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30 March 2026

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (CIII

 (com a indispensável colaboração do R & R)
 
Claire Hamill - Voices (na íntegra aqui; clicar na imagem para ampliar)

03 October 2023

 
(sequência daqui) "A mais imaterial das artes", em Ticket To Fame, emergiu de um processo informal de composição, no qual, uma vez sintonizado o "writing flow", as canções "transpiravam com agilidade". Entre um estúdio de Colónia (Alemanha) - "uma nave espacial recheada de sintetizadores: um Prophet, um modular, um Juno, um Jupiter, um Rodeo, um com o desenho de uma abelha e outro dos anos 80 que a Kate conhecia", conta Deradoorian -, uma sala de ensaios de Los Angeles e um roupeiro onde gravaram as vozes, erguer-se-ia-se-ia um jogo de transparências sonoras em modo de geometria colorida mais leve do que o ar, que tanto pisca o olho aos Talking Heads como à 9ª de Beethoven, a Laurie Anderson e aos Gershwin, ou verte o "ennui" contemporâneo em poesia Dada/lista de compras: "Anatomy bathing suit, real life potato head, kitty thief piggy bank, lizard glow bowling ball".

05 February 2023

"Story Of Blood" (c/ Weyes Blood)
 
(sequência daqui) Após uma troca de cartas com John Cage e Aaron Copland, conseguiria, via-Leonard Bernstein, uma bolsa de estudo para o Tanglewood Music Center, no Massachusetts. Mas, rapidamente se desentendeu com Copland que lhe fez saber que não o autorizava a tocar a sua música em Tanglewood; “Disse-me que era demasiado destrutiva e não queria que eu lhe desse cabo do piano”. Mais tarde, num dos fugazes momentos de aproximação entre ambos, Lou Reed diria “Só espero que, um belo dia, John seja reconhecido como Beethoven ou outro compositor dessa grandeza. Ele sabe muito de música apesar de ser completamente louco. Mas isso é por ser galês”. Mais amadurecidamente, Cale recordaria as hesitações iniciais; “Quando tocava com as minhas bandas, tinha tendência para acreditar que o rock não estava dentro de mim mas ao meu lado. Via-o não muito longe mas não o encarnava. Mas o rock estará sempre presente no meu trabalho, qualquer que seja o projecto em curso. Não quero nem seria capaz de lhe virar as costas”. (segue para aqui)

16 April 2021

"Hypnotized" (comparar video aqui)

(sequência daqui) A verdade é que tanto Merrill como Nate são um verdadeiro caldeirão cultural. Ele, devoto de “Red Hot Chili Peppers, George Clinton, Bootsy Collins… o meu pai era um pouco snob musicalmente e preferia jazz e Beethoven, a minha mãe ouvia Beatles, Michael Jackson, Earth Wind & Fire”; ela, fã de “Deerhoof mas também David Bowie, Laurie Anderson, gente que integrava a 'performance art' na música. Em termos especificamente musicais, Joni Mitchell, as Zap Mama, pela forma como exploravam a voz como um instrumento rítmico, Bobby McFerrin, e os Beatles, pela riqueza e complexidade que injectaram na canção pop”. Tudo isso, porém, submetido à norma de nunca pisar a linha proibida: “É muito importante e desejável que os músicos se influenciem uns aos outros mas, actualmente, não é, de todo, possível continuar a fingir que ignoramos como as pessoas negras são tratadas. Não somos uma banda famosíssima mas não queremos alinhar nesse fingimento. O que vivemos não pode ser aceite como normal”. A normal anormalidade dos quatro intermináveis anos do pesadelo Trump, “uma agonia perante a rejeição dos outros assente na mitologia de quem somos ‘nós’ e quem são ‘os outros’. Os músicos brancos podem sempre refugiar-se naquele lugar comum de que a música é uma linguagem universal. Mas não podem fingir que não reparam – aqui como na Europa – que as nossas sociedades serão cada vez menos brancas. Se não formos capazes de lidar com essa interiorização do pensamento racista sobre a forma como se encara a diferença, irão existir mais erupções de violência como as actuais”.

