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07 June 2016

GENEALOGIAS

  
Os dois pares de irmãos Dessner e Devendorf e (em menor grau) Matt Berninger – isto é, The National – estão em acelerado processo de se converterem numa daquelas centrais nucleares de produção musical que, mais tarde ou mais cedo, tornarão indispensável a organização de uma árvore genealógica para que consigamos orientar-nos sem tropeções através do seu superlotado labirinto. Não esgotando o assunto e começando por Bryce Dessner, bastará recordar as colaborações com o New York City Ballet, Filarmónica de Los Angeles, Kronos Quartet, Richard Reed Parry, Nico Muhly, Sufjan Stevens, Jonny Greenwood, Steve Reich, Matthew Ritchie, a co-composiçao (com Ryuichi Sakamoto e Alva Noto) da banda sonora para O Renascido, a criação da editora Brassland e do festival MusicNow, em Cincinnati. Dando lugar ao gémeo, Aaron, inventarie-se a produção de bandas e músicos como This Is The Kit, Sharon Van Etten, The Lone Bellow e Local Natives, o alistamento nas hostes instrumentais de David Byrne, Grizzly Bear ou My Brightest Diamond, e a fundação dos festivais de Eaux Claires, no Wisconsin, e Boston Calling, devendo ainda associar-se-lhe o nome a várias das iniciativas atribuídas a Bryce, de que as mais relevantes serão Dark Was The Night (2009) e a edificação do recentíssimo altar de culto aos Grateful Dead, Day Of The Dead, que envolveu praticamente a totalidade da "intelligentzia indie" & adjacências norte-americanas.


Extracurricularmente, Matt Berninger ensaiou o pouco entusiasmante projecto EL VY com Brent Knopf, dos Menomena, e Bryan e Scott Devendorf, dupla de genuíno "drum & bass" orgânico, a quem The National deve bem mais de dois quintos da sua personalidade, ouvimo-los, apenas, em diversos dos antes referidos e no perímetro experimental Pfarmers. Mas poderemos escutá-los também, agora, em trio com Ben Lanz, dos Beirut, e anunciando-se como LNZNDRF (ler “Lanzendorf”). Conta a lenda que, no início, foram apenas uma solução de recurso para a ausência de uma "support band" dos National, em Auckland, na Nova Zelândia. A verdade é que o resultado de uma prolongada "jam" de dois dias e meio numa igreja de Cincinnati deu à luz algo que, não sendo imaculado, dir-se-ia o intrigante elo perdido entre os Joy Division e o "krautrock", achado, sabe-se lá porquê, num arquivo perdido dos Pink Floyd na 4AD.

22 April 2015

UNIVERSO PERPENDICULAR 


A catedral de Winchester, no Hampshire (dedicada a St. Swithun, grande especialista do muito apreciado milagre rural da reconstituição de cestas de ovos partidos), teve origem num velho mosteiro do século VII mas a sua estrutura e configuração definitivas – possui a nave mais longa e o maior comprimento total de qualquer catedral gótica da Europa – só cerca de 1528 seriam atingidas, descontando reparações e ampliações menores posteriores. Kate Stables agarra-se à História e argumenta que “a grande arte precisa de tempo: Winchester, o lugar onde nasci, costuma ser definido como uma cidade medieval romano-saxónica. A catedral começou a ser construída há mais de mil anos e, desde então, têm continuado a trabalhar nela”. O intuito é, afinal, justificar o motivo pelo qual This Is The Kit, banda surgida em 2006, só agora publica o terceiro álbum, Bashed Out, e apresentar atenuantes para o facto de os anteriores (Krulle Bol, 2008, e Wriggle Out the Restless, 2012) terem passado praticamente indetectados pela maioria dos radares. 



