Tom Waits até é um rapaz apreciador de fado. Que, como uma vez, contou o seu guitarrista, Joe Gore (de passagem por Lisboa para produzir os Belle Chase Hotel), gostando, inevitavelmente, de Amália, lhe preferirá a modalidade terra-nas-unhas de Alfredo Marceneiro. E é tão fã que chegou mesmo a compor um (em improvável ternário...), inicialmente planeado para Mule Variations, mas só publicado como décima faixa de Blood Money: "The Part You Throw Away", aquela canção que ele gosta de citar como exemplo de desejável ruído no canal de comunicação, quando Terry Gilliam o ouviu cantar “In a Portuguese saloon” e supôs que o texto fosse “On the porch the geese salute”. E justificava-se: “Gosto de coisas mal compreendidas. Gosto de ouvir uma canção num rádio ao longe e não a perceber bem quando é interrompida pelo som de um avião, do vento ou de um tractor. Gosto das peças que faltam. Não gosto das coisas muito arrumadinhas. Espero que haja muito mais gente que me compreenda mal".
Tom Waits iria, de certeza, salivar com este álbum dos Dead Combo. Por várias razões: porque Tó Trips e Pedro Gonçalves também padecem desse problema de distorção da informação – escutam fados, mornas, marchinhas, e, quando tentam reproduzi-las (mesmo com Camané ou Sérgio Godinho a darem apoio), sem querer, sai-lhes outra coisa, perdem-se na tradução, e o objecto final, encardido e desleixado, parece-se admiravelmente pouco com o original; porque "Anadamastor" e "Blues da Tanga" só não foram escritas por Waits por mero acaso e "Esse Olhar Que Era Só Teu" é bem capaz de ser o fado que ele andava à procura; e porque o seu (outro) genial guitarrista, Marc Ribot, toca em quatro faixas (incinera literalmente a "Marchinha do Santo António Descambado") e, se tiver juízo e não andar excessivamente ocupado, cuidará de lhe meter Lisboa Mulata nas mãos e fazê-lo feliz durante 45 minutos.
(2011)
22 February 2007
AS COISAS QUE ME GERARAM (OU UMA SOMBRA NO MORRO) tentativa de identificação de JP Simões num aeroporto alcatifado
uma casa no som: um projecto de sci-fi:
Já há alguns anos que eu andava à procura de uma casa no som que fosse mais parecida com o que eu gostava e que me permitisse juntar as minhas histórias meio letárgicas, meio amnésicas a um balanço mais vital que sinto mais como o meu pulsar do que a forma portuguesa de fazer canções. Também tem a ver com anos e anos a ouvir Chico Buarque de uma maneira talvez exagerada. Pensei: já que vou fazer um disco sozinho, vou fazer um disco simples, uma coisa que ando há muito tempo para fazer, um luso-samba. Onde está o meu futuro? Em 1970.
Foi o que me ocorreu. Este disco é uma coisa muito artesanal, sem máquinas, com coros naturalistas como nos anos 70, com construções muito Chico Buarque, Tom Jobim... aquilo foi pensado como qualquer coisa de ficção científica, como se, no ano em que nasci, tivesse a idade que tenho... a imaginar que o nosso desenvolvimento cultural era diferente, que éramos pessoas que absorvíamos e transformávamos... com aqueles dois lados: o que sorve tudo, se mimetiza em tudo e ama as coisas novas quase com desespero, com uma alegria violenta, e o contraponto disso que é manter tradições mortas, direitinhas, como uma espécie de vínculo à terra. Eu tentei depurar esses elementos todos, há uma série de pormenores nos arranjos que particularizam aquilo, que põem uma sombra no morro. Esta foi uma primeira experiência. Eu ainda quero ir para algum lado a partir daqui onde encontrasse a minha toada. Tentar recomeçar a partir do sítio onde, há trinta e tal anos, deixámos as coisas mais ou menos auspiciosas e que, depois, esquecemos um bocado.
