Showing posts with label Arcade Fire. Show all posts
Showing posts with label Arcade Fire. Show all posts

02 July 2016

O Henrique Raposo já tinha realizado o ensaio geral para Jorge Coelho da equipa de júniores. É o lado "quando diz tolices" dele. Chegou, agora, o momento da publicação do magnum opus (7 páginas), "Aleluia! Ou o rock enquanto fé", na edição de hoje, em papel, da revista "E"/"Expresso". A intenção é comunicar-nos que descobriu a pólvora: o rock (Arcade Fire, Bruce Springsteen, Johnny Cash, Nick Cave, U2) está encharcadinho de Bíblia e cristianismo, meio expedito para fazer pirraça ao contingente "laico, cool, ateu e hipster", agremiação informal que, de forma inovadora, também identificou e que não aprecia por aí além. Após este retumbante escândalo teológico (os U2, pá, quem diria?...), aguardam-se com incontrolável expectativa os capítulos seguintes nos quais, investigando de igual modo o cinema, a literatura e a arte, nos fará, outra vez, tremer o chão debaixo dos pés para maior glória do Grande Fantasma Cósmico.

Guarde-se para sempre na memória um genial naco de "insight" musicológico: "há ali a sinceridade do violino e do tambor em cima do cinismo da guitarra eléctrica". Anote-se ainda que Funeral (Arcade Fire) "é um pequeno tratado cristão que servirá para as minhas filhas compreenderem o centro da sua fé" e que "'Wake Up' funciona cá em casa como confessionário". Era bem feito que as miúdas acabassem fãs de "death metal".

Citação complementar (e indesculpavelmente esquecida):"Estamos a falar de pessoas que ficam chocadas quando afirmo sem ironias que vou dar a catequese âs minhas filhas através dos álbuns dos Arcade Fire" (a ausência de vírgulas é da responsabilidade do autor).

18 April 2012

POUPINHA NEO-ROMÂNTICA

 
Fanfarlo - Rooms Filled With Light 

Se os Fanfarlo do inicial Reservoir (2010) se apresentavam como uma versão convenientemente aparada da pop descabeladamente barroca dos Arcade Fire, bem acompanhada, à época, pelos Mumford & Sons e Noah & The Whale, não se pode, de todo, dizer que os dois posteriores anos de crescimento lhes tenham sido benignos – tal como, já agora, não foram para os Noah, os que mediaram entre o óptimo The First Days Of Spring (2009) e Last Night On Earth (2011), peça inexplicavelmente insonsinha. Não há-de restar muita gente que ainda se deixe embalar pela velha cantilena do “difícil segundo álbum”: as “dificuldades” podem surgir em qualquer etapa e a história está repleta de excelentes segundos álbuns facilmente concretizados.

Porque, se algum problema existe, ele reside apenas nas decisões estéticas que se toma e as que passaram pelas cabeças de Simon Balthazar e cúmplices estiveram bastante longe de ser acertadas. Isto é, tentar converter a matriz anterior numa sua versão oitentamente recauchutada – pinceladas de sintetizador, polimento lustroso à la Roxy Music-modelo-lounge, acenos pouco decorosos aos Dexys Midnight Runners tal como as playlists os indexaram (aquela e só aquela banda que gravou "Come On Eileen"), ou, nos momentos mais embaraçosos, enlevos melódicos de poupinha neo-romântica – é o género de ideia que nunca deveria ter ocorrido a uma banda que retirou o seu nome de uma novela de Baudelaire. Não que o resultado seja insultuosamente vil (nos melhores trechos, aproxima-se de uma infusão descafeínada dos Divine Comedy) ou que, se apanhados, por acidente, no rádio, obriguem a saltar, em pânico, para o zapping. Mas apetecia outra coisa que não dissesse apenas bem com os cortinados.

01 September 2011

DA VIDA DA MÚSICA E DAS IMAGENS

















The Suburbs - Arcade Fire & Spike Jonze (CD + DVD)

As excepções à norma são inúmeras. Mas o que sugere a epígrafe de Keats que Claudia Gorbman colocou no inicio de Unheard Melodies – Narrative Film Music (“Heard melodies are sweet, but those unheard are sweeter”, de “Ode On A Grecian Urn”) e que, ao longo das cerca de duzentas páginas de uma das “bíblias” dedicadas ao estudo e investigação da música para cinema, desenvolve, é a ideia segundo a qual uma banda sonora será tanto mais eficaz quanto mais subconsciente e subliminarmente concretizar a sua missão de sublinhar, enfatizar ou contrariar o sentido daquilo que a imagem, por si só, não seria capaz de transmitir. Em meia dúzia de linhas: “a música actua como um dispositivo de sutura, auxiliando no processo de transformar a enunciação em ficção, diminuindo a consciência da natureza tecnológica do discurso fílmico. (...) Eu oiço (não muito conscientemente) esta música que as personagens não ouvem, eu existo neste banho de emoções, esta é a minha história, a minha fantasia, que se desenrola perante mim e para mim no ecrã (e das colunas de amplificação para fora)”.
