Tenha sido ou não importante o grande escultor de Yourcenar, realmente decisivo foi o apadrinhamento de Aaron Dessner, dos National, na qualidade de produtor, que, para Bashed Out, além da geometria mais ou menos variável dos TITK – Stables, compositora, voz, banjo e guitarra; Jesse D Vernon, baixo, guitarra e violino; Jamie Whitby-Coles, bateria; Rozi Plain, voz e guitarra –, cuidou de recorrer a doadores sonoros oriundos dos Walkmen e Beirut, e ao irmão, Bryce. A presença dos gémeos Dessner e acólitos poderá, sem dúvida, contribuir para a sensação de estarmos perante o que, num universo perpendicular, seria um (óptimo) álbum dos National em declive folk: tela impressionista atravessada por rastos líquidos de guitarra, delicados remoinhos de joalharia electroacústica, estojos de sopros e cordas resguardando melodias astrais, algo como uma tapeçaria de lullabies lunares em fio de seda, murmúrio de fundo para a aproximação de silenciosas tempestades (“we’ve been getting most mightily filthy, mud marks up to our necks”). Ou, então, se calhar, apenas o eco distante de uma Sandy Denny wittgensteiniana que, do fundo da ábside de uma catedral, fosse capaz de clarissimamente enunciar “blessed are those who see and are silent”.

23 November 2010

IDENTIDADES TROCADAS
 

München - Chaquiego
 
 

Peixe:Avião - Madrugada

Só pode ser um caso de personalidades trocadas. Porque, havendo que optar por um nome que se colasse como luva à mão para descrever a música dos autores de Chaquiego e Madrugada, muito mais facilmente se diria que o primeiro seria assinado por uma banda de nome Peixe:Avião e o outro por uns tais München. Confirma-se em absoluto: vivem-se tempos interessantes na música portuguesa e o facto de não ser exactamente intuitivo adivinhar a quem atribuir os documentos de identificação correctos é apenas mais um sintoma de que as coordenadas estéticas se encontram saudavelmente baralhadas e desalinhadas.

Prestemos, então, atenção a Chaquiego. Há quatro anos, Fala Mongue aterrava discretissimamente, qual tuna de selenitas em demanda daquela espécie de “surruralidade” de que terão ouvido Tom Waits falar, numa emissão de rádio captada, por acidente, a 384.405 quilómetros de distância. Eles mesmos preferem aludir a “mecanismos de precisão enferrujados, cordas em desuso e percussões em multiusos”, num processo deliberado de “confundir próprios e alheios”.



João Nicolau (que também realiza filmes com barcos de piratas tecnológicos, caleidoscópios felinos e personagens que praguejam "Holy Santa Maria fuck!" enquanto actuam de acordo com o lema, "sonho, amor, arte, ciência, literatura, música, tecnologia, café e rum" – falo do recente A Espada e A Rosa exibido no festival de Veneza), Mariana Ricardo (que, com Nicolau, recentemente sonorizou “The Secret Museum of Mankind”, uma singularidade fotográfica de 1935) e restante trupe de variabilíssima geometria reincidem, pois, agora, soltando o dirigível baptizado Chaquiego, programa de legos sonoros em défice de peças, de valses-musettes interpretadas por mendigos ébrios da Transnístria, de canções de roda para infantes com cometas encravados na garganta, de cerimónias tribais dos pigmeus do jardim das Hespérides. Aquele género de música que, sem se esforçar demasiado, Alexandre O’Neil poderia ter definido como “em forma de assim”. Ou, empenhando-se um pouco mais, “em forma de peixe:avião”.



Madrugada, cujos autores, frequente e equivocadamente (desde 40:02, de 2008), se têm visto visto associados à descendência-Radiohead, é objecto francamente urbano. E muito mais daquela urbanidade musical – mesmo que eles não se apercebam disso – com que o mundo travou conhecimento há vinte e tal anos, fruto de sismo estético com epicentro no eixo-Manchester-Liverpool. Quase invisível e subliminarmente, contaminada igualmente pelas réplicas locais tal como a Sétima Legião, na altura, as registou, ocorrência só neste momento, porém, de consequências verificáveis, mais a Norte, em Braga. O que, com tal perfil (para mais, enriquecido e amplificado pelas participações de Manuela Azevedo, dos Clã, e de Bernardo Sassetti) seria coisa para se imaginar criada por uma agremiação a quem um nome geograficamente definido vestiria bem. Como Warsaw. Ou Portishead. Ou Beirut. Ou München.

