríssimo com desfecho apocalíptico), "Glory Box", "Mysterons" ou "Strangers". De qualquer modo, muito mais do que o necessário para que, durante hora e meia, alguns milhares tenham tido acesso directo a um outro mundo onde ainda, de certo, haverá quem permaneça. (1997)

30 April 2008

MODERN CLASSIC



Beth Gibbons & Rustin Man - Out Of Season

"God knows how I adore life, when the wind turns on the shore lies another day, I cannot ask for more", são as primeiras palavras que, em "Mysteries", Beth Gibbons canta a abrir Out Of Season. E, como declaração de alguém que, enquanto voz e imagem dos Portishead, sempre pareceu encarnar uma certa personagem de "torch singer" moderna embora tradicionalmente magoada e sofrida, não poderia ser mais inesperada. Mas, se essa não irá ser a tonalidade constante do seu primeiro álbum a solo — a faixa que se segue, "Tom The Model", retoma logo a atmosfera de "love gone wrong" que lhe ficou colada à pele —, serve, pelo menos, para sublinhar que uma coisa serão os Portishead enquanto colectivo e outra bem diferente a trajectória individual da sua cantora e autora dos textos, mesmo que ainda episodicamente recorrendo a companheiros anteriores como o guitarrista Adrian Utley, o baterista Clive Deamer ou o pianista John Baggott.



Aqui, porém, o outro eixo musical de criação é constituido por Paul Webb (aliás, Rustin Man), dos Talk Talk, que, como marca de separação estética, assegurou que se trataria de um álbum "beats free". Isto é, se como Webb afirma, "os arranjos e o espírito geral destas canções poderiam perfeitamente pertencer aos anos 40", todo o ambiente se pretendeu predominantemente (mas não exclusivamente) acústico e algures entre Joni Mitchell e o canto de recorte "jazzy", Nick Drake, Bacharach e, sim, também algo dos... Portishead. Haverá relativamente pouco dos traços identificativos daquilo a que nos habituámos a designar por trip-hop, porém, dir-se-ia que se trata da transposição de uma mesma escala cromática para um outro contexto sonoro.


versão de "Candy Says", dos Velvet Underground

Beth Gibbons sublinha que o que a motiva é "a filosofia da música, as surpresas, os acidentes, a sonoridade das palavras e a tentativa de as exprimir de uma forma pela qual a totalidade das emoções seja revelada" e procura distanciar-se do estereótipo romântico quando diz que, embora se alimente de alguma sensação de desamparo, "sofrer pela arte está um bocadinho sobrevalorizado". Estará, provavelmente, e muito desse desamparo e melancolia serão, talvez, encenados — "let the show begin", canta ela em "Show". Mas, mesmo que nos custe a crer que isso seja verdade quando se escuta canções como "Romance", "Drake", "Sand River" ou "Resolve", enquanto forem capazes de gerar um álbum tão modernamente tradicional e tão intemporalmente belo como Out Of Season, bem podem continuar assim. (2002)