 

Sketchy é, entretanto, um reflexo exuberante, ritmicamente arrebatado e multicolorido de tudo isto: “Fazemos música e uma parte importante disso é um convite à alegria e a movimentarmos o corpo, o que é tanto uma celebração da vida como um exame de tudo o que temos estado a falar. Quando eu e o Nate nos juntámos quisemos redescobrir o prazer primordial de fazer música. As cores garridas da capa deste álbum representam um pouco esse desejo de continuar a olhar para o sol embora saibamos que ele nos pode cegar”. O que, contudo, nunca a impedirá de observar e desmontar cirurgicamente a sapiência dos mestres como acontece, logo a abrir, em "Nowhere, Man", quando canta “Seems like Jesus and Dylan got the whole thing wrong, if you cannot hear a woman then how can you write her song?”. "Just Like A Woman"? (risos) “Anda toda a gente a tentar descobrir quem é essa ‘woman’. Mas podem ser muitas... essa, a de ‘Lay Lady Lay’, a de ’Like A Rolling Stone’... o meu pai era um enorme fã do Bob Dylan e aí eu reflicto sobre como a minha história enquanto mulher teria já sido escrita nessa altura. E como essa percepção do que uma mulher é foi escrita por quem nunca viveu num corpo de mulher”.

22 March 2021

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXVII)


(clicar na imagem para ampliar; a "perca" - a "bold" e tudo - em vez de "perda" é indesculpável...; ver também aqui)

03 March 2020

PENSAR EM VOZ ALTA

  
Procure-se “Babehoven” no Google e, inevitavelmente, leremos no topo da página “Será que quis dizer: Beethoven?” O jogo ortográfico-fonético é, evidentemente, deliberado e, se não deveremos estar à espera de uma 10ª sinfonia do mais ilustre cidadão de Bona, em Demonstrating Visible Difference of Height podemos, de certeza, contar com um peculiaríssimo pedaço de rock "indie" norte-americano, de uma banda “de Filadélfia, via Los Angeles (via Portland)” – como pode ler-se na sua conta de Twitter cujo "header" é um retrato do velho Ludwig Van pintado por Joseph Karl Stieler em 1820, a que se sobrepõe uma fotografia de Maya Bon (metade dos Babehoven de que, actualmente, a outra metade é o guitarrista e "sound artist", Ryan Albert, tamém em acção nos Pornog e The Metabolic Studio) adequadamente “beethovenizada”. 

"Maybe I'm Bitter" ("Director and Animator Brin Gordon is a transdisciplinary artist and Pataphysician who uses writing, performance, and video to explore processes of meaning. Their work looks at the intersections and boundaries between forms of knowledge as diverse as poetics, science, and common sense to study the ways in which subjectivity is created and in turn creates the world around it")
 
Após 2 EP – Sleep (2018) e Solemnis (2019) – nos quais se adivinhava uma personagem algures entre Kristin Hersh e Stephen Malkmus iluminada por uma muito vaga memória da country, desta vez, o cenário foi o dos bosques de Vermont, onde, durante três meses, foram concebidas e gravadas as cinco faixas de Demonstrating... O que, se favoreceria o registo intimista de diário, na verdade, abre-nos as portas para um mapa de ruminações maravilhosamente desordenadas acerca do mundo, das gentes e das coisas, como quem pensa em voz alta, falando sozinho. Um exemplo basta: Maya confidencia-nos “I’m allergic to pollen, was stuck in my bed, drained of all energy, pressure in my head”; a terapêutica (“went to the salon to treat myself, searching for a way to restore my health”) conduz a um mea culpa embaraçado (“They charged me 500, I feel like a dud”) que aterra em fúria contra as pérfidas sereias do consumismo: “ As the world is depleted I paid 500 dollars to silken my hair, I feel awful, so much for self care, (…) having short hair as a femme 2019, feels like I don’t know my body, feels like I am just nobody, unless I have some silky soft hair down my back”. De onde esta veio, haverá muitas mais.