Um outro peculiar efeito colateral da coabitação entre cinema e música encontra-se no modo como sonoridades pouco ou nada "mainstream" podem ser incluídas, sem desconforto, num filme comercial (quem, fora do ecrã, estaria disposto, em 1956, a consumir a quase hora e meia das "electronic tonalities", de Louis e Bebe Barron, para Forbidden Planet?) ou no efeito de transfiguração exercido sobre espécimes musicais esteticamente desfavorecidos devido ao facto de terem coexistido com aquela narrativa visual (a filmografia integral de Tarantino). Mas, verdadeiramente interessante é assistir, em directo, à forma como todos estes pontos de vista são confirmados em Scenes From The Suburbs, o filme de cerca de meia hora que Spike Jonze realizou, inspirado no último álbum dos Arcade Fire.



Abundantemente premiado e avidamente consumido, The Suburbs não era, contudo, senão mais um exemplo daquela variedade de pop/rock messiânico e pomposo (ainda que assaz derivativo da era "prog" e dos épicos "à la" Springsteen) que a banda canadiana registou como marca própria e que apenas teve de aguardar o tempo necessário para cumprir a previsível trajectória de minoritário produto "indie" até à recepção em glória pelas massas. Já seria suficientemente interessante que, daí, pudesse ter resultado um argumento de perturbadas memórias de adolescência, encenadas em cenário distópico de sci-fi, no pesadelo climatizado de uns imaginários subúrbios de Austin, sob lei marcial (a inspiração, segundo Win Butler – co-argumentista com Jonze e o irmão, William – terá vindo tanto dos filmes de Terry Gilliam, quanto de Red Dawn, de John Milius, ainda que Virgin Suicides, de Sofia Coppola, também pudesse ser convocado a depor).



Verdadeiramente notável, porém, é a dupla transformação que, neste novo contexto, as canções dos Arcade Fire sofrem: constrangidas a um obrigatório segundo plano, cumprem plenamente o objectivo de actuarem como discreta e indispensável fonte de alimentação narrativa complementar; mas, potenciadas pelo fluxo fragmentário das sequências, ganham um sentido infinitamente mais denso e rico do que quando se encontravam exclusivamente entregues a si próprias, na superfície cega do CD. A fechar o círculo, não é menos curioso que o videoclip criado para "The Suburbs" (também de Spike Jonze, para além da obra cinematográfica – Being John Malkovich, Adaptation, Where The Wild Things Are –, com já vasto currículo na matéria, dos Sonic Youth a Björk, R.E.M ou Kanye West), ao inverter os papéis e voltar a atribuir, naturalmente, o primeiro plano à música, deixando às imagens (uma montagem/trailer do próprio filme) um desígnio meramente ilustrativo, o empobrecimento de sentido seja absolutamente notório e drástico. Tudo pesado, uma reedição de The Suburbs que vale, sem dúvida a pena.

(2011)

26 December 2010

CAÍDOS NO CHÃO DA SALA DE MONTAGEM (I)










Nicotine’s Orchestra - Ghosts And Spirits

Tal como The Legendary Tigerman, a orquestra barreirense de Nick Nicotine é um exercício peculiar de encenação em território luso de uma narrativa musical, social e cultural integralmente importada, peça por peça, dos EUA: soul, country, rock’n’roll, com todos os adereços e marcas de origem devidamente autenticadas e irrepreensivelmente reconstituídas. Ou “the ghosts and spirits of Christmas past”.











Mice Parade - What It Means To Be Left-Handed

Adam Pierce, aliás, Mice Parade, detém o record mundial para títulos de álbuns em português oriundos de músicos novaiorquinos: Obrigado Saudade (2004) e Bem-Vinda Vontade (2005). Eram tão excelentes cadinhos de electrónica/pós-rock quanto este é um inclassificável e omnívoro concentrado de pop, tropicalismo, kora africana, "shoegaze", vozes Swahili e versões dos Lemonheads.











Efterklang - Magic Chairs

Algo como um Sufjan Stevens mais disciplinado, uns Arcade Fire sem peneiras, uns Blue Nile espartanos. Todos esses, discípulos compenetrados de Steve Reich e com o estrito programa de converter o somatório desses idiomas à quadratura pop, sem abdicar da complexidade de um lado nem abrir mão da concisão do outro. Abrigam-se sob o rótulo "indie-electronica-classical-experimentalists" e são óptimos músicos dinamarqueses.











