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10 August 2020

FÁBULAS DO INFERNO

  
Há 11 anos, por altura da publicação de Um Fim de Semana no Pónei Dourado, evocando, muito provavelmente, o camiliano anjo caído, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, nascido na aldeia de Caçarelhos, B Fachada dizia: “Se eu vivesse em Caçarelhos, não era autor e cantava o Romanceiro. Na cidade, tenho esta pressão ocidental, estúpida, para ser original e para criar”. Uma dúzia de EP e álbuns depois, supõe-se que – embora com pausas, por vezes, prolongadas – até não se tenha dado demasiado mal com a “pressão ocidental”. Dir-se-ia mesmo que os esquemas mentais com que triangulava a matéria prima (“Eu divido a música em três: a erudita, a tradicional e a pop. A erudita e a tradicional são artes e a pop é artesanato. A erudita e a pop têm autores individuais e a tradicional tem um autor colectivo. Estou no meio deste triângulo a ser puxado para um lado e para o outro”) deixaram de ser tão inflexíveis: aquele que, então, se via como “o pagão da FlorCaveira”o meteórico conglomerado de gentes que, no início do novo século, por insondáveis designos teológicos e sob o alto patrocínio do papa antipapista, Tiago Guillul, se reuniu para, agarrar pelas tripas a música portuguesa –, sempre abençoado pelos santos tutelares Fausto, Afonso e Godinho, parece ter descoberto o lugar geométrico onde os três eixos se confundem e geram outros sentidos.



Rapazes e Raposas, o sucessor de B Fachada (2014), prossegue o minucioso estudo antroposanfoneiro dos espécimes que povoam o pedaço, observados a partir de Mértola, de Março a Maio de 2020 DC (“Durante o Confinamento”). E, por entre chulas-punk, enlevos pastoris e teclados de feira, desfilam profetas apocalípticos (“A cada mais cem anos que hão de vir, hão de vir mais maldades e agonia, hão de vir mais injustiças e azar, nunca vão faltar o desgosto e abandono”), proclamam-se manifestos anti-tudo (“Sou anti-Freud, sou anti-Marx, não há truque semiótico, eu sou anti-patriótico, faço o direito em cepa torta, sou anti-basta e anti-corta”), glosa-se a “horrorosa Natureza pseudo-mãe” (“A noite é negra, o vento só ajuda os predadores à matança, à luz das estrelas piam todas as corujas, às escuras dormem as crianças”) e, mesmo “sem a graça do Camilo, sem as barbas do Antero” e com engarrafamentos silábicos (“A baleia ainda tem duvidas quanto ao sobrenatural, mas nunca foi mais indiferente às questões de identidade nacional”), o cenário destas fábulas não é de deixar ninguém descansado: “o Inferno está tão cheio que até o Diabo se mudou”.

27 December 2012

PARA O YULE

Paul Simon - Live In New York City (DVD) 

Na categoria dos mestres intocáveis do "songwriting" norte-americano, sons e imagens de Paul Simon, em registo da digressão do ano passado que se sucedeu ao óptimo So Beautiful Or So What. E que, se é suficientemente "crowd pleaser" para não sonegar "The Sound Of Silence" ou "Kodachrome", também preenche boa parte do concerto com reportório bem mais recente e pouco ou nada devedor da indústria da nostalgia.

Radiohead - The King Of Limbs/Live From The Basement  (DVD) 

Inicialmente disponíveis apenas via iTunes, os 55 minutos do DVD com o concerto dos Radiohead para “From the Basement” – um podcast adepto da evolução natural para programa de televisão – incluem a totalidade do alinhamento do último álbum da banda acrescentado dos bónus “Staircase” e “The Daily Mail”, bem como uma interpretação inédita do single “Supercollider” e o canónico bombom da colecção de fotos.

Minta & The Brook Trout - Olympia

Francisca Cortesão (ou Minta) – ex-Casino, parceira de Sérgio Godinho no último álbum deste e, agora mesmo, com B Fachada e João Correia, responsável pela revisão integral de Os Sobreviventes – e The Brook Trout (Mariana Ricardo, Manuel Dordio e Nuno Pessoa), em registo de pop mais leve que o ar, com o pé a fugir para a folk e sem, deliberadamente, o ser, também o exacto género de amabilidades sonoras que combina bem com renas e trenós.

 The Rolling Stones - Grrr!  

