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08 July 2024

FIOS INVISÍVEIS


"Bem vindos ao novo mundo! No qual as pessoas não são arquivadas por categorias e todos os cruzamentos são naturais. É o efeito que a música exerce sobre nós. De Obama a Elvis Costello, as pessoas gravitam em torno desta música. Até no modo como escolho quem convidar para colaborar comigo existem formas subtis de permitir que a música se dirija onde é necessário sem ter de me preocupar com a minha ou a tua etnicidade. E isso é algo que deve ser celebrado", dizia Arooj Aftab à "Spin", há cerca de um mês. Referia-se ao facto de "Mohabbat" (do seu álbum Vulture Prince) ter aparecido na "Summer Playlist" de 2021, de Barack Obama, e de, para o novíssimo Night Reign, na lista de convidados, surgir o nome de Elvis Costello enquanto quase clandestino executante de piano Wurlitzer em "Last Night Reprise" (do que se confessaria "extremamente orgulhoso" dado tratar-se da sua primeira referência de sempre como teclista "em qualquer disco"). (daqui; segue para aqui)

08 December 2022

 
(sequência daqui) Como conciliar isso, então, com o facto de termos nas mãos Only The Strong Survive, um álbum de versões de 15 clássicos da soul interpretados por Bruce Springsteen que, ao que se saiba, nunca foi negro nem vítima de alguma forma de discriminação racial? Será este um momento particularmente propício ao desembainhar de espadas contra a “apropriação cultural”? Demos, uma vez mais, a palavra a Barack Obama quando este recorda os diversos concertos “In Performance At The White House” que tiveram lugar durante os seus dois mandatos: “Tivemos uma noite dedicada à Motown, mas também uma noite de country, uma fiesta latina, uma noite de temas da Broadway, uma noite gospel. Parte da nossa ideia foi reunir músicos de diferentes quadrantes para participarem em algo que, por tradição, não se enquadrava na sua esfera. Incluímos um intérprete de música country no concerto de gospel. E um cantor de R&B a interpretar rock para enfatizar e sublinhar o modo como, na realidade, todas estas vertentes se misturam quanco começamos a decompor rótulos e categorias que temos na cabeça”. (segue para aqui)

Ben E. King

06 December 2022

 
(sequência daqui) Quando, porém, o assunto se desvia para a esfera musical propriamente dita, há que encarar as coisas com mil outros cuidados. Voltando a Renegades, Bruce confessa: “Comecei a tocar guitarra em 1964 e passei o secundário a tocar, Tínhamos os Rolling Stones e os Beatles mas, logo a seguir, também apareceram o Sam & Dave e a Motown, e aprendemos a escrever com os grandes compositores da Motown”. Obama, a propósito, observa: “Os negros são rebaixados, discriminados, porém, a cultura está contantemente a apropriar-se, a regurgitar e a processar o estilo que advém de se ser um forasteiro e de saber o que é ser infeliz, ter visto serem-lhe inflingidas aquelas cicatrizes, ter de viver do ar e fazer das tripas coração. E o rock’n’roll faz parte desse processo”. Muito correctamente, Springsteen acrescenta: “Para falar sobre raça, é preciso, em certa medida, desconstruir o mito da mistura de culturas que, na sua essência, nunca foi uma realidade. Admitir que uma grande parte da nossa história se baseou na pilhagem, na violência, e tendo por alvo as pessoas de cor. Envergonharmo-nos da nossa culpa colectiva. Teríamos de reconhecer a nossa cumplicidade diária e reconhecer que estamos ligados à história do racismo”. (segue para aqui)