à deriva pelo Atlântico Sul:
O Quinteto Tati era uma coisa mais latino-americana, tinha um bocadinho de tudo, não tão especializado no samba. No samba-canção como aquilo que veio a dar o lugar à bossa. Para ser mais preciso, eu vejo aquilo mais como um luso-samba-canção. Uma identidade transatlântica. De certa maneira, também peguei um bocado na minha mitologia pessoal do tempo que vivi no Brasil e, quando, era eu miúdo e o Vinícius de Morais brincava comigo em casa de uma prima dele. Resolvi assumir uma identidade meio-ficcional, meio-lenda, o meu direito a ser brasileiro. Sinto isso um pouco como uma conquista minha, o ter conseguido concretizar uma terceira coisa.
a minha língua é a minha pátria (ou o meu divã?):
Tal como acontecia no tempo dos Belle Chase Hotel, de vez em quando, escrevo letras em inglês, há coisas, determinados balanços, determinadas formas de construir uma canção que só ficam bem assim... mas não tenho ido por aí, tenho andado a tentar fazer uma espécie de psicanálise e, para a fazer, tens de a fazer na tua língua. É o único acesso que tens ao teu próprio caos. Nesse aspecto, quando as coisas se tornaram menos uma celebração de estilos e mais “una busqueda”, comecei, naturalmente, a utilizar a minha língua, a procurar uma série de elementos da minha própria cultura que explicassem o que torna ser português tão incompreensível e bisonho e bizarro...
quem gerou a minha geração?
Compus um retrato de coisas dispersas, tive de me limitar no tempo e no espaço. Fui pegar num tempo, nos anos 80, numa cidade como Coimbra e tentar fazer um retrato que vacilasse um pouco entre a automutilação e o diagnóstico daquelas características que também encontro nos outros e que interrogasse: mas que contexto foi este para as pessoas ficarem assim, que era do vazio foi esta? Mas, depois, a própria música diz que a minha geração é a minha solidão, aquilo é uma tentativa de identificação. Até porque, muitas vezes, quando digo a palavra “geração” coloco-a num plano muito mais pessoal – as coisas que me geraram. Mais do que um grupo de gente que foi gerado comigo, ao mesmo tempo. Mas, evidentemente, também estou a falar daqueles a que posso chamar “os ratos de laboratório meus companheiros”.
Aquelas pessoas geradas no mesmo meio que, a partir de certa altura, se vão começar a transformar em qualquer coisa. Porquinhos da Guiné, meus irmãos... Sempre imaginei isso mais como o meu avô diz “um rapaz da minha idade, da minha geração”... Houve uma marcação cerrada aqueles defeitos que sinto que também tenho, reportando-me também a um ressentimento em relação à minha cidade (suponho que cada um tem uma ideia da sua cidade...), uma cidade pequena, sem grande rumo nem grandes ideias, que se deixou adormecer ao colo dos fantasmas, sem oferecer nada... não que devesse oferecer alguma coisa... mas, depois, as pessoas são humanas, estão-se um bocado nas tintas para o espaço em comum, vivem lá a adorar os mortos o que gera um certo autismo em que vivemos enfiados no nosso buraco, com os nossos delírios, a jogar demasiadamente com a ironia porque era muito pesado falar sobre o concreto ou porque não havia coisas que se pudessem levar a sério.
uma ou duas gerações atrás, “Inquietação”, de José Mário Branco:
É uma canção mais universal que generaliza um bocado aquela sensação de “para onde é que foi toda a gente? para onde é que foram aqueles planos fantásticos?”... são sintomas de um problema ou de uma forma de estar. É, se calhar, mais uma canção sobre uma geração perdida. As coisas, às vezes, tem triplas ou quádruplas utilidades: acaba por ser um exercício de identificação com os outros ratos de laboratório, uma espécie de saldar de contas. O Henrique Amaro convidou-me para fazer uma versão naquele disco, Uma Outra História. A canção é uma eminência parda, inscreve-se naquele grupo de músicas que ouvi na adolescência e que me marcaram. Mas, nessa altura, com a claustrofobia de não me identificar com a própria terra, identificava-me muito mais com os objectos alienígenas como os Pop Dell’Arte que foram uma reacção mais justa ao no future que também se instalou, nos anos 80, aqui no nosso país: não há cá acordos pífios com o tempo nem homenagens nacionalistas, há um espírito de identificação com o mundo e uma liberdade de referências... já que isto é tudo tão confuso e há tão pouca coisa a que vale a pena dar continuidade, houve uma vontade muito grande de não pertença e de inventar um programa que fosse, ostensivamente, não daqui.