O avô vai adorar bambolear-se ao som de música tocada por rapaziada da sua criação! Não é certo que ele ainda se recorde de todas, todas, mas, nestes 3 CD e respectivas 50 canções, gravadas entre 1962 e 2012 (sim, há dois inéditos, mas isso não interessa nada), ele vai poder recordar todo o filme do seu último meio século – ao terceiro disco, vai começar a perder-se um bocadinho... – e abrir um sorriso de orelha a orelha. 

Benjamin Biolay - Vengeance

Benjamin Biolay não é Gainsbourg nem Vincent Delerm (ainda que, visivelmente, gostasse de o ser) mas, no perímetro da pop francesa que, não deixando de ser tricolor, assimilou bem os padrões anglófonos, é um ágil praticante de canções de veludo, aqui e ali, mais ritmicamente vitaminadas, e à procura dos temperos que as participações de Carl Barat (Libertines), Vanessa Paradis e um par de outros lhes consigam adicionar.

14 December 2012

PASSAGEM DE TESTEMUNHO


Os Sobreviventes - B Fachada, Minta e João Correia

Para quem veja Os Sobreviventes (juntamente com Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades, de José Mário Branco, e Cantigas do Maio, de José Afonso) não apenas como uma das três peças inaugurais de 1971 – Os Sobreviventes foi anunciado por um EP desse ano, embora só tenha sido publicado em 1972 – sobre as quais se edificaria a moderna música popular portuguesa posterior, mas enquanto algo de semelhante a quaisquer “sagradas escrituras”, vai sofrer um abalo sério ao escutar o modo como B Fachada, Minta e João Correia se apropriaram dele. Talvez ajude à recuperação se reflectirem um pouco acerca de como as diversas “sagradas escrituras”, elas mesmas, passadas de mão de um copista para as mãos de mil e outros copistas e de um idioma para outro, dificilmente mantêm alguma semelhança com o que poderão ter sido os originais. 




Aqui, a dissonância não será tão acentuada mas, embora o saldo de perdas e ganhos seja razoavelmente equilibrado, a satieana "Paula’", a "Estalajadeira" à la Beach Boys, o "Farto de Voar" à maneira de Wyatt ou o “africano” "Senhor Marquês" são os momentos em que a estratégia de desacelerar andamentos e amaciar as arestas das canções tal como Sérgio as gravou resulta positivamente sem que isso lhes retire energia e vibração nem as aligeire excessivamente. Não será um gémeo do belíssimo Irmão do Meio (2003), porém, na qualidade de passagem de testemunho geracional, retém o suficiente do ADN do progenitor e refresca-o com meia dúzia de novos cromossomas.  

08 December 2012

TRÊS MOSQUETEIROS E DUAS VIDAS (II)



Outro ponto de partida foi a limitação autoimposta de não ir além do trio que se encarregaria de todas as despesas vocais e instrumentais (de guitarras, teclados e percussão): “Foi deliberadamente uma construção em trio. Apenas nós, sem nenhuns convidados. E ensaiámos muito os três para descobrirmos o gozo de reinventar estas canções que, provavelmente, não encontraríamos tão depressa se tivéssemos optado por um trabalho de estúdio muito planificado em que cada um iria gravando a sua parte dos arranjos. Achámos mais importante tirar partido da nossa memória prolongada das canções”. Ou porque a infidelidade da memória é lendária, ou por outros motivos, a verdade é que, nesta reinterpretação de Os Sobreviventes, o andamento da maioria das canções é significativamente mais repousado do que aquele com que o autor as imaginou, acrescentando quinze minutos à duração do LP original. Tanto Francisca (“À excepção da 'Linda Joana' e do 'Maré Alta' que até ficaram mais curtas, é verdade. Houve certas músicas em que surgiram partes extra que não faziam parte das canções originais”) como Bernardo (“Os andamentos das canções do Sérgio são-lhe próprios e seria muito difícil eu e a Francisca, sentados ao piano ou com a guitarra, fazermos o nosso jogo métrico, canção a canção, que é a base das versões, sem que isso definisse o nosso andamento pessoal”) preferem a explicação “por outros motivos”. E associam a essa ideia o facto de se terem desembaraçado das doze peças com diferentes graus de rapidez e facilidade: “Houve canções mais imediatas do que outras. O 'A-A-E-I-O' (gostamos muito desta, conseguimos manter o lado brincalhão do original mas de uma maneira diferente), o ‘Senhor Marquês’, o ‘Romance de Um Dia na Estrada’ e a ‘Paula’ ficaram logo resolvidas. ‘O Charlatão’, por exemplo, saiu também logo assim. Já a ‘Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos’, foi muito mais difícil. Mesmo ouvida agora, se calhar não é a versão que saiu melhor”.