Frank Wilson

04 December 2022

MAGNÍFICO IMPOSTOR


Em Renegades: Born In The USA, o belíssimo livro que regista as 8 conversas entre Bruce Springsteen e o ex-presidente, Barack Obama, originalmente difundidas em podcast (entre Fevereiro e Abril de 2021), a certa altura, Springsteen revela: “Só comecei a conduzir aos 24 anos. Andava à boleia para todo o lado. Não tinha carta e não sabia conduzir. Ia para a estrada, só eu e o meu polegar. Durante 10 anos, desde os meus 14, andei sempre à boleia. Lancei dois álbuns mas não tinha carro. Não sabia reparar um carro, caso se avariasse. Porém sabia o que um carro era, aquilo que simbolizava...” Por outras palavras, o enorme escritor de canções responsável pela poética mitologização dos infinitos "highways" norte-americanos, foi, durante algum tempo, mais outro poeta-fingidor, magnífico impostor, de quem nunca ninguém ousou duvidar. Na verdade, poderá considerar-se existir até alguma espécie de reincidência. Durante a longuíssima série de concertos a solo, “Springsteen On Broadway”, que, entre 2017 e 2018, apresentou, logo de início, poria as cartas na mesa: “Nunca tive um emprego sério em toda a minha vida. Nunca trabalhei das 9 às 5. Nunca trabalhei 5 dias por semana. Até agora. Nunca estive no interior de uma fábrica e, no entanto, não tenho escrito sobre outra coisa. À vossa frente, está um homem que teve um imenso e absurdo sucesso escrevendo acerca daquilo sobre que nunca teve a mínima experiência pessoal. Inventei tudo. É para que vejam quão bom eu sou”. (daqui; segue para aqui)


Commodores 
  

01 March 2021

Renegades: Born in the USA

"Renegades: Born in the USA is a series of conversations between President Barack Obama and Bruce Springsteen about their lives, music, and enduring love of America—despite all its challenges" (aqui)

26 July 2020

O DISCO QUE LHE FUGIU


No início de Junho, Neil Young publicou no seu site, Neil Young Archives, uma versão recente de "Southern Man" (“I saw cotton and I saw black, tall white mansions and little shacks, southern man, when will you pay them back? I heard screamin' and bullwhips cracking, how long? how long?”), originalmente do álbum de 1970, After The Gold Rush. E acompanhava-a com uma mensagem que, sem nomear George Floyd, era assaz explícita: “Aqui estou eu, um velho, a cantar uma canção com 50 anos, escrita após incontáveis anos de racismo nos EUA. E olhem para nós, hoje! Estas coisas acontecem há tempo de mais. Já não se trata apenas do ‘homem do Sul’. Acontece por todos os Estados Unidos. Chegou a altura de haver mudanças autênticas, novas leis e novas regras para a polícia”.



Em Janeiro passado, pouco depois de, finalmente, ter conseguido a nacionalidade americana, apressara-se a declarar o seu apoio à candidatura presidencial de Bernie Sanders. Alguns dias após a revisitação de "Southern Man" e já consumada a desistência de Sanders, voltaria ao site para, sob o título “Hope”, nos convidar a ser testemunhas das suas novas rotinas quotidianas: “Olá, estou a lavar a loiça. Agora, faço-o todas as manhãs e começo a gostar de cuidar da nossa linda cozinha. Não era costume ocupar-me muito com isto. Adoro deixar tudo limpo e a brilhar. Quando acabo, pego num produto de limpeza de que gosto especialmente, ‘Thieves’, e limpo todas as superfícies. Segundo parece, foi inventado por ladrões (“thieves”) porque lhes permitia cometer crimes, limpar todas as áreas e remover os vestígios. Um grande produto com uma história. O que nos traz à nossa História”. E, abrindo as janelas ao mundo lá fora, atirava-se ao que, verdadeiramente, importa: “Sinto que vem aí uma mudança. Sabemos que as vidas negras são importantes. O meu coração está com todas as famílias negras que foram afectadas, isto é, com todas as famílias negras através da História da América. Sou um velho branco e não me sinto ameaçsdo pelo meu irmão negro. Se o nosso presidente foi responsável por toda esta agitação, por ter atiçado as chamas e ter tentado virar-nos uns contra os outros por motivos políticos, não desistimos do combate por aquilo em que acreditamos. Não passa de um desgraçado líder que ergue muros em volta da nossa casa. Os meus irmãos e irmãs negras já sofreram que baste. A supremacia branca está a chegar ao fim mas não desaparecerá tão cedo. Pensem ou não que o irmão branco de Barack Obama irá ser capaz de lidar com esta situação, será ele, muito provavelmente, o nosso novo líder, fazendo regressar compaixão e empatia à Casa Branca. Que o Grande Espírito esteja com Joe Biden”. E concluía: “A loiça está quase no fim e é altura de limpar a bancada e deixá-la a brilhar para o dia que aí vem”.