De tal modo não daqui a ponto de não ser de lado nenhum. Mas, mais tarde, essa libertação pela libertação também começou a não me satisfazer. Os Belle Chase Hotel acabaram por ser também um bocado aquela atitude “o mundo é nosso” porque houve outra circunstâncias que tiveram a ver com a mundificação da informação nos ano 90, começámos a ter a informação toda à porta de casa... pega-se nisso, abre-se os pulmões e ver a música toda, deixá-la entrar... fazer os Descobrimentos para dentro! Acabou por ser uma exaltação da música e do mundo e de uma série de estilos... mas, passado um tempo, começou-me a parecer uma celebração injusta. E precisei de me começar a encontrar. Dei por mim a dizer: e este sítio onde eu vivo, esta coisa descurada, este aeroporto alcatifado?... (síntese de uma conversa com JP Simões no final de 2006)
21 February 2007
CONTROLADOR DE TRÁFEGO AÉREO
Joe Gore é um daqueles músicos cujo nome circula discretamente entre os melómanos e os melhores dos outros músicos mas que prefere ocupar o segundo plano das atenções. O que, apesar de tudo, não é lá muito fácil quando se é o guitarrista de Tom Waits ou P.J. Harvey ou se trabalha em projectos como os Tipsy e Oranj Symphonette. Foi, aliás, precisamente por causa da sua participação na Oranj Symphonette que os Belle Chase Hotel o convidaram para a produção do segundo álbum que sucederá a Fossanova e que o fez permanecer em Coimbra e Lisboa durante cinco semanas, num regresso que lhe fez recordar a sua primeira passagem por Portugal, há cerca de vinte anos, então ainda como estudante de música recém-formado, em viagem ritual de reconhecimento pela velha Europa.
Segundo sei, uma das razões que conduziram os Belle Chase Hotel a convidá-lo para produzir o novo álbum terá sido o seu trabalho com a Oranj Symphonette. Parecem-lhe existir, de facto, traços comuns entre o conceito sonoro dos dois grupos? Os Belle Chase Hotel têm diversas facetas mas uma das mais fortes parece-me ser as composições do Pedro Renato. Sinto uma grande afinidade com ele pois ele interessa-se muito por aquilo que se costuma designar por "lounge" ou "easy listening" mas a que prefiro chamar "composer pop". É um estilo de composição originário dos anos sessenta onde havia um certo casamento entre o mundo da música clássica e o da pop. Muitos dos autores dessa época como, por exemplo, Burt Bacharach, Mancini ou Jobim, tiveram uma educação clássica mas, utilizando material melódica e harmonicamente sofisticado, trabalharam-no de modo a torná-lo popular e capaz de ser assobiado na rua.
O punk fê-lo cair em desgraça em virtude de ser demasiado académico e "precioso" e de, na verdade, estar completamente fora da onda da cultura pop juvenil da altura. Mas o Pedro ouve esses discos e fala esse idioma fluentemente. A relação com a Oranj Symphonette — apesar de ser um grupo exclusivamente instrumental — passa certamente por aí. Outro elemento forte dos Belle Chase é a personalidade do JP Simões de quem, mesmo correndo o risco de parecer pomposo, diria que é um poeta simultaneamente muito sardónico e autêntico. É a combinação desses dois factores que transforma os Belle Chase Hotel em algo de único.
