Beth Gibbons - "Sunday Morning"
30 March 2026
30 December 2024
MÚSICA 2024 - INTERNACIONAL (V)
17 June 2024
13 June 2024
10 June 2024
07 June 2024
03 June 2024
ORDEM, CAOS E OS RUÍDOS DO MUNDO
A 22 do próximo mês de Agosto, celebram-se os 30 anos da publicação de Dummy, álbum de estreia dos Portishead, trio de Bristol constituído por Beth Gibbons (voz), Geoff Barrow (produção e multi-instrumentista) e Adrian Utley (guitarra). Oriundos do que ficaria conhecido como "The Bristol Scene", agregação informal de músicos e artistas do panorama alternativo local - Tricky, Massive Attack, Alpha, o "street artist" Banksy -, seria, essencialmente, a eles que ficaríamos a dever o que veio a designar-se como "trip-hop": uma tapeçaria sonora na qual, em doses infinitesimais, funk, jazz, hip-hop, bandas sonoras (John Barry, Lalo Schifrin, Ennio Morricone), soul, electrónica e experimentalismos vários se articulariam numa descendência contemporânea da "torch song" em registo "neo-noir" e de ressonâncias lynchianas. Beth escrevia textos dilacerantemente íntimos que Geoff não se esforçava por compreender ("Ele não faz a menor ideia do que eu estou a cantar. Não lhe interessa e admite-o sem problemas", confessaria, então, Beth) mas que, na sua missão de "sound designer" e garimpeiro de "beats", com a contribuição de Utley, reconfigurava como estojos sonoros ideais. (daqui; segue)
13 May 2024
07 March 2021
COMO SE FOSSE INVISÌVEL
A câmara desce da copa das árvores sobre o corpo de uma mulher que, no meio da floresta, observada de forma apática, quase sonâmbula, por meia dúzia de pessoas, dança. Num lento "travelling", desassossegado pela pontuação tensa das percussões e rasgado por golpes orquestrais, aproxima-se de Tamara Linden que, olhando-nos desconfiadamente, canta: “I never believed in the robber, I never saw nobody climb over my fence, no black bag, no gloved hand, I never believed in the robber”. Sem aviso, fala para um microfone que lhe é dirigido e, logo a seguir, à frente de duas agitadas baterias e envergando casaco e calças forrados de espelhos, qual Beth Gibbons suavemente exaltada pelas avalanches de cordas, proclama: “No, the robber don't hate you, he had permission, permission by words, permission of thanks, permission by laws, permission of banks, white table cloth dinners, convention centers, it was all done real carefully.” É o video de "Robber", primeira canção de Ignorance, último álbum de The Weather Station ("nom de plume" de Tamara). Nessa altura, ainda não o suspeitamos mas todo o programa que nas restantes nove faixas irá desenvolver-se acaba de ser-nos apresentado.
Numa "newsletter" do ano passado dirigida aos fãs, Lindeman escrevia acerca do seu conhecimento tardio da obra da cineasta belga Agnés Varda, desaparecida em 2019. E descrevia-a como uma artista “desprovida de ego que, através da objetiva, ampliava, mudava e renovava tudo. O seu olhar cinematográfico é sempre o da restauração e da generosidade. Coisa tão rara!” A afinidade era natural: a própria Varda confessara que o que mais desejava não era mostrar mas “suscitar nas pessoas o desejo de ver”. Para alcançar o mesmo, em Ignorance, Tamara Lindeman não se limita a retomar a proposta que Lou Reed colocara na voz de Nico — "I’ll Be Your Mirror" — mas, qual caleidoscópio, cobre-se literalmente de espelhos.
