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17 September 2010

ESTUDO COMPARATIVO



Feromona - Desoliúde

E eis-nos chegados ao momento em que é, manifestamente, de toda a utilidade um exíguo estudo comparativo sobre aquele género musical cujas primeiras formas de expressão poética andavam à volta de nacos líricos do tipo "awopbopaloobopalopbamboom" (e, daí, foram regredindo até aos espessos vómitos mitológicos de Jim Morrison), tal como, hoje, é praticado universalmente e, em particular, no território luso. Tomemos como exemplos apropriadamente recentes os Pontos Negros e os Feromona: onde uns dizem “o meu aspecto seria muito mais prazenteiro se o Variações fosse o meu barbeiro”, os outros respondem “fintei por vezes o destino que era doce, olhei o umbigo e imaginei algo que fosse uma grandeza p’ra mim feita por medida”; os Pontos versejam “Eu ando em caminhos de ferro, eu ando em caminhos de ferro, que bonito, que bonito é não ter de parar” e os Feromona replicam “aprendo com o aroma da extinção de cada exemplar banal que a vida sem maldade é vulgar e sempre igual”. Poderia haver dúvidas acerca de quem assinou “recordo os tempos em que troçavas de mim, por deixar de ouvir os Megadeath, os Sepultura e outros assim” (foram os Feromona) mas é inegável que os Pontos awopbopaloopam bem mais intensamente o que, por uma questão de congruência de forma e conteúdo – isto é: o que dizer por cima dos mesmos eternos três acordes? –, obriga a atribuir-lhes um lugar superior no ranking-Little Richard. Já, por mais do que uma razão, na escala-Jorge Palma (descendente literariamente escanhoada do acima referido Morrison), os Feromona se sairiam bastante melhor. Por outras palavras: neste registo de revivalismo dos valores primordiais do culto do rock’n’roll, é quase sempre mais vantajosa a adesão ao rito de Santo Rotten em detrimento daquele outro, posterior, oriundo das comunidades heréticas de Seattle.

(2010)

13 August 2010

TEEN SPIRIT



Os Pontos Negros - Pequeno Almoço Continental

Eles dizem “Não sei ler escalas em clave de sol, e muito menos em clave de fá, para Mozart, Chopin e Ravel, sou um mal agradecido do pior que há” e não poderia existir melhor cartão de visita: de um só golpe, inscrevem-se, instantaneamente, na grande tradição de uma outra música clássica, a iniciada por Elvis Presley que também, muito descontraidamente, declarava “Não sei ler música, no meu ramo de actividade não é necessário”. E os Pontos Negros parecem ser a mais recente confirmação da tese: de obscura banda de garagem chocada no viveiro das catacumbas da Igreja Baptista de Queluz e dada à costa na grande maré FlorCaveira/Amor Fúria de 2008, rapidamente saltou para a arena do circo das multinacionais, desesperadas por entrever um oásis no meio do infindável deserto de uma crise que, para elas, chegou muito antes da crise-propriamente-dita, tal como uns valentes milhões de desempregados a conhecem.



E irão os moços dar uma enorme alegria – regional, portuguesa, portanto, não tão enorme assim, mas quem dá o que tem… – a Doug Morris, o CEO do Universal Music Group? Não é impossível. Pelo menos, desde o anterior Magnífico Material Inútil, é obrigatório reparar que, se o “teen spirit” permanece integralmente presente, aquele lado mais desagradável das borbulhas do acne parece definitivamente resolvido. Nem tudo é perfeito mas há condimentos simpaticamente vampireweekendianos enxertados na matriz panque (mantenhamo-nos fiéis à terminologia das origens), um bem apreciável e inteligente domínio da dinâmica da besta pop/rock e, particularmente, em "Se O Variações Fosse O Meu Barbeiro" – todo um programa, como se imagina –, uma assaz promissora derrapagem para a electricidade descontroladamente em roda-livre que não lhes fica nada mal. A seguir com muita, muita atenção.

(2010)

24 May 2010

MELHOR DO QUE QUALQUER SARAMAGO COMUM



Tiago Guillul - V

Indo direito ao assunto e para acabar de vez com as indefinições: o que pode um agnóstico/ateu (ou, noutro plano algo diferente, um católico vulgar de Lineu) retirar do “panque roque” criado e gravado por um pastor evangélico baptista que não só não esconde a sua condição como a expõe abertamente nas canções? Tiago Guillul digere mal este tipo de generalização mas, ainda assim, é indispensável dizer que o que ele e restante trupe FlorCaveira – que nem sequer é, confessionalmente, homogénea – produzem não possui o mínimo ponto de contacto estético com aquilo que é, habitualmente, conhecido como “rock cristão” ou com o kit-pronto-a-usar do pseudo-gospel de IURDs, Manás e afins.



A minha (só minha) resposta exige um prévio "disclaimer": na escala-Richard Dawkins (de 1 a 7) de “probabilidade teísta”, situo-me, tal como Dawkins, no 6-a-escorregar-para-o-7, isto é, ateu de facto“não posso ter a certeza absoluta mas acho Deus muito improvável e vivo assumindo que não existe”. Arrumada a questão, há que reconhecer que, como bom protestante exegeta da Bíblia – essa fantástica compilação de histórias de violência, ódio, paixão, vingança, mistério, acção, fantasia, aventura, ficção científica e pornografia –, Tiago dá-lhe muito melhor uso do que qualquer Saramago comum.



E se, aqui e ali, o pé lhe foge demais para a homilia ("Nem Um Só Cabelo Será Perdido") ou se agarra a metáforas um tanto herméticas ("Roma E Avinhão"), com tão boa matéria-prima seria difícil falhar. E ele não falha: o caldo de cultura poderá ser oitentista mas há também suficiente África, ferrugem e impurezas várias surripiadas, para dar origem a óptimas canções – e escutá-las desprovido de fé só lhes acrescenta um picante suplementar – prontas a receber o testemunho da melhor época dos GNR (Reininho assina o ponto), Pop Dell’Arte e Variações e oferecer-lhe uma sequência inteiramente à altura.

(2010)