Assessorando no capítulo da perspectiva histórica, Godinho lança duas ou três achas para o lume: “Essa canção já teve, aliás, várias vidas: a letra foi feita para uma melodia do Zeca que se transformou no ‘Cantigas do Maio’, para a qual, entretanto, ele já tinha escrito outra letra, acabando por vir para esta vida. Com a ‘Linda Joana’ também aconteceu que, quando gravei Os Sobreviventes, estava ainda com um bloqueio em relação a escrever em português e fiz algumas em francês. Esta, tal como o ‘Paula’, eram, originalmente, em francês”. E conhecer a história de cada uma delas pode ajudar a compreender algumas particularidades como, por exemplo, a de "Que Força É Essa?", adoptando uma espécie de cadência de "work song", resultar com um ar de quase resignação ao contrário da interpelação/desafio do original. Fachada justifica-se, “Acho que o sentido da nossa abordagem foi esse: parece-me que não houve nenhuma canção que não tivesse ficado mais 'ligeira'. Hoje, torna-se muito difícil interpelar as pessoas. Temos acesso a tantas perspectivas diferentes que não conseguimos pôr o pé tão à frente. As versões que já existem estão tão vivas que não nos cabia a nós, torná-la ainda mais interpelativa” e Sérgio dá-lhe a sua bênção “Eu acho que é um bocadinho mais distanciada. Tem a ver com o tipo de sensibilidade. Não vale a pena cantares como o Bruce Springsteen se não és o Bruce Springsteen. Na versão de O Irmão do Meio, o José Mário Branco pegou naquilo por um lado muito mais LopesGraça/'work song' e deu-lhe todo um outro peso que é também o do imaginário dele”. A propósito de "Farto de Voar", convertida numa belíssima canção de Robert Wyatt, Godinho também vai explorar o arquivo das memórias (“No original, já tinha um lado muito 'eerie', de regresso à terra após uma exaustão química. Aliás, falar de Robert Wyatt acerca dela soa-me meio 'freaky', porque ele voou de uma janela e ficou paralisado em circunstâncias terríveis...”) enquanto B Fachada vê o assunto por outro ângulo: “É uma das versões que gosto mais. E, se calhar, tem muito a ver com o facto de o sentido das palavras poder ser, hoje, lido de modo bastante diferente. Faz-me lembrar as versões que o Caetano fazia das canções do Chico Buarque. Cantadas pelo Chico eram muito vívidas e o Caetano, de repente, cantava-as como se, simplesmente, estivesse apaixonado pelo Chico”.


E é, justamente, aqui que a lebre do contexto exige ser levantada: 1972 não é 2012, ter (ou não) respirado a atmosfera política, social e cultural em que germinou esta dúzia de canções poderá ter sido positivo ou negativo, limitador ou libertador? Para quem se propôs dá-las, de novo, à luz, facilitou ou dificultou o parto? Fachada que, tal como Francisca, criaram estes novos Sobreviventes com a mesma idade que o seu autor os gerou, puxa pelo pragmatismo e relativiza consideravelmente as distâncias: “Claro que não termos vivido uma ditadura é sempre bom! Mas, tanto eu como a Francisca, nascemos em famílias que estiveram muito ligadas à política, crescemos a ouvir estes discos e estas canções. Por isso, a distância acaba por não ser, assim, tanta. Por outro lado, as palavras ganham uma vida independente do autor. As versões foram encaradas como uma reflexão sobre o que significa passarem 40 anos, o que permanece, o que mudou, o que cresceu”. Minta prefere sublinhar a faceta do prazer quase herético do empreendimento: “Por causa dessa distância temporal e geracional, também temos o lado blasfemo que nos permite brincar com as canções de uma forma que, se calhar, não ousaríamos se tivéssemos vivido o contexto em que elas surgiram. A certa altura, quase nos desligámos do significado político das canções, o que é estranho: estávamos, simplesmente, a brincar com os ritmos, com as harmonias...” E Sérgio Godinho, fazendo a ponte entre ambos os registos, não aparenta ter grandes dúvidas acerca da (não necessariamente agradável) perenidade do que “ser sobrevivente” significava ontem e significa hoje: “Quando o disco foi publicado, houve canções que, logo a seguir ao 25 de Abril, foram muito emblemáticas, nomeadamente, o ‘Maré Alta’ (que, ainda agora, se escuta, por vezes, em manifestações). Mas uma frase como “a liberdade está a passar por aqui” que foi escrita ainda durante a ditadura é uma afirmação que tanto está no presente como no futuro – o chão que tu pisas, se tu quiseres, é livre: defende-o!”

