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16 February 2026

A propósito de "Pauliteiros e Caretos"

  Beltane Border Morris Dancers (Gales)


Pauliteiros de Miranda 

"A insólita visão de um grupo de homens maduros, de saia bordada, xaile aos ombros e chapelinho de fita, a dançarem à roda e aos pulinhos enquanto batem pauzinhos uns nos outros, com o cuidado de não se magoarem, não deixa ninguém indiferente. Foi o que pensou António Ferro quando iniciou com os Pauliteiros de Miranda o processo de reinvenção do folclore português. Para compor melhor a imagem, os oito bailadores vestem camisa de linho e colete pardo e calçam botas de cabedal. Nestes preparos apresentam-se no Royal Albert Hall de Londres, pela sua mão, logo em 1934, com o sucesso que se adivinha. Dir-se-á que homens de saia não é coisa totalmente nova, que já os gladiadores romanos, os tradicionalistas escoceses e os samurais do Japão as usavam. O certo, porém, é que nunca em Portugal, no passado recente ou remoto, se tinham visto homens assim vestidos, e a falsificação foi feita com a ajuda dos etnógrafos e folcloristas contratados por Ferro para o SPN. (daqui)  

"O espetáculo, no Théatre des Ambassadeurs, foi ainda complementado por uma demonstração de danças mirandesas por um grupo de pauliteiros, que, embora apresentados como mirandeses, eram de facto operários portugueses emigrados em Paris, que Ferro, com o auxílio da Casa de Portugal, organizou, vestiu e coreografou" (daqui)

"Na esteira das Marchas populares, também os Pauliteiros de Miranda (um conjunto de oito homens vestidos de saia, camisa de linho, colete, xaile e botas, que dançam em roda enquanto batem paus ao som de gaitas de foles, tambores e castanholas) apresentados pela primeira vez em Londres, em 1934, na Semana Cultural Portuguesa, são exemplo de uma reinvenção do folclore português. De acordo com Orlando Raimundo esta dança, com homens assim trajados, possivelmente originária da Irlanda medieval, nunca antes se tinha visto em Portugal, sendo esta falsificação efetuada com o auxílio dos etnógrafos e folcloristas do Estado Novo"  (ver aqui: file:///C:/Users/HP/Downloads/content-2.pdf)

Ver aqui e aqui também

07 November 2016

Chocado por António Ferro para o Estado Novo e engordado pela grande industrial do kitsch (e Grande Prémio "O.B. - Artes"/2013 do Provas de Contacto), para este ou qualquer outro governo que passe o cheque e não se aborreça se lhe chamarem "cocksucker"

04 February 2015

PAGÃOS 


A “Grande Exposição do Mundo Português” de 1940, realizada sete anos após a criação do Secretariado da Propaganda Nacional, de António Ferro, pretendia cumprir o programa do Estado Novo em matéria de autoglorificação imperial: “elucidar a opinião internacional sobre a nossa acção civilizadora e de modo especial sobre a acção exercida nas colónias”, organizando, ao mesmo tempo, “grandes espectáculos gratuitos para os pobres, os desempregados e todos aqueles (...) que vão perdendo a fé”. A fé poderá ter vacilado um pouco quando a simbólica Nau Portugal, réplica de um galeão do século XVII, se afundou, minutos após a partida de Aveiro, e teve de ser pilotada até Lisboa por marinheiros ingleses, mas os enormes desfiles e exposições de “etnologia”-kitsch-fascista – exibindo os indígenas de Portugal & colónias nos seus habitats, trajes e afazeres “naturais” – tiveram basto sucesso. 



No filme de Sérgio Tréfaut, Alentejo, Alentejo, logo ao início, acontece um arrepiante momento-Estado Novo, com os hipermercados Continente no papel de SPN e o respectivo Mega Pic Nic como Grande Cortejo Imperial (já só metropolitano): campinos a cavalo e corais alentejanos mostram-se, folcloricamente, às massas, enquanto o futeboleiro "speaker" de serviço afoga as ancestrais polifonias meridionais com apelos a “puxar o orgulho dos portugueses bem lá para cima” e anunciando o que, verdadeiramente, interessa – a actuação de Tony Carreira. Rodado a convite da câmara de Serpa por ocasião da candidatura do canto alentejano a Património Imaterial da Humanidade – mas uma das raras formas de expressão popular tradicional indiscutivelmente vivas precisa tanto de consagrações institucionais como o deserto do Sahara de areia... –, testemunha, então, em detalhe, o carácter de género musical comunitário simultaneamente de trabalho e convivial, ferramenta de celebração, lamento e reivindicação colectivos, coisa solenemente rude, báquica e pagã que, na verdade, só poderá sentir-se fundamentalmente desconfortável na condição de objecto para exibição e (à semelhança do outro irmão lisboeta de recente elevação ao sétimo céu da UNESCO) imagem de marca pronta para todas as manobras turístico-comerciais.

31 March 2014

A MATRIZ (II)


"Não era um facto, insistia o director do SPN, que tudo o que ali se mostrava era 'a verdadeira imagem da felicidade', da 'felicidade sem apetites e sem ambições'? Para quê ensinar então o povo 'a ser ganancioso, a querer mais, por vezes, do que precisa e deseja'? (...) O povo parecia viver contente 'a rezar, a dançar e a cantar dando lições de optimismo às cidades fatigadas, pessimistas, compreendendo como poucos, o ressurgimento português, mais ávido de bens espirituais - a Escola, a Igreja, a Família - do que materiais'. Naturalmente que a aldeia era pobre e madrasta. Mas, para António Ferro, Monsanto era 'a imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa'" (António Ferro - A Vertigem da Palavra, Margarida Acciaiuoli)

19 March 2014

 A MATRIZ (I)


"Segundo [Salazar], vínhamos 'da época dourada em que, por uma interessante ilusão de contabilidade se gastara não os rendimentos mas os capitais acumulados pela nação, capitais que foram consumidos e que tinham de ser reconstituídos'. (...) Era 'velha a pecha em Portugal de levarem os portugueses vida com que não podem, assim como não administrarem devidamente aquilo que dispõem'" (António Ferro - A Vertigem da Palavra, Margarida Acciaiuoli)