30 October 2019

Beethoven - Piano Concerto No 1 in C major Op 15 (Khatia Buniatishvili, piano; Israel Philharmonic Orchestra dir. Zubin Mehta)

01 October 2018



“Beethoven atingiu tamanha e tão súbita notoriedade com a Quinta e a Nona Sinfonia que não teve outro remédio senão compor as outras sete, para preencher lacunas. Há uma certa injustiça ao falar-se no seu Concerto em Lá Menor, porque lá maior era ele, não há dúvida” (José Sesinando - Obra Perfeitamente Incompleta)

29 November 2017

NÓS


“Para quê, para que servem os poetas em tempo de indigência?”, pergunta Hélia Correia pela voz de Amélia Muge, citando o Hölderlin de “Pão e Vinho”. Não terão, porventura, ainda reparado mas, no que acabaram de ler, está, senão a totalidade, pelo menos, a semente de Archipelagos - Passagens, de Amélia Muge e Michales Loukovikas. Esta atribuição de autoria está, entretanto, tremendamente amputada. Acrescentem-se, então, como se deve, Armando Soares, Euripides, Fernando Lopes-Graça, Fernando Pessoa (bilingue), Giorgos Andreou, Giorgos Mitsakis, João de Deus, José Gomes Ferreira, José Niza, José Saramago, Beethoven, Manos Achalinotópoulos, Martín Codax, Panagiotis Tountas, Rosalía de Castro, Safo, Vasilis Tsitsanis e Violeta Parra. Aos quais, enquanto co-autores, haverá de se adicionar António José Martins e Filipe Raposo, duas dezenas de instrumentistas lusos e helénicos, três corais, a Orquestra de Cordas Palhetadas Tanassis Tsipinakis, e as vozes (faladas) de Maria José Muge e Hélia Correia.



Talvez não capaz de rivalizar com as 18 000 ilhas do arquipélago da Indonésia, mas, ainda assim, quanto basta para, em exercício de geometria vertiginosamente variável, os articular num amplo mapa que se alarga do Médio Oriente à Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), do Mediterrâneo ao Atlântico. Esta, a cartografia exterior. Porque aquilo a que, na verdade, deverá prestar-se atenção é ao labirinto de sentidos, palavras e ideias que é obrigatório percorrer para que “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, nós, os que reduzimos a beleza a pequenas tarefas, nós, os pobres adornados, os pobres confortáveis, os que a si mesmos se vigarizavam olhando para cima, para as torres, supondo que as podiam habitar” consigamos descobrir o que há de comum e o que distingue Ítaca da Utopia, de Thomas More, como navegar entre "bulerias" e mornas nas ondas de Codax, qual o elo entre a Trácia e a Galiza, entre divertimentos exdrúxulos e as personas de Pessoa. Com a bússola de A Terceira Miséria, de Hélia, nas mãos de Amélia Loukovikas, a (des)orientar o percurso dos “emudecidos, irmanados com os sem-terra, nós, os futuramente esfomeados, bárbaros com os pés no alcatrão, bebedores de petróleo” que se interrogam: “De que armas disporemos, se não destas que estão dentro do corpo: o pensamento, a ideia de polis, resgatada de um grande abuso, uma noção de casa e de hospitalidade e de barulho?”.

28 November 2017

A IDENTIDADE É UM BICHO IRREQUIETO


Amélia Muge e Michales Loukovikas tinham-se encontrado, pela primeira vez, há seis anos, à volta de O Ouro do Céu, livro e CD contendo a poesia de Ares Alexandrou. Logo a seguir, em 2012, Periplus - Deambulações Luso-Gregas propunha-se aferir “a possibilidade de partilha de um território cultural e musical por Portugal e pela Grécia” apenas subordinado a uma fantasia: “ser marinheiro de um barco grego que entra num porto e se apercebe que está lá fundeado um barco português; à noite, vamos à única taberna do porto e os gregos começam a cantar as suas canções, depois, os portugueses, e, no final, acabamos a cantar juntos”. Após o entreacto de Amélia Com Versos de Amália (2014) em que voltaram a colaborar, agora, portos e embarcações multiplicaram-se em Archipelagos - Passagens

O plano de viagens ampliou-se consideravelmente... 
Michales Loukovikas - Continuamos em plena água! Temos um imenso mar para navegar...
Amélia Muge - Dissemos que foi por um mero acaso que o Periplus apareceu numa altura em que a Grécia estava a ser tão falada. Se não fosse a Internet e ter olhado para uma página onde vi um senhor que me parecia vagamente o Pai Natal de férias, com aquela poesia fantástica do Ares Alexandrou, as coisas não teriam acontecido. Desta vez, o que espoletou este trabalho foi o convite da Aida Tavares, programadora do S. Luiz, para fazermos um concerto que não fosse exactamente o Periplus. Fazer, então, o quê? Não vamos ter este trabalho todo só para um concerto, vamos fazer um disco. Agora estamos numa fase como a da mãe que acaba de ter um filho e grita “Nunca mais!...”, porque, realmente, dá muito trabalho.  