Em "Tried To Tell You", no seu "traje de luces" mágico, é uma “lady in the lake” medieval que emerge das águas para, dissipando a névoa — “Some days there might be nothing you encounter, to stand behind the fragile idea that anything matters, I feel as useless as a tree in a city park, standing as a symbol of what we have blown apart” —, conduzir uma solitária personagem e extrair flores da boca e imaginá-las a desabrochar em terreno árido, e "Atlantic" vê-a transformar-se de ponto de luz desfocado em “mirror ball” humana que, na escuridão noturna de um bosque, exclama “My god, what a sunset!” e logo se interroga: “Thinking I should get all this dying off of my mind/ I should really know better than to read the headlines, does it matter if I see it? No really, can I not just cover my eyes?” (daqui; segue para aqui)
07 October 2009
Jane Birkin - Enfants d’Hiver
Escutar Enfants d’Hiver não é muito diferente de conversar com Jane Birkin ou de assistir a Boxes, o filme que, paralelamente ao concerto que virá apresentar a Lisboa, será exibido no âmbito da Festa do Cinema Francês: como quem abre os portões da memória, imagens, personagens, espaços, obsessões, jorram em quase regime de sessão de psicanálise ao vivo. Estão aqui todos, nas fotografias do booklet e nas canções, o pai, a mãe, os irmãos, ela própria, as filhas, Charlotte, Kate e Lou, as perdas, os fantasmas e os instantes de felicidade.
Tudo sotto voce, naquele lugar incerto onde a chanson, um dia se cruzou com o idioma da pop – naquele mesmo momento em que ela e Serge Gainsbourg se encontraram e “Je T’Aime, Moi Non Plus” e a sua imagem de Lolita na capa de Histoire de Melody Nelson lhe ficaram, irremediavelmente, coladas à pele – e, hoje, através dela e da desejável ambiguidade transnacional que tem alimentado nas colaborações com Beth Gibbons, Beck, Neil Hannon, Vincent Delerm ou Étienne Daho, continua a gerar suaves híbridos de sotaque peculiar, criaturas imponderáveis recortadas em sombras. Apenas, por um momento, "Aung San Suu Kyi", contraste abrupto, irrompe, em inglês, como manifesto-imprecação panfletária contra a tirania: “This is a plea for Aung San Suu Kyi”.
(2009)
02 May 2008
01 May 2008
"Is it all as it seems, so unresolved, so unredeemed?" canta Beth Gibbons no palco da Brixton Academy, em Londres, a abrir o concerto com "Humming", por entre o veludo das cordas e a fantasmagoria de um Moog disfarçado de Theremin. E logo ali se compreende instantaneamente como aquilo que os Portishead praticam não é senão a tradução contemporânea dos blues, da torch song, se quiserem, também do fado, todas essas músicas terminalmente "so unresolved, so unredeemed". A sala é magnífica: grande, antiga e ampla, esgotada até ao último milímetro quadrado (duas horas antes do concerto, a fila dava já a volta ao quarteirão) mas totalmente desadequada à intimidade que a música dos Portishead exige.
É verdade que muitos a desejam escutar ao vivo mas deveriam ser delicadamente conduzidos para pequenos espaços onde, em número sempre reduzido e por um preço astronómico, poderiam gozar do privilégio de conviver com ela à distância de uma respiração. Em Lisboa, o "Maxime" ou o velho (notem bem, o velho) "Ritz" acolhê-los-iam como uma segunda casa. Tudo começa, então, em vermelho vivo e, ao longo das quinze canções do daltónico Geoff Barrow, se desenvolve num permanente jogo cromático sobre o pano de fundo e quatro ecrãs rectangulares: lilás sobre verde, luz branca ofuscante, magenta e azul, borrões negros em movimento que alastram como fumo ou manchas de tinta, exercícios geométricos de op-art e céus estrelados, a resolverem-se num banho de azul em "Roads", o primeiro encore.
No palco, uma guitarra, um baixo (ou contrabaixo acústico), bateria, teclados, a artilharia do DJ e... A Voz. Beth Gibbons é alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Minnie Ripperton, Björk, Beth Gibbons até. "Cowboys" revela-se como torch song sideral, "Half Day Closing" é uma mensagem emitida de um além hertziano que se dissolve em realejo de feira, "Elysium" uma espessa convulsão púrpura e turquesa a explodir num final tórrido, "Over" um electrocardiograma de Janis. O programa não contempla a "integral" dos Portishead mas também não esquece "Sour Times" (rasgado e negríssimo com desfecho apocalíptico), "Glory Box", "Mysterons" ou "Strangers". De qualquer modo, muito mais do que o necessário para que, durante hora e meia, alguns milhares tenham tido acesso directo a um outro mundo onde ainda, de certo, haverá quem permaneça. (1997)