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30 March 2026

Beth Gibbons - "Sunday Morning"

(sequência daqui) Muito mais pragmaticamente, a "War Child" é uma instituição de solidariedade que trabalha para "proteger, educar e defender os direitos das crianças que vivem em zonas de conflito". Para esse fim, nas últimas três décadas, lançou álbuns de compilações, o mais notável dos quais foi The Help Album (1995), produzido por Brian Eno. Agora, sob a orientação de James Ford, HELP(2) reune mais de três dezenas de músicos e bandas dos quais apetece particularmente referir um valiosíssimo terço: Anna Calvi, Arooj Aftab e Beck (juntos), Beth Gibbons (numa versão de "Sunday Morning", dos Velvet Underground), Big Thief, Damon Albarn (com Grian Chatten, dos Fontaines D.C. e Kae Tempest), Depeche Mode ("Universal Soldier", de Buffy Sainte Marie), Foals, Fontaines D.C (interpretando Sinéad O'Connor), Graham Coxon, Pulp, Wet Leg e Young Fathers.

20 January 2023

"Defeat"
 
(sequência daqui) “Não sabia quem era nem como soaria individualmente. Flutuava sem direcção e sentia que muitas das minhas escolhas não eram feitas para mim mas em função de com quem eu colaborava”. Mouth Full Of Glass, primeiro album a solo, mostra-a, enfim, como ela (ou uma parte dela) é: uma invulgar praticante da canção como lugar de invenção sonora permanente, algures entre os vestígios da folk e a memória de Caetano Veloso e do Beck de Sea Change, dispersos por entre arranjos de cordas e sopros tais como Debussy ou Ravel os escreveriam em 2022. E, quando ela diz que a perfeição não lhe interessa, não acreditem.

26 September 2022

PART-TIME
 

15 álbuns de estúdio. 10 ao vivo. Uma dúzia de singles e EP. Mais de duas dezenas de presenças em compilações e colaborações várias. Gillian Welch vê nele “o herdeiro do escuro espelho emocional de Henry Miller, do queixume de três acordes de Townes Van Zandt e do minimalismo de Lou Reed”. Beck incluiu-o num top 10 pessoal para a “Rolling Stone”. John Peel passou um álbum inteiro dele no seu programa de rádio. Kurt Wagner (Lambchop) e Jeff Tweedy (Wilco) persignam-se perante ele. Leonard Cohen, Dylan, Johnny Cash, Neil Young e John Cale são apontados como os padrões face aos quais deverá ser avaliado. Mas, 30 anos após o primeiro álbum (Umbilical Chords), Simon Joyner permanece virtualmente desconhecido e feliz, sem manager, agente ou publicista, ocupado com o seu "day job" (antes, um negócio de antiguidades, agora, em parceria com o amigo e baterista Mychal Marasco, uma loja de discos, em Omaha, Nebraska) e sem nenhuns planos de mudança. (daqui; segue para aqui)

28 November 2019

ACABAR


Dias antes de morrer, em You Want It Darker, Leonard Cohen parecia mais distante do que nunca da tradição judaica (e, se quisermos, cristã) em que praticamente todos os seus 82 anos de vida tinham sido moldados. Numa última entrevista à “New Yorker”, sem rodeios nem floreados, e plenamente consciente do pouco tempo de vida que lhe restava, por gentileza, admitia “poder ter ainda um segundo fôlego” mas sem quaisquer ilusões: “Não me atrevo a agarrar-me a estratégias espirituais, não me atrevo a tal. Tenho trabalho para fazer. Assuntos para tratar. Estou pronto para morrer. Espero que não seja demasiado desconfortável. Por mim, é tudo”. E, sobretudo nas canções, dir-se-ia que fazia gala em contrariar e inverter tudo o que, as supostamente sagradas escrituras, desde há séculos, prescreviam. “To turn the other cheek, sounded like the truth, seemed the better way, sounded like the truth, but it's not the truth today”, cantava em "Seemed The Better Way” e ouvi-lo dizer – de facto, muito mais dizer do que cantar – “Steer your way past the ruins of the altar and the mall, steer your way through the fables of creation and the fall, steer your heart past the truth that you believed in yesterday, such as fundamental goodness and the wisdom of the way, (...) and please don't make me go there, though there be a god or not” ("Steer Your Way"), “I'm so sorry for that ghost I made you be, only one of us was real and that was me” e “I've seen you change the water into wine, I've seen you change it back to water, too, I sit at your table every night, I try but I just don't get high with you” ("Treaty"), fazia suspeitar se, à beira do fim, a verdade de ontem já não era, de todo, a de hoje e se uma semente de agnosticismo – “though there be a god or not” – não teria começado a germinar no cérebro do velho sacerdote "kohen". 