Não navegaram sempre à vista da costa... 
ML - Não foi uma escolha muito consciente. O Periplus foi um momento de encontro. Mas também um diário de bordo. Navegámos por um mar onde nunca havíamos estado mas guardando o conhecimento dos viajantes anteriores. Agora, fizemo-nos ao mar, já sabemos orientar-nos pela Estrela Polar. 
AM - Pensámos que poderíamos pegar num dos pontos do Periplus e alargá-lo. As ilhas, como metáfora, podem levar a muitos lados mas, pensando só em nós dois, já há duas ilhas. O que basta para fazer um arquipélago. Pensamos sempre nas ilhas como coisas isoladas mas, se há quem se veja obrigado a dominar a arte dos contactos, são os ilhéus. 
ML - Tive um programa de rádio – "Mesogeíou Paráplus" (Viajar pelo Mediterrâneo) – de onde veio Periplus. Desta vez, propus Archipelagos. E o poder das coincidências revelou-se logo: o poema da Hélia Correia, A Terceira Miséria, que é um dos pilares deste álbum, começa com uma citação de Hölderlin cujo poema mais extenso se chama... Arquipélago! Transformou-se, assim, no ponto de partida da nossa viagem. 
AM - Temos umas três ou quatro folhas com títulos possíveis... alguns transformaram-se em títulos das sequências, como foi o caso das “Ilhas Imaginárias”.


Em vez de realçar as marcas das músicas nacionais, vocês parecem procurar uma espécie de lugar no qual já não é possível dizer exactamente onde acaba a Grécia e começam Portugal ou Cabo Verde...
AM - Não diria que é uma coisa instintiva porque os intintos também vão mudando ao longo da vida. Não sei se será por ter nascido em Moçambique mas sempre pensei que a identidade é um bicho muito irrequieto... Quando fiz o Não Sou Daqui, não estava a dizer que não era de um sítio, dizia que não era de um sítio enquanto não me apropriasse dele. As identidades, quando estão muito fechadas em certezas, acabam por ser daninhas para o peito. A última coisa que me apeteceria fazer era um trabalho onde dissesse ‘aqui está o melhor da nossa portugalidade!...’ E, se tivesse à minha frente alguém que quisesse fazer o mesmo, não o faria comigo, de certeza. Quando já passámos a fase da mansarda, quando não se tem como vocação o isolamento, fazemos o que diz o Hölderlin no início do poema: Onde está Atenas? Resta ainda algum sinal dela para que o marinheiro de passagem a possa mencionar ou lembrar?!” Haverá aqui alguma coisa que valha a pena mencionar ou lembrar, grego, português, português com ligações à língua inglesa como o Pessoa de "The Hours", grego até com vontade de compor uma buleria? Vamos a isso, desde que não se transforme numa confusão em que não seja possível fazer viagem nenhuma. Desde que as coisas possam reagir umas com as outras e isso crie um outro sentido. 