Balla - Equilíbrio

Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia nos textos, Samuel Úria oferecendo a voz, Luís Varatojo dedilhando guitarra portuguesa, Rui Reininho como mestre de cerimónias no "booklet", um sample dos UHF (sim, sim) como esqueleto de uma canção e Armando Teixeira/Balla a lubrificar os circuitos desta pop mais leve que o ar, em jeito de espumante sonoro.











Lali Puna - Our Inventions

"Easy listening" para Holiday Inns de Saturno, painéis sonoros de meditação destinados a fãs dos Kraftwerk, Valium-light refrigerante, espirais de vapor dentro de um aquário de cristal, toques de telemóvel para mosteiros zen, "synth-poetry" entoada por vozes digitais e outras suaves beatitudes tecnológicas com a marca Morr Music a quem devemos também os Notwist e Tied & Tickled Trio.

(2010)

09 September 2010

OLÁ OUTRA VEZ, CARO TIAGO GUILLUL


Platypus (ornitorrinco)

Antes de mais, explique-me, por favor, uma coisa: como se copia o link dos posts do seu blog? É que já tentei por todas as formas que conheço e só queria perceber se é apenas uma questão de incompetência informática minha (hipótese com elevado grau de probabilidade) ou, sabe-se lá, uma Pedra de Tropeço que, certamente, razões de ordem superior o conduziram a lá colocar.

Por falar em Pedras de Tropeço (daqui em diante, refiro-me ao seu post "Compacto Férias Voz do Deserto 2010", de 7 de Setembro), não me parece que o álbum dos Arcade Fire se deixe arrumar, facilmente, nessa categoria. Como sabe, "pedra de tropeço" dizia-se, em grego, "scandalon" e The Suburbs, coitado, é tudo menos escandaloso. A menos que, por "scandalon", se tenha passado a entender todo e qualquer desabafo da D. Belmira do 7º esquerdo acerca da "desgraça a que isto chegou". Um bocadinho escandaloso, de facto, é os pobres moços Arcade, após uma fugaz semana a saborear as inefáveis delícias do 1º lugar da tabela de vendas portuguesa, se terem deixado desalojar por essa pérola do "Mas quem será o pai da criança?". É, sem dúvida, um título com fortíssimas ressonâncias bíblicas neotestamentárias mas, ainda assim... De resto, não se preocupe que não me "perdi em batalha" nenhuma: foi só mesmo uma entrada por saída.

E, mais uma vez - estou a ficar inquietantemente conciliador -, dois importantíssimos pontos de acordo total: as chinelas e a cafeína. Quanto ao "sentido de humor de Deus", finalmente, há uns bons anos, no Dogma, o Kevin Smith já tinha arrumado o assunto: "Please - before you think about hurting someone over this trifle of a film, remember: even God has a sense of humor. Just look at the Platypus". Claro que ele (desculpe-me se não utilizo a maiúscula mas estar a admitir-lhe a existência já é uma respeitosa cedência) faz sempre humor à custa de alguém. Mas, aí, não há volta a dar: está-lhe na natureza.

Abraço.

JLX

(2010)

01 September 2010

MEMÓRIAS DA AMÉRICA



The Gaslight Anthem - American Slang




Holly Golightly & The Brokeoffs - Medicine County

Encravada algures nas vísceras da Net, está uma entrevista com Brian Fallon, dos Gaslight Anthem, em que, à pergunta “Como é a sensação de se aperceberem que o Bruce Springsteen vos roubou a vossa sonoridade?”, ele, com absoluta candura, primeiro ri à gargalhada e, depois, responde “Mas fomos nós quem o roubou desavergonhadamente!...”. Tratava-se, claro de uma interrogação ironicamente armadilhada mas Fallon não só entrou no jogo sem pestanejar como, logo de seguida, se lançou num extenso elogio das imensas qualidades de Bruce como "everyday man" e vizinho de New Jersey nada difícil de encontrar nos bares e clubes da cidade, sempre à espreita de revelações locais. Estas coisas têm, evidentemente, consequências. Não foi também, por isso, uma daquelas manobras promocionais cozinhadas nos departamentos de marketing editoriais o facto de, em 2009, no concerto de Glastonbury dos Gaslight, Springsteen ter participado enquanto guest-star em "The '59 Sound", tendo repetido a visita em Hyde Park, pouco antes do seu London Calling (já publicado em DVD).