Antes de aceitar produzi-los, ouviu, decerto, o primeiro álbum deles. Qual foi a sua reacção como músico e potencial futuro produtor? Na verdade, só escutei aquela parte do primeiro disco que, na opinião da banda, reflectia melhor o que, desta vez, eles desejavam fazer. Confesso que só ouvi "Sunset Boulevard" depois de ter chegado a Portugal e, embora isso possa ser uma surpresa, no novo álbum não irão surgir muito mais canções desse género. O grupo enveredou por uma direcção muito mais cinemática, poética e ambiciosa que não se deve a mim mas a decisões que eles próprios já haviam tomado. Embora, pessoalmente, esteja absolutamente de acordo, acho esse lado deles fantástico. De qualquer modo, quando os escutei pela primeira vez, não estava condicionado por nenhum preconceito em relação às bandas portuguesas, não pensava que andavam todas de capa e batina e a cantar fado!...(risos). Desde o primeiro momento, apercebi-me que havia ali óptima música e entusiasmou-me a ideia de poder participar.
O que, para mim, ainda é um mistério — e, vindo de fora, digo isto com o maior cuidado — é a política da língua, a opção de cantar em inglês. Adoro, evidentemente, muita pop britânica e americana mas preocupa-me e assusta-me a hegemonia da cultura vinda de Hollywood, Londres e Nova Iorque. Entusiasma-me muito ouvir música que consegue ser interessante, criativa e internacional mas que mantém uma identidade local forte. Por isso, a minha primeira reacção foi de um certo desapontamento — isto é tão "cool" mas porque é que há-de ser em inglês?
Quando aqui cheguei, compreendi que esse era, se calhar, um ponto de vista demasiado simplista e que o problema da utilização da língua inglesa era um pouco mais complicado: é a língua expressiva do JP na qual ele escreve perfeitamente. Este problema, contudo, fascina-me: antes de vir para aqui, trabalhei num disco de uma fantástica cantora mexicana, Julieta Venegas, que faz parte de um círculo de vanguarda da cidade do México, para quem exprimir-se em espanhol constitui uma atitude política e cultural sem que isso assuma contornos académicos ou "folclóricos".
De qualquer modo, ao ouvi-los, pressentiu as referências de que eles partiam? Senti que devíamos ter andado a ouvir os mesmos discos. Nas maquetes para o novo álbum apercebi-me imediatamente que a banda tinha começado a assimilar os seus modelos e que, ao contrário do primeiro disco, onde era ainda evidente a influência directa do swing ou de Kurt Weill, agora essa digestão já se tinha realizado. Mais uma vez, isso não se deveu a mim. O que procurei foi reduzir a música ao essencial, clarificar e simplificar ideias. E, como no grupo o que não falta são boas ideias musicais, às vezes, o mais difícil é conseguir um bom controlo do tráfego aéreo! (risos) Quase se pode dizer que produzi por omissão...
Essa é a sua atitude habitual enquanto produtor ou, consoante as situações, procede de modo diferente? Não possuo objectividade suficiente para julgar o meu próprio trabalho mas tenho uma história muito mais longa como músico do que como produtor. Também trabalhei durante bastante tempo como jornalista musical e tive a oportunidade de entrevistar muitos produtores. Aqueles que mais admiro parecem ser capazes de actuar de formas diferentes. Possuem um estilo e um ponto de vista definidos mas, ao mesmo tempo, uma grande flexibilidade. Gente como Flood, Rick Rubin, Mitchell Froom ou Tchad Blake que possuem um estilo e uma personalidade próprios mas que nunca se tornam dominadores e deixam sempre uma porta aberta para a espontaneidade. Como se estivessem a improvisar um grande solo de jazz.
Não resisto a fazer-lhe uma pergunta na sua condição de guitarrista. Como é trabalhar com o Tom Waits? É uma experiencia inacreditável. Mesmo depois de trabalhar quase dez anos com ele, sempre que entro no estúdio, metade de mim está concentrada em tocar tão bem quanto posso e a outra metade pensa "oh meu deus, será possível que eu esteja na mesma sala que o Tom Waits?" (risos) Ele atribui uma grande importancia a que as coisas aconteçam de uma forma crua e espontânea e, por vezes, é necessária uma grande planificação para que isso aconteça. Mas ele detesta que tudo saia forçado, excessivamente polido e aperfeiçoado. Para ele, isso é dar cabo de um disco. E, contudo, ele trabalha com os melhores músicos.