 
Durante a entrevista com David Remnick, a sensação acentuava-se quando, recordando os tempos na ilha de Hidra, confessava que “Sentado no meu terraço, tomei ácidos uns atrás dos outros, à espera de ver Deus. Geralmente, acabava com uma enorme ressaca”. Regressando ao presente, reconhecia que “a grande diferença é a proximidade da morte. Sou um fulano organizado. Se puder, gosto de deixar tudo arrumado. Se não puder, também não faz mal. Mas o meu impulso natural é para acabar as coisas que comecei”. Uma delas era uma canção ingénua, "Hummingbird", que trauteou – “Listen to the hummingbitd whose wings you cannot see, listen to the hummingbird, don’t listen to me”. “Não me parece que vá conseguir acabá-la. Mas, quem sabe?...” Três anos depois, tal como acontecera já com You Want It Darker, pela mão do filho, Adam, ficou concluída. Essa e mais outras oito que – com as contribuições de Beck, Bryce Dessner (The National), Richard Reed Parry (Arcade Fire), Damien Rice, Leslie Feist, Daniel Lanois, Javier Mas, Dustin O’Halloran, a Stargaze Orchestra, o coro de Berlim Cantus Domus e o coro da sinagoga Shaar Hashomayim de Westmount –, em Thanks For The Dance, oferecem o discretíssimo pano de fundo sonoro sobre o qual a frágil mas sempre intensa voz de Cohen vai recitando amargos sarcasmos (“German puppets burnt the Jews, Jewish puppets did not choose”), elegantes insolências (“I was selling holy trinkets, I was dressing kind of sharp, had a pussy in the kitchen and a panther in the yard, in the prison of the gifted I was friendly with the guard, so I never had to witness what happens to the heart”), e aterradoramente tranquilos desfechos (“I move with the leaves, I shine with the chrome, I’m almost alive, I’m almost at home”). Não tens que agradecer, Leonard.

16 April 2019

DECAPITADA

  
Tanto na capa do anterior The Voyager (2014) como na do novo On The Line, Jenny Lewis aparece decapitada. Isto é, uma e outra são fotografias – ambas de Autumn De Wilde – em plano médio que a enquadram da cintura para cima mas nas quais a cabeça está ausente. Com uma diferença importante, porém: se, em The Voyager, ela vestia um "rainbow suit" razoavelmente discreto inspirado no estilo de Gram Parsons, agora, enverga um "jumpsuit" de cetim azul generosamente decotado, numa foto quase tridimensional. Embora possa ser (e já foi) encarada como uma provocação muito politicamente incorrecta em tempos de #MeToo – mas isso não a impediu de se solidarizar com as mulheres que denunciaram o comportamento abusivo de Ryan Adams com quem colaborou nesses dois álbuns –, na verdade, o "glamming up" é apenas uma homenagem à problemática mãe, heroinómana de longo curso e lounge singer em Las Vegas, onde usava esse tipo de roupa desenhada por Bob Mackie. Morta em 2017 – momento em que, após duas décadas de afastamento, se reconciliariam –, a imagem é, em simultâneo, uma metáfora para o luto e uma extensão dessa sombra que, desde o início com os belíssimos Rilo Kiley, nunca a abandonaria: a cabeça poderá estar invisível mas os demónios que a habitam permanecem. 


