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28 November 2017

A IDENTIDADE É UM BICHO IRREQUIETO


Amélia Muge e Michales Loukovikas tinham-se encontrado, pela primeira vez, há seis anos, à volta de O Ouro do Céu, livro e CD contendo a poesia de Ares Alexandrou. Logo a seguir, em 2012, Periplus - Deambulações Luso-Gregas propunha-se aferir “a possibilidade de partilha de um território cultural e musical por Portugal e pela Grécia” apenas subordinado a uma fantasia: “ser marinheiro de um barco grego que entra num porto e se apercebe que está lá fundeado um barco português; à noite, vamos à única taberna do porto e os gregos começam a cantar as suas canções, depois, os portugueses, e, no final, acabamos a cantar juntos”. Após o entreacto de Amélia Com Versos de Amália (2014) em que voltaram a colaborar, agora, portos e embarcações multiplicaram-se em Archipelagos - Passagens

O plano de viagens ampliou-se consideravelmente... 
Michales Loukovikas - Continuamos em plena água! Temos um imenso mar para navegar...
Amélia Muge - Dissemos que foi por um mero acaso que o Periplus apareceu numa altura em que a Grécia estava a ser tão falada. Se não fosse a Internet e ter olhado para uma página onde vi um senhor que me parecia vagamente o Pai Natal de férias, com aquela poesia fantástica do Ares Alexandrou, as coisas não teriam acontecido. Desta vez, o que espoletou este trabalho foi o convite da Aida Tavares, programadora do S. Luiz, para fazermos um concerto que não fosse exactamente o Periplus. Fazer, então, o quê? Não vamos ter este trabalho todo só para um concerto, vamos fazer um disco. Agora estamos numa fase como a da mãe que acaba de ter um filho e grita “Nunca mais!...”, porque, realmente, dá muito trabalho.  

Não navegaram sempre à vista da costa... 
ML - Não foi uma escolha muito consciente. O Periplus foi um momento de encontro. Mas também um diário de bordo. Navegámos por um mar onde nunca havíamos estado mas guardando o conhecimento dos viajantes anteriores. Agora, fizemo-nos ao mar, já sabemos orientar-nos pela Estrela Polar. 
AM - Pensámos que poderíamos pegar num dos pontos do Periplus e alargá-lo. As ilhas, como metáfora, podem levar a muitos lados mas, pensando só em nós dois, já há duas ilhas. O que basta para fazer um arquipélago. Pensamos sempre nas ilhas como coisas isoladas mas, se há quem se veja obrigado a dominar a arte dos contactos, são os ilhéus. 
ML - Tive um programa de rádio – "Mesogeíou Paráplus" (Viajar pelo Mediterrâneo) – de onde veio Periplus. Desta vez, propus Archipelagos. E o poder das coincidências revelou-se logo: o poema da Hélia Correia, A Terceira Miséria, que é um dos pilares deste álbum, começa com uma citação de Hölderlin cujo poema mais extenso se chama... Arquipélago! Transformou-se, assim, no ponto de partida da nossa viagem. 
AM - Temos umas três ou quatro folhas com títulos possíveis... alguns transformaram-se em títulos das sequências, como foi o caso das “Ilhas Imaginárias”.


Em vez de realçar as marcas das músicas nacionais, vocês parecem procurar uma espécie de lugar no qual já não é possível dizer exactamente onde acaba a Grécia e começam Portugal ou Cabo Verde...
AM - Não diria que é uma coisa instintiva porque os intintos também vão mudando ao longo da vida. Não sei se será por ter nascido em Moçambique mas sempre pensei que a identidade é um bicho muito irrequieto... Quando fiz o Não Sou Daqui, não estava a dizer que não era de um sítio, dizia que não era de um sítio enquanto não me apropriasse dele. As identidades, quando estão muito fechadas em certezas, acabam por ser daninhas para o peito. A última coisa que me apeteceria fazer era um trabalho onde dissesse ‘aqui está o melhor da nossa portugalidade!...’ E, se tivesse à minha frente alguém que quisesse fazer o mesmo, não o faria comigo, de certeza. Quando já passámos a fase da mansarda, quando não se tem como vocação o isolamento, fazemos o que diz o Hölderlin no início do poema: Onde está Atenas? Resta ainda algum sinal dela para que o marinheiro de passagem a possa mencionar ou lembrar?!” Haverá aqui alguma coisa que valha a pena mencionar ou lembrar, grego, português, português com ligações à língua inglesa como o Pessoa de "The Hours", grego até com vontade de compor uma buleria? Vamos a isso, desde que não se transforme numa confusão em que não seja possível fazer viagem nenhuma. Desde que as coisas possam reagir umas com as outras e isso crie um outro sentido. 