Disseram-me que ele gosta muito de Amália Rodrigues... Sim, mas parece-me que ele prefere o fado mais hardcore... Marceneiro talvez... Uma vez conversámos sobre fado porque ele, para o Mule Variations, escreveu uma versão de um fado que acabou por não sair no disco. Chama-se "The Part You Throw Away".
Mas essa foi a canção que ele ofereceu para o novo disco da Ute Lemper que sai dentro de semanas... A sério? Eu toco guitarra na versão dele... Ele disse-me explicitamente que se tinha inspirado num fado e — embora possa estar a citá-lo incorrectamente — creio que ele me disse que, embora gostasse muito da Amália, prefere coisas mais cruas. Ele baseia-se muito nesse tipo de modelos que tanto podem ser o fado como velhas baladas sentimentais irlandesas ou canções de cabaret de Weimar. Afinal, os Belle Chase Hotel também chamam ao que fazem "international fado"... (2000)
20 February 2007
TEATRO EM TEMPO DE GUERRA
Se há coisa que a música portuguesa tem de bom é o facto de nela — ao contrário das "grandes nações musicais" — praticamente não existirem, "cenas", "tendências", "correntes". Existem as "famílias" do fado, da MPP, do rock e da pop mas, no interior de cada uma, praticamente só se encontram casos singulares. E, quase à margem de todas elas (mas atravessando-as a todas também) o caso singular dos casos singulares: a trupe de músicos Belle Chase Hotel, emanação da "colónia de bactérias sociológica coimbrã", cujo primeiro álbum, Fossanova, havia sido uma revelação e de quem o segundo, La Toilette des Étoiles, é já, à distância de dois meses, o principal candidato a álbum do ano da produção paroquial. JP Simões, bardo eloquente, teórico-prático da "escatologia poética" e porta-voz desta associação recreativa de descriogenizadores de personagens desmoronadas entende, porém, explicar como esta "toilette" é, agora, menos fossa séptica e mais toucador de maquilhagem da realidade.
À primeira vista, dir-se-ia que, de Fossanova para La Toilette des Étoiles, o cenário não mudou radicalmente mas modificou-se sim o cuidado com os adereços, a decoração, o guarda-roupa e as luzes... Sem dúvida. A presença do Joe Gore foi determinantíssima. Ele procurou ser magnânimo no meio de todos estes indivíduos díspares que fazem esta banda. Acabou por ser um pouco a metáfora da relação entre democracia e ditadura. Além de gerir a banda, geriu também o trabalho de produção criativa, não teve um papel meramente técnico ou executivo. Dá para adivinhar que ele chegou ao fim doente: com uma alergia, 40 graus de febre, o homem começou a delirar de ansiedade... (risos). Foi tudo feito num estado de emergência, teve que se decidir até que ponto algumas ideias orquestrais seriam importantes para a eloquência da música. O Joe foi cortando nessas coisas todas num trabalho de "less is more" que conduzia sempre à economia de vozes e fugia à redundância: "I want to calcificate these songs", como ele dizia.
O disco é muito reconhecivelmente Belle Chase Hotel mas, ao mesmo tempo, também se pressente bastante aquele tipo de orquestração-das-traquitanas-sonoras que, com a participação do Joe Gore, nos habituámos a ouvir nos discos do Tom Waits... Ah sim, esse duende... Por mim, isso existia muito mais vezes nas músicas. Nós tínhamos como a pré-concepção de uma sopa: tudo cortadinho mas nada ainda misturado. O Joe actuou connosco na base de uma doce chantagem: "eu achava que isto aqui era capaz de ficar melhor assim...". E nós, "claro que sim, tens toda a razão"... Impôs-se mas não pisou ninguém.