Serão, então, os Gaslight Anthem apenas mais uma das inúmeras bandas que fazem carreira à custa da clonagem de obra alheia? Considerem esta hipótese: muito mais legitimamente do que, por exemplo, os Arcade Fire – cuja dívida colateral ao mais célebre residente da E Street se limita a uma rígida simulação formal dos sinais exteriores da cinemática dimensão bigger than life da sua música –, os autores de American Slang trabalham, sim, sobre a mesma matéria que deu origem a clássicos como Darkness On The Edge Of Town, Born To Run ou The River. Por outras palavras, enquanto uns (ainda que não seja essa a sua matriz essencial) tomam de empréstimo o guarda-roupa, os cenários e os adereços de Springsteen, Fallon e cúmplices concentram-se na escrita dos episódios e na invenção das personagens que não chegaram a figurar no gigantesco painel da história americana contemporânea iniciado em Greetings From Asbury Park N.J.



Se lhes desejássemos encontrar genealogia diferente, poderíamos pensar, igualmente, nos Replacements, no ilustríssimo e ignorado Willy de Ville, no Van Morrison de “Domino” ou nos actuais Richmond Fontaine e Dropkick Murphys mas, eles próprios, quando inquiridos, tanto referem os Clash quanto Tom Petty, os Joy Division ou os Smiths. A espinha dorsal do argumento, essa, mantém-se fidelíssima à memória mítica de uma América (privada e colectiva) ancorada naquele tempo “when we were lions, lovers in combat, faded like your name on those jeans I burned”, povoada de “queens of the Bronx, blue eyes and spitfire”, “orphans before we were ever your sons of regret”, mesmo ali ao lado do "Andy Diamond’s Choir (...) who’ll sing the rhythm and the blues so sad and so slow”.



De fora para dentro – isto é, de Londres para a Georgia onde, actualmente, vive –, Holly Golightly procura outro ângulo para a reinvenção da mesma lendária narrativa (a da country, dos blues, do rockabilly, do bluegrass), em registo eruditamente noir e, pela terceira vez, na companhia do guitarrista e baterista Lawyer Dave. O pequeno milagre que ambos concretizam em Medicine County (gravado numa igreja abandonada) assenta, essencialmente, numa dupla e sábia fuga: ao diletantismo "new weird America" dos pretensos hillbillies de fim-de-semana – felizmente, em curva descendente – e ao pastiche cerimoniosamente respeitador da tradição. Aqui o modelo é o de uns Cramps algo menos psicadélicos filmados por Terrence Malick, com argumento co-escrito por David Lynch e Nick Cave e a "final cut" não poderia assentar-lhes melhor.

(2010)

29 August 2010

THE BOX - REAL. RICHARD KELLY



Uma matryoshka infinita concebida por M.C. Escher. Sartre em versão sci-fi realizada por David Lynch. The Third Man reescrito por Philip K. Dick. Lulu On The Bridge em colisão frontal com The Day The Earth Stood Still. O Milgram Experiment (sort of) redesenhado por Arthur C. Clarck. O mito de Adão e Eva a flutuar entre Barton Fink e The Shining. Uma "morality play" em formato "mindfuck" dirigida por Richard Kelly mas sem coelhos gigantes. Muito provavelmente, um mau filme. Se calhar, ridículo. E absolutamente fascinante. Com uma magnífica banda sonora de Win Butler, Régine Chassagne e Owen Pallett (sim, esses mesmos).

(2010)

22 August 2010

SANTÍSSIMA CRUZADA

Arcade Fire - The Suburbs

Garantem os relatos históricos que, quando, em 1087, Guilherme, o Conquistador, foi sepultado, em Caen, na abadia de Saint-Etienne, o seu corpo estava de tal forma obeso e inchado que, não cabendo no sarcófago que lhe havia sido destinado, o enorme esforço que foi necessário para aí o introduzir teve como pestilenta consequência o rebentamento do cadáver. Episódio assaz semelhante – por diversos motivos, como, adiante, se verá – ao primeiro falecimento do rock progressivo/sinfónico, pelo meio da década de 70 do século passado: não menos insuflada e pomposamente imperial, a música de todos os Yes, ELP, Pink Floyd, Barclay James Harvest ou Rick Wakeman da época só precisou de um apertão da canalha punk para conhecer destino tão pouco edificante quanto o do temível Guilherme. Mas, do mesmo modo que, com ele, aconteceu, apesar de defunto, a sua influência não se extinguiria facilmente: se, a partir do punk, a opção "less is more" determinaria, em boa medida, grande parte da produção das diversas sensibilidades indie/alternativas durante os períodos de 80 e 90, dos anos zero em diante, o apetite pela ênfase orquestral – já experimentado também, anteriormente, entre outros, pelos Echo & The Bunnymen, Tindersticks, Triffids ou Divine Comedy – regressaria e de forma particularmente voraz. Disciplinada, convenientemente emagrecida e esteticamente pertinente nos casos de Andrew Bird, Sufjan Stevens, St. Vincent, Noah & The Whale, Mumford & Sons, Grizzly Bear, My Brightest Diamond ou Fanfarlo (os ensinamentos históricos haviam sido devidamente digeridos através do filtro pop), porém, de novo, a escorregar para a grandiloquência messiânica com os Arcade Fire.