Pegam, então, numa melodia ou num ritmo apenas como matéria-prima musical independentemente da proveniência? 
ML - Quando era miúdo, tocava com o meu pai num grupo que interpretava música de todo o mundo. Era fantástico. Depois, à medida que ia crescendo, fui-me apercebendo de que a Grécia tem uma tradição musical riquíssima oriunda da Ásia Menor, da Itália, dos Balcãs... é impossível falar de uma música grega “pura”, tal coisa não existe. Em lado nenhum. Há anos escrevi um artigo em que demonstrava que nenhum dos antigos instrumentos gregos, era grego! O único indiscutivelmente de origem grega é o hydraulis (orgão hidráulico)! Não consigo ir além de dizer que sou mediterrânico.
AM - Os problemas poderão ter a ver com modelos de linguagem: por exemplo, como compor para aquele poema da Hélia que vem no arrasto do decassílabo, do verso branco? 
ML - Por acaso, em "A Ruína da Grécia", mal ouvi “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, nós, os que reduzimos a beleza a pequenas tarefas...” surgiu-me logo a ideia para a melodia... 
AM - Por outro lado ainda, há a certeza de que, qualquer coisa que nós façamos, acaba por ter um eco qualquer do que já foi feito. Nomeadamente, quando adaptamos o 2º andamento da Eroica, do Beethoven, lembramo-nos das tristes experiências que existiram quando se tentou transformar em canto partituras clássicas. Mas, para mim, A Terceira Miséria, da Hélia, é o texto mais surpreendente no que respeita a uma reflexão não estritamente política. É política porque tem a ver connosco – estamos todos envolvidos nestas causas e nos efeitos do que se está a passar – e pondo tanto o dedo em nós. (Teatro São Luiz - Sala Luis Miguel Cintra, quarta-feira 29, 21h)

02 October 2017

A ARTE DE FURTAR 


Dói. Dói muito ver um dos mais proeminentes vultos da cultura lusa, condecorado com a medalha de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres pelo governo francês, membro da comissão de honra da candidatura do edil da Grande Alface, investigador no âmbito da cardiologia poética – "Coração Vagabundo", "Pobre Do Meu Coração", "Português de Alma e Coração", "Coração Perdido", "Dois Corações Sozinhos" – e taumaturgo extraordinário (“Contaram-me que um médico de uma pessoa que estava em coma (...) pos-lhe nos ouvidos uns ‘headphones’ com uma música minha e ela começou a reagir”), ser acusado de 11 crimes de usurpação e de outros tantos de contrafacção. Mas, bem mais doloroso do que isso, é assistir ao seu acto de contrição público: "Eu não plagiei com a vontade de copiar uma canção (...) Assumi que há 20 anos (...) fiquei demasiadamente colado à canção na qual bebi e me inspirei. Eu nunca plagiei com vontade de plagiar". Gesto totalmente desnecessário, aliás!... Porque é esse, justamente, o ponto: nada há de que arrepender-se a menos que se deseje apagar nove décimos da história da música.


“Os artistas menores tomam de empréstimo mas os grandes artistas roubam”, terá dito Igor Stravinsky (embora a citação seja igualmente atribuida a Faulkner, Eliot e Picasso o que só lhe reforça a autoridade) e ele sabia bem do que falava – só para o bailado Pulcinella, apropriou-se de diversos temas de Pergolesi, Gallo, Van Wassenaer, Chelleri, Ignazio Monza e Alessandro Parisotti. Sem ser necessário elaborar inventários exaustivos nem recuar até à Idade Média, bastará, por exemplo, recordar a listinha de colegas cujas obras Haendel meteu ao bolso (Gottlieb Muffat, Johann Caspar Kerll, Corelli, Scarlatti, Telemann, Stradella, Erba, Franscesco Urio, Nicolaus Strungk, Friedrich Zachow...), a enorme “inspiração” que Michael Haydn ofereceu a várias obras de Mozart, ou a imensa sombra de Beethoven que paira sobre a Primeira Sinfonia de Brahms, a qual, por sua vez, assombra a Terceira, de Mahler, cavalheiro também nada avesso a canibalizar peças de Rott, Rossini e Liszt. O furto é, de facto, intrínseco à História da Música e bastaria que alguém tivesse dado a ler ao nosso bravo Chevalier Theft! A History Of Music, de James Boyle e Jennifer Jenkins, para que ele pudesse ter enfrentado as adversidades com outro ânimo. Está ai, "online", pronto para, digamos, ser “roubado”, ao abrigo de uma licença dos Creative Commons. Apesar das 260 paginas, sendo uma obra de BD, até não cansa muito a cabeça.