Todo este cenário doméstico estava já presente, desde Março, nas “Fireside Sessions” que, filmadas pela mulher, Daryl Hannah, em diversos locais do rancho de ambos no Colorado durante a imposta quarentena, contara com públicos tão especiais como os seus cães rebolando-se na neve, e, na “Barnyard Session”, uma alpaca impertinente, um cavalo desatento e um irrequieto grupo de galinhas. Coisa, obviamente, muito caseirinha e informal mas completamente de acordo com a iminente publicação de Homegrown, um dos vários e míticos “lost albums” que os arquivos de Young contêm. Gravado entre Dezembro de 1974 e Janeiro de 1975 na qualidade de legítimo sucessor do clássico Harvest (1972), acabaria por ser preterido a favor do negríssimo Tonight’s The Night (1975), assombrado pelas mortes por "overdose" do guitarrista dos Crazy Horse, Danny Whitten, e do "roadie" e amigo, Bruce Berry ("I'm sorry. You don't know these people. This means nothing to you", escrevera ele numa nota da edição original).


Se a justificação oficial para a desistência de Homegrown é, hoje, a de se tratar de uma colecção de canções demasiado impregnada pela memória da separação da actriz Carrie Snodgress – “Peço-vos desculpa. Deveriam ter podido escutar este álbum alguns anos depois de ‘Harvest’. É o lado triste de uma relação amorosa. E dos estragos que fez. Não suportava ouvi-lo. Queria andar para a frente. Por isso, guardei-o para mim, escondi-o no cofre, deixei-o na prateleira, arrumei-o na memória... mas devia tê-lo partilhado. Na verdade, é muito bonito. Foi essa a razão por que o gravei. Por vezes, a vida dói. Sabem o que quero dizer. Este foi o disco que me fugiu” –, segundo uma lenda apócrifa, a ocultação durante 45 anos terá sido decretada numa noite de libérrimo convívio alimentada por estimulantes vários no Hotel Chateau Marmont (que Jarvis Cocker e Chilly Gonzales celebrariam em Room 29) durante a qual Rick Danko, Levon Helm, Richard Manuel (da Band) e elementos dos Crazy Horse, chamados a decidir, votaram a favor de Tonight’s The Night e contra Homegrown.



È muito provável que tenham tido razão: o que quase meio século depois escutamos é, sem dúvida, um belo naco do Neil Young folk-country e (maioritariamente) acústico mas não se trata de nenhum Smile ou Basement Tapes e, muito menos, peça capaz de se elevar à crueza das trevas de Tonight’s.... "Love Is A Ros"’ entraria, facilmente, para o cânone de Young, "Kansas" é uma delicada variação mais leve do que o ar sobre o tema “Hello I love you, won’t you tell me your name (“And it’s so good to have you sleeping by my side, although I’m not so sure if I even know your name”), "White Line" (com bordado de Robbie Robertson), "Try" e "Star of Bethlehem" (ambas vaporizadas pela voz de Emmylou Harris), e "Vacancy" (a deixar infectar-se pela electricidade das guitarras) vão pelo mesmo bom caminho. Mas a faixa-título e "Little Wing" são desesperantemente banais, "We Don’t Smoke It No More" demonstra exactamente o contrário do que afirma e "Florida" – um exercício de "spoken word" sobre cordas de piano friccionadas por copos de vidro – revela Young a candidatar-se ao lugar de um JG Ballard ganzado e a falhar redondamente. Acerca de perdidos e achados idênticos, Neil Young disse, uma vez: “Trabalho para a minha musa. Começo um álbum e as coisas correm umas vezes melhor, outras pior. Muitas vezes, não há uma boa razão para um disco ter ficado perdido pelo caminho. Gravei-o, passou por mim, alguma coisa me distraíu e esqueci-me do que tinha estado a fazer antes”. Homegrown não merecia o esquecimento mas não perdia nada com um desbaste dos ramos secos.