É muito difícil que uma educação mórmon não dê nisto (Jesca Hoop safou-se mas não é toda a gente que tem a sorte de poder ser "nanny" dos rebentos de Tom Waits): quem cresce a ouvir contar que Deus é de carne e osso e vive no planeta Kolob e que, se nos portarmos como Joseph Smith manda, iremos todos politeistamente procriar deusezinhos junto dele, só por acaso não dá consigo a proferir declarações portentosas e a imaginar-se o porta-voz iluminado de qualquer coisa. Win e William Butler foram à catequese dos Santos dos Últimos Dias e isso ajuda bastante a compreender o motivo por que hoje (ainda que não se afirmando como praticantes mórmons) continuam a fazer afirmações como "Os colégios internos, o exército e as igrejas são os únicos lugares onde as pessoas são obrigadas a permanecer em comunidade com gente que elas não escolheriam como companhia. Acho valiosa essa ideia de comunidade com pessoas com quem não temos nada em comum" ou “A Bíblia fala muito acerca do temor perante Deus. Esse é o tipo de medo que nos faz sentir o desejo de mudança”.


E também contribui utilmente para explicar as canções que os Arcade Fire interpretam: não há Grande Tema nem Interrogação Eterna que eles não se sintam tentados a abordar, preferencialmente naquele registo bombástico e monumental de quem galvaniza as tropas numa santíssima cruzada. Em The Suburbs, o alvo são os “kids” envenenados pela cultura-contemporânea-sem-alma-nem-coração que vegetam nos centros comerciais e que, mesmo sabendo que “the emperor wears no clothes, they bow down to him anyway”. O mundo está perdido, os subúrbios invadiram e devastaram a querida Mãe Natureza e, durante uma hora, qual sermão de proverbial tia velha, eles resmungam acerca de como (entrada para fanfarra sinfónica) “these days, my life I feel it has no purpose” e “tomorrow means nothing”. "City With No Children" assenta no riff de "Street Fighting Man", dos Stones, e, em "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)", Régine Chassagne parece mesmo à beirinha de, a todo o momento, se poder transformar na Deborah Harry de "Heart Of Glass". São os dois melhores instantes do álbum.

(2010)

04 March 2010

A EXCEPÇÃO QUE IMPORTA


Peter Gabriel - Scratch My Back

Das críticas até agora publicadas sobre o último disco de Peter Gabriel, poucas são aquelas que, logo nas primeiras linhas, se conseguem desobrigar da sacramental referência ao significado profundo do "álbum de versões": ou se trata do caso do artista, em panne criativa mas preso por obrigação contratual à necessidade de desovar mais um opus, que justifica como "a homenagem que sempre sonhou prestar às suas grandes fontes de inspiração"; ou, por mera preguiça e desejo de uma sabática a que o patronato franze o nariz, opta pela finta em pose para a História, apresentando a sua releitura definitiva do "songbook" do cânone ocidental; ou será, enfim, uma combinação das diversas modulações dessas hipóteses, historicamente legitimadas, na era moderna, a partir de exemplos ilustres como Pin Ups, de David Bowie”, e These Foolish Things, de Bryan Ferry. O que, de um modo geral, é absolutamente verdade. Como sempre, porém, são as excepções que importam. E – arrume-se já a questão – Scratch My Back, qualquer que seja a sua motivação, é uma delas. E das melhores. O título e o conceito decorrem da expressão inglesa "scratch my back and I’ll scratch yours" que, muito imperfeitamente traduzido, será qualquer coisa entre "amor com amor se paga" e "temos de ser uns para os outros". Por outras palavras, nesta gravação (gasolina sobre o fogo da tese malévola: a primeira do inventor da Real World desde Up, de 2002), Gabriel, cantor, interpreta doze canções de outros tantos autores que, em troca, no anunciado volume simétrico – And I’ll Scratch Yours – se ocuparão de igual número das dele.