Se, no primeiro álbum a solo (Rabbit Fur Coat, 2006), cantava “Where my ma is now, I don’t know, she was living in her car, I was living on the road and I hear she’s putting that stuff up her nose” e, ainda nos Rilo Kiley, olhava-se ao espelho e só via um reflexo (“It's bad news, baby, I'm just bad news, cause you're just damage control for a walking corpse like me”), em On The Line, “concebido como uma peça de teatro que conta a história do fim para o princípio”, as personagens, reais ou ficcionadas, não se afogam em muito maior felicidade: seja a “girl in a black Corvette, getting head in the shadows” que se vê como “a beatle floating in a bottle of red, I was a party clown”, a outra (ou a mesma) que viaja para Norte “in a borrowed convertible red Porsche with a narcoleptic poet from Duluth, and we disagreed about everything, from Elliott Smith to Grenadine” ou aquela que confessa “there's nothing we can do but screw and booze and amphetamines”. Com Beck, Jim Keltner, Don Was, Ringo Starr e Benmont Tench a lapidarem um requintado classicismo pop algures entre Aimee Mann, Costello e, por vezes, Kate Bush, desde o início, os dados ficam lançados: “After all is said and done, we'll all be skulls, heads gonna roll”.

18 June 2014

A IDADE DA INOCÊNCIA


A concepção romântica da música como a arte a cuja condição todas as outras deveriam aspirar foi ferida de morte em 1877, às mãos de Thomas Edison, com a invenção do fonógrafo. Registada em cilindros de cera e, posteriormente, em discos de vinil, objectificada, coisificada, perdia, definitivamente, a aura de entidade incorpórea, ideal, sujectiva, quase imaterial, que a pintura, a escultura ou a literatura jamais poderiam alcançar. Três décadas e meia depois, ao visitar o Salon du Phonographe, dos irmãos Pathé, em Paris, Claude Debussy ainda se interrogava: “Não deveríamos recear esta domesticação do som, esta magia preservada num disco que, por 10 cêntimos, qualquer um pode despertar à sua vontade? Não será isto uma diminuição das forças secretas da arte que, até agora, foram consideradas indestrutíveis?” A imparável história da indústria discográfica no século XX trataria de eliminar tais reticências mas, há dois anos, Beck, com Songbook – 20 partituras originais apenas escutáveis por quem, mesmo que da forma mais livre, as decifrasse e interpretasse –, procurou reverter a trajectória. 


Esse apelo de uma idade da inocência situa-o, agora, Neil Young nas tecnologias de registo sonoro de nula fidelidade das cabinas de gravação individual Voice-O-Graph (popularizadas dos anos 40 a 70 do século XX) de que, aparentemente, Jack White, é o possuidor do único exemplar sobrevivente em estado funcional, utilizado para a gravação de A Letter Home. Exactamente o mesmo Neil Young, paladino da luta contra a perda de qualidade do som digital que se propõe combater com o lançamento em Outubro do Pono, um serviço de dowloads em 24-bit 192kHz. Contradição? Nada disso. Em ambos os casos, o que o motiva é a demanda de uma certa pureza e autenticidade primordiais (porventura, apenas imaginárias) que, em A Letter Home, assume a forma de “art project”: menos uma colecção de versões musicalmente rudimentares – com todas as falhas preservadas – de canções de Dylan, Phil Ochs, Tim Hardin, Bert Jansch, Gordon Lightfoot, Willie Nelson ou Springsteen do que uma recuperação de memórias (interpoladas com mensagens dirigidas à mãe, Edna, morta em 1990), bloco de notas de uma viagem no tempo ou uma espécie de adenda contemporânea à Anthology Of American Folk Music, de Harry Smith. 

28 March 2013

DIY


Quando, em 1981, no departamento das pequenas e médias polémicas, se desencadeou a fugaz mas intensa querela acerca dos malefícios que a programação de videoclips musicais pela MTV iria provocar na capacidade imaginativa de quem escuta música, não ocorreu a ninguém recordar como um bem mais avassalador assalto tinha acontecido, cem anos antes, com o surgimento das tecnologias de gravação e reprodução sonora: primeiro, Edison, em 1877, com o fonógrafo, e, em 1889, Emile Berliner, com o disco de vinil, punham fim a vários séculos em que uma peça musical consistia, primariamente, de uma partitura manuscrita ou impressa, cabendo a cada intérprete a missão de – segundo a sua intuição, talento e experiência – a bafejar com o sopro da vida. Deve dizer-se que, mesmo nos primórdios (como recorda David Byrne em How Music Works), a ideia do registo mecânico da música não foi unanimente acarinhada. John Philip Sousa, “the march king”, por exemplo, insurgia-se contra as máquinas “que se preparam para reduzir a expressão da música a um sistema matemático de megafones, rodas dentadas, discos, cilindros e todo o tipo de geringonças giratórias”, agredindo aquilo que, bastante mais tarde, Walter Murch definiria como a sua essência: “A música é a principal metáfora poética para o que não pode ser preservado”. Coisa idêntica, aliás, ao que se passaria na transição do cinema mudo para o sonoro, com os defensores do primeiro a clamarem contra a descaracterização da “arte do movimento dirigida pela luz” que a transformaria numa mera subsidiária do teatro.