01 March 2010

ONDE O SOL NUNCA SE PÕE



Clare & The Reasons - Arrow

O aparelho de televisão do apartamento de Brooklyn de Clare Muldaur e Olivier Manchon raramente deverá estar sintonizado nos canais noticiosos, preferindo-lhes, de certeza, aqueles que exibem, em permanência, comédias românticas, com Breakfast At Tiffany’s no topo da playlist. Sim, porque, no universo privado de Clare & The Reasons, o Afeganistão é um aprazível destino turístico, a Mossad uma espécie de Clube do Rato Mickey mais atrevido e Ahmadinejad um senhor muito simpático, parecido com o dono da "deli" do bairro que lhes vende os "bagels" quentinhos para o pequeno-almoço.



Quando gravam discos, convidam os amigos dos National, Beirut e My Brightest Diamond para fazer uma perninha e, algures entre o classicismo dos Beatles e aquela "good-old-time-music" que Lullaby Baxter, Shivaree ou Lonely Drifter Karen também exploram, criam melodias trauteáveis com arranjos sofisticados (para o primeiro e anterior CD, Movie, chamaram Van Dyke Parks e Sufjan Stevens), sobre as quais o sol nunca se põe e o copo está sempre meio-cheio. É bonito e dispõe bem mas um fim-de-semana na Somália era capaz de os espevitar um bocadinho.

(2010)

08 June 2008

A MÁQUINA DO TEMPO



A Casa da Música poderá ter o perfil de uma nave espacial – e, enquanto nos perdemos no seu interior, a revisão mental de duas ou três sequências do 2001, de Kubrick, é quase compulsiva – mas, no final da semana passada, durante o concerto dos Young Marble Giants, transformou-se, na verdade, em máquina do tempo. Que nos transportou não exactamente a 1980 (data de edição de Colossal Youth, o único álbum do grupo de Cardiff) mas, muito mais atrás, àquele instante fundador em que, no caldo de cultura primordial da história imaterial do planeta, se geraram as moléculas iniciais de onde se constituiria a música tal como os humanos a viriam a praticar. Um microsegundo antes e seria o silêncio: melodias a um passo da inexistência, harmonia como exercícios de pura abstracção geométrica, sem lápis, sem régua e sem papel, e uma pulsação rítmica cuja finalidade é apenas conservar os sinais vitais de cada frágil organismo sonoro que, mal emerge, logo se extingue. Sobrenaturalmente idêntico ao que se escuta na colossal e irrepetível gravação mas, se calhar, por efeito de condicionamento da arquitectura da cápsula, capaz de nos deixar sem fôlego perante a intrigante sensação de, pela primeira vez, o estarmos a testemunhar.



Logo a seguir, na noite de “clubbing”, os Vampire Weekend fizeram todo um peculiar sentido: o grau de complexidade da sua pop situa-se só dois ou três degraus acima do diagrama-YMG (tal como aconteceu, aliás, com todas as bandas de oitenta que, sobre as peças do Lego de Alison Statton e dos irmãos Moxham, recompuseram o vocabulário que o punk reduzira a escombros) mas, da imensamente falsa ingenuidade de fortuitos descobridores das virtualidades do matrimónio da pop com uma visão de operador turístico da música africana, abre-se uma porta para algo de absolutamente necessário e urgente: a perda definitiva do pesado lastro de “etnicidade” e – da mesma forma que acontece com os Gogol Bordello, Beirut ou Chicha Libre – a sua gloriosa transfiguração em pura matéria sonora destinada a processamento segundo a indiferenciada e descomprometida lógica-pop. O que Presley ou os Stones realizaram sobre os blues ou a country, realizam-no agora eles sobre a música de imaginários Balcãs, Peru ou Nigéria e, no caso dos Vampire Weekend, como pretexto para uma escrita de canções de irónica erudição, poder de engate instantâneo e só aparentemente (como exigem os melhores tratados) frívola e ligeira. Que a única “autenticidade” detectável resida na sua indisfarçável condição de betos da Ivy League apenas acrescenta sal e pimenta à coisa.