"Heroes" (D. Bowie)
 
Primeira surpresa: os reinterpretados vão de "modern classics" como Lou Reed, Randy Newman, David Bowie, Paul Simon, Talking Heads e Neil Young, a gente bastante mais recente da estirpe de Regina Spektor, Arcade Fire, Elbow, Bon Iver, Stephin Merritt e Radiohead. A segunda é o dogma: nada de guitarras nem bateria ou "groove" rítmico. Antes, os arranjos (piano, cordas e sopros) cinematicamente orquestrais ou austeramente glaciais – repletos de alusões a Reich, Arvo Pärt, Stravinsky ou Vaughan Williams –, do ex-Durutti Column, John Metcalfe, que oferecem à voz de Peter Gabriel a mesma espartana paleta de emoções que John Cale teceu, para si mesmo, em “Heartbreak Hotel” ou, para Nico, em The Marble Index. Constatação irrefutável: “Mirrorball” (Elbow), “Listening Wind” (Talking Heads), “Flume” (Bon Iver), ou as enormes “My Body Is A Cage” (Arcade Fire) e “Après Moi Le Déluge” (Regina Spektor) são absolutos triunfos e quase todas as restantes, num plano em que os termos de comparação musicais são American Gothic, de David Ackles, Songs Of Love And Hate, de Cohen, Opiates, dos Anywhen, ou The Love Songs, de Peter Hammill, ficam-lhes muito pouco atrás.

(2010)

23 February 2010

TEASER (II)


Arcade Fire - "My Body Is A Cage"



Regina Spektor - "Après Moi Le Déluge"

(2010)

14 February 2010

OS DOIS LADOS DA QUESTÃO



Fanfarlo - Reservoir




Owen Pallett - Heartland

A propósito de Reservoir, houve já quem tivesse escrito que a última coisa de que o mundo precisa é de bandas de rock orquestral, derramando épicos insuflados à la Arcade Fire sobre o povo desprevenido. Acontece que, por motivos absolutamente diferentes, tenho exactamente a opinião inversa: tal como sucedeu no histórico caso Doors vs Bunnymen – em que o modelo foi claramente suplantado pelos copistas –, todas as supostas (e reais) derivações recentes da banda canadiana, se lhe têm tomado de empréstimo o template estético como ponto de partida, no final do processo, apresentam-no consideravelmente emagrecido de excessos, limpo de arrebatamentos histriónicos e higienicamente a salvo da embaraçosa aura de messianismo litúrgico. Mumford & Sons e Noah & The Whale estão aí muito à mão para o demonstrar e, agora, os londrinos Fanfarlo encarregam-se de fornecer o derradeiro QED.



Um empregado sueco da Beggars Banquet (Simon Balthazar, voz, guitarra, teclados, bandolim, sax, clarinete, glockenspiel), um livreiro (Justin Finch, voz e baixo), um editor de uma revista de viagens (Leon Beckenham, trompete, teclados, melódica), uma professora de Inglês (Cathy Lucas, violino, teclados, bandolim, voz, serra friccionada) e um conselheiro vocacional de estudantes universitários (Amos Memon, voz e percussão), autodenominados a partir de uma novela de Baudelaire, inventam o género de música que, tendo, indiscutivelmente um ou dois dedos de um pé na pop “barroca” tal como Butler & Chassagne a praticam, vê os movimentos disciplinados por meio das justíssimas chibatadas correctivas aprendidas no manual-VU, lido segundo a tradução dos Talking Heads (Balthazar, por outro lado, também é algo mais do que apenas um discípulo de David Byrne explicado às massas pelos Clap Your Hands Say Yeah), e deixa-se temperar com as “etnicidades” recomendavelmente fake adquiridas na tendinha Beirut, de Zach Condon, e um ou outro subliminar psicadelismo da marca Neutral Milk.



Owen Pallett – ele, o orquestrador dos Arcade, mas, igualmente, dos Grizzly Bear, Beirut, Pet Shop Boys, e, heteronimamente, Final Fantasy – contribui com o outro ângulo da questão: entregue a si mesmo, aquilo que, nos Grizzly e Beirut, enriquece o tecido musical, é aqui somente a mesma pompa e decorativismo florido com que encadernou Funeral e Neon Bible. Conceptual e grandiloquente, Heartland pertence aquela família de grotescos empadões narrativos de que Ys, de Joanna Newsom, é um dos mais notórios exemplos: Lewis, “a young, ultra-violent farmer”, dialoga com o seu criador na terra de Spectrum, habitada por personagens de nomes The Butcher, Cockatrice, No-Face e Blue Imelda (uma espécie de Lewis Carroll que partilhou psicotrópicos com Philip K. Dick e a coisa correu mal a ambos), enquanto, à sua volta, a Czech Philarmonic Orchestra, Nico Muhly e "tutti quanti" debitam em piloto automático o catálogo integral de lugares comuns do sinfonismo “moderno” arrebicado de bruitage electrónica. Em curtas palavras: não é Andrew Bird nem Sufjan Stevens quem quer, só quem pode.