01 October 2017

O grande momento-Reinaldo Serrano da noite:

"Neste dia de eleições autárquicas que é, simultaneamente, o dia mundial da música, o que aqui [sede da campanha de Teresa Leal Coelho] se espera é se tocará a partitura do Hino à Alegria, de Beethoven, ou o Requiem, de Mozart" (SIC-N)

Amadeus - real. Milos Forman (1984)

29 August 2017

MATÉRIA NEGRA (I)


No clima de elevado debate político que, em 2016, caracterizou a campanha para a nomeação do candidato Republicano à Presidência dos EUA, um dos tópicos mais intensamente discutidos foi a dimensão do aparelho reprodutor de Donald Trump. Aparentemente desencadeada por um quadro de Illma Gore – “Make America Great Again”, um nu de Trump cujo detalhe anatómico, comparativamente, faria o David, de Miguel Ângelo, assemelhar-se a um Príapo entusiasmado – banido do Facebook, recusado por diversas galerias e que valeria à autora inúmeras ameaças e agressões físicas, a polémica seria aproveitada pelo não menos inquietante adversário de Trump, Marco Rubio, que, a propósito, faria o tipo de comentários habituais nas melhores casernas em que se estuda “ciências” políticas. Randy Newman esteve quase, quase a participar. Chegou mesmo a escrever uma canção, “What a Dick”, que glosava o tema (“My dick’s bigger than your dick, it ain’t braggin’ if it’s true, my dick’s bigger than your dick, I can prove it too. There it is! There’s my dick, isn’t that a wonderful sight? Run to the village, to town, to the countryside, tell the people what you’ve seen here tonight”) mas arrependeu-se e não a publicou: “Era demasiado fácil e não me apeteceu entrar na muito feia troca de palavras que estava a acontecer”


Porém, no momento em que, nove anos depois de Harps And Angels, lança Dark Matter, não resistiu a desabafar com a “Mojo”: “Li, recentemente, que Donald Trump podia ser uma personagem de uma canção minha. E é verdade! Nunca imaginei que chegássemos a ver alguém pior do que o tipo de ‘My Life Is Good’ [de Trouble In Paradise, 1983], tão ignorante e arrogante ao mesmo tempo mas... aí está ele!” A já vasta galeria de “ugly americans” de Newman acolhê-lo-ia, sem dúvida, de braços abertos. E, agora, num álbum ricamente orquestral povoado pelos tristes anónimos e facínoras avulsos que Newman nunca esquece (Putin é convenientemente mal tratado), não seria difícil imaginar Trump como um dos intervenientes no fabuloso mini-musical de 8 minutos da abertura, "The Great Debate", no qual, com moderação de “Mr. Newman, self-described atheist and communist”, "true believers" e cientistas se enfrentam, sendo os últimos, face à desproporção do armamento historicamente acumulado, copiosamente derrotados: “Como poderiam ateus e agnósticos lutar contra o Golden Gate Quartet, Bach, Mozart, Beethoven ou Brahms?...”

14 August 2017

APENAS É 

Num texto para a “New Yorker” do passado 12 de Julho, Alex Ross – o autor de The Rest Is Noise: Listening to the Twentieth Century (2007) – referia-se ao discurso que, dias antes, o ignaro Trump havia proferido em Varsóvia, no qual, defendendo a superioridade da civilização ocidental, argumentara “We write symphonies!” E acrescentava que, no dia seguinte, durante a cimeira do G20, em Hamburgo, “The Donald”, na companhia de gente tão pouco recomendável como Putin, Erdoğan, Xi Jinping ou Ibrahim Abdulaziz Al-Assaf (Arábia Saudita), assistira a uma interpretação da “Nona” de Beethoven. O que Joachim Lux, do Thalia Theatre, consideraria “um abuso pornográfico da arte”: apresentar uma das bandeiras da fraternidade universal perante uma plateia que incluía governantes capazes de espezinhar diariamente os direitos humanos não seria senão uma fantochada.