30 October 2019

Priests - "And Breeding"



Katie Alice Greer: "I’m not interested in art that is didactic or comes across like propaganda, and we never set out to be a band that feels responsible for educating people. I think that’s incredibly presumptuous, and I would rather our audience feel motivated to learn about things on their own. I don’t see myself as some kind of expert with special knowledge to impart on. I believe in art as a transformative force in culture. And I believe in encouraging critical thinking people — thinking that way does an incredible disservice to the sanctity of art" (...) .

"While Obama certainly seems a million times better than our current president, there were still a lot of problems with [his] administration: We were still an imperialist country dropping bombs on brown people overseas. We still had the prison-industrial complex that literally murders hundreds of thousands of people every year. You know, we were still the fucked-up country that we are now. We're all sad that he's gone now, but he was a President like any other. There was lots to be desired with him as President and I think that broken neo-liberalism is to a large extent what elected Donald Trump. Thus, I still do feel the same way. I've been changing the line 'Barack Obama killed something in me and I'm going to get him for it' to 'Barack Obama killed something in me, fuck Donald Trump and his white supremacy' when we play it live now"

02 July 2018



"He voted for Reagan in 1984, drawn to a Wild West aura bestowed by the movies: 'I mostly liked that he carried a wind of old Hollywood, of a cowboy and a brush-clearer'. In 2000, Lynch directed a campaign video for John Hagelin, a fellow-meditator who was a Presidential candidate with the Natural Law Party. He voted for Barack Obama in 2012, for Bernie Sanders in the 2016 Democratic primary, and (he thinks) for the Libertarian candidate, Gary Johnson, in the last general election"

19 April 2017

NEUROCIÊNCIA

  
No último mês da campanha para a presidência norte-americana, Aimee Mann, contribuiu com uma canção peculiar para o site independente “30 Days 30 Songs”, ponto de encontro dos “musicians for a Trump-free America” (actualmente convertido em “1000 Days 1000 Songs”, segundo o Washington Post, “a playlist of songs that Donald Trump will hate”): numa demonstração exemplar do seu “sense of irony made of real iron”, "Can’t You Tell?" apresentava um Trump que, falando na primeira pessoa, confessava que apenas se candidatara pela emoção da vitória e para se vingar da humilhação que sofrera às mãos de Barack Obama, em 2011, no jantar de correspondentes da Casa Branca. Mas que, apavorado perante a possibilidade cada vez mais concreta de vir a ser presidente, terminava, suplicando: “Isn’t anybody going to stop me? I don’t want this job, my god, can’t you tell I’m unwell?” 



“Unwell” é também o mínimo que poderá dizer-se do estado de espírito da maioria das personagens que, desde 1985, com os ‘Til Tuesday, e, a partir de 1993, a solo, habitam as canções de Mann. Muito em particular em álbuns como Bachelor No. 2 (2000), Lost in Space (2002), The Forgotten Arm (2005), @#%&*! Smilers (2008), e, acima de todas, nas que escreveu para a perfeitíssima banda sonora de um dos mais devastadores filmes de sempre – Magnolia, de Paul Thomas Anderson (1999) –, cujo argumento foi, aliás, inspirado nelas. Razão pela qual não seria, de todo, um disparate supor que um título como Mental Illness designaria uma compilação/"best of" de Aimee. Afinal, é tão só o seu nono registo de estúdio que, em modo sarcástico, assume o rótulo “depressivo” que lhe foi colado mas não desiste de investigar e inventariar aquilo de que, já há 50 anos, em The Ghost In The Machine, Arthur Koestler suspeitava: fundamentalmente disfuncional, do cérebro da criatura humana pouco há a esperar senão a trágica repetição dos mesmos erros. Nas palavras e melodias de uma suprema classicista pop, isto deverá ler-se “Here we go again, it's obvious, here we go again, we've just become our worst mistakes, the rattles off two rattlesnakes, the antidote that no one takes, so here we go again”. Ou, nitidamente, já no fim da linha, “Philly thinks, and when he thinks he can't feel anymore, Philly drinks, and when he drinks, all the drunks hit the floor”.