(2008)

17 April 2008

SUPERMELODRAMA


Devotchka - A Mad And Faithful Telling

Tudo começou há vinte e tal anos com as experiências de fusão entre pop e “world music” de Paul Simon, David Byrne, Peter Gabriel ou Hector Zazou. Em rigor, terá começado, talvez, bastante antes disso, por impulso do Tropicalismo brasileiro – mas, como os ingredientes “world”, no caso, decorriam da natureza dos próprios músicos de quem partira a iniciativa da experiência, nem sempre é contabilizada como tal. Se insistirmos mesmo em colocar-lhe uma data fundadora, então, terá, inevitavelmente, de ser a de 29 de Junho de 1987 quando, no pub do norte de Londres, "Empress Of Russia", três dezenas de “media operators” cunharam a designação “world music".


Mas, no entanto, em todos os inúmeros exemplos que, desde aí, ocorreram, nas mais desvairadas declinações – dos Transglobal Underground e Loop Guru às “jams” de Lee Ranaldo com os Master Musicians Of Jajouka, aos Saqqara Dogs, Hedningarna ou Gaiteiros de Lisboa –, persistia um excesso de “desejo de autenticidade” e ausência de descaramento genuinamente “fake” que lhes impedia (quer o desejassem ou não) o acesso claro e indiscutível ao universo pop. Foi, justamente, isso que, provavelmente, começou a mudar nos últimos tempos com o aparecimento de diversas bandas que, não sentindo a menor necessidade de exibir “pedigree” na coisa folk/world, se apropriaram, sem cerimónias, do que imaginam – com “autenticidade” infinitamente variável – serem as diversas tonalidades das músicas do mundo e, como tal, as incorporaram naquilo que vão engendrando. Enumerem-se, pois, Vampire Weekend, A Hawk And A Hacksaw, Balkan Beat Box, Gogol Bordello, Beirut, Black Ox Orkestar, Golem, The World Inferno Friendship Society e, agora, os Devotchka. Por algum motivo, com excepção dos Vampire Weekend, todos garimpam na mesma mina eslava/balcânica/cigana e, a partir daí, em modo estético-do-it-yourself, inventam regiões demarcadas pop alternativas que dão por nomes como “gypsy punk”, “world culture clash” ou, segundo os Devotchka, “supermelodrama”.



A quem, por ínvios caminhos, o selo de garantia pop nunca poderá ser negado: originários de Denver, no Colorado, incluem um cantor-compositor de ascendência siciliana e cigana, um baterista-trompetista de raíz punk, devoto de mariachi e educado a escutar polcas lituanas, uma baixista/sopradora de sousafone com currículo em bandas revivalistas da Guerra Civil e um violinista de formação clássica. No muito promissor início de carreira, acompanharam os espectáculos de strip-tease “burlesque” da ex-Mrs Marilyn Manson, Dita Von Teese, num inesperado salto quântico, encarregaram-se da mui louvada banda sonora do oscarizado Little Miss Sunshine (2006) e, agora, com A Mad And Faithful Telling (título inspirado em Edgar Allan Poe), a banda portadora de um nome surripiado à Laranja Mecânica de Kubrick propõe-nos mais um soberbo pitéu de “post-millenial multiculturalism” que seria insensato recusar. Um dia, o filão de leste também há-de esgotar-se mas, por enquanto, o empreendimento até nem está a correr nada mal. (2008)