Pegam, então, numa melodia ou num ritmo apenas como matéria-prima musical independentemente da proveniência? 
ML - Quando era miúdo, tocava com o meu pai num grupo que interpretava música de todo o mundo. Era fantástico. Depois, à medida que ia crescendo, fui-me apercebendo de que a Grécia tem uma tradição musical riquíssima oriunda da Ásia Menor, da Itália, dos Balcãs... é impossível falar de uma música grega “pura”, tal coisa não existe. Em lado nenhum. Há anos escrevi um artigo em que demonstrava que nenhum dos antigos instrumentos gregos, era grego! O único indiscutivelmente de origem grega é o hydraulis (orgão hidráulico)! Não consigo ir além de dizer que sou mediterrânico.
AM - Os problemas poderão ter a ver com modelos de linguagem: por exemplo, como compor para aquele poema da Hélia que vem no arrasto do decassílabo, do verso branco? 
ML - Por acaso, em "A Ruína da Grécia", mal ouvi “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, nós, os que reduzimos a beleza a pequenas tarefas...” surgiu-me logo a ideia para a melodia... 
AM - Por outro lado ainda, há a certeza de que, qualquer coisa que nós façamos, acaba por ter um eco qualquer do que já foi feito. Nomeadamente, quando adaptamos o 2º andamento da Eroica, do Beethoven, lembramo-nos das tristes experiências que existiram quando se tentou transformar em canto partituras clássicas. Mas, para mim, A Terceira Miséria, da Hélia, é o texto mais surpreendente no que respeita a uma reflexão não estritamente política. É política porque tem a ver connosco – estamos todos envolvidos nestas causas e nos efeitos do que se está a passar – e pondo tanto o dedo em nós. (Teatro São Luiz - Sala Luis Miguel Cintra, quarta-feira 29, 21h)

15 February 2013

Amélia Muge e Michales Loukovikas -
"Pesado Como Ferro" (poema de Ares Alexandou)


01 March 2012

SOMOS TODOS GREGOS
(sequência daqui)


Amélia Muge/Michales Loukovikas - Periplus – Deambulações Luso-Gregas

Uma das mais antigas descrições dos povos que habitavam o litoral ocidental da Península Ibérica, a Orla Marítima, de Rufio Festo Avieno, escrita no século IV d.C., é maravilhosa e apropriadamente fantasiosa: sob a forma de poema, transcreve – com diversas interpolações – fragmentos do périplo de um marinheiro grego de Marselha (o “périplo massaliota”) que, mil anos antes, o terá escrito, em boa parte, a partir de informações em segunda e terceira mão. O Periplus que Amélia Muge (portuguesa de Moçambique) e Michales Loukovikas (grego da Trácia) realizaram teve origem em navegações por mares mais modernos e tecnológicos (“Porque falamos de navegar na Net? Os mails que viajaram de mim para o Michales e do Michales para mim, no fundo, não são uma viagem de ideias e de territórios de conhecimento e de criação? Quanto mais se anda para trás, mais percebemos a actualidade de pensar esta ideia da viagem e da cartografia que pode ser aplicada a tudo”, diz Amélia) mas as rotas não foram muito diferentes das primordiais: “Os mapas dessas épocas também são muito interessantes. O Michales reuniu uma colecção de mais de 50. O que ali vemos não é a Terra mas a representação da Terra tal como era imaginada na altura. África, por exemplo, era um vago triângulo para Sul do Mediterrâneo. Para mim, este Periplus é, de certo modo, uma recriação dessa geografia mental e da possibilidade de partilha deste território cultural e musical por Portugal e pela Grécia. Ou, pelo menos, pela Amélia e pelo Michales. Porque é capaz de haver tantos Portugais quantos os portugueses e tantas Grécias quantos os gregos. Se calhar, os nossos mapas mentais, quando começamos a desenhá-los, têm a mesma aparência dos primeiros mapas do mundo”.

Ares Alexandrou

Mediterrâneo, portanto. Que teve como porto de partida para a sua exploração o interesse pela obra do poeta grego Ares Alexandrou (traduzida por Amélia e musicado por Michales, editado em livro-disco no ano passado sob o título O Ouro do Céu) e se prolongou através de uma busca intuitiva de pontos de contacto e traços de identidade comuns que, segundo Michales Loukovikas – fisionomicamente, a "spitting image" de Luís de Camões, sem a pala –, basta descobrir: “As ligações estão lá. Os mitos - como o de Ulisses, Calipso e Abidis que terão dado origem ao nome de Scalabis (Santarém) – demonstram que, pelo menos, pensamos na possibilidade de existir uma proximidade genética e cultural entre gregos, lusitanos e ibéricos em geral. Não é história antiga, é actual. Criamos coisas novas, hoje, a partir de uma raiz comum”. Daí que o fado se cruze com a rebetika, pentatonismos africanos e epiróticos coexistam pacífica e festivamente, tascas e tavernas acolham navegantes sem exigência de BI, e, onde se esperaria um coro grego, se escute, a Outra Voz, colectivo vimaranense criado por ocasião da capital europeia da cultura, onde Periplus se estreou em palco. “Nada foi premeditado”, assegura Michales, “o Periplus começou realmente quando a Amélia me enviou um mp3 de 'Nota Ilegal' (poema de Alessandrou e música de Michales) traduzida para português e cantada por ela. Ouvi e disse ‘Mas isto é um fado! Eu compus um fado!...’ Mais tarde, enviei-lhe outras canções tradicionais gregas; uma delas, ‘A Folha da Rosa”, depois de traduzida, também ela descobriu que existia uma exactamente igual em Portugal e aconteceu o mesmo com uma canção de Creta, ‘Pesada Como O Ferro’, que era idêntica a uma canção medieval. E, ao enviar-me a primeira parte do ‘Canto Em Periplus’, apercebi-me que a melodia era igual à do ‘Seikilos’ (o mais antigo exemplo de uma composição musical completa, incluindo notação musical e letra, no mundo ocidental, no disco traduzido e cantado por Hélia Correia)!...”