09 March 2017

A VIDA EM DUAS HORAS E MEIA 




50 canções. Uma por (e sobre) cada ano de vida, iniciada em 1965, até ao meio século comemorado a 19 de Fevereiro de há dois anos, mas só agora amplamente celebrado através da publicação de 50 Song Memoir. Foi o desafio autobiográfico lançado pelo presidente da Nonesuch Records a Stephin Merritt – ele dos Magnetic Fields, Gothic Archies, Future Bible Heroes e 6ths e “a pessoa menos autobiográfica que alguma vez conhecerão” – que, surpreendentemente, o aceitou. E, retomando a veia das obras de grande fôlego, ultrapassou o inesgotável triplo de 1999, 69 Love Songs, convertendo as suas memórias num portentoso quíntuplo álbum. 

    Decidiu-se a deitar mãos a este projecto porque o presidente da Nonesuch, há dois anos, lho sugeriu como forma de comemorar o seu 50º aniversário. Por iniciativa sua, nunca o faria? 
    Não, se não me tivessem desafiado para o fazer nunca me teria passado pela cabeça a ideia de escrever 50 canções acerca de mim. 

    No entanto, desde 69 Love Songs, i, Songs From A-Z ou o livro que publicou com Roz Chast, 101 Two-Letter Words...
    ...  A-Z foi uma forma de estruturar um concerto, 26 canções, uma para cada letra do alfabeto. Um espectáculo, não um álbum. 

    Mas essa forma de organização temática/conceptual de discos, concertos e livros parece ser algo muito do seu agrado... 
    Não é do agrado de toda a gente?... Se calhar, então, vou chamar ao próximo álbum Another Record... (risos) No fundo, é como o Frank Sinatra intitular um álbum Songs For Swingin' Lovers! Ele tinha uma banda de swing e gravou um álbum de canções de amor. Daí ter-lhe chamado Songs For Swingin' Lovers!, nada de muito complicado. De um modo geral, gosto que o título descreva aquilo que o álbum contém. Por exemplo, o título Distortion era uma espécie de alerta para que, se não gostassem de música com distorção, não iriam apreciar aquele disco. Ninguém teria motivo para reclamar: estava bem visível na capa. 



    50 Song Memoir foi-lhe mais fácil ou mais difícil de criar do que 69 Love Songs? Sempre foram menos 19 canções... 
    Na verdade, foi mais difícil porque tive de me assegurar de que, sendo autobiográfico, tudo aquilo que dizia era verdade. O que torna muito mais complicado encontrar as rimas... 

    Mas também já confessou que “uma autobiografia não tem de ser sinónímo de verdade”... 
    Se estivesse num tribunal e tivesse de contar a história da minha vida em duas horas e meia seria muito diferente daquela que conto através das canções. Seriam ambas verdadeiras mas editadas de modo completamente diferente. Num tribunal, nunca falaria da minha vida amorosa (a não ser que fosse obrigado a fazê-lo) mas, num álbum, isso pode perfeitamente constar da minha biografia. 

    Quer isso dizer que, quando, em "They’re Killing Children Over There", conta que foi a um concerto dos Jefferson Airplane, em 1970, devemos encarar isso como um ‘facto alternativo’, uma liberdade poética ou aconteceu mesmo? Nessa altura, tinha cinco anos... 
    É verdade, fui ver os Jefferson Airplane com a minha mãe! Ela tinha o Surrealistic Pillow [segundo álbum dos Jefferson Airplane de 1967] que eu adorava. Por isso, aos cinco anos, eu já era um fã da banda quando fomos vê-los. 