22 February 2008

IVY LEAGUE POP



Vampire Weekend - Vampire Weekend

A Ivy League é constituída por oito universidades da Costa Leste dos EUA – Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Pennsylvania e Yale – que, em consequência do seu elevado nível de exigência académica (todas se situam no top do ranking universitário do “U.S. News & World Report”), converteram a própria expressão “Ivy League” num sinónimo de elitismo, selectividade e excelência. O Upper West Side é um bairro de Manhattan que, tendencialmente, atrai a burguesia novaiorquina afluente (o rendimento médio familiar ultrapassa largamente a média da cidade), liberal e com inclinações artísticas. Cape Cod é uma península localizada na costa do Massachusetts, estância de férias de Verão preferida de “ricos e famosos”, caso, desde há quatro gerações, da dinastia-Kennedy. Fim da lição de geografia-socio-política norte-americana e passagem de testemunho instantânea para os Vampire Weekend: Ezra Koenig (cantor e guitarrista), Chris Tomson (baterista), Chris Baio (baixista) e Rostam Batmanglij (produtor e teclista), quatro recém-graduados da “Ivy Leaguer” Columbia University – no Upper West Side –, ainda durante o tempo da faculdade, formam uma banda que, segundo eles mesmos facilmente confessam, pratica um híbrido musical que designam alternativamente como “Upper West Side Soweto”, “Cape Cod Kwassa Kwassa” ou “Campus and Oxford Comma Riddim”. Tradução: se, com os Beirut, Zach Condon se imaginou, sucessivamente, zíngaro balcânico, boémio parisiense e as duas coisas ao mesmo tempo, por que motivo não poderiam quatro moços absurdamente betos mas eruditos e de impecável gosto musical, nas suas camisas Ralph Lauren, sapatinhos de vela e polos Lacoste, inventar aquela variedade de afropop ao som do qual, numa das “short stories” de Salinger, Franny e Zooey Glass mui alegremente dançariam?



Não avancemos, porém, tão rapidamente: se, desde que o “buzz” na Internet à volta dos Vampire Weekend arrancou, não há site nem blog que não se sinta na obrigação de referir Graceland, de Paul Simon, como trampolim primordial para a música da banda (o que até é rigorosamente verdade e uma faixa como, em particular, a propriamente dita “Cape Cod Kwassa Kwassa” não engana ninguém), é preciso reparar que a paleta de cores é consideravelmente mais ampla. Eles, tal como Zach Condon se referia à música dos filmes de Kusturica e do Taraf de Haïdouks, recordam-se que tudo terá começado com a escuta de um álbum oriundo de Madagascar e acrescentam-lhe Ladysmith Black Mambazo, Kanda Bongomen, Orchestra Baobab, Beethoven, a Band, Elvis Costello e os Squeeze. Mas nós que, por estarmos de fora, ouvimos, de certeza, muito melhor do que eles, apercebemo-nos perfeitamente de que, no tubo de ensaio estético onde esta aventura sonora se gerou, outros reagentes – Talking Heads, Feelies, Orange Juice, bastante ska, highlife e pós-punk, doses homeopáticas do que de melhor conseguiram extrair dos despojos dos Police e apenas o justo q.b. de “classicismo” tal como os Arcade Fire o supõem – se encontravam em presença.



Lancem-se, pois, com inteira justificação, os foguetes: nesta impuríssima obra-prima do género “fake” (que, recuperando o formato pop ideal, não chega aos quarenta minutos de duração), por entre linhas de baixo pneumáticas, motivos de guitarra aracnídeos, violinos barrocos e sobressaltos polirrítmicos de percussão, Louis Vuitton rima com Reggaeton e Benetton, polemiza-se civilizadamente sobre correcta pronúncia e pontuação (“Who gives a fuck about an Oxford comma? I climbed to Dharamsala too, I met the highest lama, his accent sounded fine to me”), personagens que nunca respondem por nomes próprios desagradavelmente comuns como Bill ou Jack mas, sim, Blake ou Walcott melancolizam irónica e suavemente sobre as agruras da vida sentimental no “campus”, arquitectura e turismo cultural e, cereja sobre o bolo, com a elegância que seria de esperar, no refrão de “Kwassa Kwassa”, não se esquecem de exercer o imprescindível auto-sarcasmo quando cantam “But this feels so unnatural, Peter Gabriel too”. Pode não se gostar muito destes tipos? (2008)

