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17 September 2021

AS NOTAS QUE GOSTAM UMAS DAS OUTRAS


Poderá não ter sido o melhor álbum dos Beatles (aqui a doutrina divide-se), mas aquele que é, sem dúvida, um dos mais importantes objectos culturais pop da segunda metade do século XX – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – foi assim intitulado apenas porque, à mesa, alguém se dirigiu a Paul McCartney pedindo-lhe “Pass the salt and pepper” e este julgou ter ouvido “Sargeant Pepper”. Por outro lado, a famosíssima capa dupla (concebida por Peter Blake, Jann Haworth e pelo fotógrafo Michael Cooper a partir de um esboço de John Lennon – ou Paul McCartney, a doutrina divide-se de novo) e as 71 figuras nela representadas teve, na origem, uma intenção assaz prosaica e utilitária: na primeira era dos LP, era comum que, após a aquisição de um disco, fosse necessário passar algum tempo de viagem em transportes públicos até poder colocá-lo sobre o prato do gira-discos. Esse tempo seria habitualmente preenchido perscrutando todos os pormenores da capa do objecto amado. A ideia era que, com Sgt. Pepper’s, fossem necessárias umas quantas viagens de autocarro até que ele pudesse ser integralmente decifrado. No que à própria música diz respeito, Jimi Hendrix não precisou de tanto tempo: três dias após a publicação do álbum, abriu o seu concerto no Saville Theater, de Londres, com uma versão fumegante de "Sgt Pepper’s". No meio do público, estavam George Harrison e Paul McCartney.
 
Nem todas estas histórias serão inéditas mas, no contexto de McCartney 3,2,1 – a mini-série de 6 episódios (cerca de 30 minutos cada) realizada por Zachary Heinzerling –, que coloca frente a frente Paul McCartney e o lendário produtor Rick Rubin (fundador das editoras Def Jam e American Recordings, produtor dos Beastie Boys, Public Enemy, Run-DMC, Johnny Cash, Red Hot Chili Peppers), contribuem para temperar de detalhes vividos aquilo que é, essencialmente, uma visita guiada, praticamente uma "master class" sobre a discografia dos Beatles, com muito fugazes incursões à obra a solo de McCartney (daqui; segue para aqui)

14 October 2020

HEMORRAGIA LENTA


Na lista das experiências formativas essenciais, Tom Waits inclui ter sido empregado de mesa, em San Diego, na Napoleone's Pizza House: “O que San Diego tinha de bom era haver muitas lojas de tatuagens. Tenho o mapa da Ilha de Páscoa nas costas. E o menu completo da Napoleone's Pizza House na barriga. Quando lá trabalhava, a partir de certa altura, desistiram de imprimir os menus. Eu ia até às mesas e levantava a camisa”. Matt Berninger não anda muito longe disso quando recorda como, nos anos 80, era entregador de pizzas, em Cincinnati: “Fazia pouco mais do que viajar pela cidade, fumando e ouvindo uma estação de rádio, a 97X, Foi o emprego mais musical que tive”. E, à “Uncut”, acrescenta: “Depois, trabalhei num campo de golfe, como cortador de relva, e ouvia os Smiths, enquanto aqueles imbecis ricos tentavam acertar-me com as bolas. Foi a minha educação musical”.
 

Após 20 anos a bordo dos National, publica, agora, o primeiro álbum a solo – Serpentine Prison – e anuncia que se trata de uma nova etapa na aprendizagem de escrita de canções. Tudo terá começado com a adaptação do Cyrano de Bergerac, por Erica Schmidt, para o Daryl Roth Theatre, de Nova Iorque (“Metade escrita de canções e metade paraquedismo”, explicaria Berninger) mas, concluída a experiência de “entrar na cabeça das personagens e exprimir as suas emoções”, pareceu-lhe que era altura de “voltar a chafurdar no meu próprio lixo e isto foi a primeira coisa que daí saiu”. Na verdade, houve uma tentativa anterior de um álbum de versões (Velvet Underground, The Cure, Morphine e Beastie Boys faziam filinha para o abate) que o produtor convidado, Booker T “Green Onions” Jones, desencorajou ao escutar os originais de Berninger co-escritos com Scott Devendorf, Andrew Bird, Walter Martin (Walkmen), Mickey Raphael e Gail Ann Dorsey. E fez muito bem: no mesmo registo acolchoadamente (des)confortável que, desde há dois álbuns, é o dos National, Serpentine Prison é melancolia outonal, hemorragia lenta e quase feliz, um afago resignado antes de encarar o precipício.

05 February 2014

O CÉREBRO A REFOGAR


Parafraseando o Manifesto Comunista, em 1992, Terence McKenna iniciava o tão fascinante quanto demente O Pão Dos Deuses com as palavras “Um espectro assombra a cultura planetária – o espectro das drogas”. E, daí, na condição de continuador de ilustres antecedentes como Aldous Huxley ou Timothy Leary, partia para uma minuciosa investigação histórica da relação dos humanos com as drogas psicoactivas, acabando por atribuir a emergência do homo sapiens ao consumo de cogumelos alucinogénicos, advogando a exploração dos estados alterados de consciência através da ingestão de psicotrópicos naturais (em especial, a DMT, presente no ayahuasca dos xamâs da Amazónia) e prevendo para 21 de Dezembro de 2012, em coincidência com o final do famigerado calendário Maia, o encontro com “o objecto transcendente no final dos tempos”, momento em que se estabeleceria “a fusão entre nós, as nossas máquinas e a alma do mundo orgânico num único ser”. Não chegaria a ter a oportunidade de verificar que 21.12.12 foi apenas um dia igual a todos os outros (morreu em Abril de 2000) mas, do mesmo modo que com muitos outros paladinos do pensamento mágico e anti-científico (no qual a cultura "new age" embrulhou a pior herança dos anos 60), o seu legado esotérico está longe de defunto.

Ben Lee, ex-membro dos australianos Noise Addict - que, pela mesma altura em que McKenna publicava O Pão Dos Deuses, chegaram a seduzir os Sonic Youth e os Beastie Boys que lhes editaram discos nos EUA – e, logo depois, a solo, é um dos mais recentes cristãos novos da causa psicadélica e Ayahuasca: Welcome To The Work o seu novo testamento. Na contracapa, reconhece humildemente que procurar “capturar em música a experiência da transcendência” (leia-se: Lee, como McKenna, andou a tripar forte e feio na Amazónia) só pode ser “um falhanço” e que é impossível comunicar o que se encontra “beyond the mind”. Pura verdade: “beyond the mind” não existe nada mas, não indo ao ponto de lhe aconselhar o estudo das neurociências, aos 35 anos, já teria tido tempo para perceber que aquilo que um cérebro a refogar em DMT produz não é necessariamente tão bom quando escutado sem aditivos. É mesmo, não há outra forma de o dizer, extraordinariamente aborrecido, sobrando para a categoria do apenas tolerável um ou dois instantes de pseudo-Beach Boys. Alinhem-se os chacras, se tiver de ser, mas, pelo menos, que a música seja potável.