    Proavelmente, eles nem sonhavam que tinham fãs com cinco anos...
    Havia imensas crianças em Woodstock!... Mas não foi em Woodstock que os vimos. Tentámos ir a Woodstock mas foi impossível, o trânsito estava um pesadelo! Conto isso, aliás, na canção antes dessa, "Judy Garland". 


    Nos espectáculos em que apresentou este álbum, surge como uma personagem no interior do cenário criado por José Zayas – uma espécie de casa de bonecas recheada de objectos fortemente simbólicos que foi coleccionando ao longo dos anos – que vai, canção a canção, ano a ano, contando a história da sua vida... 
    Claro que me vejo como uma personagem. É uma versão editada de mim próprio que apresento. Mas não é mais personagem do que aquela que poderia surgir numa festa onde fosse explicar quem sou, numa versão que as pessoas poderiam reconhecer. Quando, em 2010, fizeram um documentário sobre mim, Strange Powers, fiquei com a ideia de que mostrava uma visão extremamente selectiva da minha vida, de acordo com o ponto de vista das realizadoras [Kerthy Fix e Gail O’Hara]. Não mencionaram o facto de eu ter escrito três musicais durante o período em que filmavam porque não tinham sido autorizadas a filmar os actores. Por isso, essa parte da minha vida não surgiu no documentário. Na altura, isso deixou-me um bocadinho irritado mas, agora, compreendo que qualquer biografia será sempre, inevitavelmente, selectiva, em função do meio que é utilizado e da conveniência do biógrafo. 

    Mesmo quando se trata de uma autobiografia? 
    Sim. No documentário, há muitas sequências de outras pessoas que fazem depoimentos acerca de mim. Numa autobiografia – pelo menos, em todas as que li –, não é habitual ocorrer ao autor a ideia de pedir testemunhos sobre si mesmo. E, neste álbum, eu também não entrevistei ninguém para falar sobre mim. 

    É verdade que, para este disco, foi repescar canções com mais de 30 anos e outras que escreveu quando ainda era adolescente? 
    Sim, algumas. Cerca de metade de "At The Pyramid", por exemplo, fui recuperar a uma gravação dos anos 80 que descobri. Ou "Ethan Frome" que data da época que descreve [1989]. Assim de repente, são aquelas de que me recordo. 



    Pode ser só ainda uma primeira impressão mas, ao escutar 50 Song Memoir, tive a sensação de que tinha convocado, em simultâneo, para a gravação todos os seus alter-egos: Magnetic Fields, Gothic Archies, Future Bible Heroes, 6ths... 
    Não é que, conscientemente, eu tenho pretendido fazer isso mas, se calhar, quem sabe?... Terei, de certeza, de voltar a escutá-lo com essa ideia presente para poder chegar a uma opinião mais segura.

    Voltando ainda a "They’re Killing Children", a determinado passo diz: “Now that everyone is fat and complacent, I haven't heard a protest in years”. Quer parecer-lhe que, agora, após a eleição para a presidência do Agent Orange, tudo continuará a ser assim? 
    O que pretendi dizer é que há muitos anos não se escutam canções de protesto. Acerca das guerras em que nos envolvemos. Na semana passada, um raide aéreo no Yemen aprovado por Trump matou uma miúda de 8 anos cujo irmão de 16 anos tinha também sido morto, meses antes, noutro raide aprovado por Obama. Continuam a ser mortas crianças naquela guerra e não estou à espera que deixem de o fazer tão cedo. Mas já não há uns Jefferson Airplane para escreverem canções sobre isso. Existe protesto no hip hop mas nunca me dei conta que falassem sobre vítimas infantis de raides aéreos.