20 January 2008

GO EAST/GO WEST



Beirut - The Flying Club Cup

No primeiro álbum, Gulag Orkestar (2006), Zach Condon, americano de Santa Fe, criou a sua ficção privada do que seria a música cigana dos Balcãs – já a Black Ox Orkestar, os Gogol Bordello, The One Ensemble ou A Hawk and a Hacksaw haviam bebido desse cálice –, tal como a escutou nos filmes de Kusturica e nos discos do Taraf de Haidouks. A relação não seria etnomusicologicamente exacta (tal como Beirut – a cidade – se situa um nadinha mais a Leste) mas o álbum era muito bom. Em The Flying Club Cup, aparentemente, o eixo de referências ter-se-à deslocado para Paris (acerca da qual, Condon cita recorrentemente Jacques Brel – alguém que o esclareça sobre a sua nacionalidade belga), “chanson & musette” incluídas. Detecta-se, de facto, um ou outro aroma de Beaujolais e Veuve Cliquot sem que isso, no entanto, tenha anulado os intensos odores “balcânicos” anteriores. Esses e os também muito presentes de Stephin Merritt, Divine Comedy, Rufus Wainwright (felizmente q.b. e só q.b.) e mesmo Sufjan Stevens. O “bouquet” ficou consideravelmente enriquecido e há que dizer que o potencial desta estética-InterRail ainda mal começou a ser explorado.

(Vive La Blogothèque!)


















(2007)

01 January 2008

MÚSICA 2007 - IV (CD & DVD)
(a classificação, por ordem decrescente, deverá ser vastamente relativizada)



1 - THE NATIONAL - BOXER

2 - Robert Wyatt – Comicopera

3 - Rachel Unthank & The Winterset – The Bairns

4 - Hanne Hukkelberg – Rykestrasse 68

5 - Mirah & Spectratone International – Share This Place: Stories And Observations

6 - Beirut – The Flying Club Cup

7 - Gogol Bordello – Super Taranta

8 - Jens Lekman – Night Falls Over Kortedala

9 - The Fiery Furnaces – Widow City

10 - Bruce Springsteen – Magic

O álbum que marcou indelevelmente 2007 – In Rainbows, dos Radiohead – nunca entraria numa lista dos 50 melhores, do ponto de vista estritamente musical. Porque, não tendo sido, mais uma vez, um ano em que fosse possível identificar sinais proféticos de alguma transformação germinando profundamente nas entranhas da pop – qual foi a última vez que isso aconteceu? quando voltará a ocorrer? –, a verdade é que, se seleccionar um top-10 foi um acto de consagração da sobreexcelência da dezena eleita, não foi menos uma violenta injustiça para muitos dos que acabaram por ter de ser excluídos. Que conste, pois: todas as fúrias do inferno deverão justissimamente abater-se sobre quem optou por não incluir aí Sweet Warrior, de Richard Thompson, Shades of Dorian Gray, de Danny Cohen, Kismet, de Jesca Hoop,
Population, de The Most Serene Republic, The Unfairground, de Kevin Ayers, Apples, de June Tabor, Armchair Apocrypha, de Andrew Bird, Les Piqûres D’Araignée, de Vincent Delerm, A Love Of Shared Disasters, dos Crippled Black Phoenix, The Great Unwanted, dos Lucky Soul, Lucas, dos Skeletons And The Kings Of All Cities ou, para não agravar perigosamente demais o caso, White Chalk, de PJ Harvey. Mas não houve mesmo nada, nadinha, que se possa dizer ter sido “a marca” de 2007? Pronto, para não estragar as festas, façam então o favor de reparar na emergência do factor eslavo/balcânico dos Beirut e Gogol Bordello.

(2008)