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09 November 2008

ACADEMIA DE POLÍCIA



Claro que interessa conhecer os motivos, as curvas e as contracurvas que conduziram uma aluna de violino da classe – na universidade de Boston – de um discípulo de David Oistrakh, a transformar-se em instrumentista e “songwriter” pop. Mas francamente mais intrigantes eram as razões para que Joan Wasser tivesse optado pelo “nom de plume” de Joan As Police Woman. Visivelmente esgotada por um carrossel de voos e entrevistas mas nem por isso com menos vontade de conversar, a ex-companheira de Jeff Buckley conta uma história que diz bastante acerca de si e do seu sentido de humor: “A meio dos anos 70, havia uma série policial de televisão, com a Angie Dickinson, chamada Police Woman. Passava-se em S. Francisco e ela desempenhava o papel de uma agente da polícia infiltrada. Creio que foi a primeira série do género a ter uma mulher como protagonista. Só a conheci quando passou em repetição mas cresci a ver séries policiais. Era muito 'cool'... também havia a Charlie’s Angels mas essa era demasiado 'fofinha', esta era mais como o Kojak. Quando comecei os espectáculos a solo com o meu nome verdadeiro, as pessoas supunham que iriam assistir a um concerto de violino, não sabiam que eu escrevia canções. Tive de inventar um nome para mim. Num dia em que tinha vestido qualquer coisa muito anos 70, um amigo disse-me ‘Joan, incorporaste o espírito da Angie, no Police Woman?E foi assim que me tornei Joan As Police Woman”.



O outro lado da biografia, então. Das aulas de piano, desde os seis anos, até aos dois álbuns a solo (Real Life, 2006, e To Survive, 2008), passando pelo percurso como violinista ao lado de Lou Reed, Sparklehorse, Tanya Donelly, Mary Timony, Antony e Rufus Wainwright: “Estudei violino clássico na universidade mas, ao mesmo tempo, comecei a tocar em todas as situações que ia descobrindo. Adoro a música clássica mas era, para mim, evidente que não iria fazer dela a minha vida. Queria tocar música nova e interessava-me mais tocar as peças que os professores da minha escola compunham. Quantas vezes será ainda possível tocar o concerto para violino de Brahms melhor do que já o foi? Eu não era uma criança prodígio, nunca seria capaz de o fazer”. O primeiro ensaio de autonomia estética foram bandas como os Lotus Eaters e Hot Trix mas, principalmente, os Dambuilders: “Gravei vários discos com eles e toquei por todo o lado. Não me passava pela cabeça escrever canções, o que me preocupava era descobrir uma forma de integrar o violino num contexto pop sem que soasse a falso”.



Alto! O que significa realmente isso de “integrar o violino num contexto pop sem soar a falso”? Será o retorno à escola de pensamento John Cale? “Isso mesmo. Procuro encaixar-me entre a guitarra e o baixo e tocar muito mais ritmicamente do que melodicamente. E também uso muito os pedais de distorção, delay, fuzz... No meu primeiro álbum, em “Christobel”, muita gente me veio dizer que adorava o solo de guitarra… na verdade, era o meu violino. Comecei por tocar um violino de cinco cordas que incluía o dó grave da viola de arco, gosto dos registos graves. Uma das piores formas de fazer sobressair o violino é abusar dos agudos”. Antes de prosseguir com a narrativa autobiográfica – e Joan recita-a, ordenada e cronologicamente arrumada, numa impecável “timeline” –, parece oportuno perguntar-lhe se sente alguma particular afinidade com outras recentes “songwriters” e instrumentistas de formação académica desviadas para a pop, como Shara Worden (My Brightest Diamond) ou Regina Spektor: “Conheço a Shara e falei uma vez com a Regina mas, a ela, não a conheço bem. No fundo, todas estudámos música e desejamos criar algo de nosso. Os conhecimentos que temos de harmonia permitem-nos ir além daquilo que é mais habitual no idioma da pop que, em grande medida, descende dos blues. Estamos bastante habituadas a lidar com 'clusters' de acordes, com alguma complexidade harmónica. Que diabo!...ter tocado Mahler aos catorze anos há-de, inevitavelmente, ter produzido algum efeito”.



Etapa seguinte. Ponto final nos Dambuilders e a difícil transição do papel de violinista para o de compositora e cantora: “Quando a banda acabou, isso despertou-me a vontade de explorar outras vias e comecei a tocar guitarra o que, naturalmente, me estimulou a cantar, precisava de ouvir melodias. Em palco, sentia-me muito confortável com o violino mas, sempre que tinha de cantar, ficava paralisada de terror! Não estava segura da minha voz, tinha medo de a usar. Mas a minha personalidade sempre me empurrou para me atirar àquelas coisas que me assustam, desde que me aperceba que posso aprender algo com isso. Escrevi, então, as primeiras canções e pus de pé uma banda, Black Beetle – os músicos que tocavam com o Jeff Buckley – em que, tanto o Michael Tighe, o guitarrista, como eu, estávamos a aprender a escrever canções. Gravámos um disco mas nunca o publicámos. Por volta de 2000, comecei a dar concertos a solo para me obrigar a ir mais longe vocalmente, sem a bengala de uma banda. Tinha tocado com imensos músicos espantosos e poderia continuar a fazê-lo durante o resto da vida mas a decisão de pôr a minha música em primeiro lugar estava tomada”. Dois álbuns, dois EP e meia dúzia de singles mais tarde, apetece saber quais os modelos e referências (se os há... mas há sempre, mesmo quando, voluntária ou involuntariamente, ocultos) que Joan Wasser, da academia para os palcos pop, sente que poderão ter sido lançados para o caldeirão da sua escrita.



Não hesita um segundo: “No que respeita à comunicação das emoções, adoro a Nina Simone. Cantou imensas canções que não eram dela mas, de cada vez que cantava, sentia-se que ela estava toda naquele momento e era impossível não partilharmos das suas emoções. E continuo a sonhar ser capaz de escrever uma canção como as do Neil Young. Mas também gosto muito do David Bowie e da Joni Mitchell... é uma lista interminável. De momento, não tenho ouvido mais nada senão Al Green. Há tempos, também tive uma recaída de Stevie Wonder: de cada vez que o ouvimos, descobrimos coisas novas, aquele universo continua vivo!”. Mas há ainda outro universo que continua vivo. E que regressa, radiante, à superfície sempre que lhe dão uma oportunidade para isso. Como aconteceu, no programa de música clássica, “Visionaries”, da BBC World News (segundo Joan, ainda não emitido), que a convidou para derramar louvores sobre o compositor russo Shostakovich: “Sempre falei muito acerca dele em entrevistas, é uma música que me emociona imenso. É muito programática, como acontece na música para cinema. Tem um carácter muito destemido: por vezes, é brutal, outras, soturna, e noutras ainda, alegre e vibrante. Também gosto muito de Sibelius, Bartók, Ravel, Britten, Stravinsky... iria ser outra lista sem fim. Todos os grandes são sempre verdadeiramente grandes!”.

(2008)