É, por isso, algo intrigante que, o único gesto verdadeiramente radical produzido pela cultura retromaníaca dominante – a publicação, no final do ano passado, de Song Reader, de Beck – não tenha provocado mais do que um suave agitar de águas. Há quatro anos, Matt Friedberger, dos Fiery Furnaces, já havia ameaçado realizar algo semelhante com o ainda por materializar, Silent Record (“um livro de cerca de 200 páginas de canções com muito diversos tipos de notações”), mas, agora, Beck concretizou-o: 108 páginas com 20 partituras originais e artwork de Marcel Dzama, Leanne Shapton, Josh Cochran e outros. Mais do que um álbum que apenas poderemos escutar se decifrarmos a notação musical (ou alguém o fizer por nós) trata-se de uma peça conceptual, não realmente anti-tecnológica, mas contra a passividade criativa: correndo deliberadamente o risco de, como ele próprio afirma, o projecto ser encarado “como um truque ou uma condescendência estilística, destinada exclusivamente a amantes de curiosidades e revivalistas”, a intenção é a de, sem demasiadas cerimónias (“Usem os instrumentos que quiserem. Mudem os acordes. Se vos apetecer, mantenham apenas os textos”), nos recordar como “não assim há tanto tempo, uma canção era apenas uma folha de papel até que alguém a tocasse. Qualquer pessoa. Até tu”. O Portland Cello Project já o registou em álbum (Beck Hansen's Song Reader), Stephin Merritt atirou-se a "Old Shangai" armado de um "toy piano" e, em Songreader.net, já se contam alguns milhares de "uploads". Mas é ainda pouco. Deve haver muito mais.

12 March 2013

12 July 2011

CHÁ DE TÍLIA


















Thurston Moore - Demolished Thoughts

Um tipo que veio ao mundo a bordo de uma banda chamada Sonic Youth nunca será facilmente encarado como um veterano do rock, mesmo que já entrado na quinta década de vida e com uma discografia (com os SY, a solo e em inúmeras colaborações e actividades extracurriculares) mais do que suficiente para dividir com dois ou três colegas e nenhum ficar com o rótulo de preguiçoso. Mas não apenas nem principalmente por isso: tanto ao lado de Kim Gordon, Lee Ranaldo e Steve Shelley como em outros devaneios, ninguém será capaz de descobrir os estigmas de uma música que tivesse ficado irremediavelmente prisioneira de uma época ou sequestrada pelos miasmas da nostalgia: mais identificavelmente rock ou liberrimamente aventureira e experimental, aquilo a que Moore e cúmplices avulsos, há trinta anos ou anteontem, sempre se entregaram foi, justamente, o género de explorações sonoras para que foi criado o adjectivo “contemporâneas”. O que torna um álbum como Demolished Thoughts francamente inexplicável. É verdade que já existiam sinais precursores em Psychic Hearts (1995) e Trees Outside The Academy (2007) para este baixar da guarda eléctrica e incursão no formato-canção. Mas testemunhar a eclosão de um Thurston empenhado numa espécie de variação "unplugged" dos SY, tricotando amenidades de suposto "avant-folk" por entre violinos e chilreio de harpas, é o género de sintoma que faz pensar se Mr. Kim Gordon não terá entrado naquela fase (assaz evitável) da vida em que alguns cavalheiros se arrepiam de angústias e incertezas. Talvez seja preferível, no entanto, lançar as culpas para a produção de Beck Hansen (a Cientologia dá cabo da cabeça de qualquer um) e esperar que este chá de tília para salão de vicentinas não tenha passado de um descuido.

