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31 October 2019

A propósito da porno-publicidade da McDonalds, duas recordações do mesmo encontro (em diferido) com o Bloody Sunday, sob o signo de Van Morrison:


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(clicar na imagem para ampliar)

27 March 2019

ZÉNITE 


“Esquecemos muitas coisas mas há outras que não nos saem da memória. Recordo-me de quando, há 40 anos, eu e o Grant íamos a atravessar uma ponte, de carro, ele ter-me perguntado se já tinha um nome para a banda e eu ter respondido ‘The Go-Betweens’. Aquela conversa entre dois tipos de 20 anos, está agora em sinais espalhados por toda a cidade de Brisbane, e, provavelmente, vai lá ficar centenas de anos. Poderia ser o ponto de partida para um filme... Quando começamos uma banda, sonhamos com discos de ouro, tocar no Madison Square Garden, nunca pensamos que o nome dela há-de vir a ser atribuído a uma ponte da nossa cidade”, diz-me Robert Forster, a propósito de, desde 2009, Brisbane – por votação popular "online" – ter passado a incluir na sua toponímia o nome do grupo que, em 1977, ele, Grant McLennan e Lindy Morrison fundaram. Sim, os Beatles poderão ter cantado a Penny Lane, de Liverpool, Tom Waits a Kentucky Avenue, de Whittier, na Califórnia, e Van Morrison a Cyprus Avenue, de Belfast, mas, a eles, foi a cidade que lhes chamou seus. 

 
Não virá a ser, talvez, o ponto de partida para um filme – pelo menos, um filme dele: no novo álbum, Inferno, o que diz, metaforicamente ou não, em "No Fame", é “I’m going to write a novel that is set a hundred years ago” – mas, de certo modo, haverá de servir como compensação para aqueles tempos em que alguma da mais perfeita joalharia pop foi pouco menos do que ignorada e de que ele, agora, fala, sem um pingo de modéstia, em "Remain": “I know what’s like to be ignored and forgotten when yours is the name that doesn’t come up too often, big city screens, big city dreams remain, I did my great work while knowing it wasn’t my time”. E, no entanto, nestas bem-aventuradas nove canções gravadas no estúdio de Victor Van Vugt, em Berlim (onde, como Forster relata no ”Berlin Diary”, “todas as mulheres parece terem visto um fantasma”), que, no total, não vão além dos 35 minutos e se iniciam com um poema de W. B. Yeats ("Crazy Jane on the Day of Judgement"), não existe uma sombra de ressentimento. Pergunto-lhe se “Eat only what I eat, breathe only what I breathe, well that’s me”, as últimas linhas da última canção ("One Bird in The Sky"), não contém algo daquele conceito do budismo zen que aconselha a “comer quando se tem fome, beber quando se tem sede e dormir quando se tem sono” e ele responde que apenas é “adepto de dizer coisas simples mas com significado”. Seja, então, budismo zénite, o ponto mais alto do céu.

18 October 2018

O LIVRO TEM UM NOVO CAPÍTULO


Não estaríamos todos muito conscientes disso mas, já lá vai quase uma década, o tipo que escreveu "Everyday I Write The Book" ameaçou colocar-lhe o ponto final. Tinha acabado de publicar National Ransom – uma negríssima visão de um mundo onde “unusual suspects shake down various dubious characters” – e decidira que, no futuro, os palcos seriam o seu único canal de comunicação. Fiquemos, pois, eternamente gratos à última digressão que Elvis Costello realizou com os Imposters que lhe fez ver que uma tão excelente banda merecia regressar com um tão óptimo álbum como Look Now.

    Desde que, há 8 anos, publicou National Ransom, a versão oficial era que, daí em diante, se dedicaria exclusivamente aos concertos e que voltar a gravar álbuns a solo era “um livro definitivamente fechado”...

É verdade. Pensava que a forma mais útil de tirar partido do meu tempo seria interpretar as canções em palco. Foi exactamente o que fiz durante os últimos 8 anos. Isso permitiu-me chamar a atenção para algumas canções que, em disco, terão passado despercebidas e, ao mesmo tempo, continuar a cantar aquelas que as pessoas desejavam ouvir. O que é um enorme elogio: 30 ou 40 anos depois, haver quem ainda continue interessado em escutar essas músicas. Não planeei nada mas surgiram duas oportunidades para gravar: Wise Up Ghost, com os Roots, e um convite para participar em Lost On The River: The New Basement Tapes. No entanto, até ao ano passado, mantinha a ideia de que não voltaria a publicar um álbum a solo. Foi no final da digressão com os Imposters que me apercebi de que, embora tivéssemos gravado em conjunto muitas e excelentes canções, nenhum disco conseguia sequer dar uma ideia do potencial que a banda, actualmente, tem. Nesse instante, decidi que teríamos de voltar aos estúdios.