06 December 2012

TRÊS MOSQUETEIROS E DUAS VIDAS (I)



 Como, desde Alexandre Dumas, ficou definitivamente estabelecido, os três mosqueteiros são quatro. Esta outra emocionante aventura, bastante mais recente, que consistiu em publicar uma revisão integral de um dos álbuns fundadores da música popular moderna portuguesa – Os Sobreviventes, de 1972 – confirma, em absoluto, a regra: Bernardo Fachada (ou B Fachada), Francisca Cortesão (aliás, Minta), João Correia (Julie & The Carjackers), e, na condição de osservatore a latere, o próprio autor, Sérgio Godinho, foram os responsáveis por aquilo que, surgindo no 40º aniversário da edição original, Fachada, com lapalissiano rigor, qualifica como “um disco que só terá 40 anos daqui a 40 anos”. E, falando em seu nome e no dos outros dois cúmplices no acto de profanação, justifica a ousadia: “Este é um disco que está num sítio especial da nossa memória. Nenhum de nós se recorda da primeira vez que o escutou porque, simplesmente, ele esteve lá sempre. E tínhamos uma relação muito forte com as canções, não enquanto entidades abstractas mas, porque já as tínhamos cantado inúmeras vezes, entre amigos, foram tomando muitas formas concretas, foram praticadas. Essa dimensão pessoal tornou-as mais fáceis de trabalhar. Depois, qualquer objecto cultural tem um contexto: ouvir Os Sobreviventes, em 72, é muito diferente de ouvi-lo hoje. Abriu-se, assim, uma porta para recontextualizar aquelas canções e tentar construir uma significação um pouco diferente do original”.



Godinho, assumindo a paternidade ausente, reconhece que sempre lhe interessou muito “ouvir a maneira como as canções são apropriadas por outros, o que, muitas vezes, é surpreendente” mas faz questão de sublinhar que “quero estar de fora e sempre quis estar de fora. Não assisti a nenhuma das gravações, só ouvi o trabalho já feito. Nunca houve aquilo de ir mostrando 'a ver se ele gosta'. Esse era um dado de partida”. No entanto, isso não é coisa que o impeça de, sem distinguir entre filhas e enteadas, confessar que, “naturalmente, há coisas de que gosto mais e outras de que gosto menos”. E, “pelo sentido lúdico”, a versão de "O Senhor Marquês", surpreendeu-o deveras tal como a "O Charlatão" escuta-a como “quase outra música”. Particularmente interessante foi também a opção pela reconstituição de um álbum completo, em vez de – como acontecera antes com O Irmão do Meio – seleccionar uma espécie de "best of" do reportório de Sérgio Godinho e distribuí-lo por vários candidatos a releitores. A duas vozes, Bernardo e Francisca, justificam a decisão: “Fazer a versão de um álbum completo pareceu-nos uma ideia com muito mais espaço para explorar a música do Sérgio. Se tivéssemos a liberdade para fazer versões de quaisquer canções dele, íamos perder um ano só a escolhê-las. Assim já estão todas escolhidas, a ordem também, chegámos ao ponto quase um bocado absurdo de manter o tom original de todas”.

19 December 2011

ESTILHAÇOS DO BIG BANG



B Fachada - B Fachada




Osso Vaidoso - Animal

Quando houver recuo suficiente para se fazer a história da música popular portuguesa nas primeiras décadas do século XXI, há-de ser inevitável dedicar um extenso capítulo – de certeza, o mais importante – à improbabilíssima aventura dupla FlorCaveira/Amor Fúria, episódio de imprevisíveis raízes cristãs remontando às cisões no empório do Vaticano do século XVI, entre o magnífico papa ateu, Giovanni di Lorenzo de Medici, aliás, Leão X (ele que afirmava “Quantum nobis prodeste haec fabula Christi”, isto é, “Quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Cristo” mas, igualmente, o genial criador do Seguro de Pecado Vitalício conhecido como “Taxa Camarae”), e o teutónico e aborrecidíssimo Martinho Lutero. Alegadamente, protestantes/baptistas uns, católicos os outros – e não estamos propriamente habituados a estabelecer este tipo de clivagens no que ao pop/rock diz respeito –, inegável é que, após demasiado tempo de domínio de roqueiros lusos travestidos de naturais do eixo UK/USA, o terreno estava preparado para a germinação de uma estirpe de renascentistas dedicados a reactivar o ADN – Heróis do Mar, Variações, GNR, Sétima Legião, até a geração prévia dos cantautores – que havia permanecido em estado de latência desde o início de 90. E se, até agora, daí não emergiu ainda nenhum A Um Deus Desconhecido ou Os Homens Não Se Querem Bonitos, já nesse santíssimo ventre foram gerados alguns belos nacos de música e de palavras bem saboreáveis.