(2011)

08 October 2009

JANE BIRKIN &...


Beck - "L'Anamour"



Caetano Veloso - "Je Suis Venu Te Dire Que Je M'en Vais"



Étienne Daho - "Les Dessous Chics"

(2009)

07 October 2009

SOTTO VOCE



Jane Birkin - Enfants d’Hiver

Escutar Enfants d’Hiver não é muito diferente de conversar com Jane Birkin ou de assistir a Boxes, o filme que, paralelamente ao concerto que virá apresentar a Lisboa, será exibido no âmbito da Festa do Cinema Francês: como quem abre os portões da memória, imagens, personagens, espaços, obsessões, jorram em quase regime de sessão de psicanálise ao vivo. Estão aqui todos, nas fotografias do booklet e nas canções, o pai, a mãe, os irmãos, ela própria, as filhas, Charlotte, Kate e Lou, as perdas, os fantasmas e os instantes de felicidade.



Tudo sotto voce, naquele lugar incerto onde a chanson, um dia se cruzou com o idioma da pop – naquele mesmo momento em que ela e Serge Gainsbourg se encontraram e “Je T’Aime, Moi Non Plus” e a sua imagem de Lolita na capa de Histoire de Melody Nelson lhe ficaram, irremediavelmente, coladas à pele – e, hoje, através dela e da desejável ambiguidade transnacional que tem alimentado nas colaborações com Beth Gibbons, Beck, Neil Hannon, Vincent Delerm ou Étienne Daho, continua a gerar suaves híbridos de sotaque peculiar, criaturas imponderáveis recortadas em sombras. Apenas, por um momento, "Aung San Suu Kyi", contraste abrupto, irrompe, em inglês, como manifesto-imprecação panfletária contra a tirania: “This is a plea for Aung San Suu Kyi”.

(2009)

06 September 2009

NARCISO FERIDO


Noah & The Whale - The First Days Of Spring

Costuma ser receita garantida para o tédio irredimivel: jovem poeta/músico/artista, de coração dilacerado pela ruptura de uma relação amorosa, verte toda a sua dor oceânica sobre a página/o microfone/a tela, insufla-lhe fôlego conceptual à escala himalaica da tragédia e não descansa enquanto não tiver aborrecido de morte o último habitante da galáxia. Não é, realmente, fácil achar forma de contar ainda outra vez a mais antiga história do mundo sem correr o risco de voltar a pisar, uma por uma, todas as pegadas já milhões de vezes deixadas por outros. Apresente-se, agora, Charlie Fink, desapiedadamente abandonado pela namorada (Laura Marling, starlet pop-folk ascendente e ex-elemento da banda de Charlie), e que, para aprofundar a ferida narcísica, foi o responsável pela produção do álbum Alas, I Cannot Swim de que resultou a nomeação dela para o Mercury Prize.



Uma réstea de luz acende-se – mas, como se sabe, isso nunca é garantia de nada – quando se descobre que Noah & The Whale, o nome da banda, se inspirou no filme The Squid and the Whale, realizado por Noah Baumbach, e que, na lista de afinidades electivas de Fink, se encontra também Wes Anderson. A música, então: primeira faixa (a canção-título), sete minutos de lenta mas avassaladora ascensão orquestral, da glacial secura marcial dos Joy Division até à explosão do fogo de artifício final em 70 mm. Tema: “I do believe that everyone has one chance to fuck up their lives". KO instantâneo e hipóteses de análise fria reduzidas a cacos. É, por isso, sob séria reserva de temporária insanidade, que, escutado todo o disco (tema geral: “If you gotta run, run from hope”), afirmo que The First Days Of Spring é o melhor álbum de dor-de-corno desde Sea Change, de Beck, coisa próxima de The Opiates, dos Anywhen, ou de Ocean Rain, dos Echo & The Bunnymen, o género de odisseia pop capaz de reduzir os Arcade Fire à sua insignificante dimensão e de obrigar Neil Hannon a colocar-se em sentido. Paralelamente, Fink realizou uma curta metragem homónima. Se for digna de caminhar na sombra de Wes Anderson, será a cereja em cima do bolo.