É curioso teres dito que o disco surgiu um pouco sob pressão quando a ideia com que fiquei foi a de ele possuir uma narrativa quase sequencial, aparentemente planeada, das diversas atracções que vão subindo ao palco de um cabaret... Têm a mesma circunstância de teatro em tempo de guerra. Havia já imaginários previstos e personagens à espera de serem descriogenizadas que acabaram por seguir essa tensão de urgência da produção que se confunde com uma urgência quase de relação com o mundo, uma tensão não de pré-milénio mas de pré-parto prematuro. Trabalhei em gestão de telefone vermelho com a imaginação: "por amor de Deus, neurónio acorda, larga esses chinelos e ajuda-me! Como é que estes tipos vivem, o que é que eles fazem, o que é que eles têm a ver com o raio do sentimento de encanto e, ao mesmo tempo, de tragédia que as estrelas nos provocam?"
Aquelas personagens são mesmo personagens ou és tu por interpostas pessoas? Noutro dia, perguntaram-me quem é o nosso público? Qualquer pessoa que crie ou que viva com alguma intensidade tem imensos interlocutores privilegiados. Escreve-se na presença de todas as pessoas que já se leu ou já se ouviu. Os interlocutores são toda essa gente. Pelo menos no meu caso, que não fui apanhado nas obras e transformado em João Melancia-amor-como-te-quero-daqui-até-à-Bahia... Esses desdobramentos das personagens também são interlocutores. São personagens de outras pessoas adoptadas por mim. Depois, é-me muito difícil aperceber-me da fronteira exacta entre o que eu vivi e o que confundo já com ficção. Aí já desisti há muito tempo de ser uma pessoa séria, um daqueles tipos que sonham das cinco às seis... Uma coisa sei: relativamente ao primeiro álbum, estas personagens são muito mais do exterior. Enquanto o outro tinha alguma coisa de fado/blues, eram tudo confissões escarrapachadas com algum delírio, aqui tentei afastar-me ao máximo das coisas que estava a escrever. À medida que isso foi acontecendo, tentei encontrar provas da minha existência na realidade: ando para aqui só às voltas no meu próprio jogo de espelhos, a gerir o meu autismo ou tenho uma referência clara na observação dos outros? Se bem que, no início, os sentimentos de determinadas personagens acabam por ser os meus.
Mas na vossa escrita de canções há um elemento muito forte tanto de erudição literária como musicológica, não há? Há um lado muito libertário nesta coisa da escrita que é não ter muito pejo em apropriar-me das personagens todas que vou conhecendo. Posso usar as referências de todos os heróis abnegados, de Cristo a Gandhi ou ao Martim Moniz, para depois as transportar para uma narrativa cujo sentimento será meu. As personagens são praticamente retiradas de uma colónia de bactérias sociológica coimbrã. Depois meto um bocado do drama dos solitários urbanos do James Joyce, não consigo fugir disso. A seguir, junto aquela paranóia de estar a ser filmado por Deus — que já é muito antiga mas agora as pessoas insistem em banalizar até essa questão — e faço uma coisa baseada nos filmes de publicidade americanos dos anos 30 que eram uns bonequinhos que explicavam a essência do capitalismo. É uma boa maneira de explicar o que os outros chamavam antigamente "estar sentado e, de repente, passar um anjo", a inspiração... É um trabalho de atenção e de reciclagem na confusão que é uma cabeça a especular.