    A decisão de não voltar a gravar a solo devia-se a não existir quem estivesse interessado em publicar a sua música ou a sentir que já não tinha mais canções para escrever?

Foi uma decisão que teve a ver com a forma como desejava utilizar o meu tempo e não uma questão de inpiração, continuei a escrever dezenas de canções. Nessa altura, optar por dedicar-me exclusivamente aos concertos foi a decisão certa. É preciso saber dividir o tempo disponível pelas diferentes ocupações e responsabilidades. Não podia deixar de continuar no centro da minha família: somos pais já não jovens com filhos pequenos. De certo modo, ainda bem que pude dispor deste grande intervalo entre gravações que me permitiu avaliar melhor o que é realmente importante numa gravação.

    Na apresentação escrita que fez de Look Now, apresenta-o como algo que deve ser encarado no ponto de intersecção entre Imperial Bedroom (1982) e Painted From Memory, o álbum de 1998 que compôs a quatro mãos com Burt Bacharach que, aliás, também reaparece neste...

Não atribua demasiada importância ao facto de eu ter dito isso. Antes de alguém ter ouvido a música, pediram-me que desse uma ideia daquilo que se poderia esperar. E essa foi a melhor descrição que, na altura, me ocorreu. Os discos não são uma máquina do tempo na qual possamos entrar e recuar até ao momento em que gravámos Imperial Bedroom e Painted From Memory. Mas, do ponto de vista das orquestrações, da sensibilidade ao ritmo e à harmonia, assim como o alcance emocional que ambicionavam, esses dois tinham muitos pontos em comum. Poderia ter dito que soa como My Aim Is True ou Blood And Chocolate... qualquer par de discos meus anteriores poderia ter servido mas não daria uma ideia tão aproximada. Na verdade, soa ao que pode ser um disco meu. Não acredito que outro músico qualquer que não eu o pudesse ter gravado. Mas cada um poderá ter uma ideia muito diferente daquilo que a minha música é... se, por exemplo, for à Coreia, dir-lhe-ão que eu sou o tipo que canta "She"... (risos)


    Numa outra versão da história, terá enviado umas dezenas de canções ao baterista Pete Thomas e ter-lhe-á dito que andava com Dusty In Memphis (1969), de Dusty Springfield, na cabeça, tendo ele feito um alinhamento provisório das suas canções que procurava seguir, mais ou menos à letra, o do álbum da Dusty... Não foi esse o alinhamento definitivo, pois não?

Não. Da mesma forma que usei essa comparação com Imperial Bedroom e Painted From Memory, tive de ir dando indicações à banda acerca do que ia escrevendo. O mais significativo nesse disco da Dusty Springfield é que combina uma secção rítmica muito forte com harmonias bastante sofisticadas, por exemplo, em canções como "Just One Smile", "In The Land Of Make Believe" ou "No Easy Way Down". Não é obrigatório contentarmo-nos sempre com os mesmos três acordes. O Pete Thomas e o Davey Faragher ensaiaram exaustivamente as partes da secção rítmica de modo que, quando entrámos em estúdio, tinham adquirido uma dureza de aço sobre a qual era possível desenvolcer as canções harmonicamente, fazendo que tudo soasse como se tivesse sido fácil.

    Todas as canções deste álbum são em torno de personagens ficcionais (algumas recuperadas de gravações anteriores) mas a de "I Let The Sun Go Down" lamenta-se amargamente acerca da queda do império onde “o Sol nunca se punha”. É uma alusão aos impulsos que terão conduzido ao Brexit? 

Houve quem tivesse entendido essa canção como se eu estivesse a desenhar um quadro nostálgico em torno da saudade do império britânico. Não sou, de todo, nacionalista, não saúdo reverentemente a bandeira. Mas encaro cada pessoa tal como ela é e há uma parte de mim que é capaz de entender quem se emociona com essa ideia de império, seja o império britânico ou o império romano. Mesmo que não compreenda esse tipo de pensamento, aceito que seja importante para quem vê as coisas sob esse ângulo. E não tem nada a ver com a actualidade – é, aliás, uma canção antiga que escrevi há cerca de 7 anos – ou com o debate que o Brexit desencadeou acerca de sermos ou não europeus. Claro que somos todos europeus, trata-se apenas de discutir os termos de uma aliança e, quer façamos parte dela ou não, continuamos a ter de ser capazes de pagar as contas e continuará a existir quem lucre com isso e quem seja empurrado para fora... mas eu nem sequer tento explicar nada disso, não é a minha missão: felizmente, não sou político, sou artista, limito-me a lidar com emoções que coloco na boca de personagens.