(2009)

26 December 2008

COMO CONVIDADOS
 
  
    
Vários - From The Basement (DVD) 
 
Classificado pelo seu criador, Nigel Godrich, como “a sort of music TV show/labour of love”, From The Basement procura oferecer às bandas e músicos que nele participam as condições ideais de actuação no contexto de um programa sem apresentador nem público, suplícios habituais nos diversos formatos para televisão. Inicialmente concebido para uma exclusiva existência “online”, a pressão orçamental obrigou a que se tornasse necessário o apoio dos canais Sky Arts (no Reino Unido) e Rave (nos EUA). 
 
  Sonic Youth - "The Sprawl" (From The Basement) 
 
Na verdade, isso nada terá beliscado a atmosfera única em que, agora publicado em DVD, vamos descobrir PJ Harvey, Neil Hannon, Jarvis Cocker, Beck, Radiohead, The White Stripes, The Shins, Laura Marling, Albert Hammond Jr., Autolux, os Eels, Sonic Youth, Damien Rice ou Super Furry Animals, inteiramente concentrados na sua música, por entre amplificadores, cabos, instrumentos e mesas de mistura, em estúdio ou no palco, sem nada que interfira com aquilo que mais gostam de fazer. Só aparentemente austero e espartano, o clima é, sem dúvida, o mais desejável para que nos possamos sentir algures por ali, como convidados semi-clandestinos do momento. (2008)

14 August 2008

LINHA DE MONTAGEM
(concluindo a revisão)



Beck - Guero

Há duas escolas de pensamento em confronto: segundo uma, Guero será uma espécie de revisão de matéria realizada por Beck onde se podem reconhecer sinais das várias etapas do percurso entre Mellow Gold (1994) e Sea Change (2002); para a outra, trata-se, afinal do (por ela) tão ansiado Odelay II, o regresso "ao melhor Beck" que, entretanto, se teria extraviado. Pelo que me toca, confesso que saltei na cadeira quando, à quarta faixa ("Missing"), tive de me beliscar para não continuar a acreditar que estava a ouvir... Sting! E isso não é uma coisa boa. Não é mesmo. Tal como o próprio Guero. Generosamente, pode argumentar-se que, no Grande Plano do Universo, a todo o músico é, desde o início, automaticamente oferecida a possibilidade de gravar um álbum menos bom, assim-assim ou até mau sem que, no balanço final, isso seja usado contra ele. Pode até invocar-se, por exemplo, o caso de Bob Dylan que, sem deixar de ser considerado genial, excedeu largamente a sua quota de atenuantes. Mas nem uma coisa nem outra deverão servir para mascarar a evidência: Guero é o primeiro álbum sobre o qual alguém deveria ter tido a amabilidade de aconselhar Beck a metê-lo na gaveta. Não tem a aspereza artesanal de Odelay, nem o delirante fogo de artifício de Midnite Vultures, nem a melancolia em plano aberto de Sea Change. Apenas o produto de uma linha de montagem de canções que Beck já deve ser capaz de pôr em movimento a dormir (trata-se só de accionar o botão junkyard-funk-country-blues-hip-hop), razoavelmente desinteressante e — isto já parece mais difícil de explicar — desinteressado, despachado em piloto automático. Há uma boa canção, "Broken Drum", e é tudo. Façamos de conta que nunca existiu.

(2005)

13 August 2008

ELEGANTE PERVERSÃO 
(revisão a partir daqui)
 

