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11 December 2022

 
(sequência daqui) Não se trata, evidentemente, apenas de “decompor rótulos e categorias” mas de reconhecer o gritantemente óbvio: excluindo episódios caricatos como o das bandas de “blue-eyed bluesmen” da década de 70 do século passado, a música contemporânea é medularmente mestiça e nenhum laboratório seria alguma vez capaz de, do jazz ao rock’n’roll, de Duke Ellington a Django Reinhardt, de Debussy a Philip Glass, do fado à morna, identificar o grau de pureza de cada autor, género ou peça musical. Basta espreitar, por exemplo, para o video de "Do I Love You (Indeed I Do)" – original de Frank Wilson – e da quase replicação de uma assembleia geral da ONU que os muitos músicos (cordas, sopros, vozes, percussão) em palco encenam nesta exuberante interpretação, para que se torne inteiramente claríssimo que, se a soul e o R&B clássicos tiveram uma origem cultural bem específica, hoje, são aquilo a que, facilmente, se chamaria património colectivo. Mas poderiam ser também a visceral "Turn Back The Hands Of Time" (de Tyrone Davis), a vibrante celebração colectiva de "Don’t Play That Song" (Aretha Franklin/Ben E. King), a imperial "The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore" (prévia incursão caucasiana pelos Walker Brothers), a complexa subtileza de "Nightshift" (Commodores), a profundidade panorâmica de "Someday We’ll Be Together" (Supremes), ou qualquer uma das outras 40 que, apesar de gravadas, acabaram preteridas. “Inspirei-me em Levi Stubbs, David Ruffin, Jimmy Ruffin, Jerry Butler, Diana Ross, Dobie Gray e Scott Walker, entre muitos outros, e tentei fazer-lhes justiça assim como aos autores desta gloriosa música”, declara Bruce, acrescentando “A minha intenção é que o público actual possa partilhar da sua beleza e júbilo tal como aconteceu comigo desde que, pela primeira vez, a escutei". Missão cumprida, Bruce.

Tyrone Davis

08 December 2022

 
(sequência daqui) Como conciliar isso, então, com o facto de termos nas mãos Only The Strong Survive, um álbum de versões de 15 clássicos da soul interpretados por Bruce Springsteen que, ao que se saiba, nunca foi negro nem vítima de alguma forma de discriminação racial? Será este um momento particularmente propício ao desembainhar de espadas contra a “apropriação cultural”? Demos, uma vez mais, a palavra a Barack Obama quando este recorda os diversos concertos “In Performance At The White House” que tiveram lugar durante os seus dois mandatos: “Tivemos uma noite dedicada à Motown, mas também uma noite de country, uma fiesta latina, uma noite de temas da Broadway, uma noite gospel. Parte da nossa ideia foi reunir músicos de diferentes quadrantes para participarem em algo que, por tradição, não se enquadrava na sua esfera. Incluímos um intérprete de música country no concerto de gospel. E um cantor de R&B a interpretar rock para enfatizar e sublinhar o modo como, na realidade, todas estas vertentes se misturam quanco começamos a decompor rótulos e categorias que temos na cabeça”. (segue para aqui)

Ben E. King