Showing posts with label Anna Meredith. Show all posts
Showing posts with label Anna Meredith. Show all posts

09 July 2022

STAKHANOVISTAS
São em número crescente os músicos que, de um modo ou de outro, vão buscar inspiração às Quatro Estações de Antonio Vivaldi. Apenas entre os mais recentes, alinham-se Philip Glass, Piazzolla, Max Richter, Anna Meredith e Modern Nature aos quais deverão, agora, acrescentar-se The Wave Pictures, esse exemplo paradigmático de banda britânica eternamente alternativa e marginal: em cerca de duas décadas e mais de duas dezenas de álbuns, David Tattersall, Franic Rozycki e Jonny ‘Hudderfield’ Helm, construiram o tipo de discografia imaculada que, invariavelmente, é recebida pela crítica com vénias e salamaleques correspondidos por uma olímpica indiferença registada nos sismógrafos das tabelas de vendas. 


Quase tão stakhanovistas como o incansável veneziano que nos legou 500 concertos, 40 cantatas, 22 óperas, e mais de 60 peças de música sacra, os Wave Pictures recorreram, desta vez, ao formato de álbum duplo para, em When The Purple Emperor Spreads His Wings, acolher 20 canções divididas em quatro grupos de cinco, um por cada estação do ano. “Existe sempre um sentido de tempo e lugar muito forte nas canções dos Wave Pictures. Tornou-se rapidamente muito natural ir agrupando por estações as canções que ia escrevendo. Cada uma ‘tem lugar’ no contexto de cada estação. Começa no Verão e termina na Primavera, representando o ciclo da vida”, explica Tattersall que pormenoriza: “Como acontece muitas vezes, um pequeno momento no tempo é desenhado em três minutos. Na memória, um instante fugaz, um milisegundo, pode ser mais forte e intenso do que um ano inteiro”. Ávidas esponjas estéticas incapazes de enxergar incompatibilidades entre música de câmara, rock’n’roll clássico, blues norte-africanos, folk britânica, country, psicadelismo e jazz, é um imenso prazer espreitar para o enorme caldeirão onde os cozinham e aspirar os riquíssimos aromas. (daqui)

04 August 2020

ALMANAQUE DE EMOÇÕES


Quando, após 63 anos a despachar, por encomenda, 500 concertos, 40 cantatas, 22 óperas, e mais de 60 peças de música sacra, Antonio Vivaldi, em 1741, morreu como um quase indigente, ninguém se arriscaria a prever que, 200 anos mais tarde, haveria de ser celebrado enquanto autor de um dos “greatest hits” do reportório “clássico”, As Quatro Estações. A popularidade da sua música já tinha visto melhores dias e, de facto, até ao fim dos anos 20 do século passado – quando uma colecção de centenas de partituras suas foi descoberta num mosteiro perto de Turim –, caíra completamente no esquecimento. Desse momento em diante, porém, de adereço sonoro publicitário a toque de telemóvel, não haverá muito quem, mesmo ignorando tudo sobre este precursor da Tin Pan Alley com uma costela proto-punk (é favor ouvir os 3 minutos e picos da totalidade do Concerto "Alla Rustica"), não lhe tenha passado pelo menos um fragmento das Estações pelos tímpanos. 

"Harvest" (c/ Kayla Cohen)

Inevitavelmente, o impulso para as citar, parafrasear e reinventar foi fortíssimo e a ele não resistiram, ente muitos outros, os Swingle Singers, Philip Glass, Piazzolla, Max Richter ou, mais recentemente, Anna Meredith, em Anno (2018). É, agora, a vez dos Modern Nature que, após a estreia, How To Live (2019), inspirada pelo jardim de Derek Jarman em Dungeness, quase por acidente, em Annual, retomaram o modelo: ”Pelo fim de 2018, comecei a preencher um diário com palavras, observações de caminhadas, descrições de acontecimentos, associações livres... relendo-o, à medida que o ano progredia do Inverno para a Primavera, do Verão para o Outono, a tonalidade do diário parecia mudar também. Dividi o diário em quatro estações e usei-as como matriz para as quatro canções principais”, explica Jack Cooper que, com o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers) e o percussionista Jim Wallis, constitui os Modern Nature. Calendário conceptual e almanaque de emoções e memórias, é um breve ciclo de canções em filigrana, com a poética da folk, a paleta do lirismo jazz e a respiração de um minimalismo pastoral.

31 December 2019

MONTANHA RUSSA 


“Não sou o género de compositora que goste de se entregar a grandes temas. Parecem-me opressivos. Prefiro descobrir ideias mais modestas, conduzi-las ao limite, empurrar-lhes as fronteiras”, confessou Anna Meredith ao “Guardian”, quando, no ano passado, por ocasião do centenário do fim da I Guerra Mundial, aceitou a missão de, para a abertura dos BBC Proms, compor Five Telegrams, uma poderosa peça coral-sinfónica inspirada nas diversas modalidades de correspondência entre os soldados na frente de batalha e as famílias, e acrescentava: “A combinação de música e política é uma questão que cabe a cada um resolver individualmente. Há quem seja capaz de abordar certos temas naturalmente – o racismo ou o feminismo, por exemplo –, mas, apesar de ser feminista, isso nunca poderia nortear aquilo que escrevo. Se me convidassem para escrever uma peça sobre o Serviço Nacional de Saúde, apoiaria a causa e os seus princípios mas não imagino como conseguiria trabalhar musicalmente essa ideia. Dito isto, pensava o mesmo acerca da I Guerra Mundial – a minha primeira reacção ao convite foi entrar em pânico – mas, estando sempre tão pronta para responder a um desafio como para engolir as minhas próprias palavras, acabei por escrever uma obra sobre ela...”