É, então, um bom pretexto para recordar aquilo que, em A Nona Sinfonia de Beethoven: Uma História Política (1999), Esteban Buch escreveu: “Os músicos românticos transformaram-na num símbolo da sua arte. Aos olhos de Bakunine, que sonhava fazer tábua rasa do mundo burguês, apenas a ‘Ode à Alegria’ merecia ser salva. Os nacionalistas alemães admiravam a potência heróica dessa música, enquanto os republicanos franceses reconheciam nela a tripla divisa de 1789. Se os comunistas a olhavam como o evangelho de um mundo sem classes, para os católicos era, pura e simplesmente, o Evangelho que nela estava espelhado. (...) E era com ela que Hitler festejava os seus aniversários, apesar de as suas vítimas a tocarem como símbolo de oposição nos campos de concentração. (...) Foi, em tempos, o hino da república racista da Rodésia, como é hoje o hino da União Europeia”. 41 anos antes de Buch, a 18 de Janeiro de 1958, num dos seus Concertos para Jovens subordinado ao tema “O que significa a música?”, Leonard Bernstein (depois de contar uma trepidante aventura do Super Homem como argumento imaginário do Don Quixote, de Richard Strauss) tinha já deixado o assunto razoavelmente esclarecido: “Sejam quais forem as histórias que vos contem acerca do que a música quer dizer, esqueçam-nas. O que a música significa não são histórias. A música nunca é sobre coisa alguma. A música apenas é. A música são notas, belíssimas notas e sons combinados de tal forma que retiramos prazer de os escutar e nada mais. (...) Não precisamos de histórias nem de imagens para nos explicar o que a música significa”.

22 November 2016

SÓ A VOZ E AS PALAVRAS


Na madrugada da sexta-feira de há duas semanas, demo-nos conta de que estávamos há quatro dias sem Leonard Cohen e só nessa altura tínhamos reparado. Quando nos chamaram a atenção para isso, compreendemos rapidamente que terem-no feito antes, em plena tempestade que se desencaderia no dia a seguir a termos deixado de o ver (“Morrer é só não ser visto”, explicou outro poeta), poderia apanhar-nos demasiado desatentos para reparar que o que se passava diante dos nossos olhos já ele o havia visto claramente, muito antes, em 1988: “Everybody knows that the plague is coming, everybody knows that it's moving fast (…) Everybody knows that the dice are loaded, everybody rolls with their fingers crossed, everybody knows that the war is over, everybody knows the good guys lost, everybody knows the fight was fixed, the poor stay poor, the rich get rich, that's how it goes, everybody knows”. Vinte anos antes, imaginara, com caracter de urgência, outro mundo: “Espero que as mulheres se apressem e tomem o poder. Vai acontecer inevitavelmente, por isso será melhor que se despachem. Poderemos, então reconhecer, finalmente, que as mulheres são a mente e a força que sustentam o mundo; os homens são apenas coscuvilheiros e artistas. Nós ficaríamos entregues às nossas tarefas infantis e elas manteriam o mundo a funcionar. Sou realmente a favor do matriarcado”. É possível que isso tenha alguma coisa a ver com uma história que Iggy Pop conta sobre um dia em que ambos – é verdade, eles davam-se – se entretinham a ver anúncios classificados num jornal. Num deles, uma mulher desejava conhecer um homem “com o corpo de Iggy Pop e o espírito e a sensibilidade de Leonard Cohen”. A resposta seguiu por carta, com a assinatura de ambos.


É uma oportuna – ainda que oblíqua – deixa para varrer já do terreno um ou dois obstáculos que sempre obstruiram a porta de entrada para a obra de Cohen, dos quais, só há quatro anos, a propósito de Old Ideas, me apercebi com clareza. Perdoem se me repito: “À excepção da catedral em forma de abismo, Songs Of Love And Hate – e, mesmo aí, por motivos (sérios mas secundários) de ordem exclusivamente cenográfica –, nele, a música não tem a menor importância. Em qualquer dos doze álbuns que, desde 1967, registou, apenas duas coisas contam: os textos e a voz. No limite, poderia até dizer-se que toda a sua discografia é exclusivamente um exercício de "spoken word", musicalmente emoldurado, e isso também nos casos em que o que contém mais possa assemelhar-se a canções. Pelo que, não faz qualquer sentido valorizar ou desvalorizar cada disco de acordo com a sua suposta ‘qualidade’ musical: preferencialmente aconchegadas à austeridade folk ou enquadradas por arranjos de salão de baile pelintra (como se Leonard só soubesse salmodiar – isto é, entoar cânticos de louvor – demolindo a solenidade em atmosferas profanas de lupanar), voz e palavras precisam de pouco mais que um embalo para acharem a cadência exacta. Se possível, amparadas pelo sopro de coros femininos. Não por serem coros mas por serem femininos”.