Esta redefinição de familiaridades antigas arrastou, então consigo, um vasto contingente de músicos, gregos e lusos (Filipe Raposo, José Salgueiro, Ricardo Parreira, gente dos Gaiteiros de Lisboa, Eleni Tsaligopoulou...), artistas, poetas. E coloca, inevitavelmente, a interrogação de porquê – justamente agora e no quadro de sarilhos europeus em que Portugal e a Grécia se encontram – uma tal cimeira haveria de ocorrer: “Porquê? A troika proibiu? Nós começámos antes!...”, grita Michales, “Não somos políticos, somos músicos. Mas o sentido político já lá estava desde que apresentámos O Ouro do Céu. Não somos uma troika, somos um duo que gosta de trabalhar sobre coisas boas, coisas que unem”. E Amélia Muge acrescenta: “Obviamente, quando se faz um trabalho destes com o cenário que temos, a realidade esborracha-nos o nariz. Quando nos dizem que nos andámos a portar mal – nós que fomos sempre tão bem comportadinhos e dissemos sim a tudo -, toda a gente se sente um bocado perplexa: vamos para a rua com cartazes, ‘a luta continua’, o quê? Esta viagem não é um cruzeiro mediterrânico: traz a ideia de que muito daquilo que somos também existe do outro lado. A verdadeira união não nasce apenas da simpatia mas, sim, quando criamos sentimentos de afecto através do conhecimento”. Porém, se o espírito, tal como o recorda Michales, foi o da fantasia “de ser marinheiro de um barco grego que entra num porto e se apercebe que está lá fundeado um barco português; à noite, vamos à única taberna do porto e os gregos começam a cantar as suas canções, depois, os portugueses, e, no final, acabamos todos a cantar juntos”, na verdade, diz, com todas as letras, algo francamente mais importante que, isso sim, parece ter-se tornado proibido afirmar: somos todos gregos, somos todos portugueses.

(2012)

10 October 2011

O ESSENCIAL É APENAS O PUNHAL


Michales Loukovikas (sobre a poesia de Ares Alexandrou) - O Ouro do Céu (livro + CD)

Existe, de certeza, uma negríssima ironia no facto de, neste exacto momento, a partir da poesia amargamente política do homem que escreveu “O cérebro não é uma barba, não deixes os padres, os governantes, os controleiros, fazer-ta, poetas de todos os países, desengajai-vos!”, um músico grego e uma autora de canções portuguesa se terem encontrado para, num duplo salto entre três idiomas – do grego para o inglês e deste para o português –, desocultarem a obra de um filho de pai helénico-pôntico e mãe russa (de origem estónia), nascido em Petrogrado, na verdade, culturalmente grego, brevemente comunista e sempre antifascista, exilado ou preso por todo o Mediterrâneo e morto em Paris.



A saber, Ares Alexandrou (1922 – 1978), pretexto para a colaboração (no trabalho de tradução dos textos) entre Amélia Muge e Michales Loukovikas e, da parte deste, objecto de um álbum com 31 temas baseados em outros tantos poemas, agora reunidos nesta edição de livro + CD. A atmosfera sonora é, naturalmente, mediterrânica – mas tanto se escutam ecos ibéricos quanto renascentistas, gregos ou do Médio Oriente, italianos, barrocos e eslavos – e, das vozes e instrumentos dos mais de trinta músicos que nesta gravação participaram, ergue-se uma vibrante homenagem a Alexandrou, ele que, contra zdhanovistas e fascistas, proclamava “sou um traidor para Esparta, para os hilotas espartano, estou a entalhar com a espada, nestes lábios secos, o meu sorriso”, e não duvidava que, então como hoje, em matéria de política e estética, há que identificar correctamente o essencial: “Se leva tempo ao aço duro a ser aguçado e usado como punhal, também demora a palavra a conseguir o seu gume. E enquanto tu vais na roda trabalhando, cuidado não te encantes ou envaideças com a sucessão das centelhas a brilhar. O essencial é apenas o punhal”.

(2011)