Como, por exemplo (para além do que pariram Tiago Guillul, João Coração, Os Golpes, Samuel Úria ou Os Pontos Negros), a discografia bianual de Bernardo Fachada, espécie de desarrumado artesanato salta-pocinhas entre a música tradicional e as muitas declinações da pop: ora Reininho, ora Gainsbourg, aqui Giacometti, ali Godinho, concentrado no estudo quase entomológica do sapiens local, observado do exterior ou encarnado na primeira pessoa do singular, em perfurantes tiradas multireferenciais do jeito de "Vou casar discretamente e ser um belo pai presente, ter pouca vida social e ser senhor de Portugal, vou candidatar-me à presidência, vou fazer concertos de Natal, vou insistir na persistência, eu vou ser o Zappa nacional". Com temíveis desvios infanto-juvenis adicionais (B Fachada É Pra Meninos, 2010) e oferendas estivais (o EP Deus, Pátria e Família, 2011) em modo de imprecação diante das muralhas da cidade: “Portugal está para acabar, é deixar o cabrão morrer, sem a pátria para cantar, sobra um mundo para viver”. B Fachada (indistintamente intitulado da mesma forma que o opus de 2009), entretanto, não será motivo para celebrar com foguetório o décimo volume em quatro anos e meio de discografia: desta vez, em registo autêntica ou ficcionalmente confessional, se a agilidade verbal se deixa reconhecer desde o primeiro instante (“Noutro tempo, noutra configuração, eu dedicava-me ao roque, só tocava distorção, entretinha as raparigas com letras de pressão, uma cassete das antigas, pelas garagens do Monte Abraão”), a moldura musical – piano escolar, coros esquemáticos, percussão residual – reduz ao menor denominador comum uma sequência de canções melodicamente letárgicas, francamente muito pouco memoráveis e de rumo errático, que dificilmente puxarão o lustro ao CV de Fachada.



Se, no entanto, recuarmos até ao tal Big Bang da pop nacional, pelo caminho, tropeçaremos naquele instante em que, tal como se fala dos Pink Floyd com e sem Syd Barrett, nos deveremos referir aos GNR com e sem Alexandre Soares (embora com danos colaterais consideravelmente mais atenuados na banda do Porto): de coração pop e sistema nervoso experimental, os GNR devem-lhe algumas das mais preciosas jóias da primeira e melhor fase (só um exemplo: o alinhamento integral de Os Homens Não Se Querem Bonitos), pecúlio estético que transportaria, primeiro, para o seu The Madcap Laughs, a solo (Um Projecto Global, 1988), e que, mais tarde, integrado na tripulação dos Três Tristes Tigres – onde se cruzaria com Ana Deus –, voltaria a reconfigurar em formato de nave pop com radares apontados à estratosfera, em Guia Espiritual (1996), e Comum (1998). É, justamente, o núcleo Soares/Deus que, agora (metabolizadas obscuras etapas intermédias universalmente desconhecidas sob os nomes de Nadadores de Inverno e D. Chica), regressa, muito apropriadamente, sob a designação de Osso Vaidoso.