La Toilette des Étoiles é apenas uma forma de traduzir Fossanova para francês? Acaba por ser. "Je vais à la toilette". Tanto pode ser "vou à fossa" como "vou-me maquilhar"... Previ mais ou menos que isto se pudesse começar a tornar (pelo menos da minha parte) uma banda escatológica. Fossanova, de certa maneira, era um facilitismo, qualquer coisa podia caber naquele título, entre o escatológico e a referência à música de uma burguesia iluminada como era a bossanova. La Toilette des Étoiles, quando surgiu, também pensei que podia ser a sanita das estrelas. Há uma amargura e um cepticismo maior destas personagens. As estrelas são as convidadas especiais deste disco. Há quem nasça e tenha uma concepção da condição humana como algo absolutamente trágico onde não vale a pena investir em coisa nenhuma porque daqui a nada vai tudo pela sanita abaixo e outras pessoas que nascem com a ideia que isto é um período fugaz mas, por isso mesmo, é a pérola que deve ser mais trabalhada. Essa ambiguidade da "toilette" — neste caso, o embelezar das coisas — acabou por ser o que deixei ficar como a minha explicação oficial. O proximo, se calhar, vai chamar-se Cotonette On Earth, algo mais terra a terra. Estou, talvez, condenado ao meu extremo ser sempre a escatologia poética (ou patética, sei lá), a vertigem do esgoto, sabendo de antemão que todas as personagens que crio se vão escafoder no seu anonimato e insignificância e que já nascem desmoronadas. (2000)
A SINFONIA DO "BIEN-ÊTRE"
O quarto número 26 do Belle Chase Hotel é o sítio onde no filme de Jim Jarmusch, Down By Law, o chulo John Lurie era apanhado numa armadilha policial, atraído pela promessa de carne jovem e fresca. Belle Chase Hotel é agora também o nome de uma surpreendente banda de Coimbra que, com Fossanova, oferece a mais impressionante estreia portuguesa de 98. "Easy listening" contaminado de angústia pré-milenar, armadilha do amor, tragédia chique e requintada ou dança melancolica na corda bamba, para JP Simões, cantor, jornalista, autor dos textos e ex-elemento dos Pop Dell'Arte, é apenas uma tentativa de "fazer o melhor antes de bater a bota". E, de caminho, promete escrever a Jarmusch, agradecendo-lhe a deixa com o envio de um maço de tabaco para que ele não cumpra a ameça de Blue In The Face onde anunciava que iria deixar de fumar...
Até ter ouvido falar de vocês a propósito do Festival de Paredes de Coura, confesso que nada sabia da banda. Como é que vocês apareceram? Por pura insatisfação. Em 95, eu estava nos Pop Dell'Arte e fomos tocar também a Paredes de Coura. Três ou quatro amigos foram comigo e, no meio daquelas bandas e daqueles instrumentos todos, não se ouvia nada de especial. E foi mesmo assim, resolvemos fazer uma banda. Foi tipo promessa: fomos ao Norte e voltámos de joelhos a Coimbra para ter uma banda. Começámos a gravar maquetas e as pessoas que fomos convidando para trabalhar no estúdio acabaram por ir ficando connosco. Quando demos por nós, éramos nove elementos mais um performer que agora está na Dinamarca.
O que é interessante é que, de súbito, vocês aparecem como um grupo completamente formado, com ideias e canções amadurecidas, como se já existissem há muito tempo... Qualquer uma das pessoas que tem um trabalho mais determinante a nível de composição já tinha um percurso musical. Muitas daquelas canções já estavam feitas no nosso baú pessoano. Foi um trabalho de dois anos. Para nós, isto é o fim de um ciclo, não é um princípio. Começou por ser uma espécie de fogo de artifício com toda a gente a querer pôr o seu pedaço de som mas, quando começámos as gravações, tentou-se elementarizar as coisas o mais possível. O que não parece nada, pois não?... Grande parte do trabalho de produção foi feito pelo Pedro Renato (que compõe basicamente as músicas), guitarrista criador de clássicos instantâneos.
Esta é uma pergunta irremediavelmente idiota que nunca se faz a ninguém mas que, no vosso caso, sinto a necessidade irreprimível de fazer: como é que chamam à vossa música? Não sei, é capaz de ter o seu quê de música-Roxy ou rock-sexy... Aos poucos, foi avançando para uma forma orquestral. Eu costumo chamar a isto "international fado" [pronunciado "feido"] porque há um trabalho de composição que não se prende com fronteiras, aceitamos claramente os nossos milhões de referências. Ao mesmo tempo, aquilo que integra mais as músicas é uma certa melancolia, um certo peso. A ideia que eu tenho é que nós estamos a fazer música portuguesa nem que seja cantada em esperanto e que contém sentimentos lusitanos e magrebinos. No grupo, há desde amantes do "easy listening" a tarados por Mozart, grandes admiradores do excesso punk fora de prazo ou da desconstrução do jazz à maneira dos Lounge Lizards. Não é um grupo rock nem super-pop mas damos uma primazia extrema à criação de melodias.