24 January 2017

ACRÓNIMOS 


POTUS é o acrónimo usual para President Of The United States. Tal como SCOTUS para Supreme Court Of The United States. E FLOTUS para First Lady Of The United States. Publicado quatro dias antes da data na qual parecia bastante provável que, pela primeira vez na História norte-americana, uma ex-FLOTUS se tornasse POTUS, FLOTUS, décimo segundo álbum dos Lambchop, aludia a isso mas não era exactamente isso. Na verdade, Kurt Wagner assegura que, no caso, o acrónimo deverá ser lido “For Love Often Turns Us Still”. Alargando o campo interpretativo, explica que se trata de uma metáfora para os felizes 20 anos de casamento com Mary Mancini, ex-proprietária da Lucy’s Record Shop (centro de gravidade indie/punk de Nashville, de 1992 a 1998) e, desde 2015, presidente estadual do Partido Democrático no Tennessee. De quem, ele seria, naturalmente, o/a FLOTUS. Cumpriu, de imediato, as obrigações inerentes ao cargo na capa do disco que exibe um desenho seu, feito a partir de uma fotografia reenquadrada de Mary, sobre cujo ombro se vê uma mão. De Barack Obama. 

E, se o fatídico 8 de Novembro não concretizou a desejada transição FLOTUS-POTUS, isso não impediu que o sucessor de Mr M (2012) estivesse absolutamente à altura do caderno de encargos. Superou-o até. Inspirado pelo que vinha escutando de Kendrick Lamar, Flying Lotus e Shabazz Palaces, e socorrendo-se de um processador de voz – o TC-Helicon VoiceLive 2 –, a música dos Lambchop (prolongando a experimentação do projecto paralelo HeCTA) converteu-se numa condensação de vapores jazzy, palpitações rítmicas, desvios minimalistas e pontilhismos pianísticos que propõe um ângulo narrativo diferente. A linguagem ora se reduz a fonemas, ora recupera fugazmente a autonomia (“Once there was a writer now a reader, once there was a savior now a spender, once there was a maker now a repeater, once there was a friend now a reminder, once there was a fool always a fool”), ora, nos 18 minutos da extraordinária “The Hustle” – banda sonora para The Dockworker's Dream, de Bill Morrison, filme/montagem de imagens do Arquivo da Cinemateca Portuguesa encomendado pelo Curtas de Vila do Conde –, funciona como resposta a um teste de Rorschach: onde Morrison viu a vida imaginária de um estivador, Wagner sonhou com um casamento Quaker no Tennessee.

18 October 2016

"I wanted to write about Trump in the first person because I think it's more interesting to speculate on what people’s inner life might be. I had heard a theory that Trump’s interest in running for President was really kicked off at the 2011 White House Correspondent’s dinner when President Obama basically roasted him, so that’s where I started. And my own feeling was that it wasn’t really the job itself he wanted, but the thrill of running and winning, and that maybe it had all gotten out of hand and was a runaway train that he couldn’t stop" - Aimee Mann



"Can't You Tell?"
 
That bastard making fun of me in front of all my peers
Those people think I own this town, you’re stripping all my gears
Well guess what Mr. President,
I’ll be seeing you
In four years

Though on the campaign trail the papers paint me like a clown
Still all I see are crowds who want to fit me for a crown
I point out all my enemies just so my fans
Bring them down

Isn’t anybody going to stop me?
I don’t want this job
I don’t want this job, my god
Can’t you tell
I’m unwell

You try to pin me down but you don’t really try that hard
I throw out any shit I want and no one trumps that card
So dazzled and distracted by your fantasy
Of Hildegard

Isn’t anybody going to stop me?
I don’t want this job
I don’t want this job, my god
Can’t you tell
I’m unwell

You ask about my plan but baby my plan is to win
I wind up all the tops and watch the others keep the spin
You handing me grenades is just compelling me
To pull the pin

Isn’t anybody going to stop me?
I don’t want this job
I can’t do this job, my god
Can’t you tell
I’m unwell

(aqui)