 
    Mas, ao longo da sua carreira, tem escrito e interpretado canções abertamente políticas como "Oliver’s Army" ou "Tramp The Dirt Down" em que sonhava com o momento no qual o caixão de Margaret Thatcher desceria à terra...

São políticas na medida em que exprimem reacções emocionais relativamente a coisas que vi ou vivi e que tiveram um determinado significado. "Oliver’s Army" foi uma resposta imediata a eu ter ido a Belfast pela primeira vez e ter visto rapazes da minha idade na altura, de metralhadora nas mãos, em plena rua, tal como poderia acontecer nas ruas da minha cidade. "Tramp The Dirt Down" é uma daquelas canções que mais vale serem escritas do que guardarmos aqueles terríveis sentimentos dentro de nós. Poderia também dizer o mesmo acerca de "Bedlam", uma canção mais recente, que serviu para expulsar de dentro de mim aquilo que, se não o tivesse feito, facilmente se tornaria numa ira perigosamente irracional. Temos de escrever apaixonadamente sobre as coisas que nos são caras mas há uma forma certa para o fazer de modo a que possam exercer alguma influência no modo como as pessoas pensam, diferentemente da lábia enganadora utilizada pelos políticos: são eles que põem a circular slogans insensatos, são eles que mentem, que enchem os bolsos, corrompem e se deixam corromper. Todos eles, independentemente das bandeiras que empunham.

    Mesmo que apenas subconscientemente, a energia que reencontrou para a gravação deste álbum poderá também ter alguma coisa a ver com o facto de, a meio do processo, lhe ter sido diagnosticado um problema oncológico que, sendo precocemente detectado, foi resolvido com sucesso?

Apesar de, ao contrário do que eu desejava, os tablóides teram noticiado esse assunto de uma forma estupidamente melodramática, felizmente, recuperei por completo. Claro que isso pode ter-me influenciado no sentido de procurar fazer tudo o melhor possível, de me assegurar que este álbum deveria ser algo de que me deveria orgulhar. Mas a verdade é que nunca entrei em estúdrrrrrio com outra atitude que não essa.

29 December 2015

ENCOSTAR O OUVIDO AO CHÃO 



Para desenhar mentalmente um cenário do útero urbano onde foi gerado Astral Weeks (1968), não é absolutamente indispensável conhecer a bastante deprimente Belfast. Em particular, se, como aconteceu comigo, esse conhecimento tiver ocorrido no dia a seguir aquele em que se comemorava o 25º aniversário do Bloody Sunday – quando, a 30 de Janeiro de 1972, em Derry, o exército britânico abateu a tiro 14 manifestantes desarmados –, com a ocupação militar da cidade a reflectir o sufocante patrulhamento religioso, rua a rua, igreja católica, sim, igreja protestante, não, sob um céu (como diria Jacques Brel) “si gris qu'un canal s'est pendu, un ciel si gris qu'il faut lui pardonner”. Mas foi essa a data na qual, em 1997, Van Morrison apresentou ao vivo, no Waterfront Hall, o seu recém-publicado The Healing Game.



Não será, de facto, indispensável conhecer Belfast mas ajuda a identificar nomes e moradas: a Cyprus Avenue “with a childlike vision leaping into view” onde “all the little girls rhyme something on the way back home from school and the leaves fall one by one, by one, by one, call the autumn time a fool”, e “the one and only Madame George (…) jumps up and says Lord have mercy, I think it's the cops, and immediately drops everything she gots, down into the street below, and you know you gotta go, on that train from Dublin up to Sandy Row, throwing pennies at the bridges down below”, a avenida, atravessando a linha de comboio, do outro lado da pobríssima Beersbridge Road e do 125 de Hyndford Street “where you could feel the silence at half past eleven on long summer nights, as the wireless played Radio Luxembourg, and the voices whispered across Beechie River”. Como quem encosta o ouvido ao chão da cidade e pressente a vibração distante das sublimes oito faixas de um dos dois ou três mais perfeitos álbuns de sempre. E que, por isso mesmo (não se aperfeiçoa o que é perfeito), nesta ou noutra reedição dispensaria quaisquer bónus ou faixas extra. Algo que, talvez se justifique em His Band And The Street Choir, pela razão de ser apenas excelente e porque isso contribua para nos darmos conta de como, em 1970, o caldo de cultura de que emergiria Springsteen (“Para nós, Astral Weeks era uma religião”) já fervilhava ali.