Transportaste para aqui alguma coisa da tua experiência nos Pop Dell'Arte? Nos Pop Dell'Arte descobri uma espécie de ovo de Colombo que é podermos fazer mil coisas disparatadas e levá-las muito a sério. Há por aí muita falta de libertinagem... É um bocado como aquela teoria de que, se tomares um ácido, vais ficar com espaços no teu espírito que não existiam antes. E, uma vez abertos, ficam lá para sempre. Foi o que me ficou dos Pop Dell'Arte: um belíssimo buraco que me deixou a sensação clara que é legítimo tentar fazer tudo, ser libertino, fazer o melhor antes de bater a bota.
Numa entrevista, dizias que "anda tudo a fazer merda e a olhar para o lado". É essa a ideia que tens mesmo da música portuguesa? Isso era eu (como agora o Saramago) a aproveitar o meu tempo de antena. Mas estou um bocado convencido disso. Não há nada mais horrendo do que acordar e ter uma melodia xunga na cabeça que não consigo tirar de lá... E ver toda a gente travestida de cyborg na TV e na rádio, brasileiros aos gritos a dizer "gentji boniiita!"... Embora o mau gosto já existisse por uma grande dose de falta de convicção, agora há uma imensa reverência em relação ao pop-xunga.
Embora o vosso disco me divirta muito mais, parece-me que há uma grande afinidade entre o que vocês fazem e o ponto de vista dos Los Tomatos... Os Tomatos também funcionam como uma salada de frutas. Mas eles trabalham mais dentro do espírito das danças de salão. Nós somos capazes de entrar nesse mundo mas vamos até uma sala recondita do barco do amor onde se ouve música mais intimista. Dizes que estas músicas são divertidas mas isso será mais verdade ao vivo onde tenho sempre uma sensação de "like a virgin". Ao cantá-las, preciso de ironizar porque, caso contrário, começo a chorar. Há ali coisas que são descrições terrivelmente tristes e quase fotográficas de situações que só podem ser recobertas por essa ironia.
Uma espécie de dança em cima do caixão... É uma boa descrição... Vejo TV e saio para a rua e há por aí uma tristeza desgraçada, uma morrinha constante com a porcaria de vida que as pessoas têm. Há uma necessidade de subir um bocado acima disso e viver na estratosfera. Mas, onde quer que vás, levas sempre o que vês à volta. Tanta gente indigente, tanta treta, tantos homens presunçosos nos seus fatos de macaco formalóides... O nosso proximo álbum vai ser profundamente lamechas, "muita deep, man"... "god" ao contrário é "dog", não é?...
Essa vossa farsa em torno da tragédia bebe muito das músicas do Esquível, do Martin Denny... E dos Bacharachs, da música dos policiais de S. Francisco, dos western spaghetti... Na forma como o Pedro Renato encara a escrita das canções, todas essas referências lhe são imediatamente aplicáveis na construção de uma espécie de sinfonia do "bien-être" a roçar um certo barroquismo, com as flores a sair pelo cimento... o outro lado é mais específico de mim.
Os textos que escreves saem-te espontaneamente em inglês ou já te aconteceu escrever também em português? Sai-me sempre espontaneamente em inglês. A própria língua quase transporta os seus temas. Em português, sinto menos elasticidade emocional, vejo-me quase sempre forçado ao trocadilho, à jiga-joga ou a um profundo miserabilismo. Há anos, fazia montes de letras em português mas era aquele português pretensioso dos jovens leitores de poesia eivados de sentimentos metafísicos, coisas cheias de miasmas da adolescência, uma forma muito coxa de estar no mundo, escondida atrás daqueles palácios de linguagem tipo "uivo teleológico". Como é evidente, desisti, não é? (1998)