(2010)

17 January 2010

SEGUNDO EPISÓDIO



Mumford & Sons - Sigh No More

No episódio anterior, tínhamos deixado Charlie Fink, de coração despedaçado pela jovem Laura Marling que, à beira do sucesso – para o qual ele, em larga medida, contribuíra –, o abandonara, assim lhe oferecendo o argumento "arrache-coeur" para um dos melhores álbuns de 2009, The First Days Of Spring, dos Noah & The Whale. Vamos reencontrá-la, agora, redescobrindo o amor nos braços de Marcus Mumford, o baterista da banda que a acompanhava, o qual moço, embriagado pelos encantamentos de Afrodite, gravou um álbum – este – que, se ouvido em devido tempo, teria, facilmente, integrado também o escol do ano recém-defunto.



Imaginem uns Pogues (com idêntica "inautenticidade" folk) vitaminados pelo élan épico e coral dos Arcade Fire. Pensem em Nick Drake com a voz de Micah P. Hinson e mais testosterona. Considerem a hipótese de um Nick Cave cercado de banjos, bandolins, sopros mariachi-balcânicos, a expelir as mesmas tiradas bíblicas em que se doutorou ("There will come a time when I will look in your eye, you will pray to the god that you've always denied, I'll go out back and I'll get my gun, I'll say you haven't met me, I am the only son"). Acrescentem-lhe um refrão como "It was not your fault but mine, and it was your heart on the line, I really fucked it up this time, didn't I, my dear?". Aquela miúda, a Laura, deve ter mesmo qualquer coisa de muito especial...

(2010)

06 September 2009

NARCISO FERIDO


Noah & The Whale - The First Days Of Spring

Costuma ser receita garantida para o tédio irredimivel: jovem poeta/músico/artista, de coração dilacerado pela ruptura de uma relação amorosa, verte toda a sua dor oceânica sobre a página/o microfone/a tela, insufla-lhe fôlego conceptual à escala himalaica da tragédia e não descansa enquanto não tiver aborrecido de morte o último habitante da galáxia. Não é, realmente, fácil achar forma de contar ainda outra vez a mais antiga história do mundo sem correr o risco de voltar a pisar, uma por uma, todas as pegadas já milhões de vezes deixadas por outros. Apresente-se, agora, Charlie Fink, desapiedadamente abandonado pela namorada (Laura Marling, starlet pop-folk ascendente e ex-elemento da banda de Charlie), e que, para aprofundar a ferida narcísica, foi o responsável pela produção do álbum Alas, I Cannot Swim de que resultou a nomeação dela para o Mercury Prize.



Uma réstea de luz acende-se – mas, como se sabe, isso nunca é garantia de nada – quando se descobre que Noah & The Whale, o nome da banda, se inspirou no filme The Squid and the Whale, realizado por Noah Baumbach, e que, na lista de afinidades electivas de Fink, se encontra também Wes Anderson. A música, então: primeira faixa (a canção-título), sete minutos de lenta mas avassaladora ascensão orquestral, da glacial secura marcial dos Joy Division até à explosão do fogo de artifício final em 70 mm. Tema: “I do believe that everyone has one chance to fuck up their lives". KO instantâneo e hipóteses de análise fria reduzidas a cacos. É, por isso, sob séria reserva de temporária insanidade, que, escutado todo o disco (tema geral: “If you gotta run, run from hope”), afirmo que The First Days Of Spring é o melhor álbum de dor-de-corno desde Sea Change, de Beck, coisa próxima de The Opiates, dos Anywhen, ou de Ocean Rain, dos Echo & The Bunnymen, o género de odisseia pop capaz de reduzir os Arcade Fire à sua insignificante dimensão e de obrigar Neil Hannon a colocar-se em sentido. Paralelamente, Fink realizou uma curta metragem homónima. Se for digna de caminhar na sombra de Wes Anderson, será a cereja em cima do bolo.

