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20 December 2022

Elvis Presley - "Money Honey"
 
(sequência daqui) "Money Honey", de Elvis Presley, por exemplo, onde este é apenas referido de passagem: “A arte é um desacordo. O dinheiro é um acordo. Eu gosto de Caravaggio, tu gostas de Basquiat. Gostamos ambos de Frida Kahlo e Warhol não nos aquece. A arte alimenta-se destas disputas. É por isso que não pode existir uma arte nacional. Quando essa tentativa ocorre, apercebemo-nos do limar das arestas, da tentativa de incluir todas as opiniões, do desejo de não ofender ninguém. Demasiado depressa, transforma-se em propaganda ou comercialismo rasteiro. Não que haja algo errado com o comercialismo mas, como tudo que tem a ver com dinheiro, baseia-se num salto de fé mais abstracto do que o abstraccionismo geométrico de Frank Stella”.
 
 
Frank Sinatra - "I'm A Fool To Want You"

No fundo, tudo poderia reduzir-se a poucas regras: 1) “Se uma canção nos emociona, isso é o que importa. Não tenho de saber o que ela significa. Já escrevi sobre tudo nas minhas canções. E não me preocupo nada com isso”; 2) “Conhecer a biografia de um artista não nos ajuda especialmente a compreender uma canção. Aparentemente, o que Frank Sinatra sentia por Ava Gardner é a matéria de ‘I’m A Fool To Want You’ mas isso são apenas banalidades. O que importa é como uma canção nos faz sentir acerca de nós próprios”; 3) “Uma forma de avaliar um autor de canções é reparar em quem são os intérpretes que as cantam. Outra é verificarmos se elas continuam a ser cantadas”. (segue para aqui)

05 December 2007

STREET ART, GRAFFITI & ETC (VI)


(todas as fotos deste post: Berlim, Alemanha, 1994)

Confesso que nunca tinha ouvido falar na "teoria da janela quebrada" dos sociólogos de Palo Alto, na Califórnia. Mas, segundo William Bratton, ex-comandante da polícia de Nova Iorque — que, de acordo com o "Expresso" da semana passada, "aplicou na cidade a política de Tolerância Zero lançada pelo 'mayor' republicano Rudolph Giulianni" e que, nas palavras do "Público" (aqui podem rir-se), "quase eliminou a prostituição e o tráfico de droga" — numa conferência na Escola Superior de Polícia de Lisboa, ela assenta na ideia segundo a qual "ao deixar uma janela partida num prédio ou num carro abandonado, isso será apenas o início da degradação posterior desse local". Daí decorre necessariamente a muito perspicaz atitude de "dar tanta importância às pequenas infracções como aos grandes crimes", de não contemporizar com "mendigos agressivos, bêbedos, passadores de droga e prostitutas de rua" e (leiam e acreditem, ele disse-o mesmo) "uma das primeiras prioridades das polícias, o combate aos graffiti".


Porquê? Não chegam lá sózinhos? Então eu reproduzo as palavras do sábio: "Se os jovens não aprendem a respeitar a propriedade alheia, vão respeitá-la mais tarde? Não. Hoje fazem um graffiti, amanhã apetece-lhes e roubam um carro". Para esse efeito foi, pois, criada uma brigada especial (supõe-se que constituida por grafologistas) com o objectivo de "identificar as assinaturas dos desenhos, estabelecendo nexos de causalidade entre os autores e as obras" sendo os graffiteiros detidos "sem que haja a necessidade legal de os apanhar em flagrante delito".


William Bratton não tem dúvidas ("Encaramos o graffiti como outro crime qualquer"), dá conselhos à polícia portuguesa ("Isto já se transformou numa subcultura resistente. O que é preciso é dar sinal de que não se vai tolerá-los. E tratar quem os faz como um simples criminoso") e não hesita em brindar-nos com as suas originalíssimas opiniões sobre arte mural: "O graffiti é apenas mais uma forma de vandalismo urbano de alguém que não quer dizer mais nada a não ser 'Eu estive aqui'. É egoista, não é artístico. Os vossos graffiti de hoje também não se comparam com as inscrições políticas do pós-1974".


Longe de mim a pretensão de discutir estética com a bófia. Em particular com um representante da espécie que, surpreendentemente, parece preferir o realismo-socialista dos murais do PREC às inscrições da cultura hip-hop e foi buscar, sabe-se lá onde, a tese de que a "verdadeira arte" nunca será uma manifestação egoísta. Mas já me parece que devíamos ficar um bocadinho inquietos com as potenciais extensões da "teoria da janela quebrada": ou não será que dela se poderá naturalmente inferir que quem se esquece sistematicamente de tapar a pasta de dentes, mais dia menos dia, está a pôr bombas no Pentágono? E que, portanto, é uma indiscutível questão de segurança nacional a vigilância apertada de todas as actividades domésticas privadas? Não, não se trata de ficção científica "à la Big Brother" mas de algo inteiramente possível num país onde, em certos estados, a homosexualidade, mesmo praticada entre "consenting adults" na privacidade da própria casa, pode ser considerada crime.


Contudo, já que é de arte mural urbana que se trata, talvez fosse também de ilustrar os nossos agentes da ordem sedentos de cultura e de conhecimentos com mais umas conferências e colóquiozinhos sobre Keith Haring ou Basquiat (erudita literatura de apoio não falta), dar-lhes a escutar alguma da música que constitui a complementar banda sonora dos grafitti (ambos, de facto, manifestações de uma "subcultura resistente" que não lhes ficaria mal compreender e apreciar) e explicar-lhes a enorme sorte que tiveram o Miguel Ângelo da Capela Sistina, os autores dos horrivelmente "obscenos" frescos de Pompeia, os "vulgares criminosos" da obra colectiva que foi o muro de Berlim ou os outros, nossos antepassados de Foz Côa, por o tal de Bratton não andar lá por perto. Pela parte que me toca, podem contar já com a cedência da minha preciosa e numerosa colecção de fotografias de graffiti tiradas um pouco por toda a parte. Nomeadamente, naqueles sítios civilizados onde alguns poderes públicos e privados os estimulam e encorajam. (2000)