A puríssima verdade é que Meredith é mais do que capaz de escrever acerca de seja o que for. Há três anos, no momento em que a graduada pela York University e pelo Royal College of Music e ex-compositora residente da BBC Scottish Symphony Orchestra irrompeu no universo pop com o vertiginoso Varmints, ficámos a saber que tanto se deixava tentar pelas atmosferas sonoras das ressonâncias magnéticas como não era impossível convencê-la a escrever para estações de serviço de auto-estrada, bancos de jardim de Hong Kong, campanhas da Chloé ou da Prada e elevadores da M&S. Desde então, atirou-se à música para cinema e televisão, às Quatro Estações, de Vivaldi, a Five Telegrams, e, agora, a uma segunda investida pop, a solo, FIBS. A declaração de intenções é consideravelmente bernsteiniana (“Esta música não é sobre política, poesia, arte ou o mundo. É um veículo para si mesma, trabalhando para e ao serviço de si mesma) e, neste glorioso “genre-free space”, coabitam e indistinguem-se electronica, clássica, techno, math-rock, e pop, numa trepidante montanha russa ferreamente (des)controlada de onde, em garrido Technicolour, vai sendo inncessantemente projectado um fogo de artifício de formas e cores improváveis.

18 December 2019

(BBC Symphony Orchestra & Proms Youth Ensemble, dir. Sakari Oramo)

11 September 2018

ANTES ASSIM


Há três anos, a propósito da publicação de Contrepoint, de Nicolas Godin (metade dos Air), no qual este se dedicava a fazer definhar a complexa geometria sonora de Bach vertida em suave musiquinha de elevador, pareceu-me justo evocar a extensa – mas não exaustiva – lista de vítimas implacavelmente espezinhadas pela pesada bota do chamado rock-sinfónico-progressivo. Recorde-se apenas que, perante os tribunais de uma Nuremberga musical, como principais réus, haveriam de comparecer, inevitavelmente (entre muitos outros), The Nice/Emerson, Lake & Palmer, responsáveis pelo martírio de Leonard Bernstein, Copland, Sibelius, Janáček, Ravel, Prokofiev, Bach, Tchaikovsky, Ginastera, Bartók e Mussorgsky. Nenhum desses supliciadores se furtará, entretanto, a ficar para a história senão na qualidade de membros de uma “agremiação de modestos calceteiros sonhando com a arquitectura de catedrais” (que, então, julguei oportuno criar).



Anna Meredith seguiu um percurso inverso: com "pedigree" académico da York University e do Royal College of Music, de Londres, foi compositora residente da BBC Scottish Symphony Orchestra e da Sinfonia Viva, de Derby. Mas não tardou que se atrevesse a compor concertos para "beatboxer" e orquestra ou inspirados no universo sonoro das Ressonâncias Magnéticas, para estações de serviço britânicas e jardins de Hong Kong, e, incorporando tudo isso e o apetite pela electrónica, a publicar Varmints (2016), exuberante fuga através de um labirinto de música de câmara, pop, techno e um pouco de tudo à volta. Não deveremos querer-lhe mal – muito pelo contrário – por, colocada perante a possibilidade de, com o Scottish Ensemble, recriar As Quatro Estações, de Vivaldi, ter reagido qual gato assanhado: “Senti-me como se me tivessem proposto que trabalhasse sobre o logotipo do McDonald's!... Não há peça musical mais conhecida do que essa. Respondi que não o faria, nem sequer lhe tocaria com a ponta dos dedos”. Persuasivamente, Jonathan Morton, do Ensemble, fá-la-ia mudar de ideias: o velho cavalo de batalha barroco seria convenientemente retalhado e reconstituído, as parcelas sobreviventes reconfiguradas e articuladas por novo tecido conjuntivo electro-acústico e, sem conflito histórico-estilístico demasiado escandaloso, ressuscitado para o século XXI – sob a designação de Anno – com o apoio (ao vivo) das imagens da irmã de Anna, Eleanor Meredith. Não era indispensável. Mas, a ter de ser, antes assim.

27 December 2016

MÚSICA 2016 - INTERNACIONAL (IV)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 26)











* a ordem é razoavelmente arbitrária...

A atmosfera geral – de Cohen a PJ Harvey, Burroughs, Darren Hayman, Shirley Collins, Paul Simon, Christy Moore – não foi propriamente festiva. Há anos assim. Mas alguns, como este, na música e no resto, carregam claramente nas tintas. Do francamente sepulcral à nostalgia dorida, ao delírio assombrado ou à denúncia política, a paleta raramente recorre às cores primárias. O que, seria facilmente acentuado se, dilatando a lista dos dez primeiros, incluíssemos Blackstar, de David Bowie, Lover, Beloved: Songs From An Evening With Carson McCullers, de Suzanne Vega, Skeleton Tree, de Nick Cave, ou You Can't Go Back If There's Nothing to Go Back To, dos Richmond Fontaine. Fiquemos, pois, gratos à vibrante experimentação electro-acústica de Anna Meredith, ao suave neo-classicismo de Meilyr Jones (e, noutro registo, Bob Dylan) ou à iconoclastia de Luke Haines e Neil Hannon, por terem permitido que um pouco de luz penetrasse.

12 September 2016

Anna Meredith - "Yellow" 
(cello: Zoe Martlew - London Sinfonietta)

08 September 2016

02 September 2016

Anna Meredith - "HandsFree" 
(National Youth Orchestra)

01 September 2016