Porque a primeira sensação é a de tratar-se de uma reencarnação apenas um pouco menos sonoramente anoréctica dos Young Marble Giants: melodias telegráficas, traçado rítmico de electrocardiograma, espessura harmónica espalmada no quase único contraponto de voz e guitarra, com os eventuais adereços remetidos à percussão-Mo Tucker de "Cacofonia", às interferências siderais de "Animal" ou aos abstraccionismos cenográficos de "Ponto Morto". Caso absolutamente eloquente de quão produtiva pode continuar a ser a atitude "less is more", há, mesmo assim, que reconhecer o valioso contributo dos textos de Regina Guimarães (o terceiro tigre retornado à selva, aqui literaturando a partir dos estímulos de Nina Simone, Charles Cros e de interlocutores de diversas e insondáveis proveniências – é favor dar uso útil à ficha técnica), dos outros de Alberto Pimenta e Valter Hugo Mãe, da semi-invisível mas indispensável aguada tímbrica dos teclados de João Pedro Coimbra (dos Mesa, e outro tigre episódico), das percussões de Gustavo Costa e da electricidade de Tó Trips que, apesar de apenas presente numa só faixa, terá, aparentemente, reanimado o espectro Velvet Underground que Alexandre Soares mantinha sequestrado dentro de si e que ioniza com minerais radioactivos o frágil tecido conjuntivo, esplendorosamente descarnado, do Osso deste Animal.

(2011)

17 January 2011

2010 - MÚSICA: PORTUGUESES










Camané - Do Amor e dos Dias




Abztraqt Sir Q – Extimolotion




Tiago Guillul – V




Pop Dell’Arte - Contra Mundum




Zelig - Joyce Alive!











München - Chaquiego




Lula Pena – Troubadour




Mão Morta - Pesadelo Em Peluche




Laia - Viva Jesus E Mais Alguém




Galandum Galundaina - Senhor Galandum




The Soaked Lamb - Hats & Chairs











B Fachada - B Fachada É Pra Meninos




Bandarra – Bandarra











Peixe:Avião - Madrugada

(2011)
SEM PAU NEM GATO



















B Fachada - B Fachada É Pra Meninos

Dar música aos infantes sem ter de atirar o pau ao gato não é tarefa simples. E até pode gerar pequenos equívocos como o que surgiu à volta de "Puff The Magic Dragon", durante décadas – por mais que o seu autor, Peter Yarrow, jurasse que esse sucesso de Peter, Paul & Mary era absolutamente inocente e nada tinha a ver com o tipo de inalações que Bill Clinton também negou veementemente –, encarada como uma "drug-song" encapotada. Mas não é difícil entender-se que as melhores canções para miúdos são aquelas que, quando escutadas por gente mais crescida, contêm matéria suficientemente interessante para lubrificar dois ou três circuitos cerebrais. Nos últimos anos, houve, pelo menos, dois óptimos exemplos: The Tragic Treasury, de Stephin Merritt/versão-Gothic Archies (2006), um conjunto de "histórias de terror para crianças", repleto de educativos ensinamentos políticos ("Be vicious, vain and vile, everything's yours to steal if you'll just smile"), e Leave Your Sleep, de Natalie Merchant (2010), colecção de poemas musicados submetida ao lema “Girls and boys, come out to play, (...) leave you supper and leave your sleep, and come with your playfellows into the street”. B Fachada É Pra Meninos sintoniza a mesma onda e, em registo de Comelade-Playmobil (com baterias de plástico e tudo) que, só aparentemente, se desvia dos álbuns anteriores, alinha interpelações morais (“Porque é que o bom é melhor que o mau? Porque é que o mal é pior que o bem? Porque é que é certo ser cara de pau mas está mal ser filho da mãe?”), miminhos de avô sábio (“antes louco e malcriado que pensar só de emprestado”) e faz regressar o mítico João, sem balão, mas com mais pertinente aconselhamento: “Larga a sopa João, não comas mais, não dês ouvidos às mentiras dos teus pais”.

(2011)

24 May 2010

DERRUBAR AS MURALHAS DE JERICÓ



Quase dois anos após o vírus FlorCaveira - aquela peculiar combinação de “religião & panque roque” que apresentou à sociedade Tiago Guillul, João Coração, B Fachada, Samuel Úria, Diabo na Cruz e os Pontos Negros - ter contaminado praticamente toda a imprensa, estou, de novo, na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica, perante Tiago Guillul, locomotiva editorial e teológica da conspiração, à beira de publicar (em vinil e CD) o novo álbum V. E, agora que o contingente FC já, definitivamente, não compete na categoria “new kids on the block”, só lhe posso perguntar se isso, para ele(s) é uma desgraçada fatalidade ou um alívio: “Estamos felizes por o pó ter assentado. Há um lado que eu diria cavaquista que é o de que mostrámos trabalho. Independentemente do fenómeno real, na medida em que se falou dele, foi também um fenómeno muito circunscrito à imprensa. A minha vida continua tão anónima como antes”.