 
 Beck - Sea Change 
 
Beck, com Mutations (se decidirmos não incluir o colateral One Foot In The Grave), já tinha gravado o seu John Wesley Harding. A que, procedendo em sentido inverso como nele não poderia deixar de ser, havia feito suceder o seu Blonde On Blonde, isto é, Midnite Vultures. Austeridade e excesso barroco. O paralelismo com Bob Dylan faz todo o sentido: se o que Beck escreve são canções da era pós-sampling, pós-hip hop, se quiserem também, pós-rock, ele e Dylan concentram em si uma tradição musical da América profunda: a música de rua, a matriz rural country e folk, a apetência urbana do rock. Dylan alimentava-se de Woody Guthrie, Cisco Houston, Leadbelly e Hank Williams. Beck não esqueceu nenhum desses mas acrescentou-lhes partículas da memória de Dr. John, James Brown, Tom Jobim, George Clinton, Stockhausen, Cameo, Beatles, Curtis Mayfield, T. Rex, Prince, Captain Beefheart, Barry White e... Bob Dylan. Daí que, de Mellow Gold a Odelay, Mutations ou Vultures, muitos se tenham visto em palpos de aranha para caracterizar o que ele faz. De mutant-folk-machine a surreal-junk-rock, folk-hop ou spastic-future-funk, as designações proliferaram sem nunca, no entanto, acertarem verdadeiramente no alvo.
 
  
 
E, agora, com Sea Change, vão, inevitavelmente voltar a disparar ao lado. Porque se, acerca do sucessor de Midnite Vultures — essa gloriosa celebração da mais infecciosa promiscuidade estética literalmente "fin de siècle" cujo lema era "mixing business with leather, Christmas with Heather, freaks flock together" a bordo do "goodship ménage à trois" —, a boataria falava de outro retorno à "pureza" das raízes folk/country com ecos de Neil Young e outras luminárias "acústicas", a verdade é que, sendo vagamente isso, não é, de facto, senão outra elegantíssima perversão das regras de um jogo só parecido com esse. Sim, predominam os timbres acústicos, os andamentos são repousados e as atmosferas reflexivas, mas em quase todos os doze temas, mais subtil ou mais obviamente, algo nos arranjos ou no design da encenação instrumental amplifica, desfigura ou contraria aquilo que noutros seria o desgraçadamente previsível álbum-acústico-de-baladas-folk-country: "Paper Tiger" é soturno funk de câmara com sumptuosa orquestra de cordas à maneira de um hiper-Isaac Hayes, "Lonesome Tears" só pode ser descrita como country-expressionista-sinfónico com crescendo final "à la" "A Day In The Life", "Lost Cause" aloja a mais pura candura melódica folk numa moldura de fantasmagorias, distorções e "reverse tapes", "Round The Bend" parece um felicíssimo casamento entre os sublimes ambientes orquestrais de American Gothic, de David Ackles (que Beck, seguramente, nunca ouviu), e a imaterialidade de David Sylvian (que ele, por certo, conhece), "Sunday Sun" ensaia uma quase raga psicadélica algures entre os Traffic e os Nirvana — que afloram de novo em "Little One" — e, de um modo geral, não permitam nunca que as episódicas slide-guitars e harmónicas vos enganem. Beck Hansen é imensamente maior que todos os estereótipos em que o pretendam encarcerar e, venham as marés de que lado vierem, Sea Change é apenas outra desmedida prova disso. (2002)

12 August 2008

INVERSÃO DE SENTIDO



Beck - Modern Guilt

Após os óptimos Midnite Vultures e Sea Change (mas, agora, Beck faz questão de afirmar que “não se sente especialmente orgulhoso” de várias canções de Vultures e não interpreta um único tema desse álbum em palco), a trajectória de Beck iniciou um notório plano inclinado, com níveis sucessivamente inferiores em Guero e The Information. Se fôssemos a tomar essas duas gravações como termo de comparação para os rituais ocultistas em que se decide a atribuição de estrelas, Modern Guilt, provavelmente, mereceria três. Demonstremos, no entanto, um pouco mais de respeito por quem, sem dúvida, o merece, e, perante o melhor da sua obra, fiquemo-nos pelas duas.



Estes breves trinta e três minutos de música – co-produzida por Danger Mouse aka Brian Burton – invertem, é verdade, o sentido da curva recorrendo ao cruzamento da psicadélia sessentista com sintetizadores atmosféricos, beatboxes virtuosas, colagens e tapeçarias de loops, Beck elocubra eloquentemente sobre teorias da conspiração, invectiva Deus ("If I wake up and see my maker coming with all of his crimson and his iron desire, we'll drag the streets with the baggage of longing, to be loved or destroyed, from a void to a grain of sand in your hand") e desenha círculos de perplexidade existencial mas não são ainda material “vintage” do autor de Odelay.

(2008)