Por coincidência (ou não, com Leonard Cohen nunca se deve estar demasiado seguro), são também de Old Ideas duas canções que ajudam muito a vê-lo mais de perto. Numa, "Going Home", falando de si para si, em solilóquio ironicamente auto-depreciativo, primeiro apresenta-se: “I love to speak with Leonard, he’s a sportsman and a shepherd, he’s a lazy bastard living in a suit, but he does say what I tell him, even though it isn’t welcome, he just doesn't have the freedom to refuse, he will speak these words of wisdom, like a sage, a man of vision, though he knows he’s really nothing but the brief elaboration of a tube”. E, logo a seguir, desmonta a caricatura: “He wants to write a love song, an anthem of forgiving, a manual for living with defeat, a cry above the suffering, a sacrifice recovering, but that isn’t what I need him to complete, I want him to be certain that he doesn’t have a burden, that he doesn’t need a vision, that he only has permission to do my instant bidding, which is to say what I have told him to repeat”. Na outra canção, "Darkness", antecipava, afinal, aquilo (“I caught the darkness drinking from your cup, I said is this contagious? you said just drink it up, I got no future, I know my days are few, the present's not that pleasant just a lot of things to do. I thought the past would last me but the darkness got that too”) que, quando notou que, para o entendermos, era necessário carregar no traço, reescreveu em forma de provocação: You Want It Darker.



Judeu quase involuntário (“De facto, não me foi oferecida a oportunidade de escolher entre ser franciscano ou judeu. É verdade que essa tradição era muito forte na minha casa. Mas nunca ninguém me disse que existia um deus e, se existia, o que pretendia de mim. Havia uma total ausência de tirania teológica. O que, vivendo eu numa cidade fortemente católica, contrastava imenso com as histórias de horror que os meus amigos me contavam sobre as suas relações com os padres. Cresci sem sentir quaisquer obrigações em relação a nenhum ser supremo”, confessava-me ele, em 1994, à beira de um café, em Madrid), atraído pelos místicismos cristãos, sufis, tântricos, “todos esses processos de união com deus que passam por uma metáfora sexual, por uma embriaguês com o ser amado, a ideia de me render como um ébrio perante esse mistério”, desde o início dos anos 60, tinha uma noção exacta de a quem se dirigia. Numa carta a um editor de poesia, identificava, então, os seus hipotéticos leitores: “inner-directed adolescents, lovers in all degrees of anguish, disappointed platonists, pornography-peepers, hair-handed monks, popists, French-Canadian intellectuals, unpublished writers and curious musicians”. Três anos depois de Madrid, pedi-lhe que explicasse o porquê de, na compilação que, por essa altura, publicava, incluir "The Great Event", um poema em prosa recitado por Victoria (uma voz "text-to-speech" dos MacIntosh da época) no qual anunciava que “o Grande Acontecimento que irá pôr fim ao louco mergulho da humanidade no sofrimento será o momento em que tocarei a ‘Sonata Ao Luar’ do fim para o princípio”. Jikan, o Pouco Convincente, monge zen no mosteiro de Mt. Baldy, aliás, o Fundador da Ordem do Coração Unificado e discípulo de Roshi com quem aprendeu a distinguir correctamente um Rémy Martin de um Courvoisier, respondeu-me “É uma metáfora para a esperança, para uma esperança desesperada e absurda. Uma esperança sem qualquer esperança a que todos temos de nos agarrar e que é tudo o que possuímos”. O também Field Commander Cohen, “patron saint of envy and the grocer of despair”, dizia que “a poesia é só uma prova de vida. Se a vida arde bem, a poesia é apenas as cinzas”. E, amavelmente, punha termo a uma conversa, declarando: “Quando me embrenho na escrita lenta e dolorosa de uma canção, há certas realidades maiores e melhores do que eu que se manifestam e que já não comando. O resto é só a minha vida pessoal, tola e caótica”.