Sim, Tiago Cavaco/Guillul assegura que ainda não é perseguido nas ruas por jovens fãs tresloucadas: “Eu também tenho pouco perfil para isso, pai de filhos e tal... quem tem mais esse perfil na FlorCaveira é o Samuel Úria, aquele ar mais romântico. Mas, se pensarmos no que se passou depois desse momento de descoberta, toda a gente continuou a gravar, apareceu o Diabo na Cruz... quem achava que aquilo seria, necessariamente, um fogacho, não acertou. É nesse sentido que eu digo que foi uma resposta um bocado cavaquista: dissemos ‘deixem-nos trabalhar’ e nós trabalhámos. Espero que não seja só o Portugal do betão mas estradas onde as pessoas possam andar e dizer que valeu a pena”.



O balanço mais interessante deste tempo terá sido, entretanto, o facto de a percepção que se tinha desta associação de exegetas bíblicos, praticantes de “roque enrole” e “compagnons de route” vários, ter saltado as fronteiras de apenas um grupo de gente "cool" mas oriunda de uma religião “exótica”: “Parece-me que há muitas pessoas a descobrir-nos independentemente desse fenómeno de imprensa. Reparei especialmente nisto a propósito do teledisco que fizemos para o ‘Sete Voltas’. De repente, o 'Record' quer falar comigo porque uns amigos criaram um grupo no Facebook a anunciar que esta devia ser a música oficial da selecção para o Mundial!... A culpa é minha porque eu fiz uma piada com isso (a canção, na verdade, é sobre o episódio bíblico das muralhas de Jericó) e, se calhar, o problema deste país é que ninguém pode fazer piadas porque as pessoas não percebem a ideia. Mas com o Samuel Úria, com o Diabo na Cruz e com este efeito do teledisco, sinto que há, de facto, pessoas novas a descobrir-nos”.



A verdadeira questão, no entanto, é: perdida essa aura de cristãos-militantes-nas-catacumbas-de-Roma, não correrão o risco de começar a haver quem pense “you’re no fun anymore?” “Reconheço que, como este é um país tão pouco tocado pela diversidade religiosa, por mais que nos apeteça que falem de outra coisa, isto irá continuar a ser jornalisticamente forte. Mas, mesmo quando as pessoas se aperceberam do nosso lado ‘National Geographic’, apesar de tudo, falaram da música. Isso, para mim, é um alívio. Na verdade, continuar a sobrevalorizar esse aspecto do ‘exotismo’ religioso será um caso de ‘it’s no fun anymore’. Isso já é notícia, seguramente, de 2008. Até porque, às vezes, a melhor maneira de encenarmos tolerância ou civilização é termos uns espécie de bobos da corte que era como, se calhar, a FlorCaveira aparecia”. Neste V, na realidade, o segundo álbum de Guillul para o mundo, que só o descobriu com o IV (“Isto, agora, é uma categoria um pouco kierkegaardiana... e a piada é essa. Ir assumindo números que, aos olhos da maior parte das pessoas, são virtuais”), a grande maioria das canções é construída sobre “uma amostra de” – batidas rítmicas, excertos de outras músicas... afinal, uma estratégia de auto-defesa:



“Se me armasse em grande cantor ou grande tocador e chamasse uma banda para servir as minhas canções, não funcionaria. Também por ser, simbolicamente, a primeira vez que iria trabalhar canções minhas em estúdio, tentei arranjar balizas para arrepiar caminho. E boa parte das balizas foi criada ou roubando excertos de batidas ou – apenas em dois casos – de música de bandas evangélicas portuguesas dos anos 80 e 90. Senti-me confortável ao pensar que, se ia gravar um disco em estúdio, e se reconhecia que não iria conseguir fugir ao feeling anos 80, ao menos, levoava migalhas da música que me permitiu chegar aqui. Umas vezes, o processo já estava quase concluído e era só um argumento rítmico para juntar; outras, o argumento rítmico estimulava-me a inventar a canção. Por outro lado, é a minha maneira humilde (ou falsamente humilde, também existe esse risco) de invocar outras vozes na hora de trazer a minha”. A excepção é uma canção “construída sobre a indignação resultante de declarações de Mário Soares”: “Se os evangélicos, coitados, não têm grande voz perante um gigante da nossa democracia como o dr. Mário Soares, na minha maneira patética, achei que me devia pronunciar. Numa palestra, ele referiu-se ‘às novas religiões que nos chegam’, falou em ‘evangélicos fanatizados’, aquele eterno clima de suspeição... o Mário Soares não precisa de ser católico para, na estranheza perante as confissões socialmente rebaixadas, numa atitude, de facto, racista, insinuar que não devemos ter nada a ver com essa classe média-baixa dos brasileiros, africanos e ciganos que chegam cá com essa ‘balbúrdia’ de cultos”.