(2009)

04 May 2009

PSEUDÓNIMOS, HETERÓNIMOS,
NOMS DE PLUME & ALTER EGOS



The Weatherman - Jamboree Park at the Milky Way




Old Jerusalem - Two Birds Blessing

Impossível. Completamente improvável. Absolutamente fora de qualquer cálculo de probabilidades credível. Após um tão prolongado plano inclinado criativo e meia dúzia de pastelões de cimento armado “neo-clássico”, ninguém apostaria um cêntimo em como, ainda um dia, Paul McCartney seria capaz de voltar a gravar um álbum de pop decente e enxuta, que não o fizesse corar de vergonha perante o que de melhor criou com os Beatles. Inesperadamente, no entanto, ei-lo! E, tal como fizera já com Electric Argument, assinado (a meias com Martin Glover/Youth) sob o pseudónimo The Fireman, desta vez, optou por inventar a personagem de um “youth” do Porto, baptizou-o “Alexandre Monteiro”, bordou-lhe também o alter ego não excessivamente distante, The Weatherman, e, como quem não quer a coisa, lançou ao mundo Jamboree Park at the Milky Way. Não incorpora nada de realmente novo que não conhecêssemos já em Sir Paul – à parte uma ou outra inalação da atmosfera Arcade Fire – mas, vindo do supostamente exausto sexagenário de Liverpool, não deixa de ser uma boa surpresa.



Aliás, alguma coisa isso terá, certamente, a ver com a histórica anglofilia portuense. Porque, agora, em declinação norte-americana, também Will “Bonnie Prince Billy” Oldham, Devendra Banhart, Bill Callahan, Damien Jurado e Bon Iver congeminaram uma compilação de inéditos de todos eles e – aparentemente, o método está a conquistar adeptos – decidiram atribuí-la ao "nom de plume" colectivo Old Jerusalem, para o qual urdiram a biografia de um imaginário “Francisco Silva”, economista portuense, quem sabe se a pensar colarem-se inviamente ao mito do pluralíssimo Fernando Pessoa lisboeta de quem Patti Smith tem sido tão devotada prosélita na cena indie dos EUA. As marcas da origem, porém, não enganam: estão lá os grandes espaços das paisagens do sul, as assombrações bíblicas e, curiosamente, algo a que ainda não se havia prestado a devida atenção – o confessionalismo pré-islâmico de Cat Stevens, inesperado "maître-à-penser" da maçonaria "alt.country/psych/freak/folk".

(2009)

13 May 2008

EXERCÍCIO DE ESTILO



The Last Shadow Puppets - The Age Of The Understatement

Sem o menor constrangimento, Alex Turner (Artic Monkeys) e Miles Kane (Rascals), confessam como The Age Of The Understatement surgiu: compreensivelmente atingido em pleno plexo solar pelo avassalador impacto emocional da música de Scott 4 (1969) e Scott Walker Sings Jacques Brel (1981), Turner partilhou o seu assombro com o amigo Kane e ambos, em escapadela extra-curricular da conjugalidade oficial das suas bandas, concordaram que era imensamente reprovável não existir hoje quem fosse capaz de prolongar o legado de Scott Walker. Pelo que, decidiram eles mesmos tomar em mãos tão heróica missão, recorrendo complementarmente aos serviços de Owen Pallett (Final Fantasy, Arcade Fire) para a imprescindível encadernação orquestral. The Age Of The Understatement é, assim, um aplicadíssimo e devotado exercício de estilo na sua mais pura acepção. No qual, contudo, por entre todo o “sturm und drang” sinfónico, dificilmente se enxerga uma única canção a que Walker (a não ser por cortesia) desejasse verdadeiramente chamar sua. Alguém, caridosamente, deveria ter-lhes segredado ao ouvido: “Divine Comedy”. (2008)

18 October 2007

QUARTO DE BRINQUEDOS



The Most Serene Republic - Population

A capa é perfeita: uma cidade-miniatura no chão de um quarto de brinquedos. Poderia ser uma radiografia da alma colectiva deste septeto de Milton, subúrbio de Ontario, no Canadá: a música em estado de jogo permanente, construída, peça a peça, no interior de cada canção e uma após a outra, como quem acrescenta elementos a uma geografia imaginária e se diverte infinitamente enquanto o faz.



Imaginem uns Arcade Fire que fossem realmente tão bons quanto a lenda apregoa (não, muito melhores do que isso!), capazes de modelar amplas massas corais e instrumentais – pode e deve dizer-se mesmo “orquestrais” –, ao mesmo tempo que tendem para aquele género de pop minuciosamente intrincada e construída com pinças de que Andrew Bird registou a patente. Deixem que o espírito de um Phil Spector com melhores maneiras paire sobre este cenário, não franzam o sobrolho à leitura da palavra “épico” e andarão razoavelmente próximo da localização desta fantástica república pop que, segundo os seus autores é “o romance definitivo” para o qual o anterior (e já nada desprezável) Underwater Cinematographer (2005) tinha sido apenas “o bloco-notas e livro de recortes”. (2007)