E, a emprestar uma tonalidade comum a todo o disco... uma peculiar forma de pornografia: “Sim, é verdade, há clichés dos anos 80 por todo o lado. Sem querer sociologizar demais, as nossas fronteiras de pudor com o passado, quando estamos numa fase em que precisamos de muita auto-estima – que são, tipicamente, os anos da universidade –, mais tarde, desaparecem. E, aí, pensamos: quais foram as canções que, quando era miúdo, me marcaram? Por isso, é que há esta sede pela nostalgia. Numa canção, eu digo que é a nova pornografia, porque é uma luta espiritual minha e passa por ir ao YouTube procurar os anúncios que via quando era pequeno e que assume um poder idólatra e mentiroso em relação ao passado”.

(2010)

21 April 2010

MERRITT, ANGOLA E O RESTO


O documentarismo directamente relacionado com a pop (e a música em geral) só muito raras vezes ultrapassa a dimensão de funcional veículo de promoção comercial e/ou genuflexão hagiográfica e se eleva ao estatuto superior que, por exemplo, Don’t Look Back (de Arthur Penn, 1967), Stop Making Sense (Jonathan Demme, 1984) ou No Direction Home (de Martin Scorsese, 2005) alcançaram. Na secção “Indiemusic”, da edição deste ano do “IndieLisboa”, não figurará nenhum igual desses mas será, pelo menos, exibido um filme que é obrigatório não perder: Strange Powers, de Kerthy Fix e Gail O'Hara, em torno da carreira de Stephin Merritt e dos Magnetic Fields.



Se a estrutura é convencional - depoimentos de amigos, próximos e colegas/admiradores como Peter Gabriel, Sarah Silverman, Daniel Handler ou Neil Gaiman articulados com imagens de concertos e momentos de trabalho e intimidade –, a matéria-prima, porém, é suficientemente rica para lhe assegurar o interesse: a biografia e personalidade de Merritt, da aterradora infância e juventude às mãos de uma mãe terminalmente hippie, à singular relação “straight girl-gay boy” com Claudia Gonson (amiga, co-fundadora dos Magnetic Fields, manager da banda, confidente e, quando necessário, disciplinadora severa), à péssima reputação como entrevistado (segundo Neil Gaiman, “he made Lou Reed look like Little Orphan Annie”) ou ao conflito com o jornalista Sacha Frere-Jones que o acusara de racismo e que, aqui, publicamente, se retrata, declarando “Estive errado em tudo o que disse. A minha atitude não tem desculpa”.



Da restante programação, deverá também destacar-se o tríptico Angola: Histórias da Música Popular, O Lendário Tio Liceu e os Ngola Ritmos e Kuduro: Fogo no Museke, de Jorge António, uma perspectiva convergente sobre a História passada e o presente da música angolana que, se sofre de alguma condescendência na apreciação de diversas figuras e personagens – a célebre má consciência do homem branco? –, não deixa de, especialmente, em Kuduro, apresentar um retrato ultra-realista (com defensores e adversários) deste género musical, sobre o pano de fundo dos intermináveis guetos suburbanos de Luanda onde podemos escutar o seu alegado fundador, Tony Amado, explicar como, para as coreografias, se inspirou em Jean-Claude Van Damme. Também para apreciar conjuntamente é a dupla Significado - A Música Portuguesa Se Gostasse Dela Própria e B Fachada - Tradição Oral Contemporânea, de Tiago Pereira, investigação a dois tempos sobre a música popular tradicional e os seus praticantes actuais. We Don’t Care About Music Anyway, de Cédric Dupire e Gaspard Kuentz, entretanto, é apenas o previsível exercício de embasbacamento gaulês perante tudo o que cheire a “avant garde” (no caso, um conjunto de músicos e "performers" japoneses entregues a “experimentalismos” velhos de décadas), All Tomorrow’s Parties (Jonathan Caouette) apresenta uma panorâmica dos vários anos do homónimo festival de música independente britânico e o muito louvado When You're Strange, documentário de Tom DiCillo acerca dos Doors, deixa alguma expectativa quanto à possibilidade de entrar para o panteão dos “rock movies”.

(2010)